Maurício N. Friedrich
Maurício N. Friedrich
CORONELISMO NO ANTIGO
FUNDÃO DE BROTAS.
É preciso relembrar, no entanto, alguns aspectos geográficos desta velha cidade baiana. IPUPIARA, como hoje é denominada, está situada na CHAPADA DIAMANTINA MERIDIONAL que tem, atualmente, trinta e um municípios, destacando-se ABAIRA, ÁGUA QUENTE, ANDARAI, BARRA DA ESTIVA, BONINAL, BOQUIRA, BOTUPORÃ, BROTAS DE MACAUBAS, CONTENDAS DO SINCORÁ, IBICOARA, IBIPITANGA, IBITIARA, IPUPIARA, IRAMAIA, IRAQUARA, IATETÊ, ITUAÇU, JUSSIAPE, LENÇÓIS, MACAUBAS, MUCUJÉ, OLIVEIRA DOS BREJINHOS, PALMEIRAS, PARAMIRIM, PIATÃ, RIO DE CONTAS, RIO DO PIRES, SEABRA, TANHAÇU, UTINGA E WAGNER.
Mas Ipupiara, nem sempre pertenceu a Brotas de Macaúbas, eis que foi Distrito de Barra do Mendes em 1917, quando, a pedido de Militão, que tinha sido Prefeito (Intendente) de Brotas de 1914 a 1916, o Governador da Bahia, Antonio Muniz Aragão, tornou Barra do Mendes, município independente, pela Lei 1.203, de 21.07.1917.
Esta independência, no entanto, não durou muito tempo, porque Barra do Mendes (e Ipupiara, como seu Distrito) foi reanexada a Brotas, pela Lei 1.388, de 24.05.1920, a pedido de Horácio de Matos.
Essa Brotas já foi TERMO JUDICIÁRIO da cidade da Barra (margens do São Francisco), em 1882, de Macaúbas (1904), de Xique-Xique (1915) e Paratinga (1948), quando alcançou a sua própria independência, no sentido de Termo Judiciário.
Pois bem, é neste contexto de cidade interiorana, que fatos históricos relevantes iriam ocorrer na antiga JORDÃO DE BROTAS.
Os descendentes dos MATOS, através do Alferes JOSÉ PEREIRA DE MATOS, vieram do Tijuco, em Minas Gerais, mas eram Portugueses de origem. Este ALFERES PORTUGUÊS veio para SANTO INÁCIO, na Bahia, por volta de 1842, dedicando-se a garimpar diamantes.
Desta vila baiana, espalharam-se os seus filhos, dentre os quais, Clementino Pereira de Matos (falecido em 1911) e Quintiliano Pereira de Matos, este, pai de Horácio de Matos, estabelecendo-se ambos na região de Brotas de Macaúbas.
Militão Rodrigues Coelho nasceu no Jordão (Umbaúba), atual Ipupiara, no dia 20 de outubro de 1859, de onde saiu para Barra do Mendes, com 18 anos de idade, em 1877, deixando muitos familiares no povoado, todos vinculados às famílias Coelho e Sodré, entre os quais, o Capitão José Joaquim Sodré (Zeca Sodré), cunhado de Militão ou sobrinho, conforme alguns.
Filho de Manoel Rodrigues Coelho e Norberta Olimpia Sodré Coelho. Casou-se, primeiro, com Maria Barreto Coelho, com quem teve os filhos Ornelina, Sofia, Rosa, Adelina e Adelino. Pela segunda vez, com Maria da Glória Sodré Coelho, com quem teve os filhos Nestor, Anízio, Luiz, Alzira, Solina, Ana e Eurico.
Nasceram ambos (Horácio e Militão), em povoados diferentes, dentro do mesmo município de Brotas de Macaúbas, que era extraordinariamente grande e tinha 7.000 km2 (sete mil quilômetros quadrados), indo de Morpará (margens do Rio São Francisco) até Barra do Mendes.
