segunda-feira, 8 de setembro de 2025

MORTE DA ÁRVORE - FILEMON MARTINS

 




       MORTE DA ÁRVORE

                Filemon Martins


(Lendo o soneto ÁRVORE MORTA, de Padre Saturnino de Freitas)



Árvore triste, que ontem foi bonita,

não tens mais ramos, frutos e nem flores,

dos pássaros não és mais favorita

e não abrigas mais tantos amores.


Neste teu tronco já ninguém habita,

sequer amantes loucos, sonhadores,

que outrora segredavam na Mesquita

de suas folhas vivas, multicores...


Quantas vezes ouviste namorados

em carinhos e beijos, descuidados,

como se o tempo não fosse passar.


Hoje, teus galhos secos, ressequidos,

são lembranças de sonhos esquecidos,

que nunca mais, na vida, vão voltar!


TROVAS DIVERSAS

 




        TROVAS



Não peço o céu numa prece,

nem temo o inferno, querida,

pois quem te amou já conhece

inferno e céu nesta vida...

        Orlando Brito


Não dês tanto desapreço

a quem tanto te quer bem!...

- Este amor que te ofereço

eu nunca dei a ninguém!

        Barreto Coutinho


Naquele dia, tristonho,

pousaste os olhos nos meus:

- vivi na tarde do sonho,

morri na noite do adeus!

        Maria Thereza Cavalheiro


Trago, cravado, no peito

um agridoce desejo:

viver um sonho perfeito

na doçura do teu beijo.

        Filemon Martins


TROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA

 




       TROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA



Pode ter gente sorrindo,

tentando ser atração,

mas, não pode ser tão lindo

qual este nosso Sertão.


Sejam rosas meu queixume

para meu povo sorrir,

minha alma dará perfume,

onde meu livro se abrir.


Por que não existe apoio

para os nossos escritores?

Mais valor darão ao joio

do que ao trigo, senhores?


Senhor dos montes e vales,

de toda vida, Senhor,

como combater os males,

senão na força do amor?!


(Do livro “PINGOS DE MIM”)

MAL SECRETO - RAIMUNDO CORREIA

 



MAL SECRETO
           RAIMUNDO CORREIA

Se a cólera que espuma, a dor que mora
n'alma, e destrói cada ilusão que nasce;
tudo o que punge, tudo o que devora
o coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
ver através da máscara da face,
quanta gente, talvez, que inveja agora
nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez consigo
guarda um atroz, recôndito inimigo,
como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
cuja ventura única consiste
em parecer aos outros venturosa!

TROVAS DE DIVERSOS AUTORES

 





          TROVAS


Contraste se manifesta
a razão seja qual for:
- nem sempre o riso é de festa,
- nem sempre o pranto é de dor.
       SEBAS SUNFELD

Quando se foi meu amor,
fez-se o mundo tão escuro,
que, perdido em minha dor,
hoje ainda me procuro.
       FERNANDES VIANNA

A distância é que nos mata
porque vem logo a saudade;
saudade – presença ingrata
de antiga felicidade.
       FILEMON MARTINS

O meu destino se encerra
num grave e eterno conflito:
- meu corpo é feito de terra,
- meu coração, de infinito.
       ENO T. WANKE


(Do livro “ESCRÍNIO”, SELEÇÃO ANUAL DE TROVAS, 1981, FERNANDES VIANNA)














domingo, 7 de setembro de 2025

A DECISÃO DO CORONEL FACUNDO - SAUL RIBEIRO DOS SANTOS

 

A DECISÃO DO CORONEL FACUNDO




  

O CORONELISMO, desde a sua criação, foi durante muitos anos subordinada à Guarda Nacional. Foi extinto pelo presidente Getúlio Vargas, após 1930, no início do período chamado República Nova. Na região da Chapada Diamantina, no Estado da Bahia, era grande o número pessoas importantes com a patente de coronel.

 

Queremos aqui apresentar um coronel que não provocava nem participava de contendas. Era um coronel que gostava da paz. Eis o seu nome: coronel Facundo José da Cruz Cunha, nascido em 1856. Era um fazendeiro próspero que tinha a sua fazenda na Salina, local bem perto de Jordão (hoje o nome da cidade é Ipupiara).

