sexta-feira, 17 de abril de 2026

O JOGO DAS ILUSÕES - JOSÉ FELDMAN

 



O JOGO DAS ILUSÕES

José Feldman


TROVA DE SOLANGE COLOMBARA


O mentiroso pensou

ter enganado a donzela...

Por interesse casou,

mas quem o enganou, foi ela!




Na pitoresca vila de São Lucas, onde as casas coloridas se alinhavam como um arco-íris e as flores perfumavam o ar, havia um jovem chamado Álvaro. Ele era charmoso e tinha um sorriso que derretia corações. No entanto, por trás daquela fachada encantadora, Álvaro carregava um segredo: ele era um mentiroso contumaz. Sua habilidade de enganar os outros era quase uma arte, e ele usava isso para conseguir o que desejava.

Certa vez, durante uma festa à beira do rio, Álvaro conheceu Isabela, uma donzela de beleza estonteante e inteligência aguçada. Desde que se olharam pela primeira vez, ele ficou fascinado. Isabela não era apenas uma moça qualquer, ela tinha uma aura de mistério e uma sagacidade que o intrigava. 

Mas, como sempre, Álvaro viu em Isabela uma oportunidade. Ele decidiu que a conquistaria não por amor, mas por interesse: seu pai, um próspero comerciante, possuía uma fortuna considerável.

Álvaro começou a cortejá-la, usando todo o seu charme e persuasão. Ele contava histórias fantásticas sobre suas viagens, suas conquistas e seus planos grandiosos para o futuro. Isabela, no entanto, era mais esperta do que ele imaginava. Embora se sentisse lisonjeada pela atenção, ela percebia que havia algo de superficial nas promessas dele. Mas o jogo de sedução a divertia, e ela decidiu seguir na dança.

Com o decorrer dos meses, ele foi se envolvendo cada vez mais com Isabela, mas sempre com um pé atrás. Ele a via como um meio para alcançar seus objetivos. Quando finalmente pediu sua mão em casamento, ele estava convencido de que tinha enganado a moça. 

Casaram-se em uma cerimônia belíssima, rodeados por amigos e familiares, e Álvaro não podia deixar de pensar o quanto foi bem sucedido o seu plano.

No entanto, a verdadeira trama começou a se desenrolar após o casamento. Isabela, que parecia ser a moça ingênua que ele pensava ter enganado, revelou-se uma mulher astuta e determinada. Ela não era apenas uma herdeira de um grande patrimônio, era também uma empresária perspicaz, bem informada sobre os negócios de seu pai e sobre como o mundo funcionava. Aos poucos, ela começou a perceber que Álvaro não era o homem que ele havia pintado em suas histórias.

Certa noite, enquanto ele se gabava de seus “feitos” em uma conversa, Isabela decidiu dar o troco. Com um sorriso enigmático, ela começou a contar histórias sobre suas próprias "aventuras". Falou sobre como havia viajado por terras distantes, feito investimentos inteligentes e se envolvido em negócios lucrativos. 

Álvaro, que estava acostumado a ser o centro das atenções, começou a se sentir desconfortável. Ele percebeu que Isabela não era uma moça desavisada, mas uma mulher que poderia, de fato, ser sua parceira em vez de apenas um troféu.

As semanas se passaram, e ele se viu cada vez mais encurralado. Ela começou a administrar os bens do casal com uma habilidade que ele nunca imaginara. As histórias de suas "aventuras" se tornaram realidade, e logo ele percebeu que sua esposa era mais do que apenas uma herdeira: ela era uma força a ser reconhecida. O que ele via como uma conquista se transformou em um desafio, e a verdade começou a emergir.

Certa manhã, enquanto Álvaro revisava as contas da casa, encontrou um documento que o deixou intrigado. Era um contrato de sociedade que Isabela havia assinado com um grupo de investidores. Ao ler os detalhes, percebeu que ela não apenas conhecia o valor do dinheiro, mas também sabia como multiplicá-lo. O que ele pensava ser uma vida de luxo às custas da fortuna dela se tornara uma parceria em que ele não tinha controle.

Com o passar do tempo, a confiança que ele tinha em sua própria capacidade de manipulação começou a desmoronar. Sentia-se cada vez mais impotente e, em suas tentativas de manter a aparência de um marido bem sucedido, começou a mentir indiscriminadamente. Mas, para a sua surpresa, ela estava sempre um passo à frente. Sabia de suas mentiras e, em vez de confrontá-lo de imediato, decidiu usar isso a seu favor.

