quarta-feira, 18 de março de 2026

O ECO - GIÓIA JÚNIOR

 



O ECO


GIÓIA JÚNIOR (atendendo pedido da leitora Ely, de Fortaleza – Ceará).



O que posso fazer se a vida, a glória fez-ma
rotineira, a ilusão não muda, é sempre a mesma.
Que fazer se o prazer é sempre essa utopia
de um minuto feliz! A maior alegria
é ligeira, é fugaz como uma gargalhada,

... inunda a sala e cessa e volta para o nada...
Que fazer para ter alguma recompensa?
Mecânico e fatal o eco responde: ...pensa...


Pensar? Como, pensar? Perder a mocidade
no egoísmo sem razão dessa inutilidade...
Pensar apenas? Não, teria acaso um fim,
pensar, pensar, pensar... de mim e para mim?
Esgotar a existência em um plano ilusório,
sozinho usufruir da paz de um escritório?
Quero menosprezar a vida dissoluta...
Mecânico e fatal o eco responde:...luta...


Lutar... porque lutar... ver bandeiras ao vento,
tambores e clarim, galões e fardamentos,
ver o sangue jorrar em vis revoluções,
ver Césares, Pompeus, Felipes, Napoleões...
Lutar... porque lutar, se essa glória que embriaga
tem o brilho na aurora e no poente se apaga...
Quero mais, muito mais... quero a brasa que inflama.
Mecânico e fatal o eco responde:... ama...


Amar... amei a vida e a vida é tão ingrata...
“Traz o pó que alimenta o micróbio que mata”...
Não, de modo nenhum, permaneço na teima...
“A fogueira que aquece é a mesma que nos queima.”
Amar, de que nos vale amar se o amor é vário,
se ao beijo tem sequência as dores do calvário...
Quero fugir do mundo e procurar a calma...
Mecânico e fatal o eco responde:... alma...


Alma... quando escutei essa palavra, quando
meditei, vi que havia uma força operando
além da compreensão... vi que o meu ódio acerbo
era a minha impotência ante o mando do Verbo.
Quando, porém, notei que a paz aurifulgente
está em nós firmada... algo puro, inerente
ao nosso próprio ser... chama viva e sagrada
que opera no interior sem depender de nada.


Alma... quando notei que em meu corpo carnal
morava um universo, uma essência imortal,
entreguei-me a Jesus e firmado em seu nome,
na vivificação matei a minha fome.
Pensei... soube pensar em seu reino... lutei
sem medo de derrota ao lado do meu Rei...
Amei aos meus irmãos. E agora em mim revive
a encantadora voz do eco bradando: VIVE!


São Paulo, Julho de 1948.

(Do livro “O CANTICO NOVO” – páginas 25/26)

TROVAS BRASILEIRAS

 




TROVAS BRASILEIRAS

Soberana, a vida ensina

como vencer qualquer prova:

pressões, a gente elimina;

prazos... a gente renova!

JOSÉ OUVERNEY


Uma luz quase apagada...

Um sonho chegado ao fim...

Eis o pedaço do nada

que tu fizeste de mim.

CONCEIÇÃO ASSIS


Não temo o mar traiçoeiro

e as ondas em desatino,

porque Deus é o timoneiro

do barco do meu destino.

EDUARDO A. O. TOLEDO


Não me fascina, na vida,

poder ou fama alcançar,

que a vitória merecida

é pelo Amor triunfar!

FILEMON MARTINS

 

TROVAS BRASILEIRAS

 



TROVAS BRASILEIRAS


Amor é o garoto arteiro,

que tem o dom surpreendente
de, com seu arco flecheiro,
flechar o peito da gente. 

P. DE PETRUS


Amar – a todos é dado.
Basta viver, simplesmente.
Mas amar e ser amado
é sina de pouca gente. 

CORRÊA JÚNIOR


Dá-me as pétalas de rosa
desta boca pequenina:
vem com teu riso, formosa,
vem com teu beijo, divina! 

OLAVO BILAC


Deslumbra, quando está nua,
a mulher que eu vivo a amar:
- seu corpo é feito de lua
e leva estrelas no olhar! 