A decisão tomada pelo coronel foi importante e evolvente. Ele resolveu de forma pacífica e inteligente uma contenda, evitando assim uma grande tragédia. A história me foi contada por seu filho, o Sr. João da Cruz Cunha, que nasceu em 1917 e morou em Ipupiara até os últimos dias de vida, tendo falecido em 23/01/2022. Aos 92 anos de idade João da Cruz andava pedalando uma bicicleta pelas ruas de Ipupiara.

Vamos aos fatos.  Em janeiro de 2015, no final de uma tarde eu e mais três amigos estávamos conversando no armazém do Sr. Argileu, esposo da Sra. Elzi. A nossa conversa girava sobre casos passados. Não demorou muito e entrou o Sr. João da Cruz Cunha. A partir daquele momento passamos a ouvir as palavras desse homem, filho do coronel Facundo.  Eis o que ouvimos:

Nas proximidades da fazenda do meu pai, na Salina, existiam, como existem ainda hoje, dois pequenos povoados denominados Silvério e Gregório. Ambos ficam distante de Ipupiara (antigo Jordão)16 km. O Sr. Gregório, chefe do povoado com o nome Gregório não mantinha boas relações com o Sr. Silvério, fazendeiro - chefe do povoado Silvério. Eram rixas antigas. Certo dia o Sr. Gregório matou um bezerro do rebanho do Sr. Silvério e enterrou o corpo do pequeno animal perto da sua própria casa. Alegou que o bezerro estava entrando na sua roça. Todo dia a vaca mãe do bezerro ia berrar na frente da casa do Sr. Gregório, como se estivesse fazendo uma denúncia.

O fazendeiro Silvério sentiu falta do bezerro e percebeu que foi o Gregório, seu inimigo, quem deu sumiço no animal. Não gostou, achou que foi um desaforo e prometeu que ia matar o Gregório na primeira oportunidade, quando esse passasse na 2a. feira em frente da sua casa indo para a feira do Jordão (atual Ipupiara). Municiou e armou a carabina (clavinote) com chumbo grosso, colocando-a numa posição estratégica num canto da sala, com a intenção de matar o rival.

O meu pai (o coronel Facundo) soube da intriga e da intenção do fazendeiro - chefe do povoado Silvério. Então meu pai tomou as providências para evitar o mal maior. Deu ordem ao seu empregado para colocar os arreios em dois cavalos quando o dia começasse a clarear. O empregado fez exatamente como meu pai mandou e os dois seguiram para o povoado Silvério. O coronel foi montado num bonito cavalo de pelo branco e o cavalo do empregado tinha o pelo avermelhado. Chegaram lá antes do nascer do sol.

Bom dia, compadre Silvério.

Bom dia, coronel. É um prazer ter você aqui bem cedo, pode descer e entrar. Vamos tomar café (antigamente diziam: vamos quebrar o jejum).

O coronel e o empregado desceram da montaria e entraram. As trabalhadoras da cozinha trouxeram café com leite, mandioca cozida cuscuz, beiju, carne assada e outros alimentos. Estavam todos à mesa comendo e o coronel viu que a carabina estava no canto da sala.

A cada gole de café com leite o coronel olhava para a arma e para o Sr. Silvério. Conversa vai, conversa vem e o coronel foi direto ao assunto, dizendo: “compadre Silvério, você não vai fazer o que está pensando¨. A paz, disse (o coronel), é o melhor patrimônio. Você pode ir lá até a minha fazenda e pegar o melhor bezerro para ficar no lugar daquele que o Gregório matou. Ele vai lhe pedir desculpas. O Sr. Silvério era um homem sensato e aceitou a proposta.

Terminaram de tomar o café e o coronel foi logo dizendo: agora vamos todos lá para a casa do Gregório. Vamos tomar café com ele também. Certamente ele vai entender e reconhecer o erro que cometeu. Ele vai lhe pedir desculpas. Assim desse modo vamos manter a paz em nossa terra.