Certa noite, enquanto Álvaro tentava impressionar os amigos em um jantar, ele começou a contar uma história que envolvia uma conquista de negócios que, na verdade, nunca havia acontecido. Isabela, com um sorriso no rosto, interrompeu-o. “Álvaro, você se esqueceu de mencionar aquele investimento que fizemos juntos, não é? O que você está contando é um pouco diferente da realidade.” 

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Os amigos de Álvaro trocaram olhares confusos, e ele percebeu que a máscara estava prestes a cair.

A partir daquele momento, ela começou a tomar as rédeas da situação. Ela não fez um escândalo, em vez disso, usou sua inteligência e astúcia para transformar a dinâmica do relacionamento. Com um jeito gentil, mas firme, começou a fazer com que Álvaro percebesse o valor da honestidade. Ele, que pensava ter enganado a moça, agora se via engolido por suas próprias mentiras.

Isabela não apenas se tornou a administradora dos bens do casal, mas também a mentora de Álvaro. Com paciência e compreensão, ela o ensinou sobre a importância da transparência, da verdade e da parceria. Ele começou a perceber que suas mentiras não o protegiam, mas o isolavam. A vida a dois se transformou em um aprendizado mútuo, onde ambos se tornavam melhores a cada dia.

Com o tempo, ele aprendeu a ser mais verdadeiro, não apenas consigo mesmo, mas também com Isabela. O amor que antes parecia baseado em interesses tornou-se uma relação autêntica, onde ambos se apoiavam e cresciam juntos. Ele começou a admirar a força e a determinação de sua esposa, e, mesmo que o início de sua história tivesse sido repleto de erros, o final prometia ser diferente.

Anos depois, quando olhavam para trás, ambos riam das artimanhas que haviam usado no início de seu relacionamento. Álvaro percebeu que, embora tivesse tentado enganar Isabela, foi ela quem realmente o havia ensinado sobre o amor verdadeiro. Em vez de um conto de fadas, sua história era uma narrativa de crescimento, de superação e de aprendizado mútuo.

E assim, a lição ficou clara: as mentiras podem enganar por um tempo, mas a verdade sempre se revela. Na dança do amor, quem tenta manipular pode acabar sendo o manipulado, e o que parece um jogo de interesses pode se transformar em uma parceria genuína.

 

           

 


VITA NUOVA - MANUEL BANDEIRA

 


                                        (FOTO DE SANDRO, CARRANCA, BAHIA)


VITA NUOVA

Manuel Bandeira


De onde me veio esse tremor de ninho

A alvorecer na morta madrugada?

Era todo o meu ser... Não era nada,

Senão na pele a sombra de um carinho.


Ah, bem velho carinho! Um desalinho

De dedos tontos no painel da escada...

Batia a minha cor multiplicada,

- Era o sangue de Deus mudado em vinho!


Bandeiras tatalavam no alto mastro

Do meu desejo. No fervor da espera

Clareou a distância o súbito alabastro


E na memória em nova primavera,

Revivesceu, candente como um astro,

A flor do sonho, o sonho da quimera.


(LIVRO "GRANDES SONETOS DA NOSSA LÍNGUA", PÁGINA 169)

ESTRANHAS LÁGRIMAS - FELIX PACHECO

 




ESTRANHAS LÁGRIMAS

Felix Pacheco


Lágrimas... Noutras épocas verti-as,

Não tinha o olhar enxuto, como agora.

- Alma, dizia então comigo, chora,

Que assim minorarás as Agonias!


Ah, quantas vezes, pelas faces frias,

Umas, outras, após, a toda hora,

Gota a gota rolando, elas, outrora,

Marcaram noites e marcaram dias!


Vinham do Oceano d'Alma imenso e fundo,

De espuma as ondas salpicando o flanco,

Numa fremência amargurada e louca.


Nos olhos hoje as Lágrimas estanco...

Rolam, porém, sem que as descubra o Mundo,

Sob a forma de Risos, pela boca!


(LIVRO "GRANDES SONETOS DA NOSSA LÍNGUA", PÁGINA 123)

SONETO DE MÁRIO QUINTANA

 




SONETO
Mário Quintana

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
verde!... E que leves, lindas filigranas
desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos de luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando.


