BLOG LITERÁRIO DO FILEMON
domingo, 19 de abril de 2026
NOITE E VERSOS - FILEMON MARTINS
LUGARES... - ELVIRA DRUMMOND
LUGARES...
Elvira Drummond
Já visitei lugares em que a vista
pasmou, ao ver a cena deslumbrante:
enturveceu, por cerca de um instante,
atônita à mansão com mãos de artista...
Tamanho luxo cabe em uma lista
que inclui a prataria mais brilhante,
cristais e o tom dourado exuberante
compondo um tal "cenário de revista".
Já visitei lugares bem modestos,
vazios de pertences, mas de gestos
fraternos, de uma paz abençoada...
Dos dois lugares, reina soberana
a imagem amorosa da choupana,
que a vida, sem amor, não vale nada!
(LIVRO "OS ESCOLHIDOS versos diversos", PÁGINA 43)
A TEMPESTADE E A JORNADA - JOSÉ FELDMAN
A TEMPESTADE E A JORNADA
José Feldman
TROVA DE JERSON LIMA DE BRITO
Não tema sua jornada
se o céu estiver cinzento
que às vezes a trovoada
faz parte do ensinamento!
Numa pequena cidade, onde as colinas se encontravam com o
céu em um abraço eterno, a vida seguia seu curso tranquila, mas repleta de
desafios. Os moradores daquela cidade eram conhecidos por sua resiliência e
força de espírito. No entanto, havia um jovem chamado Matheus que
frequentemente se deixava abater pelas nuvens cinzentas que pareciam pairar
sobre sua vida.
Matheus era um sonhador. Desde criança, alimentava grandes
aspirações: queria ser escritor. Suas histórias eram recheadas de aventuras e
heróis, mas, à medida que crescia, as incertezas começaram a envolvê-lo. Ele se
via diante de um dilema: como transformar seus sonhos em realidade em meio às
dificuldades do dia a dia? A pressão para ter um emprego estável, a expectativa
da família e o medo do fracasso o deixavam angustiado.
Em uma tarde particularmente nublada, Matheus decidiu que
precisava de um tempo para pensar. Pegou seu caderno e saiu em direção ao
parque da cidade, um lugar que sempre o inspirava. À medida que caminhava, o
céu escurecia, e um vento forte começou a soprar. Ele hesitou, mas a
necessidade de encontrar respostas o levou adiante. Ao chegar ao parque,
sentou-se em um banco sob uma árvore frondosa e começou a escrever.
Enquanto suas ideias fluíam, ele percebeu que as nuvens no
céu estavam se acumulando, e logo a chuva começou a cair. No início, as gotas
eram suaves, quase como um sussurro. Mas, em poucos minutos, a tempestade se
intensificou, e o que antes era uma leve garoa transformou-se em uma verdadeira
trovoada. Ele se viu preso, sem abrigo, e um sentimento de desespero começou a
tomar conta dele.
No entanto, em meio ao caos, algo inesperado aconteceu. Ele
observou as gotas de chuva batendo nas folhas, criando uma melodia única, um
ritmo que parecia dançar com a natureza. As árvores, que antes pareciam
temerosas, agora se erguiam majestosas, como se estivessem celebrando a
tempestade. Sentiu uma onda de inspiração. Em vez de se deixar levar pelo medo,
decidiu se entregar àquele momento.
Com o caderno em mãos, começou a escrever freneticamente.
As palavras fluíam como a chuva, e ele percebeu que a tempestade não era um
obstáculo, mas uma oportunidade. A trovoada trazia consigo um ensinamento
profundo sobre a vida: os desafios e as dificuldades são partes inevitáveis da
jornada. Cada gota de chuva, cada relâmpago, representava uma lição, uma chance
de crescimento.
Quando a tempestade finalmente começou a se dissipar, ele
sentiu-se renovado. Olhou para o céu, que agora começava a clarear, e sorriu.
As nuvens cinzentas não eram apenas um símbolo de desespero, mas também de
transformação. Percebeu que, assim como a natureza, sua vida também passaria
por fases, com momentos de sol e momentos de chuva. E que não deveria temer
esses momentos difíceis, pois eram eles que o moldavam, que lhe ensinavam a ser
forte e resiliente.
