BLOG LITERÁRIO DO FILEMON
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
TROVAS DO FILEMON
TROVAS - DIVERSOS AUTORES
TROVAS - DIVERSOS AUTORES
A verdadeira vitória
não é ter glórias a esmo,
mas ter a suprema glória
de se vencer a si mesmo.
SWAMI VIVEKANANDA
Vence o amor todas as provas
- desilusão e pesar.
Sendo inspiração, as trovas
componho sempre a rezar.
JOSEFINA CARVALHO
Jangada, por que navegas?
Ó alma, por que sonhais?
- Perguntas tolas e cegas
que já fiz, não faço mais.
LUIZ RABELO
No bailado da saudade,
pelos salões da esperança,
eu percorro a mocidade,
com meus restos de criança.
ALICE BUENO DE OLIVEIRA
(LIVRO "ANUÁRIO - COLETÂNEA DE TROVAS BRASILEIRAS" - 1981)
TROVAS DE ENO TEODORO WANKE
TROVAS DE ENO TEODORO WANKE
Senhor! Que eu pratique o bem
separe o joio do trigo,
e tenha a força também
de amar o irmão inimigo.
Na praia deserta, eu penso
que a imagem da solidão
começa no mar imenso
e finda em meu coração.
Meu caro poeta, o Universo
espera atendas meu rogo:
- ou pões mais fogo no verso,
- ou pões o verso no fogo!
Pedir um beijo - cuidado!
É falta de educação.
O perfeito namorado
é também o bom ladrão.
(LIVRO "ANUÁRIO - COLETÂNEA DE TROVAS BRASILEIRAS" - 1981)
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
TROVAS DE ROBERTO FERNANDES
TROVAS DE ROBERTO FERNANDES
O povo a quis castigar,
mas, Jesus assim falou:
"que comece apedrejar
quem aqui nunca pecou".
Triste mundo este de agora...
Já não há mais consciência,
a gente ouve de hora em hora,
notícias de violência.
Coitados dos nossos rios,
que maldade estão fazendo...
Seus leitos tristes, vazios,
aos poucos estão morrendo.
Com seus olhos marejando
muito triste e arrependida,
vive agora lamentando
a mocidade perdida.
(LIVRO "ANUÁRIO - COLETÂNEA DE TROVAS BRASILEIRAS" - 1979)
TROVAS DE FRANCISCO FORTES
TROVAS DE FRANCISCO FORTES
Suprema felicidade
traz o preceito cristão,
a verdadeira amizade
faz de um amigo, um irmão.
Vejo no olhar da criança
toda a pureza contida
naquele ser que se lança
às aventuras da vida.
Parado junto à janela,
vendo esta chuva sem fim,
eu fico pensando nela...
- Será que ela pensa em mim?
Ao mostrar-se por inteiro
o teu rosto se parece
com o límpido ribeiro...
De pureza transparece!
(LIVRO "ANUÁRIO - COLETÂNEA DE TROVAS BRASILEIRAS" - 1979)
TROVAS DO FILEMON
TROVAS DO FILEMON
tal o sol de Itapuã,
teus olhos quais diamantes
brilhando à luz da manhã.
Com o sussurro dos ventos,
com o marulho das águas
nascem sonhos, sentimentos
que apagam dores e mágoas.
Traz mais vida à criatura
viver e fazer o bem,
porque dá vida e doçura
aos sonhos que a gente tem.
É preciso que se pense
no futuro da criança,
plantar o amor que convence
faz renascer a esperança.
* Miguel Eduardo Gonçalves (In memoriam)
ESTRADA DE DAMASCO - FILEMON MARTINS
LIBERDADE - SAUL RIBEIRO DOS SANTOS
LIBERDADE
Anualmente o
Brasil celebra duas grandes datas. Uma no dia 7 de setembro, o dia da
Independência e a outra no dia 15 de novembro, dia da Proclamação da República.
São eventos que movimentam o espírito cívico de nosso povo. Somos brasileiros e
assim somos filhos da nossa história. Cada Estado do Brasil e cada Município
tem sua própria história. Somos herdeiros do progresso. Somos “pedaços” da
Pátria livre e Unidos formamos a grandeza desta nação.
