O
Rosto de Seda e o Coração de Espinhos
Preparem seus sentidos, ó
ouvintes da verdade, pois Mustafá vos contará uma história onde o rosto é um
espelho, mas a alma é um abismo de discórdia. Em Bagdá, o sol brilha para
todos, mas a sombra de um homem pode esconder um segredo que nem a lua consegue
iluminar.
Nas terras férteis que margeiam o
Tigre, governava o Sheik Omar, um homem de imensa generosidade e justiça. Mas o
que poucos súditos sabiam, ó Nobre Sheik, é que Omar tinha um gêmeo chamado
Karim. Enquanto Omar dedicava sua vida ao serviço do povo, Karim vivia isolado
nas bordas do deserto, consumido pela inveja, pois nascera apenas alguns
minutos depois do irmão, perdendo o direito ao título.
Karim possuía o mesmo rosto
esculpido, a mesma barba negra e os mesmos olhos cor de âmbar de Omar.
Aproveitando-se dessa semelhança divina, ele tramou um plano de mentira. Sempre
que o Sheik Omar partia em longas viagens para mediar conflitos entre
tribos distantes, Karim entrava furtivamente na cidade ao cair da noite.
Vestido com as sedas reais e
usando o perfume de sândalo do irmão, Karim apresentava-se aos criados e
mercadores. Com uma voz que imitava perfeitamente o tom de autoridade de Omar,
ele começou a exigir tributos antecipados.
— “Tragam-me dez camelos de raça
pura para minhas cavalariças particulares!”, ordenava ele no mercado. “Enviem
doze criados para a minha residência no oásis sul, pois o Sheik deseja expandir
sua vigília!”, dizia ele aos prefeitos.
Por meses, Karim acumulou uma
riqueza ilícita. Sua casa no deserto tornou-se um palácio oculto, cheia de
servos que acreditavam estar servindo ao verdadeiro governante. Enquanto isso,
o Sheik Omar, ao retornar de suas viagens, estranhava os olhares de medo de seu
povo e as reclamações sobre impostos que ele nunca decretara.
A farsa ruiu quando um velho
sábio, que conhecia a alma de Omar através de seus olhos, percebeu que o
'Sheik' que pedia camelos no mercado não retribuía a paz com a mesma luz de
antes. O sábio alertou Omar, que armou uma emboscada de silêncio.
Certa tarde, Omar fingiu partir,
mas escondeu-se atrás das cortinas da sala de audiências. Karim entrou, altivo,
e começou a dar ordens para confiscar mais ouro. No momento em que Karim
sentou-se no trono, Omar surgiu das sombras. Era como ver um homem diante de
seu próprio reflexo.
— “O rosto pode ser o mesmo, meu
irmão, disse Omar com uma voz cheia de tristeza, mas o trono não é feito de
carne, é feito de confiança. Você roubou o que o dinheiro compra, mas nunca
poderá roubar o amor que o povo tem por quem os serve com a verdade.”
Karim, tomado pela vergonha, caiu
de joelhos. Omar, em sua infinita misericórdia, não o executou, mas o condenou
a trabalhar como um simples pastor para os mesmos camelos que ele havia
roubado, até que suas mãos calosas aprendessem o valor do suor honesto.
Mustafá ajustou seu turbante e
olhou profundamente para os presentes, finalizando:
"O ensinamento desta
história, ó ilustres, é que a personalidade de um homem não está na sua
aparência, mas em suas ações. Pode-se enganar os olhos com um rosto idêntico,
mas nunca se pode enganar o destino com uma alma roubada. O que é construído
sobre a sombra do outro desmorona assim que a luz da verdade brilha, pois
ninguém pode sustentar o peso de uma coroa que não conquistou com a própria
virtude."
(FONTE: "ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN)

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