TROVAS BRASILEIRAS
TROVAS BRASILEIRAS
(FOTO DE SANDRO, IPUPIARA, BAHIA)
(FOTO DE MAISE J. MARTINS, EM ITANHAÉM)
TROVAS BRASILEIRAS
Como ilude a aparência...
Santo homem, bom cristão;
era a virtude, a decência,
por dentro - que podridão!
JESSÉ DO NASCIMENTO
Bendito quem no caminho
plantando amor entre irmãos
tem mãos que se fazem ninho
para aquecer outras mãos!
PEDRO ORNELLAS
Rejeito fraude e sofisma,
que a virtude é o meu condão.
Minha alma transpira o crisma
da inocência e do perdão.
HUMBERTO DEL MAESTRO
Mesmo pisando nos cardos
meus rastros serão pepitas,
pois, as lágrimas dos bardos
tornam-se trovas bonitas.
CARLOS RIBEIRO ROCHA
O LOURO
Almeida da Nobrega Arlindo
Como num passe de mágica
meu lourinho se evadiu,
a porta estava entreaberta
e no meu ombro ele subiu,
foi tudo assim, de repente,
ele me olhou diferente,
"me disse adeus" e sumiu.
Ah saudade cruciante!
(Enviado pelo autor via Messenger)
(FOTO DE MAISE J. MARTINS, EM ITANHAÉM-SP)
TROVAS BRASILEIRAS
Na terra, a justiça é humana,
as falhas são naturais;
no céu, se faz soberana,
pois Deus não falha jamais!
ELVIRA DRUMMOND
Todos seriam felizes,
com sentenças mais corretas,
se, em tribunais, os juízes
dessem lugar aos poetas.
OLGA AGUILHON
Jesus, o Mestre Divino,
que por nós morreu na Cruz,
deixou, no breve destino,
um longo rastro de luz...
MARIA THEREZA CAVALHEIRO
Coração de Mãe - canteiro
em perene floração,
onde um santo jardineiro
planta as rosas do perdão.
MARILITA POZZOLI
(FOTO DE MAISE J. MARTINS, EM ITANHAÉM)
TROVAS BRASILEIRAS
Creio no poder sem fim,
que emana de Deus bendito,
eu posso não crer em mim,
mas em Deus eu acredito.
GERALDO AMÂNCIO
Quando tropeço não ligo,
nessas andanças que eu faço;
Deus olha o rumo que eu sigo
não a elegância do passo!
PEDRO ORNELLAS
A educação, ninguém meça
pela toga, ou faculdade...
Nunca acaba, sim, começa
no lar, e não tem idade.
LUIZ DAMO
Abra um livro e veja quanto
ele tem para mostrar,
sabe o livro tanto, tanto,
que esconde o céu, guarda o mar...
CARLOS RIBEIRO ROCHA
(FOTO DE SAUL RIBEIRO DOS SANTOS)
LEMBRANDO O LAVRADOR
Filemon Martins
Eu me levanto cedo e abro a janela
para ver o romper da madrugada,
a Natureza em festa se revela
numa canção de amor bem orquestrada.
O Universo, de luz, parece tela
por um pintor supremo, executada,
tornando-se elegante passarela
onde faz coro a alegre passarada.
O sol desponta, quero uma caneta,
mas a enxada é que vem para a retreta
e quer dançar comigo no roçado...
A enxada tine e estronda pelo eito,
vou capinar a terra do meu jeito
só amanhã, que agora estou cansado!
SEU PENSAMENTO
Odir Milanez da Cunha (In memoriam)
Se eu pudesse adentrar seu pensamento,
Pudesse ser seu guia vida afora,
Você jamais iria onde se chora,
Nem seria refém do sofrimento.
.
Das horas roubaria o mau intento,
Para lhe ver sorrisos desde agora,
O seu rosto aprazendo, sem demora,
Dos passeios da paz o advento!
.
Cingiria de ouro a sua aurora,
Traria amores mais ao seu momento,
Calmaria seus passos toda hora.
.
Vestiria de verso a voz do vento,
Do mar a tempestade iria embora,
Se eu pudesse adentrar seu pensamento!
.
(Livro "Prateando Versos")
HISTÓRIAS DE MÉDICOS
Filemon Martins
Essa e outras histórias me foram contadas por um médico do Rio de Janeiro. Entre 1991 e 1992 era comum alguns médicos saírem do Rio para trabalharem em São Paulo, fazendo plantões de 24 horas. Diziam eles que a saúde no Rio de Janeiro estava um caos. Muitos médicos vinham a São Paulo naquele período, trabalhavam e depois retornavam ao Rio de Janeiro. Como eu trabalhava no setor de Recursos Humanos do Hospital Municipal Dr. Alípio Corrêa Netto, Ermelino Matarazzo, tinha a oportunidade de trocar ideias com alguns profissionais da saúde.
Um deles gostava de contar suas experiências como médico, como essa que narro agora: chegou ao Pronto Socorro um senhor já aposentado com fortes dores no corpo, levado ali por alguns amigos e o médico depois de examiná-lo, o encaminhou para fazer alguns exames. Enquanto esperava os resultados dos exames que solicitara, resolveu conversar com os amigos do homem e perguntou: - vocês sabem o que ele tem? Um deles respondeu: - bom, ele tem uma casinha onde mora com a mulher e parece que tem um terreno na periferia da cidade, conta em banco deve ter também, pois ele é aposentado. O médico, então, se explicou melhor: - não, eu quero saber se ele já foi em algum hospital sentindo essas mesmas dores. – Ah, disse os amigos, sei não, doutor, sei não.