Portanto, na qualidade de filhos gerados pelo
solo brasileiro e investidos pela qualidade que nos é legada pelo respeito
mútuo, devemos erguer bem alto e com responsabilidade a nossa condição de
cidadãos livres, não deixando a chama do patriotismo apagar.
Somos livres para escolher com
responsabilidade a profissão, a atividade que vamos exercer. Somos livres para
escolher a região e o Município onde morar. Somos livres para ler livros e ver
vídeos ou filmes que nos interessam.
Na esteira da
liberdade temos que o voto depositado nas urnas por cada eleitor expressa a
grande conquista democrática e o exercício do ideal democrático. Os candidatos
democraticamente eleitos ascendem ao poder político e passam a representar as
convicções e os anseios de uma nação, de um Estado e de um País forte e unido.
Pelo comportamento e pelos projetos apresentados ou o apoio político do
candidato eleito aos projetos que dignificam o Brasil, o povo percebe a
honestidade e o interesse pela sociedade e pelo povo que o elegeu.
Vemos assim
que, como um capítulo de um livro escrito por um autor reconhecido e consagrado
pelo público, de modo semelhante acontece com o político eleito, desde que seja
político ativo e atuante no cargo que representa. Nós, brasileiros, como eleitores que
somos, precisamos, agora, mais do que em qualquer outra ocasião, usar da nossa
inteligência e vontade de fazer o Brasil prosperar, clamar alto, assim como
clamaram D. Pedro I e Deodoro da Fonseca.
Como expressa um hino cantado pelo povo de
Ipupiara, que diz: somos um povo destemido e gentil. Somos gente, somos
eleitores, somos um povo destemido e gentil. Portanto, sejamos responsáveis e
possuidores da característica natural dos brasileiros de bem. Livrar-se da
passividade indefinida e da indecisão. Somos um compêndio de direitos e
deveres.
É tempo de mostrar força política e
escolher candidatos competentes, livres de conchavos políticos. Vamos, através
do voto, outorgar poderes para os honestos. Vamos aproveitar a liberdade e, com
calma e realismo, mostrar que desejamos construir um Brasil de progresso,
emprego, educação pública e saúde que funcionem para todos. E funcionem bem. É
bom lembrar que a omissão pode ser comparada a uma fuga. Com a fuga nada será
construído e não teremos um país digno e justo.
A liberdade é um tema que está presente
em toda a Bíblia. Citaremos dois versículos. No livro de Josué, no cap. 15 e
verso 24 encontramos uma expressão de liberdade, quando ele disse para toda a
nação: Escolhei o hoje a quem haveis de servir . . . Na 2ª. carta que Paulo escreveu aos
coríntios, no cap. 3 e verso 17 está escrito o seguinte: Onde está o
Espírito do Senhor aí há liberdade.
Saul Ribeiro dos Santos
Contador e economista aposentado.
Natural de Ipupiara – BA.
domingo, 22 de fevereiro de 2026
A TERRA PROMETIDA - FILEMON MARTINS
A TERRA PROMETIDA
O FALSO BARBEIRO - JOSÉ FELDMAN
O FALSO BARBEIRO
José Feldman
TROVA DE DOROTHI JANSSON MORETTI (1926 - 2017)
- Ai, doutor, não acredito...
Picada por um "barbeiro"?
Veja só, pois o maldito
me disse que era engenheiro!
O salão “Corte & Charme” ficava na rua principal da
cidade, bem entre a padaria que servia pão de queijo quentinho e a loja de
consertos que sempre prometia “se voltar, o conserto é por nossa conta”. Dono
do salão era o Seu Tonico, homem meticuloso que gostava de organizar suas
tesouras por tamanho e contar clientes como se fossem gols: “Hoje entrou um,
saiu outro — empate técnico!”