ENO THEODORO WANKE

O BEIJA-FLOR - FILEMON MARTINS

 



O BEIJA-FLOR

         Filemon Martins

                        

Levanto cedo e veja quem me espera,

um lindo beija-flor beijando a rosa.

Não para de adejar, ai quem me dera

sugar também aquela flor mimosa.

 

Quantas flores o beija-flor paquera

e baila no ar buscando a flor ditosa

e se exibe num voo que venera

à procura da flor, a mais viçosa.

 

De flor em flor consegue seu intento,

mesmo voando em luta contra o vento

para beijar, feliz, mais uma  flor...

 

Também o bardo – beija-flor certeiro,

de verso em verso vai buscar faceiro

dentro do peito uma canção de amor.

terça-feira, 17 de março de 2026

TROVAS BRASILEIRAS

 





TROVAS BRASILEIRAS


Lei que é honesta, não susta
o seu castigo aos velhacos.
- Qualquer lei se torna injusta
quando só se aplica aos fracos.
WALTER WAYNE

No giro do mundo, eu vejo
o pecado em dimensão:
- pobre peca, por desejo,
- e rico, por ambição.
PALUMA FILHO

Duas coisas nesta vida,
nos incomodam de fato:
- um empurrão na descida
e pedrinhas no sapato.
JANE P. TEIXEIRA

Quanta gente se arreceia
de julgar os atos seus,
mas julga as ações alheias,
na pretensão de ser Deus!
FERNANDES VIANNA

O SOL DENTRO DE MIM - JOSÉ FELDMAN

 



O SOL DENTRO DE MIM

José Feldman


TROVA DE THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA


Se vejo o mundo às escuras,

embarco em meu sonho... e assim,

subo a escada e, nas alturas,

acendo um sol para mim!




Em uma manhã nublada, na pequena cidade de Luz do Sol, onde o céu parecia sempre um pouco mais cinza do que o desejado, um homem chamado Vicente caminhava pelas ruas, refletindo sobre a vida. Ele sempre fora um sonhador, alguém que via o mundo através de uma lente cheia de cores, mesmo quando tudo ao seu redor parecia desbotado. Vicente acreditava que, por trás das nuvens, havia sempre um sol esperando para brilhar.

Aquela manhã, como muitas outras, começou com uma sensação de opressão no peito. O dia estava triste, e os habitantes da cidade pareciam carregar um peso invisível. As crianças brincavam, mas suas risadas não tinham o mesmo brilho de antes. Os adultos passavam apressados, os rostos fechados e os olhos perdidos em suas preocupações. Vicente, porém, tinha um talento especial: ele conseguia transformar a escuridão em luz. E foi assim que, ao passar por uma escada que levava ao parque da cidade, decidiu que era hora de acender seu próprio sol.

Ele subiu os degraus com a determinação de quem sabe que há algo maior à sua espera. A escada, antiga e cheia de histórias, parecia resistir ao tempo. Cada passo era como uma pequena vitória contra a melancolia que o cercava. 

Chegando ao topo, Vicente olhou ao redor: o parque, mesmo sob o céu nublado, tinha uma beleza particular. As árvores dançavam suavemente ao vento e as flores, apesar da falta de sol, exalavam um perfume doce.

Vicente respirou fundo e fechou os olhos. Ele se lembrou da trova que costumava ouvir: “Se vejo o mundo às escuras, / embarco em meu sonho... e assim, / subo a escada e, nas alturas, / acendo um sol para mim!” Essas palavras ressoaram em sua mente, como um mantra que o encorajava a buscar a luz dentro de si.

Decidido a espalhar essa luz, Vicente começou a cantar. A princípio, sua voz era suave, quase como um sussurro. Mas, à medida que se sentia mais à vontade, sua canção se transformou em um hino de alegria. 

Ele cantava sobre sonhos, sobre a beleza do mundo e sobre a esperança que sempre renasce, mesmo nas horas mais sombrias. A melodia flutuava pelo ar, como uma brisa leve, e aos poucos, começou a atrair a atenção dos passantes.

As pessoas pararam e começaram a olhar. Um a um, foram se juntando a Vicente. Algumas crianças, curiosas, se aproximaram e começaram a dançar. Os adultos, inicialmente hesitantes, não demoraram a se deixar levar pela música. A atmosfera pesada que envolvia Luz do Sol começou a dissipar-se. Os rostos, antes fechados, foram se iluminando, e os olhos ganharam um brilho que há muito não se via.