"Acomodem-se, pois o que vou
lhes contar agora é uma história de sacrifício que faz até as pedras do deserto
chorarem. Preparem seus corações para o peso do sacrifício por amor, pois nem
toda vitória se conquista com a vida, mas sim com a entrega dela.
Nas margens do Mar de Berilo,
onde as águas beijam as dunas com a força de um furacão, cavalgava Malik, um
muharib (guerreiro) cuja espada já havia cortado mil injustiças. Ele era um
homem de poucas palavras, vestindo uma armadura que carregava as cicatrizes de
muitas batalhas.
Certa manhã, após uma tempestade
que parecia a ira de Alá sobre as águas, Malik encontrou, caído na areia
molhada, um náufrago. O homem estava pálido, com os pulmões cheios de sal e a
pele queimada pelo mar. Seu nome era Yusuf, um simples mercador que perdera
tudo: seu barco, sua carga e sua família.
Malik, movido por uma
misericórdia profunda, não o deixou para os abutres. Carregou-o em seu cavalo e
o levou para uma caverna segura. Por quarenta dias, o guerreiro trocou a espada
pela colher, alimentando Yusuf com caldo de tâmaras e limpando suas feridas com
azeite e orações. Naquele isolamento, nasceu uma amizade mais forte que o aço.
Eles se tornaram irmãos de alma, compartilhando segredos sob a luz das
fogueiras.
Contudo, aquela costa era o
domínio de uma criatura das trevas: um dragão de escamas cor de fuligem, cujo
hálito de fogo transformava a areia em vidro. O monstro despertara, enfurecido
pelo cheiro de sangue humano que restara do naufrágio.
Certa tarde, enquanto buscavam
lenha, a sombra do monstro cobriu o sol. O dragão mergulhou dos céus com um
rugido que abalou a terra.
Yusuf, ainda fraco e sem armas,
paralisou de medo. Malik desembainhou sua espada de Damasco, mas sabia em
coração que aquela era uma luta que não poderia vencer apenas com força.
O dragão preparou seu sopro de
fogo final, mirando diretamente no peito de Yusuf, que estava encurralado
contra um paredão de pedra. Foi então que o dilema de Malik se apresentou:
fugir e salvar sua própria pele de herói, ou tornar-se o escudo de seu amigo.
Sem hesitar, Malik gritou e
saltou na frente de Yusuf. Ele abriu os braços, oferecendo seu corpo à chama
para que o calor não atingisse o náufrago. O fogo o envolveu como um manto mas,
num último esforço de coragem, ele cravou sua espada na garganta da fera
enquanto sua própria vida se esvaía.
O dragão caiu morto,
transformando-se em cinzas negras. Yusuf correu até Malik, cujas mãos estavam
agora frias.
— “Por que, meu irmão?”, chorou o
náufrago.
Malik sorriu fracamente, e suas
últimas palavras foram:
— “A morte é apenas uma viagem,
Yusuf. Eu dei minha vida para que a sua história não terminasse nas areias.
Viva com honra por nós dois.”
Dizem que, até hoje, naquele
ponto da praia, a areia não é amarela, mas branca como a alma de um mártir, e
que o som das ondas traz o eco de uma espada batendo num escudo, protegendo
todos os que se perdem no mar."
Mustafá baixou o olhar, por uns
instantes em respeito à memória do guerreiro, e finalizou:
Esta história nos diz, ó Sheik, é
que a verdadeira grandeza de um homem não se mede pelas batalhas que ele vence
para si mesmo, mas por aquela que ele aceita perder para que outro possa viver.
O aço da espada de Malik era forte, mas o laço de sua amizade era inquebrável.
Muitas vezes, a vida nos coloca
diante de um dragão — seja ele uma fera de fogo ou um dilema do espírito.
Naquele momento, o egoísmo nos sussurra para sermos a flecha que foge, mas a
honra nos convoca a ser o escudo que protege. Quem salva uma vida, salva o
mundo inteiro, e quem oferece a sua própria por um irmão, deixa de ser um
mortal de carne para se tornar uma estrela que guiará os navegantes nas noites
mais escuras. O corpo de Malik tornou-se cinzas, mas sua alma tornou-se o
alicerce da vida de Yusuf.
(FONTE "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)
RESTINGA MEU PAÍS
Antônio Carlos Côrtes *
RESTINGA, bairro-cidade
De povo feliz
Ponto de luz na humildade
Velha-sempre nova
Natureza exuberante
Nascente de rios de amor
No mastro alto minha bandeira
Em casas de eira e beira
Com recordações de griôs
Neste bairro musical
Nasci, cresci e finquei
Minha raiz
Bairro amado onde o sol
É idolatrado sem precisar de farol
Ruas iluminadas
Ladrilhadas de amor e calor
Teu povo te ama e te dá valor
No pulsar do coração
No toque do tambor
Para buscar quem
Mora longe.
* DA ACADEMIA RIO-GRANDENSE DE LETRAS