Ao voltar para casa, Matheus sentiu-se leve. Ele sabia que
o caminho à sua frente ainda seria repleto de desafios, mas estava determinado
a enfrentá-los de cabeça erguida. A trovoada daquela tarde se tornara um marco
em sua jornada, um lembrete de que o crescimento muitas vezes vem das
experiências mais difíceis.
A vida, assim como o tempo, é cheia de surpresas. Não
devemos temer a jornada, mesmo quando o céu estiver cinzento, pois às vezes a
trovoada faz parte do ensinamento. E são essas tempestades que nos preparam
para os dias ensolarados, nos ensinando a valorizar cada raio de sol que brilha
em nossas vidas.
sábado, 18 de abril de 2026
ILUSÕES DA VIDA - FRANCISCO OTAVIANO
(FOTO DE SANDRO, CARRANCA, BAHIA)
À SOMBRA DO LAGO - JOSÉ FELDMAN
À SOMBRA DO LAGO
José Feldman
TROVA DE EDY SOARES
Lembrança doce e singela
enchendo o peito de afago:
eu e meu pai na pinguela
jogando pedras no lago...
Na pequena cidade de Fragatópolis, havia um lago que
parecia ter saído de um conto de fadas. Suas águas eram calmas e refletiam o
céu azul em dias ensolarados, enquanto as árvores em volta dançavam suavemente
ao vento. Era um lugar mágico, onde as crianças corriam livres e as memórias se
formavam como nuvens no céu. Para mim, o lago era mais do que um simples corpo
d’água; era um espaço sagrado, um refúgio de lembranças que guardava momentos
preciosos ao lado do meu pai.
Certa tarde de verão, quando eu ainda era uma criança, meu
pai decidiu que era hora de me levar até a pinguela, uma pequena ponte de
madeira que se estendia sobre o lago. Ele sempre dizia que aquele era o melhor
lugar para jogar pedras na água e ver as ondas se espalharem como um abraço de
boas vindas. Com um sorriso no rosto, peguei sua mão e seguimos juntos pela
trilha que levava ao nosso destino.
A pinguela, com suas tábuas desgastadas pelo tempo, rangia
sob nossos pés, mas para mim era um som familiar, como uma canção que só nós
dois conhecíamos. Meu pai, com seu chapéu de palha e seu jeito despreocupado,
era a personificação da alegria. Ele me ensinou a escolher as pedras mais
lisas, aquelas que pulavam na superfície da água. “Olhe bem, meu filho. A pedra
precisa ter o formato certo. E você deve arremessá-la com confiança”, ele
dizia, enquanto eu o observava com admiração.
Nosso ritual de jogar pedras era mais do que uma simples
brincadeira; era um momento de conexão. Cada pedra que lançávamos parecia levar
consigo um pedaço de nossas preocupações e medos. Eu me lembrava de como meu
pai ria quando uma pedra pulava várias vezes antes de se afundar. “Veja! Essa
foi uma campeã!”, ele exclamava, e eu ria junto, sentindo a felicidade vibrar
em meu peito.
Naquele dia, enquanto jogávamos pedras, ele começou a
contar histórias de sua infância. Falou sobre os verões que passara pescando
com seu pai e como ele mesmo tinha aprendido a escolher as melhores pedras. A
cada risada, a cada história compartilhada, meu coração se enchia de afeto. A
presença do meu pai era um abrigo seguro, e nada parecia mais importante do que
aqueles momentos simples à beira do lago.
Com o passar do tempo, fui crescendo, e as
responsabilidades da vida começaram a se acumular. A escola, os amigos, e mais
tarde, o trabalho, foram ocupando meu tempo e minha mente. As visitas ao lago
tornaram-se menos frequentes, e a pinguela, uma doce lembrança da infância, foi
se tornando apenas uma imagem distante. Mas, em meu coração, eu sabia que
aquelas memórias estavam guardadas como um tesouro inestimável.