Militão era 23 anos mais velho do que Horácio. Quando se enfrentaram, a partir de 1916, Militão estava com 57 anos de idade e Horácio de Matos, na juventude de seus 34 anos apenas.
O Coronel Horácio de Matos estendeu os seus domínios de Brotas de Macaúbas até Lençóis. O Coronel Militão Rodrigues Coelho passou a dominar a região de Ipupiara até Barra do Mendes.
Antes, porém, ainda muito jovem, Horácio de Matos, foi comerciante de Diamante e Carbonato, em Morro do Chapéu, na Bahia, onde recebeu o título de Tenente-Coronel da Guarda Nacional e a intimação de seu tio Clementino Matos (1911), para que retornasse à Chapada Velha (região entre Brotas e Barra do Mendes), com o objetivo de assumir definitivamente a liderança da família Matos.
É neste fogo cruzado entre os dois líderes, ambos desejosos de dominar por completo a Chapada Diamantina, que Ipupiara (Fundão ou Jordão de Brotas) passa a sofrer as investidas constantes dos dois grupos rivais.
Assim é que se dizia: A Chapada Velha (Brotas de Macaúbas e Lençóis) é de HORÁCIO DE MATOS. A Chapada Nova (Barra do Mendes e Jordão) é de MILITÃO RODRIGUES COELHO.
Daí a razão histórica por que as duas populações não se toleravam e jamais se entenderam, não havendo até hoje (2013), uma estrada digna que ligue as duas cidades, embora a distância seja de apenas 80 km.
Entre uma e outra região, ou seja, entre Brotas de Macaúbas e Barra do Mendes, encontra-se IPUPIARA, o velho Fundão ou Jordão, a 30 km de Brotas e 60 km de Barra do Mendes.
Relembre-se que, em outubro de 1914, chegou em Brotas de Macaúbas, o Delegado Regional Dr. Otaviano Saback que, em nome do Governador da Bahia, Dr. Antonio Muniz Ferrão de Aragão, nomeou o Coronel Militão Coelho, como Chefe Político e Intendente (Prefeito Municipal) de Brotas de Macaúbas.
Enquanto Militão foi a Salvador, seu substituto, Coronel Domingos Pereira mandou prender o Major Vena (1916), iniciando-se a contenda. De um lado, os seguidores do Coronel Militão e do outro, os partidários do Coronel Horácio.
Assim é que, no dia 04 de janeiro de 1916, após se tocaiar no PEGA, povoado existente entre Fundão e Brotas, o Coronel da Guarda Nacional Militão Rodrigues Coelho toma de assalto a cidade de Brotas de Macaúbas, retirando o Cartório dos Feitos Cíveis e Criminais, de seu escrivão efetivo Joviniano dos Santos Rosa que, no entanto, algum tempo depois, é gravemente ferido na CADEIA PÚBLICA DE BROTAS, para onde fora levado preso, após mandar uma Carta Aberta ao Governador do Estado, Dr. Antonio Muniz Ferrão de Aragão. Na verdade, embora alguns autores digam que o Major Vena (Joviniano dos Santos Rosa) morreu nesta ocasião, a informação não tem procedência. Ele viveu durante muitos anos, só que com a boca torta e falando com dificuldade, eis que babava muito.
Satisfeito com a tomada de Brotas de Macaúbas, Militão Rodrigues Coelho que teve o apoio do Governador da Bahia, Dr. Antonio Muniz Aragão e de alguns chefes políticos de Lençóis e de Estiva (hoje Afrânio Peixoto), retorna a Barra do Mendes, via Fundão (Ipupiara), mas é surpreendido pelos jagunços de Horácio de Matos que cercam a cidade, visto que conseguiram chegar primeiro, porque fizeram o caminho reto entre Brotas e Barra do Mendes.