(DO SITE FALANDO DE TROVA)














O CORAÇÃO SONHADOR - JOSÉ FELDMAN

 




O CORAÇÃO SONHADOR

José Feldman


TROVA DE THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA


Envergonhado e sem jeito,

meu coração sonhador

conserta o ninho desfeito

enquanto espera outro amor!



Em uma pequena cidade à beira do mar, onde as ondas sussurravam segredos e o sol se despedia em cores vibrantes, vivia um jovem chamado Rafael. Ele era conhecido por seu espírito sonhador e sua sensibilidade à flor da pele. Com seus cabelos bagunçados e um olhar que carregava a luz do horizonte, Rafael caminhava pelas ruas da cidade com um caderno sempre à mão, onde anotava pensamentos, poesias e fragmentos de suas esperanças.

Ele acreditava no amor como algo mágico, um laço que transcende a lógica e as barreiras do cotidiano. Desde pequeno, ele sonhara em encontrar sua alma gêmea, aquela pessoa que faria seu coração bater mais forte e transformaria sua vida em uma aventura. Porém, a realidade o havia ensinado que os amores nem sempre são eternos. Recentemente, ele havia passado por um término doloroso com Lúcia, uma jovem que iluminou sua vida como poucos. A separação foi abrupta, deixando um ninho desfeito em seu coração, repleto de memórias e promessas não cumpridas.

Sentado em seu quarto, cercado por livros e poemas, Rafael sentia-se envergonhado e sem jeito. A dor da perda ainda pulsava em seu peito, mas, ao mesmo tempo, havia uma chama de esperança que se recusava a se apagar. Ele sabia que precisava consertar o ninho que havia se desfeito, não apenas para curar suas feridas, mas também para se abrir a novas possibilidades. O amor poderia ser um ciclo, e ele estava determinado a não deixar que o medo do fracasso o impedisse de voar novamente.

Os dias passaram, e ele começou a se dedicar a si mesmo, a recuperar o que havia se perdido na relação anterior. Ele se permitiu sentir a dor, mas também se permitiu sonhar. Começou a frequentar uma nova cafeteria na cidade, um lugar aconchegante e repleto de pessoas criativas. Ali, entre risos e conversas, ele começou a se abrir para o mundo. O cheiro do café fresco e o som das xícaras se chocando criavam um ambiente acolhedor, onde ele podia se perder em pensamentos e anotações.

Em uma dessas manhãs ensolaradas, enquanto rabiscava algumas linhas de poesia, uma jovem entrou na cafeteria. Seu nome era Raquel, e sua presença iluminou o ambiente. Ela tinha um sorriso contagiante e um olhar curioso, que imediatamente capturou a atenção de Rafael. Eles começaram a conversar, e, a cada trocadilho e risada, ele sentia seu coração despertar lentamente. Era como se ele estivesse consertando seu ninho desfeito, colocando de volta cada pedaço que havia se espalhado com a dor da separação.

Raquel e Rafael começaram a se encontrar regularmente, trocando histórias sobre suas vidas, sonhos e desejos. A conexão entre eles cresceu de maneira orgânica, como uma planta que se adapta ao ambiente. Rafael se sentia mais vivo e mais inspirado do que nunca. Ele redescobriu a alegria de escrever, agora fluindo com versos que falavam sobre recomeços e a beleza de se abrir novamente para o amor.

No entanto, mesmo com a felicidade renascente, Rafael não conseguia esquecer completamente Lúcia. A saudade ainda o acompanhava em momentos de solidão, e ele se perguntava se estava sendo justo com Raquel ao permitir que essa sombra ainda existisse em seu coração. Era um dilema que o deixava angustiado: como poderia amar plenamente outra pessoa se ainda havia espaços ocupados por memórias passadas?

Uma noite, enquanto caminhava pela praia com Raquel, ele decidiu que era hora de ser honesto. Com o som das ondas como pano de fundo, ele compartilhou suas inseguranças. “Raquel, eu estou tão feliz por estar aqui com você, mas preciso te contar que ainda sinto a falta de minha ex. É um sentimento que não sei como lidar, e temo que isso possa afetar o que estamos construindo juntos.” 