Anos depois, ao receber a notícia de que meu pai não estava
bem, uma onda de nostalgia me invadiu. Eu me lembrei da pinguela, das pedras e
das risadas. Naquele momento, percebi que precisava voltar àquele lugar que
tanto significava para nós. Assim que pude, organizei uma viagem para Ribeirão
Verde.
Chegando lá, encontrei o lago como eu o lembrava, mas a
pinguela parecia ter envelhecido. As tábuas estavam mais desgastadas, e o vento
parecia sussurrar histórias do passado. Com o coração apertado, me aproximei da
beira da água e, por um instante, fechei os olhos. As memórias vieram à tona
como se eu estivesse lá novamente, lançando pedras com meu pai, rindo e
aprendendo sobre a vida.
Sentei-me na beira do lago, e as lágrimas escorriam pelo
meu rosto. Eu sabia que precisava de um momento de conexão, mesmo que meu pai
não estivesse fisicamente presente. Compreendi que as memórias que guardava
eram o verdadeiro legado dele. Com um gesto automático, peguei algumas pedras
do chão e comecei a jogá-las na água, como fazíamos antes. Cada arremesso
trazia de volta um fragmento do passado, um eco das risadas e das lições.
Neste reencontro com o lago, percebi que, embora meu pai
não estivesse mais ao meu lado, ele continuava vivo nas lembranças doces e
singelas que preenchiam meu peito. Ele havia me ensinado a importância de
valorizar os momentos simples, de encontrar alegria nas pequenas coisas, e
naquele dia, ao jogar pedras, eu sentia sua presença como se ele estivesse me
guiando novamente.
Enquanto o sol se punha no horizonte, tingindo o céu de
laranja e rosa, percebi que a vida era feita de ciclos. Embora a dor da
ausência fosse aguda, as lembranças eram um bálsamo que aliviava a saudade. Com
cada pedra que lançava, eu dizia um silencioso “obrigado” ao meu pai, por todas
as lições e pelos momentos que compartilhamos.
Aquela tarde no lago me trouxe paz. Compreendi que a
pinguela, as pedras e o lago eram mais do que apenas um cenário; eram símbolos
da relação que tivemos e do amor que ainda vive em mim. Ao sair daquele lugar,
levei comigo uma nova certeza: mesmo na ausência física, as memórias permanecem
vivas, e o amor nunca se apaga.
E assim, ao voltar para casa, meu coração estava mais leve.
Eu sabia que, sempre que precisasse, poderia retornar àquela pinguela, onde as
lembranças doces e singelas enchiam meu peito de afago, lembrando-me de que,
mesmo na solidão, nunca estamos realmente sozinhos.
TROVAS DE JESSÉ NASCIMENTO
TROVAS DE VANDA F. QUEIROZ
(JARDIM DA LALINHA, IPUPIARA, BAHIA)
TROVAS DE NILTON ARAÚJO
TROVAS BRASILEIRAS
(FOTO DE LALINHA, IPUPIARA, BAHIA)
TROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA
TROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA
O meu desânimo é forte
por esta razão ferina
eu busco o trigo da sorte,
mas, o joio predomina.
Que minha trova modesta
exalte sempre a Jesus,
aos leitores leve a festa
e, nas almas, lance a luz.
É Faculdade, por certo,
a Natureza que inspira,
tendo um livro sempre aberto
para o trovista caipira.
Minha humildade se alarga
nesta cena, com razão:
Humilde, conduz a carga
o jeguinho do Sertão.
(LIVRO "28 SONS" - 1998)
sexta-feira, 17 de abril de 2026
O JOGO DAS ILUSÕES - JOSÉ FELDMAN
O JOGO DAS ILUSÕES
José Feldman
TROVA DE SOLANGE COLOMBARA
O mentiroso pensou
ter enganado a donzela...
Por interesse casou,
mas quem o enganou, foi ela!
Na pitoresca vila de São Lucas, onde as casas coloridas se
alinhavam como um arco-íris e as flores perfumavam o ar, havia um jovem chamado
Álvaro. Ele era charmoso e tinha um sorriso que derretia corações. No entanto,
por trás daquela fachada encantadora, Álvaro carregava um segredo: ele era um
mentiroso contumaz. Sua habilidade de enganar os outros era quase uma arte, e
ele usava isso para conseguir o que desejava.