Foi exatamente o que aconteceu, do jeito como o coronel planejou e combinou. A diplomacia utilizada pelo coronel Facundo José da Cunha para resolver a questão foi uma estratégia e uma decisão sábia. Ele conseguiu expulsar a discórdia e restabelecer a paz. Naquela ocasião, se não fosse a intermediação do coronel Facundo, o desenrolar do caso teria se complicado, causando a morte de muitas pessoas. Portanto a decisão do coronel foi eficaz para promover a paz.

Para finalizar é importante dizer que a Bíblia Sagrada orienta a todos no sentido de buscar a paz. E assim está escrito no livro dos Salmos: “Aparta-te do mal e faze o bem; procura a paz e segue-a (Salmo nº 34 e verso 14).

 


Saul Ribeiro dos Santos

Cont. e economista aposentado

Natural de Ipupiara – BA.

saul.ribeiro1945@gmail.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


OS POLÍTICOS E SEUS DISCURSOS - FILEMON MARTINS


 


OS POLÍTICOS E SEUS DISCURSOS

Filemon Martins



Há mais de cinquenta e cinco anos, em minha cidade natal, Ipupiara, Bahia, adolescente ainda, ouvia os mais variados discursos de políticos do Estado da Bahia. Lembro-me de que, em certa ocasião um candidato a deputado estadual, dirigindo-se à população da pequena cidade baiana, afirmou em seu discurso de campanha: “Se eu for eleito, Ipupiara não terá mais problemas, vamos construir estradas para todas as cidades vizinhas, ligando Ipupiara a Salvador”.
E prosseguiu: “Teremos água encanada e tratada, a energia elétrica virá iluminar os lares desta cidade trazendo desenvolvimento para o comércio e a população. A educação será um primor, nenhuma criança ficará fora da escola, hospitais serão construídos, de tal maneira que a saúde do cidadão será prioridade, enfim farei desta cidade um brinco”. E a multidão o aplaudia.
Quatro anos se passaram e o parlamentar eleito sequer lembrou daqueles eleitores ingênuos que caíram no conto do deputado. A cidade continuou sem estradas, sem saúde, sem educação, sem luz e sem água. E nova eleição chegou e lá vem outro candidato da capital, que conhecendo a história do seu colega, sapecou: “Povo de Ipupiara, vocês ainda não me conhecem, mas se eu for eleito, tudo será diferente. Quero assegurar a todos vocês que não sou homem de promessas, não prometo como muitos já o fizeram, sou homem de realizações”. E outra vez a multidão o aplaudiu.
O município de Ipupiara “está situado na CHAPADA DIAMANTINA MERIDIONAL que tem, atualmente, trinta e um municípios”, conforme o livro “CORONELISMO NO ANTIGO FUNDÃO DE BROTAS” do escritor Mário Ribeiro Martins.
A propósito, até hoje, 2025, a estrada entre Ipupiara e Barra do Mendes, nunca saiu do papel. Existe, sim, a antiga estrada de barro e em alguns trechos, cascalho. Quando vem a chuva, vai tudo embora, ficam só os buracos.
É verdade que hoje (2025) temos água encanada, apesar de escassa, educação e saúde razoável, energia elétrica etc. As estradas existentes não só no município de Ipupiara, mas em todo o Estado da Bahia, não estão em boas condições.
Ipupiara faz fronteira com os municípios de Gentio do Ouro (55km), Brotas de Macaúbas (30km), Barra do Mendes (60km) e Morpará (80km) e está a 624km de Salvador.
Pois bem, desde aquela época dos discursos e das promessas, continuam no papel as estradas prometidas. Ipupiara necessita urgentemente do prolongamento da BA-156 até Gentio do Ouro, ligando à cidade de Xique-Xique cuja estrada já está asfaltada. Ipupiara a Barra do Mendes e por consequência à região de Irecê. Ipupiara a Morpará, ligando a região com o rio São Francisco e finalmente, Ipupiara a Brotas de Macaúbas, que conta com a BA-156 e dá acesso a BR-242, que corta a CHAPADA DIAMANTINA.
Quero crer que o asfalto usado na BR-242 não é de boa qualidade, ou falta manutenção, ou o tráfego é muito pesado danificando rapidamente o asfalto. 
A BR-242 é uma rodovia importante que liga Salvador a Brasília, passando por cidades como Barreiras, Ibotirama, Seabra, Lençóis e Itaberaba na Bahia, entre outras. 
Resumindo: cinquenta e cinco anos se passaram e os discursos dos políticos continuam iguais e nós continuamos a aplaudir a oratória desses demagogos de plantão, que nada desviaram, nada fizeram, nada sabiam e não tomaram conhecimento de nada. É bom recordar que o PT administra a Bahia desde 2007. Acorda, Brasil!