Militão Rodrigues Coelho sai de Barra do Mendes, em agosto de 1919, observado pelo seu jagunço de confiança Miguel Umbuzeiro. Seu filho Nestor Rodrigues Coelho (nascido em Barra do Mendes, 20.05.1892) foi preso pelos jagunços de Horácio de Matos e devolvido à mãe, com a observação de que não era culpado pelos atos do pai.
Nestor Coelho se tornaria posteriormente também líder político da região, eis que, em 1946, elegeu-se Deputado Estadual, além de ter sido Vereador e Prefeito Municipal de Brotas de Macaúbas, a partir de 1938.
Nesta época, meu pai, ADÃO FRANCISCO MARTINS (Que havia nascido em 21.05.1915, em Ipupiara, e estava com 23 anos de idade), foi seu SECRETÁRIO MUNICIPAL, conforme documentos escritos e publicados, na mão do autor destas notas, entre os quais, o "ORÇAMENTO DA PREFEITURA MUNICIPAL DE BROTAS DE MACAÚBAS, PARA O EXERCÍCIO DE 1939"
(DECRETO-LEI 63, de 5.7.1938), impresso na LIVRARIA CATILINA, de Romualdo Santos-Livreiro Editor- Rua Portugal, 20, Salvador, Bahia, onde se lê: Prefeito Municipal - Nestor Rodrigues Coelho. Secretário Municipal - Adão Francisco Martins.
Filho de Gasparino Francisco Martins e Jovina Ribeiro Martins, neto do Coronel Isidório Ribeiro dos Santos, meu pai, Adão Francisco Martins, enquanto trabalhava na roça, aprendeu a ler com os antigos professores, "JOÃO CAPOTE" e "JOÃO PAPAGAIO". Mas, seu principal professor foi Arthur Ribeiro Sobrinho, pai do primeiro médico de Brasília, Dr. Isaque Ribeiro Barreto.
Em 1934, com 19 anos de idade, na cidade de Brotas de Macaúbas, foi nomeado Tabelião de Notas e Agente de Estatística. Casou-se em Brumado, hoje Ibitunane, em 29.10.1937, com Francolina Ribeiro Martins, tornando-se comerciante de Diamantes, em sociedade com Adelino Alves de Almeida.
Nomeado Adão Francisco Martins, Prefeito de Brotas de Macaúbas, em 1946, pelo Interventor Federal na Bahia (1946-1947), General Cândido Caldas, permaneceu no cargo de Prefeito, até abril de 1947, quando, terminada a "interventoria" na Bahia, o Governo Estadual foi passado para o Governador eleito pelo povo, Otávio Mangabeira e realizadas as eleições municipais.
Como Prefeito nomeado de Brotas, meu pai Adão Francisco Martins, construiu entre 1946 e 1947, a ponte de madeira, ainda hoje existente nos povoados de "Mourão" e "Santa Rosa", debaixo da qual não passa mais hoje (2013) nem um pingo de água, onde outrora fora um pequeno rio.
Mas, para que meu pai tomasse posse como Prefeito Municipal de Brotas, não foi fácil. Aliás, foi ele (João da Cruz Cunha) que reuniu cerca de 60 cavaleiros para garantir a posse do meu pai Adão Francisco Martins, como Prefeito de Brotas de Macaúbas, na presença do Juiz de Direito da Comarca, Dr. Sebastião, genro do Coronel João Arcanjo Ribeiro, em 1946, quando meu pai foi nomeado Prefeito, pelo Interventor Federal na Bahia, General Cândido Caldas. É que a população de Brotas, sede do município, não admitia que o prefeito nomeado viesse do JORDÃO, um dos Distritos.
Colecionou e leu obras famosas, entre as quais, a "HISTÓRIA UNIVERSAL", de César Cantu, com mais de 30 volumes, hoje em poder deste autor.
Ao longo dos anos, tornaram-se Municípios Independentes de Brotas de Macaúbas, IPUPIARA, BARRA DO MENDES E MORPARÁ.
RETORNANDO AOS DOIS CORONÉIS E CHEFES POLÍTICOS, Militão Rodrigues Coelho e Horácio de Matos.