Certa vez, durante uma festa à beira do rio, Álvaro
conheceu Isabela, uma donzela de beleza estonteante e inteligência aguçada.
Desde que se olharam pela primeira vez, ele ficou fascinado. Isabela não era
apenas uma moça qualquer, ela tinha uma aura de mistério e uma sagacidade que o
intrigava.
Mas, como sempre, Álvaro viu em Isabela uma oportunidade.
Ele decidiu que a conquistaria não por amor, mas por interesse: seu pai, um
próspero comerciante, possuía uma fortuna considerável.
Álvaro começou a cortejá-la, usando todo o seu charme e
persuasão. Ele contava histórias fantásticas sobre suas viagens, suas
conquistas e seus planos grandiosos para o futuro. Isabela, no entanto, era
mais esperta do que ele imaginava. Embora se sentisse lisonjeada pela atenção,
ela percebia que havia algo de superficial nas promessas dele. Mas o jogo de
sedução a divertia, e ela decidiu seguir na dança.
Com o decorrer dos meses, ele foi se envolvendo cada vez
mais com Isabela, mas sempre com um pé atrás. Ele a via como um meio para
alcançar seus objetivos. Quando finalmente pediu sua mão em casamento, ele
estava convencido de que tinha enganado a moça.
Casaram-se em uma cerimônia belíssima, rodeados por amigos
e familiares, e Álvaro não podia deixar de pensar o quanto foi bem sucedido o
seu plano.
No entanto, a verdadeira trama começou a se desenrolar após
o casamento. Isabela, que parecia ser a moça ingênua que ele pensava ter
enganado, revelou-se uma mulher astuta e determinada. Ela não era apenas uma
herdeira de um grande patrimônio, era também uma empresária perspicaz, bem
informada sobre os negócios de seu pai e sobre como o mundo funcionava. Aos
poucos, ela começou a perceber que Álvaro não era o homem que ele havia pintado
em suas histórias.
Certa noite, enquanto ele se gabava de seus “feitos” em uma
conversa, Isabela decidiu dar o troco. Com um sorriso enigmático, ela começou a
contar histórias sobre suas próprias "aventuras". Falou sobre como
havia viajado por terras distantes, feito investimentos inteligentes e se
envolvido em negócios lucrativos.
Álvaro, que estava acostumado a ser o centro das atenções,
começou a se sentir desconfortável. Ele percebeu que Isabela não era uma moça
desavisada, mas uma mulher que poderia, de fato, ser sua parceira em vez de
apenas um troféu.
As semanas se passaram, e ele se viu cada vez mais
encurralado. Ela começou a administrar os bens do casal com uma habilidade que
ele nunca imaginara. As histórias de suas "aventuras" se tornaram
realidade, e logo ele percebeu que sua esposa era mais do que apenas uma
herdeira: ela era uma força a ser reconhecida. O que ele via como uma conquista
se transformou em um desafio, e a verdade começou a emergir.
Certa manhã, enquanto Álvaro revisava as contas da casa,
encontrou um documento que o deixou intrigado. Era um contrato de sociedade que
Isabela havia assinado com um grupo de investidores. Ao ler os detalhes,
percebeu que ela não apenas conhecia o valor do dinheiro, mas também sabia como
multiplicá-lo. O que ele pensava ser uma vida de luxo às custas da fortuna dela
se tornara uma parceria em que ele não tinha controle.
Com o passar do tempo, a confiança que ele tinha em sua
própria capacidade de manipulação começou a desmoronar. Sentia-se cada vez mais
impotente e, em suas tentativas de manter a aparência de um marido bem
sucedido, começou a mentir indiscriminadamente. Mas, para a sua surpresa, ela
estava sempre um passo à frente. Sabia de suas mentiras e, em vez de
confrontá-lo de imediato, decidiu usar isso a seu favor.