A brisa do mar trouxe um silêncio momentâneo, e Rafael sentiu seu coração apertar.

Ela olhou para ele com compreensão: “Rafael, é normal carregar algumas bagagens, mas o que importa é o que decidimos fazer com elas. O amor não é uma competição; é um espaço onde podemos crescer juntos. Se você está disposto a abrir seu coração para mim, estarei aqui, ao seu lado.” 

Suas palavras foram como um bálsamo para as feridas dele. Percebeu que, embora as sombras do passado ainda estivessem presentes, a luz do novo amor poderia iluminá-las.

Com o passar do tempo, ele aprendeu a equilibrar seus sentimentos. Ele não precisava apagar Lúcia de sua memória, mas poderia permitir que Raquel ocupasse um lugar especial em seu coração. A cada encontro, a cada conversa, seu ninho se tornava mais forte, mais acolhedor. Ele dedicou-se a construir uma nova história, onde o amor não era uma substituição, mas uma continuidade.

O que começou como uma angústia se transformou em um aprendizado profundo sobre amor, perda e renovação. Rafael percebeu que a vida é feita de ciclos, e cada amor traz suas lições. Ele aprendeu a olhar para suas experiências não como fardos, mas como parte da bela tapeçaria que compõe sua existência.

E assim, enquanto o sol se desvanecia no ocaso em mais um dia, ele sentiu seu coração sonhador pulsar com uma nova esperança. Sabia que estava em um caminho de cura, e que, enquanto consertava seu ninho desfeito, estava também se preparando para voar mais alto. Afinal, o amor verdadeiro não se apaga; ele se transforma, se adapta e, na maioria das vezes, nos ensina a amar de uma maneira ainda mais profunda.

 

 


TROVAS DE J. G. DE ARAÚJO JORGE

 


                                            (FOTO DE SANDRO, IPUPIARA, BAHIA)


TROVAS DE J. G. ARAÚJO JORGE


Amor que sofro, que almejo,
mata-me logo de vez!
Longe que estejas, te vejo,
ao teu lado, nem me vês...

Ao ler uma bela trova
depois que pronta ficou,
- quem calcula a dura prova
por que o poeta passou?

A poesia que desejo
tiro de mim como aquela
cantiga do realejo
se alguém roda a manivela…

A saudade é este vazio
que a vida, ao partir, deixou;
rio seco, que foi rio,
porque a água já secou...

A saudade, intimamente,
devagarzinho nos rói;
é uma emoção diferente,

como uma dor que não dói.


(ENCANTO DE TROVAS, TOMO VIII, VOL. II, JOSÉ FELDMAN)

TROVAS DE HILTON DA CRUZ GOUVEIA

 


                                       (JARDIM DE LALINHA, IPUPIARA, BAHIA)



TROVAS DE HILTON DA CRUZ GOUVEIA (PALMARES-PE)


Deus é grande, diz o verbo.
Chega tarde, mas não falta.
Então Deus diz: eu averbo
aquele que não se exalta.

A cruz que sempre carrego...
Ela também me conduz.
Tem sua origem – não nego –
no madeiro de Jesus.

Fala-se tanto de amor,
porém, ninguém o pratica.
O amor é sofrer a dor
de uma saudade que fica.

Sem trabalho e educação
o tempo não vale nada...
Saudade no coração:
- eis o fim da caminhada.


(OS MEUS VERSOS PEREGRINOS – SETEMBRO/2001)

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A CAMINHADA - FILEMON MARTINS

 




A CAMINHADA

Filemon Martins

 

Recordo, com prazer, a caminhada

e amigos que ganhei estrada afora.

Quantas vezes fiquei na encruzilhada

tentando achar a luz de nova aurora.

 

Passei manhãs ao som da passarada,

cavando a terra e pondo sem demora

a semente na terra abençoada,

enquanto a enxada tine a voz sonora.

 

Depois, parti. Tornei-me um peregrino

e a saudade marcou o meu destino

deixando-me profunda cicatriz...

 

Hoje, não deixo mágoas nem gemidos,

apenas flores  -  versos coloridos,

e a sensação de ser muito feliz!

 


TROVAS DE DÁGUIMA VERÔNICA

 




TROVAS DE DÁGUIMA VERÔNICA


Ao soltar pipa, a criança
desata as peias do sonho
e acende a luz da esperança
para um futuro risonho.