VISITA À PERUIBE - FILEMON MARTINS

 




VISITA Á PERUIBE

Filemon Martins



Dia 11 de abril de 2013, eu e minha esposa Celene Jinkings, fomos visitar a cidade de Peruíbe, nossa vizinha aqui em Itanhaém, distante apenas 29 ou 30 km. Passamos pelo centro comercial e aproveitei para visitar a Biblioteca Municipal Manoel Castan, onde deixei meus livros "ANSEIOS DO CORAÇÃO" (Poemas-2011-Scortecci Editora) e "FAGULHAS" (Miscelânea de textos-2013-Scortecci Editora).

Estávamos acompanhados por Dona Olga Azevedo, tia da Celene e moradora em São Paulo. Assim, fomos à praia e descansamos um pouco, observando e vendo a beleza do mar, a beleza da orla.

Visto e revisto, voltamos ao centro comercial, onde almoçamos tranquilos, acompanhados por um suco de laranja delicioso. Após breve descanso, retornamos à Itanhaém.


QUEM FOI SANTA DICA? - MÁRIO RIBEIRO MARTINS

 



QUEM FOI SANTA DICA?

Mário Ribeiro Martins*



SANTA DICA (BENEDICTA CIPRIANO GOMES), de Lagolândia, Município de Pirenópolis, Goiás, 13.04.1906. Era a filha mais velha de um grupo de oito irmãos. Quando tinha 3 (três) anos de idade, começou a ter visões.
Com 16 anos, sofreu um ataque de catalepsia, sendo dada como morta. Na hora do tradicional “banho do defunto”, as mulheres verificaram que ela estava suando. Mas, para os presentes e para o povo da época, ela ressuscitou. Sua fama se espalhou pelo Brasil e as pessoas começaram a procurá-la em Lagolândia. Chegou a pousar para a pintora Tarsila do Amaral, bem como foi inspiração para o poeta Jorge de Lima.
Iniciou-se um movimento messiânico, mal visto pela Igreja e pelas autoridades. Quando tinha 19 (dezenove) anos de idade, em 14.10.1925, a Força Pública de Goiás cercou o povoado de Lagolândia e expulsou seus seguidores à bala. Santa Dica foi presa e banida.
Casou-se com o jornalista Mário Mendes que tinha vindo do Rio de Janeiro fazer a cobertura do movimento e com ele passou a percorrer diferentes regiões do Brasil, onde era recebida com muita admiração.
Em 1927, já com 21 anos, voltou para Goiás, onde aglutinou seus seguidores e permaneceu até a morte. Teve vários filhos, entre os quais, Quitéria Maria Mendes de Macedo, filha mais velha, com 77 anos de idade (2005). Seu esposo Mario Mendes terminou sendo Prefeito de Pirenópolis, no interior goiano, em duas ocasiões.
Sobre ela, já se produziram dezenas de livros e filmes, destacando-se: “SANTA DICA: ENCANTAMENTO DO MUNDO OU COISA DO POVO”, de Lauro Vasconcellos, “SETE LÉGUAS DE PARAISO”, de Antônio José de Moura, “REPÚBLICA DOS ANJOS” (Filme), de Carlos Del Pino, “SANGUE NAS ASAS DA GARÇA” (Teatro), Jesus Barros Boquady, “SANTA DICA - DE GUERRA E FÉ” (Documentário), de Márcio Venício Nunes.
Faleceu com a doença de chagas, com 64 anos de idade, em Lagolândia, interior goiano, em 1970, conforme a lápide de seu túmulo, que é hoje visitado por centenas de pessoas.
É verbete do DICIONÁRIO BIOBIBLIOGRÁFICO REGIONAL DO BRASIL, de Mário Ribeiro Martins, via INTERNET, dentro de ENSAIO, no site www.usinadeletras.com.br 