Vicente percebeu que havia acendido algo muito maior do que um simples sol. Ele havia reacendido a chama da comunidade. As pessoas começaram a compartilhar histórias, risadas e até mesmo suas preocupações. O parque, que antes parecia um lugar esquecido, transformou-se em um espaço de união.

Enquanto a tarde avançava, o céu nublado começou a se abrir. Raios de sol começaram a penetrar as nuvens, como se o próprio universo estivesse respondendo àquela explosão de alegria. Vicente, com um sorriso no rosto, olhou para cima e viu que, embora o mundo estivesse às escuras, havia sempre uma luz a ser encontrada, mesmo que fosse dentro de nós mesmos.

O dia que começou triste se transformou em uma celebração da vida. Vicente, com sua voz e seu sonho, acendeu um sol que não só iluminou seu coração, mas também trouxe calor e vida a todos ao seu redor. Naquele momento, ele percebeu que a verdadeira magia não estava em mudar o mundo, mas em inspirar outros a encontrar a luz que já existia dentro deles.

Ao final da tarde, enquanto o sol se punha no horizonte, Vicente desceu a escada com um novo propósito. Ele sabia que as nuvens poderiam voltar, que os dias sombrios fariam parte da vida. Mas, com a experiência daquela tarde, ele também aprendeu que, mesmo nas horas mais difíceis, sempre poderia subir a escada do sonho e acender um sol para si e para os outros.

E assim, entre risos e canções, Luz do Sol voltou a brilhar, não apenas com a luz do sol físico, mas com a luz da esperança e da união. Vicente, agora mais do que um sonhador, tornou-se um verdadeiro farol para sua comunidade, mostrando que, às vezes, tudo o que precisamos é de coragem para subir as escadas e acender nossos próprios sóis.

           

 


TROVAS BRASILEIRAS

 



TROVAS BRASILEIRAS



No sonho estavas sorrindo,
mesmo assim fiquei tristonho:
- de que vale um sonho lindo,
se dura apenas um sonho?
APARÍCIO FERNANDES

Não permitas que a amargura
domine teu coração.
Canta um salmo de ventura,
busca a Deus em oração.
FILEMON MARTINS


No meio de tanta treva,
quem sabe amar pode crer.
- A fé é a força que eleva.
- A crença é a luz que faz ver.
MÁRIO BARRETO FRANÇA


A distância, o céu aberto,
não podem mudar o amor
que embora longe está perto,
como a raiz junto à flor.
MARIA THEREZA CAVALHEIRO

NOVA COBRANÇA - FILEMON MARTINS

 






NOVA COBRANÇA
 
(Filosofando)

Filemon Martins 


Se cobro alguma coisa desta vida, 
ela disfarça e vai me respondendo: 
“qualquer dia, meu caro, pago a dívida” 
e sem pensar, aceito e vou vivendo. 

O tempo vai passando e na corrida 
aqueles sonhos vão-se desfazendo, 
já não sinto esperança na descida 
e o mundo, sem amor, está horrendo. 

A vida dissimula um falso encanto 
que acaba em choro, dor e desencanto 
sem cumprir as promessas que nos fez. 

E tudo não passou de ledo engano, 
porque sem fé, sem luz, o ser humano 
carrega a cruz de sua insensatez.

POESIA - FILEMON MARTINS

 





                        POESIA 
                     Filemon Martins *

Enquanto houver natureza 
e pássaros cantando, 
um botão de rosa se abrindo, 
uma criança sorrindo, 
então haverá poesia. 

Enquanto houver sentimento, 
um amor para lembrar 
e a brisa leve a soprar, 
então haverá poesia. 

Enquanto houver um poeta, 
estrelas no firmamento, 
uma saudade a cantar, 
um sonho a acalentar, 
então haverá poesia. 

Enquanto no mundo houver 
um coração de mulher, 
o amor terá sentido, 
a vida será florida 
e a mulher será amada 
pelos poetas do mundo.


* DA CONFRARIA BRASILEIRA DE LETRAS