Coração duro, fechado,
prenhe de angústia e rancor,
constrói cárcere privado
com grades feitas de dor.

Coração, vê se te aquieta
não bebas desse pecado,
cuidado, que ele é poeta...
não fiques apaixonado!

Da minha terra encantada
eu guardo a estação mais bela,
o canto da passarada
e os meus sonhos de janela!

Deixaste sobre o deserto
pegadas de tua andança;
o vento virá, por certo,
dissipar qualquer lembrança.


(ENCANTO DAS TROVAS, VOL. III, JOSÉ FELDMAN)

A ANGÚSTIA DA NOITE - JOSÉ FELDMAN

 




A ANGÚSTIA DA NOITE

José Feldman


TROVA DE WANDA DE PAULA MOURTHÉ


Esta angústia indefinida,

que sempre à noite me invade

são sombras próprias da vida

ou disfarces da saudade?



Sempre que a noite se aproxima, uma sensação estranha começa a se instalar em meu peito. É uma angústia indefinida, como um sussurro distante que se transforma em grito à medida que a escuridão se intensifica. As luzes da cidade, que durante o dia vibram em cores e movimento, agora se tornam sombras longas e inquietantes. O dia, com suas distrações e compromissos, parece uma lembrança distante, e o silêncio da noite traz à tona tudo o que tentei esconder.

Às vezes, me pergunto se essa angústia é apenas uma parte da vida. São sombras próprias da existência humana, aquelas que vêm à tona quando nos encontramos sozinhos, com nossos pensamentos e medos? Ou seriam, na verdade, disfarces da saudade, vestígios de algo ou alguém que deixamos para trás? Essas questões dançam em minha mente enquanto a noite avança, como espectros que se recusam a se dissipar.

A saudade é uma palavra que carrega um peso imenso. Não se trata apenas de sentir falta de alguém; é uma mistura de amor, nostalgia e dor, um sentimento que se entranha nas fibras da nossa alma. É como um perfume que se espalha pelo ar, lembrando-nos de momentos passados, de risos compartilhados e lágrimas derramadas. Às vezes, a saudade aparece na forma de memórias felizes, outras vezes, como um eco triste de algo que não pode ser recuperado.

Na calada da noite, as sombras parecem se agigantar. Lembro-me de pessoas que passaram pela minha vida, de amores que se foram e de sonhos que não se realizaram. A escuridão se torna um espaço fértil para a reflexão, mas também para a dor. É nesse momento que percebo como a vida é efêmera, como tudo pode mudar em um instante. Um olhar, uma palavra, uma decisão, e tudo se transforma. A angústia que sinto não é apenas pela perda, mas pela inevitabilidade da mudança.

Os poetas muitas vezes falam sobre a noite como um tempo de introspecção e inspiração. Eles encontram beleza nas sombras, nas incertezas e nas perguntas sem respostas. Mas, para mim, a noite traz um peso que é difícil de suportar. A angústia se transforma em um companheiro incômodo, uma presença que não me deixa em paz. É como se as paredes do meu quarto se tornassem testemunhas silenciosas das minhas inquietações, absorvendo cada suspiro e cada lágrima que escorrega pelo rosto.

Certa vez, conversando com um amigo, compartilhei essa sensação. Ele, com a sabedoria de quem já viveu muitas noites insones, me disse que a angústia é, muitas vezes, um sinal de que estamos vivos. “É a nossa alma pedindo para ser ouvida”, ele disse. “Quando a noite chega, somos forçados a confrontar o que está dentro de nós. A saudade, a dor, a alegria – tudo isso faz parte da experiência humana.” Suas palavras ressoaram em mim como um refrão familiar, mas, àquela altura, eu ainda lutava para aceitar essa verdade.

Com o tempo, comecei a ver a angústia sob uma nova luz. Ela não era apenas um fardo; era também uma oportunidade de reflexão. A cada noite que passava, eu me permitia sentir, mesmo que isso significasse mergulhar em memórias dolorosas. Cada sombra se tornava uma chance de entender melhor a mim mesmo e ao que havia perdido. Descobri que a saudade não era uma inimiga, mas uma parte intrínseca do amor. Amar significa se abrir para a possibilidade da perda, e a saudade é um tributo a isso.