Certa noite, enquanto Álvaro tentava impressionar os amigos
em um jantar, ele começou a contar uma história que envolvia uma conquista de
negócios que, na verdade, nunca havia acontecido. Isabela, com um sorriso no
rosto, interrompeu-o. “Álvaro, você se esqueceu de mencionar aquele
investimento que fizemos juntos, não é? O que você está contando é um pouco
diferente da realidade.”
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Os amigos de
Álvaro trocaram olhares confusos, e ele percebeu que a máscara estava prestes a
cair.
A partir daquele momento, ela começou a tomar as rédeas da
situação. Ela não fez um escândalo, em vez disso, usou sua inteligência e
astúcia para transformar a dinâmica do relacionamento. Com um jeito gentil, mas
firme, começou a fazer com que Álvaro percebesse o valor da honestidade. Ele,
que pensava ter enganado a moça, agora se via engolido por suas próprias
mentiras.
Isabela não apenas se tornou a administradora dos bens do
casal, mas também a mentora de Álvaro. Com paciência e compreensão, ela o
ensinou sobre a importância da transparência, da verdade e da parceria. Ele
começou a perceber que suas mentiras não o protegiam, mas o isolavam. A vida a
dois se transformou em um aprendizado mútuo, onde ambos se tornavam melhores a
cada dia.
Com o tempo, ele aprendeu a ser mais verdadeiro, não apenas
consigo mesmo, mas também com Isabela. O amor que antes parecia baseado em
interesses tornou-se uma relação autêntica, onde ambos se apoiavam e cresciam
juntos. Ele começou a admirar a força e a determinação de sua esposa, e, mesmo
que o início de sua história tivesse sido repleto de erros, o final prometia
ser diferente.
Anos depois, quando olhavam para trás, ambos riam das
artimanhas que haviam usado no início de seu relacionamento. Álvaro percebeu
que, embora tivesse tentado enganar Isabela, foi ela quem realmente o havia
ensinado sobre o amor verdadeiro. Em vez de um conto de fadas, sua história era
uma narrativa de crescimento, de superação e de aprendizado mútuo.
E assim, a lição ficou clara: as mentiras podem enganar por
um tempo, mas a verdade sempre se revela. Na dança do amor, quem tenta
manipular pode acabar sendo o manipulado, e o que parece um jogo de interesses
pode se transformar em uma parceria genuína.
VITA NUOVA - MANUEL BANDEIRA
(FOTO DE SANDRO, CARRANCA, BAHIA)
VITA NUOVA
Manuel Bandeira
De onde me veio esse tremor de ninho
A alvorecer na morta madrugada?
Era todo o meu ser... Não era nada,
Senão na pele a sombra de um carinho.
Ah, bem velho carinho! Um desalinho
De dedos tontos no painel da escada...
Batia a minha cor multiplicada,
- Era o sangue de Deus mudado em vinho!
Bandeiras tatalavam no alto mastro
Do meu desejo. No fervor da espera
Clareou a distância o súbito alabastro
E na memória em nova primavera,
Revivesceu, candente como um astro,
A flor do sonho, o sonho da quimera.
(LIVRO "GRANDES SONETOS DA NOSSA LÍNGUA", PÁGINA 169)
ESTRANHAS LÁGRIMAS - FELIX PACHECO
ESTRANHAS LÁGRIMAS
Felix Pacheco
Lágrimas... Noutras épocas verti-as,
Não tinha o olhar enxuto, como agora.
- Alma, dizia então comigo, chora,
Que assim minorarás as Agonias!
Ah, quantas vezes, pelas faces frias,
Umas, outras, após, a toda hora,
Gota a gota rolando, elas, outrora,
Marcaram noites e marcaram dias!
Vinham do Oceano d'Alma imenso e fundo,
De espuma as ondas salpicando o flanco,
Numa fremência amargurada e louca.
Nos olhos hoje as Lágrimas estanco...
Rolam, porém, sem que as descubra o Mundo,
Sob a forma de Risos, pela boca!
(LIVRO "GRANDES SONETOS DA NOSSA LÍNGUA", PÁGINA 123)









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