*Mário Ribeiro Martins
era escritor e Procurador de Justiça.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

ALFABETIZAÇÃO E LITERATURA NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO - MÁRIO RIBEIRO MARTINS

 






ALFABETIZAÇÃO E LITERATURA
NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO.


Mário Ribeiro Martins*


(REPRODUÇÃO PERMITIDA, DESDE QUE CITADOS ESTE AUTOR E O TÍTULO, ALÉM DA FONTE).



A educação permanente oferece hoje, sem dúvida, o marco no qual vai fundamentar-se a grande batalha da educação contemporânea, tanto a nível de reflexão científico - pedagógica quanto no nível da realização prática. Do ponto de vista da reflexão científico - pedagógica, a educação permanente está produzindo já - em todo o mundo um profundo movimento de reforma dos sistemas e meios educativos, assim como das estruturas que fazem possíveis.
Da perspectiva da realização prática, a educação permanente tem sido definida como Educação sem fronteiras, sem limitações, capaz e responsável, sua vez, de aglutinar qualquer contribuição que no mundo da família, do trabalho incida no melhoramento da pessoa, possibilitando uma vida mais humana numa sociedade mais justa. Mas uma educação durante toda a vida, para todos os homens e referente a todas as facetas do ser humano, isto é, educação integral.
Como concepção e estabelecimento, a educação permanente não é algo acrescentado à escolaridade, principalmente a obrigatória, em qualquer de seus níveis, senão que deve apresentar-se como princípio organizador de toda a educação.
Sem dúvida, é precisamente ao terminar a escolaridade obrigatória, quando começa realmente e adquire seu sentido estrito a educação permanente. O sistema educativo deve assegurar a unidade do processo da educação e facilitar a continuidade do mesmo ao longo da vida do homem, para satisfazer as exigências da educação permanente que requer a sociedade moderna.
Ainda que todo o sistema esteja estruturado na ordem da educação permanente como princípio organizador de toda a educação, é preciso distinguir entre o período normalizado de idades da estrutura educativa e, dentro do mesmo, o período de escolaridade obrigatória e o resto da vida das pessoas como período com permanentes possibilidades de educação.
Neste aspecto, afeta a mais de 60% da população de qualquer país e ao longo de dois terços da vida humana. A educação permanente, como realização prática, pode traçar-se a partir de várias posições.
Podem, por exemplo, seguir estudos equivalentes a quaisquer dos níveis educativos aqueles que, por qualquer razão, não puderam cursá-los oportunamente e, por conseguinte, têm ultrapassado as idades normais. Tem papel preponderante aí, como fator de incentivo, a literatura de modo geral.
Trata-se, portanto, de incorporar ao sistema educativo ou alcançar níveis equivalentes adquirindo os títulos acadêmicos e profissionais correspondentes, precisamente a todos os que não puderam em seu momento devido levá-los a cabo.
A divisão do sistema educativo adquire particular sentido porque, em grande medida hoje, se orienta o cultivo de pessoas que carecem dos mínimos padrões culturais desejáveis, isto é, satisfazendo as necessidades de uma educação básica, cujos objetivos essenciais poderiam sintetizar-se na possessão dos conhecimentos básicos das diversas áreas que o permitam conhecer e interpretar.
No domínio de técnicas instrumentais e desenvolvimento de hábitos de trabalho intelectual que possibilitam uma continuada auto aprendizagem; na aquisição da capacidade e hábito de autoavaliar o próprio processo educativo, como meio de continuar seu aperfeiçoamento de forma permanente estimando este processo como um dever diante de si e diante da sociedade, como caminho para lograr a autoestima e a estima dos demais.
Na valorização da dignidade pessoal e consolidação dos critérios e atitudes que conduzam uma hierarquização de valores, para dar um sentido superior a sua vida e satisfação, plenitude e alegria a sua existência.