As noites se tornaram um espaço de aprendizado. Comecei a escrever. As palavras fluíam como um rio, levando com elas a dor e a angústia. As páginas se tornaram um refúgio, um lugar onde eu poderia colocar em palavras o que sentia. Escrevi sobre as pessoas que amei, sobre os momentos que me marcaram e sobre as lições que aprendi ao longo do caminho. O ato de escrever transformou a angústia em criação, e a saudade em arte.

Agora, quando a noite chega e a angústia tenta me invadir, respiro fundo e lembro-me de que essas sombras fazem parte da vida. Elas me lembram que sou humano, que sou capaz de amar e de sentir profundamente. Em vez de lutar contra a angústia, aprendi a acolhê-la. É um convite para explorar meu interior, para entender que cada emoção, mesmo as mais desafiadoras, são parte do que significa viver plenamente.

E assim, na quietude da noite, quando as estrelas brilham como testemunhas silenciosas, eu me permito sentir. As sombras podem ser intimidadoras, mas também são belas. Elas contam histórias de amor, de perda e de crescimento. A angústia, com seu peso, é uma amiga difícil, mas leal, que me lembra que a vida é um mosaico de experiências, cada uma contribuindo para a tapeçaria complexa que sou.

No final, percebo que as noites não são apenas momentos de solidão, mas oportunidades para encontrar significado nas sombras e nas saudades. E, enquanto a angústia me invade, eu a abraço, sabendo que ela é parte de minha jornada, uma parte que me ajuda a lembrar que, apesar de tudo, estou vivo.

 

           

 


QUEM FOI MIGUEL RUSSOWSKY - FILEMON MARTINS

 



 

QUEM FOI MIGUEL RUSSOWSKY?

(1923 – 2009)

Filemon Martins

 

 

Sábado, dia 03 de outubro de 2009 faleceu em Joaçaba, SC, o poeta Miguel Russowsky. Essa triste notícia me foi transmitida no dia 5/10/2009, via e-mail, por Angela Togeiro, poetisa e prosadora residente em Belo Horizonte - MG. Mas, afinal, quem foi Miguel Kopstein Russowsky?

Nosso ilustre Dr. Miguel Russowsky nasceu a 21/06/1923 em Santa Maria, Rio Grande do Sul, filho de Jacob Russowsky e Eva Russowsky. Casou-se com Vitória T. Russowsky, com quem teve quatro filhos: Leila Brunoni, June Braganholo, Miguel Igor Russowsky e Silvia Herter.

Estudou na Escola São José, em Jaguari e no Colégio Estadual Santa Maria, entre 1933 e 1940, tendo se formado em medicina em 1946, na URGS, em Porto Alegre.

Transferiu-se, posteriormente, para Joaçaba-SC, onde se tornou médico-empresário. Fundador e Diretor do Hospital São Miguel, de Joaçaba-SC, um dos maiores da região. Exerceu com denodo a medicina livre, atuando como clínico e cirurgia geral, até 2006. Mas, Miguel não era só médico, foi enxadrista, com passagens nos jogos abertos de Santa Catarina, Empresário e proprietário de Hotéis, Cinemas e, sobretudo, um poeta-literato brilhante.

Um campeão em concursos nacionais e internacionais de poesias e trovas. Foi assim que conquistou uma legião de amigos e admiradores pelo Brasil e exterior. Sonetista por excelência e trovador dos mais fluentes, publicou vários livros, entre outros: CÉU D’ESTRELAS, O JULGAMENTO DE TIRADENTES, O SEGREDO DO PÂNTANO, POESIAS MELANCÓLICAS E OUTRAS POESIAS.

Nove (9) vezes Primeiro Prêmio em Sonetos, em concursos nacionais, e várias vezes em outras colocações. Onze (11) Primeiros Prêmios em concursos nacionais de poesias. Ocupou a Cadeira nº 28 da Academia Sul-Brasileira de Letras. Membro da UBT, da Casa do Poeta “Lampião de Gás”, do Movimento Poético, em São Paulo e outras Entidades Lítero-culturais, além de colaborador de jornais, revistas, como o FANAL, ESTRO, A FIGUEIRA, entre outros alternativos.