Conforme seus descendentes, teria passado pelas serras de Uibaí, Central, Tiririca, Xique-Xique e Pilão Arcado.
O FORTE VERMELHO que era o reduto mais perigoso da praça de guerra de Barra do Mendes, já tinha sido totalmente destruído pelos jagunços de Horácio de Matos que sobre o forte lançaram violento ataque, de dinamite e granada.
Quando da reunião da Comissão Estadual de Trégua, presidida pelo parente do Coronel Duda Medrado, de Mucugê, o político José Joaquim Landulfo da Rocha Medrado, a pedido do Governador Dr. Antonio Muniz Ferrão de Aragão, o Coronel Horácio de Matos exigiu que Militão fosse afastado da política local e que a SEDE do município de Barra do Mendes fosse transferida para o Jordão.
Apesar da importância dos dois, Horácio Queiroz de Matos e Militão Rodrigues Coelho não são BIOGRAFADOS no livro BAIANOS ILUSTRES, de Antonio Loureiro de Souza (editado em 1979) ou DICIONÁRIO HISTÓRICO-BIOGRÁFICO BRASILEIRO (2001), da Fundação Getúlio Vargas e nem, em nenhuma das enciclopédias nacionais, Delta, Barsa, Larousse, Mirador, Abril, Koogan/Houaiss, Larousse Cultural etc. É verbete do DICIONÁRIO BIOBIBLIOGRÁFICO REGIONAL DO BRASIL, de Mário Ribeiro Martins, via INTERNET, dentro de ENSAIO, no site www.usinadeletras.com.br
Vitorioso, Horário de Matos tornou-se o líder mais forte da CHAPADA DIAMANTINA, estabelecendo o seu QUARTEL GENERAL num casarão, ainda hoje existente, ponto turístico de real interesse, na cidade de LENCÓIS, interior da Bahia.
De lá, reuniu tropas para invadir Salvador, a Capital Baiana, em 1920, só não o fazendo, em virtude de acordo feito com o Governo Federal.
Embora tivesse duas filhas com uma velha companheira chamada Laura, Horácio de Matos, com 39 anos de idade, resolveu casar-se "de papel passado" com AUGUSTA, que se tornaria AUGUSTA MEDRADO MATOS, filha do riquíssimo Coronel Duda Medrado (Antonio Landulfo da Rocha Medrado), na cidade de Mucujê, região da Chapada Diamantina, em 1922.
Em 1926, sob a orientação do General Mariante (Álvaro Guilherme Mariante), REPRESENTANTE DO MINISTÉRIO DA GUERRA, o Coronel Horácio de Matos, com 560 homens armados lança-se contra a COLUNA PRESTES, Comandando o Batalhão Patriótico Lavras Diamantinas, ao lado de outros Comandantes, entre os quais, o Coronel Abílio Wolney, do Norte de Goiás (Dianópolis), que estava se deslocando, com 300 soldados de Cabrobó, em Pernambuco, para Leopoldina, em Minas Gerais, além de Franklin de Albuquerque, de Pilão Arcado.
Todos estes homens, no entanto, após perseguirem duramente os passos dos guerreiros de Prestes (chamados pelo povo de "OS REVOLTOSOS", pelos sertões do Brasil, especialmente Alagoas, Ceará, Pernambuco, Piauí, Bahia e Minas Gerais, o que ocorreu até outubro de 1926, quando a COLUNA penetrou no Mato Grosso e alcançou a BOLIVIA, retornaram às suas cidades de origem.
Quanto a Horácio de Matos, no dia 15 de maio de 1931, no Largo do Acioli, em Salvador, ao passar, descuidado e terno com a filha mais velha Horacina (do casamento com Augusta), de seis anos de idade, pela mão, recebe covardemente pelas costas, três tiros de revólver, disparados por Vicente Dias dos Santos, que fora contratado por Manuel Dias Machado (também conhecido como José Machado), tio da viúva do Major João da Mota Coelho que morrera em combate às portas da cidade de Lençóis, em 1925, sendo que Horácio de Matos fora responsabilizado por esta morte.