O aperfeiçoamento, a promoção, a atualização e a readaptação profissional são também possíveis. Neste vertente profissional, a educação permanente trata de conseguir, a qualquer nível, a adaptação e ajuste do homem a sua profissão como modo de inserção social, forma de protagonizar sua existência e meio digno de obter o sustento para si e os seus.
Trata-se da constante colocação de objetivos no âmbito profissional, mediante a informação atualizada de tecnologias e métodos de trabalho, assim como a adequada assimilação dos avanços tecnológicos que facilitem, em seu caso, as trocas de emprego ou a readaptação profissional.
A promoção e a extensão cultural, a qualquer idade e em todo momento, são perfeitamente possíveis. O objetivo da educação permanente é conseguir a assimilação da cultura de nosso tempo, de sorte que possibilite a criação e o desenvolvimento de seus próprios recursos de vida, o gosto estético e uma explicação e compreensão racional do mundo atual.
Uma constante sensibilização que permite entender e interpretar pessoalmente os acontecimentos de nosso tempo e racionalizar as opções e atitudes das pessoas. Na verdade, tudo isso só é possível, se houver, de um lado, a alfabetização como infraestrutura, e do outro, uma visão da vida, do homem e do mundo, pelo contato constante com a literatura, como instrumento de alargamento dos horizontes.
A assimilação e compreensão favorecem o conhecimento de si mesmo e o desenvolvimento da natureza pessoal baseada numa segurança emocional, sentido da eficácia, prestígio, autoaceitação e em consequência, boa saúde mental, em qualquer idade da vida.
Todos estes aspectos têm de ser encaminhados na preparação para um comportamento convivencial e comunitário de integração e participação no que "fazer social" baseado no uso da liberdade humana.
Conseguir isto supõe a obtenção de uma atitude responsável e renovadora, de participação ativa na vida comunitária. O desenvolvimento do sentido de pertencer à comunidade local, nacional e internacional fomentando o espírito de convivência, solidariedade, compreensão e cooperação; revisão de opiniões, atitudes, prejuízos, feitos ou situações que falseiem ou tergiversem a ação conjunta social fazendo surgir formas e opções em função das classes, religião, raça, profissão etc.
Todos estes objetivos da educação permanente de adultos devem estar presentes para a obtenção da situação educativa em que o adulto se desenvolve e que são as seguintes: o caráter totalmente voluntário, livre, de pleno assentimento pessoal aos objetivos, conteúdos e técnicas de trabalho em que o processo educativo se desenvolve; as carências educativas, devidas, tanto ao rápido avanço científico e tecnológico quanto à crescente distância que, entre gerações, vão estabelecendo às modernas e profundas reformas educativas; sua condição de ser já comprometido por suas experiências que orientam de algum modo seu comportamento, frente à condição de ser disponível própria do indivíduo.
Os programas educativos, os esquemas organizativos e técnicas didáticas que se usem, deverão centrar-se em aspectos eminentemente formativos, tais quais, o domínio da capacidade de expressão, o desenvolvimento da capacidade de pensar e raciocinar corretamente, além da possessão de técnicas de trabalho individual e em grupo.
Indubitavelmente, a alfabetização num conceito mais ou menos amplo é a base de todo processo educativo e neste aspecto, a educação permanente de adultos supõe e comporta como fase prévia, uma alfabetização bem lograda. Até agora o conceito de alfabetização era um conceito restringido à consecução do domínio das técnicas instrumentais mais elementares da cultura, tais como a leitura, a escritura e o cálculo, que possibilitava o acesso à comunicação escrita e à utilização de expressões culturais mais simples, porém que sem dúvida, constituem a base para a continuação do processo educativo.
