MINHA INFÂNCIA ERA PANC* E EU NEM SABIA!
J. Marcos B. (07/01/2022)
Quando criança nunca compramos
frutas como manga, caju, jaca, cajá, pitomba, goiaba, carambola, mamão... me
considero sortudo, tive sorte em ter nascido em constante contato com a
natureza. Não nasci enclausurado em um condomínio de luxo fechado conhecendo a
fauna e a flora apenas pelos meios midiáticos disponíveis. Sim, tive
sorte...
Não raro era acordar às 07h, tomar o café
da manhã e logo em seguida se encontrar com os amigos que já tinham planos de
ir pegar manga na mata. Isso quando era época de manga. Podíamos escolher qual
tipo de manga íamos comer. Isso mesmo, a mais abundante era a manga espada, mas
também tínhamos a manga rosa, a manga roxa, manguito, e algumas outras que não
lembro o nome agora. Entre uma trilha e outra em busca das mangas dependendo do
caminho escolhido, passávamos por alguns cajueiros e se tivesse algum caju
maduro ia para o bucho. Muitas vezes nos contentamos com um maturi mesmo. Ao
passarmos por alguma goiabeira ou pé de araçá (Psidium guineense Sw.)
logo, imediatamente os mesmos eram vasculhados em busca de alguns desses frutos
maduros.
Mais à frente alguns pés de ingá também
vistoriados, mas as vagens de ingá não enchem o bucho igual as mangas e logo
não perdíamos muito tempo não com essa fruta, era mais para adoçar o bico ou
como o meu pai dizia: para tirar o zinabre da goela. O sol começava a
esquentar, a temperatura começava a subir, mesmo ventando gostoso já sentíamos
a presença do verão. Logo passamos por alguns pés de araticum fruto bem
parecido com a graviola, mas nós o ignoramos, eles não eram o nosso foco,
objetivo. Grandes pés de macaíba e alguns de nós não deixavam passar uma
macaíba madura, outros não faziam questão. Pitomba logo a frente, mas não era
época de pitomba. Jaqueiras com jaca mole e jaca dura, mas ou comíamos jaca ou
íamos comer manga porque sabíamos que não era muito sábio comer os dois frutos
juntos. Um pé de abacate, mas logo vimos que todos estavam ainda verdes. Trapiá,
oiti, azeitona, coração de negro, dendê, fruta pão, jambo roxo, jambo rosa,
tangerina, pitanga, cereja (Bunchosia Armeniaca), juá (Ziziphus
Joazeiro), jenipapo (Genipa americana) não tinham por essas bandas,
tudo isso eram para outras bandas. Em um trecho da trilha próximo de um olho
d'água escutamos uma gia pimenta cantando... mas não estávamos atrás dela.
Também passamos por alguns pés de taiobas (Xanthosoma sagittifolium) com
suas folhas grandes e verde era bom lembrar onde tinha para na semana santa, na
quaresma preparar com leite de coco quando não tivéssemos bredo (Amaranthus
viridis L).
Um grito alto de dor!
Desatento, o amigo que estava indo na frente não viu um pé de urtiga branca a
beira do caminho que roçou uma de suas folhas em sua canela o suficiente para o
grito de dor. Isso serviu de alerta para os demais que caminhavam logo atrás.
Era sempre assim, quando um se lascava todinho isso servia como alerta, como
ensinamento para o resto do bando. Algo correu no mato chamando a nossa
atenção! Era um teju (Tupinambis merianae) que percebeu nossa presença e
logo debandou-se por entre o mato fechado. Os demais não perceberam, mas eu vi
um pé de aroeira - muito bom para inflamações - e logo mais adiante um pé de
mutamba (Guazuma ulmifolia), sua seiva tem uso cosmético, é usada para
alisar o cabelo. Vi um formigueiro, mas não estava saindo tanajura (Atta
sexdens rubropilosa) se tivesse, seríamos obrigados a fazer um pit stop
para comer algumas in natura como era de costume. Enfim, chegamos depois de
quase duas horas de caminhada mata adentro e já tinha muita manga no chão
derrubada pelo vento da noite passada. Era só pegar e limpar a areia e ignorar
o machucadinho e mandar pra dentro. Alguns já iam preparados com algumas
sacolas plásticas no bolso do calção, outros tiravam a camisa e faziam ela de
sacola para levar algumas mangas para sua casa. Depois de todos satisfeitos com
os buchos cheios de mangas - muitas vezes eram tantas que nem precisava subir
nas mangueiras, nem jogar pedras para derrubar as mangas maduras - e muitas
outras em nossas sacolas, fazíamos o caminho de volta. Isso já estava batendo
quase 11h no relógio e o calor já era de rachar o coco. Voltamos para nossas
casas para deixarmos os frutos colhidos, mas já tínhamos combinado de nos
encontrarmos quase que de imediato todos na rua para irmos tomar banho de rio
antes do sangue esfriar e o suor da testa secar. Então, mais ou menos meio-dia
estávamos pulando na água gelada do rio.
Nesse meio tempo ao
trilharmos o caminho, que iria dar no rio encontrávamos com mais alguns outros
amigos que ficaram sabendo que tínhamos ido pegar manga e ficaram injuriados
por não terem ido junto e nos xingavam de traíra (Hoplias malabaricus)
por terem perdido a aventura kkk. Depois de uns trinta ou quarenta minutos de
banho de rio voltamos para nossas casas para almoçar porque a tarde já tinha
outras coisas programadas para fazermos juntos... Sim, tive sorte em não ter
nascido e me criado enclausurado em um condomínio fechado longe do contato
direto com a natureza. Sim, tenho sorte de ter todas essas lembranças vivas
ainda na mente. Sim, tive sorte.
* - PANC - Plantas Alimentícias Não Convencionais