O criminoso Vicente Dias dos Santos foi condenado pelo Júri, em Salvador, no primeiro julgamento, a 21 anos de prisão, mas no segundo julgamento, dois anos depois, foi ABSOLVIDO. Algum tempo depois, intoxicado por arsênico, na água que bebia, foi internado no Hospital Militar, onde morreu.
Assim, à história de Ipupiara, antigo Fundão ou Jordão, a partir de 1915 e em anos diferentes, estão vinculados vários nomes ao CORONELISMO: Capitão José Joaquim Sodré, cunhado de Militão ou sobrinho, conforme alguns; Capitão Gasparino Barreto, Delegado de Polícia; Antonio Lucas da Costa, Sargento da Polícia Militar; Major Avelino Barreto, Coletor Estadual; Bertoldo Saldanha, Escrivão de Polícia; Capitão Marcolino Martins, Subdelegado do Distrito de Gameleira; Tenente Tibúrcio Durães, Suplente de Delegado de Polícia; Capitão Ezequiel de Matos, irmão de Horácio de Matos; Benevenuto Barreto, Subdelegado de Polícia.
Seu irmão mais velho, Coronel Isidório Ribeiro dos Santos, tornou-se COMANDANTE do 298. BATALHÃO DE INFANTARIA DA GUARDA NACIONAL, sediado na Chapada Velha (região de Brotas).
Passadas as lutas regionais, os dois irmãos Coronéis, estabelecidos na cidade de Ipupiara, na Bahia, terminaram por constituir numerosa família, de que o autor desta nota é descendente, sendo BISNETO do Coronel Isidório Ribeiro dos Santos.
(LIVRO "CORONELISMO NO ANTIGO FUNDÃO DE BROTAS", - 5ª EDIÇÃO, 2010, PÁGINAS 11/33)
VISITA SACANA
José Feldman
TROVA
Chega a causar agonia,
uma visita sacana,
que vem pra passar um dia,
passa mais de uma semana!
ADEMAR MACEDO (1951 - 2013)
Era uma vez a pacata residência de Juvenal e Lurdes, um
casal que valorizava o silêncio e o café coado na hora. A paz reinava até que,
numa terça-feira chuvosa, um Fiat Uno 2002 estacionou na calçada. Dele saltou o
Tio Genivaldo, carregando uma mala de couro descascada e um sorriso que ocupava
todo o rosto.
— Ô de casa! — gritou Genivaldo, entrando sem bater. — Só
vim entregar um queijo pra Lurdes e já vou embora! Juro por Deus que é coisa de
um dia só, tenho que cuidar das minhas galinhas lá em Xerém.
O "um dia" começou com Genivaldo ocupando o sofá.
Na quarta-feira, ele descobriu que o chuveiro da suíte era "uma
maravilha" e que a Wi-Fi do Juvenal era "mais rápida que
pensamento". Na quinta, o queijo que ele trouxe — e que já estava com um
cheiro suspeito — foi devorado pelo próprio Genivaldo no café da manhã, junto
com meio quilo de mortadela que Lurdes guardava para o jantar.
A agonia de Juvenal começou a subir pelas paredes quando,
na sexta-feira, Genivaldo apareceu na sala de cueca samba-canção, assistindo ao
programa de fofoca no canal da TV.
— Genivaldo, meu querido — tentou Juvenal, com a voz
tremendo de educação — as galinhas em Xerém não estão com fome, não?
— Que nada, Juvenal! Pedi pro vizinho jogar um milho. A
hospitalidade de vocês é tão boa que eu até cancelei o ônibus de volta. Vou
ficar pro churrasco de domingo!