O poeta sempre foi um mestre em tudo quanto fez. Fazia elogios e críticas construtivas quando necessário. Em sua última correspondência a este autor, o mestre Miguel, com sua letra de médico, me dizia: “Lendo o seu O NASCIMENTO DE UM SONETO (Ótimo!! Nota 10!) adivinhei que você é um irmão, e por isso, é meu amigo, tá? Tivemos inspiração semelhante, pois este tema tenho explorado com frequência que me parece da mesma Mãe.”

E continua a fazer comentários sobre as minhas publicações em A FIGUEIRA: “Alvorecer, tem os dois tercetos finais brilhantes. Gostei, mas adoraria mais se você aceitasse o desafio de usar rimas mais ricas. Coisas de Amor tem um jeito bom, mas não está tão linear, como os demais e penso que – NÃO TEMA RIMAS DIFÍCEIS, TREINE, REFAÇA! Capacidade você tem.” E o professor Miguel não parou por aí, “Reminiscência é uma joia. Você é bom mesmo. SE TREINAR, VEZ POR OUTRA, OUTROS SONS VAI CHEGAR A MESTRE! SEJA MENINO.” Desde então, venho tentando seguir as lições do mestre.

Transcrevi estas notas para mostrar o quanto me abalou a morte do poeta, de quem eu era um admirador incondicional. Seus sonetos são exemplos de perfeição. Gostava de exercitar seu humor sadio e inteligente, em suas produções, como nestes sonetos e trovas do poeta: ESTOU SÓ!... (DUVIDO)

Estou só?... (Não tão só: eu tenho esta caneta

que adora conversar. É discreta, fiel

e sempre me quis bem. Depois tem o papel

que apoia o meu trabalho e veste a camiseta.)

Eu, só?... (Só se quiser. A ideia, meu corcel,

se parece um “Sputnik”, vai a qualquer planeta,

não cansa de falar, toca flauta e trombeta

e traz ao meu silêncio, amadas em tropel).

Estou só?...Um pouquinho. (Aprendi que a saudade

desfaz da solidão, ao menos a metade

e o resto que sobrar, com jeito, vira pó)

Estou triste, é verdade. Entanto (quem diria?)

uma lágrima só, pode ser companhia.

Duvido, sendo assim, que eu esteja só.

TROVAS:

Na trova, às vezes invento

emoções... e não as sinto.

Mas creia no meu talento:

sou sincero quando minto.

 

Estudo trovas a fundo,

mas persisto na suspeita,

que a trova melhor do mundo

até hoje não foi feita.

 

Muita fome e pouca grana...

Pago o bife a prestação.

Vou entrar esta semana

no consórcio do feijão.

 

Miguel Russowsky era um jovem poeta de 86 anos, atento a tudo e a todos, mantendo saudável correspondência com seus amigos e admiradores de todo o Brasil, e sempre com lições edificantes na vida e na arte de fazer versos:

 

Domingo sem ninguém... De sentinela,

apenas o jornal... (e o cafezinho).

(Muitas vezes é bom estar sozinho

remexendo o Silêncio tagarela).

 

No meu bloco, três rimas adivinho

querendo desfilar na passarela.

A Inspiração, de pé, lá da janela,

se põe a espargir versos no caminho.

 

O meu lápis – batuta de maestro –

decifra as partituras que eu orquestro,

com muito orgulho de reger o show.

 

...E a dona Solidão também se achega

com seu porte senil de estátua grega

e me avisa: o soneto começou!

 

É verbete da ENCICLOPÉDIA DE LITERATURA BRASILEIRA, de Afrânio Coutinho e Graça Coutinho, edição do MEC-1990, com revisão de Graça Coutinho e Rita M. Botelho, edição revista e atualizada em 2001.

Vítima de acidente de carro no centro de Joaçaba, onde morava, silenciou o poeta aos 86 anos de idade. Deus o chamou para reger seu coro de poetas no céu, deixando-nos uma saudade dorida e indizível em nossos corações.


BIBLIOGRAFIA:
BLOG DO ARTCULTURALBRASIL (Rossyr Berny Editor)
WWW.FALANDODETROVA.COM.BR
QUARTA E QUINTA ANTOLOGIA POÉTICA DE A FIGUEIRA (1996-1998)

CORRESPONDÊNCIA EM PODER DO AUTOR DESTAS NOTAS COM PAPEL TIMBRADO DO HOSPITAL SÃO MIGUEL (HSM) –JOAÇABA – SC.