Dentro do contexto da educação permanente de adultos e dentro da dinâmica educativa atual, compartilhamos a opinião de que o conceito de alfabetização deve ser ampliado no sentido de domínio das técnicas instrumentais e básicas para alcançar o desenvolvimento da capacidade de pensar, raciocinar e tomar postura ante os problemas que a vida apresenta.
Neste sentido, evidentemente, se orienta o cultivo total da pessoa, seja qual for o meio ambiente, profissional, familiar ou comunitário em que se desenvolve, superando amplamente qualquer pragmatismo econômico. Isto não quer dizer que o processo educativo não apareça como um fato altamente rentável e condicionante básico de todo desenvolvimento social e econômico.
A estratégia da alfabetização se edifica sobre uma base amplamente realista e eficaz, intimamente conexionada com a realidade sócio - cultural que circunda o adulto, e, tende a facilitá-lo desde o primeiro momento, com esquemas, marcos de referência, modelos, ideais e informação suficiente que o permitam participar ativamente não só em seu próprio melhoramento, senão e essencialmente na promoção dos grupos primários e comunitários em que se inserta.
Dentro do contexto que aqui se apresenta, entende que a alfabetização supõe o conseguir, de forma ótima, os objetivos de uma educação básica generalizada, com um nível suficiente e satisfatório, de acordo com as características específicas da idade e condição do adulto. A não alcançar isto, a alfabetização cairia reduzida a um meio formativo praticamente encaminhado e intimamente relacionado à utilização desses sujeitos no esquema da produção agrícola e industrial e não a seu desenvolvimento humano que o permitia optar em sua promoção pessoal e profissional.
Há de se assinalar que no momento atual a alfabetização dentro do contexto da educação permanente de adultos, abarca a um ingente número de pessoas, já que os índices de analfabetismo, na maioria dos países, permanecem mui elevados, inclusive segundo as estatísticas mundiais, embora se observe que a percentagem de analfabetos tenha diminuído.
O intento de eliminar o analfabetismo e de conseguir altos níveis educativos para todos, alcança uma dimensão social que transcende a qualquer concepção o princípio individualista. Desenvolvimento pessoal e desenvolvimento social estão intimamente unidos e se condicionam mutuamente. Neste sentido, como objetivo social de nosso tempo, a educação tem de enfrentar a passagem de uma sociedade prevalentemente fechada a uma sociedade aberta.
A alfabetização no contexto da educação permanente e esta, no contexto de uma estrutura educativa aberta, se converte na base de todo o processo educativo, porém no caso dos adultos, é o único cominho para que possa alcançar as possibilidades que lhes oferece o sistema educativo e que não puderam utilizar nos anos iniciais de sua vida.
A acelerada transformação e o consequente desgaste dos conhecimentos, sinal característico de nosso tempo, outorga à educação permanente um significado, talvez mais importante, como meio imprescindível para uma boa comunicação entre os adultos e as jovens gerações.
Por isto é necessário que os adultos se sensibilizem ante a educação permanente, não só em termos de alfabetização, mas também em termos de conhecimentos literários, não somente como mera questão profissional, como às vezes se quer contemplar, senão mui especialmente como meio para não cair antiquados num mundo de mudanças e poder.
Comunicar com os jovens de sua sociedade, fazendo com que estas diferenças geracionais sejam menos possível e que, por profundas que cheguem a ser, se mantenha uma comunicação que permita o diálogo e evidente a estridência destas diferenças.
A alfabetização e a literatura no contexto da educação permanente constituem um alvo imprescindível para se conseguir uma convivência mais humana e, como se tem dito, é condição prévia para a amizade, a estabilidade e a compreensão entre os homens. (O POPULAR. Goiânia, 29.01.1978).