O problema é que o domingo passou, a segunda chegou, e
Genivaldo já estava agindo como o síndico do imóvel. Ele começou a dar palpites
na cor da parede e sugeriu que Lurdes trocasse o amaciante das roupas dele,
pois o atual "dava coceira nas dobrinhas".
Na quarta-feira seguinte — completando oito dias de
"um dia só" — a casa estava em estado de sítio. Juvenal e Lurdes
sussurravam na cozinha como conspiradores.
— Ele instalou uma rede na varanda, Juvenal! — choramingou
Lurdes. — Ele disse que a luz da manhã é boa pra tratar a sinusite!
— Calma, mulher. Tenho um plano.
Naquela noite, Juvenal desligou o disjuntor da casa e
começou a tossir perto de Genivaldo, dizendo que a casa estava com uma
infestação de cupins carnívoros e que a vigilância sanitária chegaria ao
amanhecer para dedetizar tudo com um gás tóxico, porém "muito
eficiente".
Bastou uma menção a "gás tóxico" para Genivaldo
pular da rede. Em menos de dez minutos, a mala de couro estava fechada.
— Olha, gente, adoro vocês, mas lembrei que esqueci o ferro
de passar ligado lá em Xerém! — mentiu o Tio, saindo em disparada para o Fiat
Uno sob o luar.
O silêncio finalmente voltou. Juvenal suspirou, sentou no
sofá agora livre e recitou para a esposa:
— Viu, Lurdes? Visita é igual a peixe: depois de três dias,
começa a cheirar mal. Mas essa aí já estava virando bacalhau!
MENSAGEM
Walt Disney (Walter Elias Disney 1901-1966) Walter Elias Disney (Chicago, 5 de dezembro de 1901 — Los Angeles, 15 de dezembro de 1966)
“E assim, depois de muito esperar, num dia como outro qualquer, decidi triunfar… Decidi não esperar as oportunidades e sim, eu mesmo buscá-las. Decidi ver cada problema como uma oportunidade de encontrar uma solução. Decidi ver cada deserto como uma possibilidade de encontrar um oásis. Decidi ver cada noite como um mistério a resolver. Decidi ver cada dia como uma nova oportunidade de ser feliz. Naquele dia descobri que meu único rival não era mais que minhas próprias limitações e que enfrentá-las era a única e melhor forma de as superar. Naquele dia, descobri que eu não era o melhor e que talvez eu nunca tivesse sido. Deixei de me importar com quem ganha ou perde. Agora me importa simplesmente saber melhor o que fazer. Aprendi que o difícil não é chegar lá em cima, e sim deixar de subir. Aprendi que o melhor triunfo é poder chamar alguém de”amigo”. Descobri que o amor é mais que um simples estado de enamoramento, “o amor é uma filosofia de vida”. Naquele dia, deixei de ser um reflexo dos meus escassos triunfos passados e passei a ser uma tênue luz no presente. Aprendi que de nada serve ser luz se não iluminar o caminho dos demais. Naquele dia, decidi trocar tantas coisas… Naquele dia, aprendi que os sonhos existem para tornar-se realidade. E desde aquele dia já não durmo para descansar… simplesmente durmo para sonhar.”
(Fonte ALMANAQUE CHUVA DE VERSOS, 392, EDITOR JOSÉ FELDMAN)
APARÍCIO FERNANDES
DESABAFO
Filemon
Martins
Não reclamo da vida turbulenta e triste
que a predestinação me faz levar, talvez,
nem quero levantar a voz ou o dedo em riste
para acusar alguém de tanta insensatez.
A consciência cruel por certo não resiste
fazer o bem, amar, viver com honradez.
É próprio do invejoso que na falta insiste
muito disfarce, engodo, mágoa e morbidez.
O calvário de Cristo nos mostrou o quanto
a Humanidade é mesmo pobre e desprezível,
a ponto de matar um verdadeiro santo...
E desde então as coisas só se complicaram,
o aumento dos Pilatos se tornou visível
e os Judas, com certeza, se multiplicaram!