MÁRIO RIBEIRO MARTINS -  ERA PROCURADOR DE JUSTIÇA E ESCRITOR.


(LIVRO "CONFLITO DE GERAÇÕES")

SÃO PAULO ANTIGA NA VISÃO DO MEU AVÔ - FILEMON MARTINS

 


(FOTO DO LIVRO "IPUPIARA & IBIPETUM - História de lutas na Chapada Diamantina", Arides Leite Santos)


SÃO PAULO ANTIGA NA VISÃO DO MEU AVÔ

Filemon Martins


 

Velhos tempos. Estou me referindo às décadas de 20, 30, quando meu avô Gasparino Francisco Martins, nascido em Jordão de Brotas, em 25.05.1888, ainda rapaz, influenciado por outros rapazes, veio conhecer a capital paulista. Naquela época, a viagem para São Paulo era uma verdadeira aventura, um desafio. Iniciava em Ipupiara, antigo Jordão de Brotas, no lombo de um cavalo até Morpará, Bahia. Daí seguia-se de vapor, que poderia ser o SÃO SALVADOR, o WENCESLAU BRÁS, o MAUÁ ou o BENJAMIM GUIMARÃES, o mais lendário de todos, pelas águas do Rio São Francisco, carinhosamente chamado de Velho Chico, até Pirapora, Minas Gerais. Daí em diante viajava-se de trem até São Paulo. As hospedarias ou as pensões, geralmente ficavam no nostálgico bairro do Brás, onde ele teria se hospedado. Com amigos ele foi conhecer o centro da cidade de São Paulo naquela época. É possível que tenha visitado a Praça da Sé, a Rua Direita, a Rua Quinze de Novembro, Rua Boa Vista, Praça Ramos de Azevedo, Largo São Francisco, Largo São Bento, Praça Dr. João Mendes, Av. São João, Av. Ipiranga, Praça da República, entre outras.

Meu avô, que veio dos Brocotós do Sertão, não estava acostumado a ver tanta gente, tanto movimento e estranhou muito. Gente que vai, gente que vem em constante movimento e para lá, para cá, cada um com seu motivo: pegar condução para trabalhar, voltar pra casa, ir ao médico, ao escritório, às compras etc. Todo esse burburinho mexeu com meu avô.

Algum tempo depois ele retornou ao antigo Jordão de Brotas, hoje Ipupiara, no agreste da Bahia. Lá chegando e em conversa com os amigos, parentes e aderentes, um deles quis saber o que ele havia achado e quais as impressões que ele teve de São Paulo? Ele olhou para a amplidão, pensou e respondeu: -¨ a cidade é grande, tem muita gente andando de um lado para o outro, sem trabalhar, sem fazer nada. São um bando de vagabundos¨. Mal sabia ele que seu neto muito mais tarde viria para essa cidade acolhedora encarar a correria do dia a dia para trabalhar durante o dia, estudar à noite e constituir família. Sou baiano de nascimento e paulistano de coração. Quanto às impressões do meu avô, ele estava equivocado: ¨errar é humano¨. Aqui é a terra das oportunidades, do trabalho, embora nos dias atuais, esteja de fato escasso. O lema que vem escrito no brasão da cidade de São Paulo em latim é: - ¨NON DUCOR, DUCO¨ - ¨NÃO SOU CONDUZIDO, CONDUZO¨.   

 


(LIVRO "HISTÓRIAS QUE SÓ AGORA EU CONTO")

TROVAS DE MÁRIO BARRETO FRANÇA

 



TROVAS DE MÁRIO BARRETO FRANÇA

 

Quem nesta vida tem planos
de ser do mundo senhor,
se esquece que os desenganos
são a cruz do sonhador.

Em política, estão perto
esperteza e insensatez:
quem vence, sempre está certo,
quem perde, nunca tem vez.

Se queres vencer na vida,
não faças degraus de alguém;
a vitória merecida
tem alicerces no bem.

No meio de tanta treva,
quem sabe amar pode crer.
- A fé é a força que eleva.
- A crença é a luz que faz ver.

TROVAS DO FILEMON

 



                                  TROVAS DO FILEMON

 

Perpassa uma brisa mansa

beijando as águas do mar,

enquanto a tarde descansa

e espera a noite chegar.

 

Velhos tempos – que saudade

da infância que tive outrora!

Meus sonhos – fatalidade,

um por um foram embora.

 

De manhã, sinto o perfume

das flores no meu jardim,

e um beija-flor – que ciúme,

chegou bem antes de mim.

 

Não reclamo da jornada,

dos problemas que são meus.

Quanto mais íngreme a escada,

mais perto fico de Deus.

 

(DO LIVRO ANSEIOS DO CORAÇÃO)