Numa terça-feira calorenta, Dona Gertrudes entrou
arrastando uma bolsa que parecia ter sobrevivido a três gerações. O rosto
carregava a expressão de quem já vira de tudo nessa vida — menos um corte de
cabelo que valesse a pena. Ela sentou-se na cadeira com a calma de quem já sabe
o roteiro da vida: troca de cumprimentos, revista velha, e a certeza de que
aquilo seria só mais uma tentativa.
Um dos barbeiros do salão, o João “Meia-Volta”, era
conhecido por dois talentos: falar alto e inventar currículos. Dizia ele, sem
cerimônia, que já fora marinheiro, piloto e uma vez até “engenheiro civil por
uma semana, num projeto que deu certo por acidente”. O dito “engenheiro” vestia
um avental manchado de tinta, usava um relógio que não marcava as horas certas
e tinha uma confiança que dava gosto — ou medo.
— Pode deixar comigo, dona Gê — falou João com aquele
sotaque de quem já resolveu problemas estruturais imaginários. — Vou fazer um
corte moderno, funcional e com sustentação estética!
Dona Gertrudes, que tinha ouvido rumores sobre as
engenharias do rapaz, hesitou. Mas o calor pesava, o cabelo caía pelo rosto e a
promessa de “funcional e com sustentação” parecia promissora. Numa fração de
segundo aceitou. Sentou, colocou a capa e tentou sorrir.
Enquanto João afiava a navalha (ou fingia afiá-la), o salão
foi se enchendo de conversas. Seu Tonico falava da fuga do tacho da cozinha; a
vizinha Margarida reclamava do barro no quintal; um menino perguntava se
micro-ondas podia assar bolo (resposta unânime: não recomendamos). Ao fundo, um
rádio tocava samba antigo, criando a trilha sonora perfeita para o que viria a
ser uma obra — de arte ou tragédia, ainda não se sabia.
João começou o procedimento com a segurança de um
profissional que havia resolvido um problema de ponte no fim de semana.
Primeiro veio o “levantamento topográfico” (ele pediu que Dona Gertrudes
inclinasse a cabeça) e depois o “marcador de eixo” (um risco leve com lápis de
olho que por sorte não era do tipo permanente). A cada movimento, João
explicava termos técnicos que ouviu numa série de televisão e misturava com
jargões de pedreiro:
— Aqui vamos reforçar o flanco lateral… cortar em camadas,
para garantir a estabilidade do volume. Depois fazemos o alívio de tensão na
nuca.
As clientes começaram a rir. Até o barbeiro da esquina
parou para ver o espetáculo. Dona Gertrudes, começando a ficar desconfiada, mas
João, sem perder a pose, disse com a autoridade de um homem que tinha visto
muitos desenhos técnicos no fundo de uma caixinha de fósforos:
— Minha senhora, sou engenheiro de corte! Calculamos
ângulo, tensão, resistência capilar…
Nesse instante, uma cigarra muito barulhenta começou a
trilhar o seu solo, como se a própria natureza quisesse enfatizar a cena. O
salão inteiro caiu numa gargalhada — menos Dona Gertrudes, que sentia arrepios
a cada toque de tesoura.
Os cortes começaram a tomar formas curiosas: um nobre
“gradiente de arranque” no topo, que lembrava um pequeno farol; um recorte
lateral que mais parecia um mapa de ilhas; e uma franja estruturada em camadas
que poderia, em teoria, abrigar um passaporte. João falava de cargas e
rebarbas, do ponto de colapso do frizz e de como o uso de mousse poderia
reduzir a sobrecarga capilar em 23%.
Quando a navalha entrou em cena, Seu Tonico deu um pulo —
não de medo, mas de interesse pelo drama. A navalha de João tinha nome:
“Euler”. Ele pronunciou o nome como se chamasse um amigo de matemática. Dona
Gertrudes fechou os olhos e rezou para todas as santas. A navalha deslizou com
a elegância de um cortador de fita em inauguração. Um fio de cabelo caiu e
dançou no ar como se quisesse sair correndo para a liberdade.
Ao final, João fez a pose triunfal:
suspendeu o espelho, virou a cliente para o espelho maior e anunciou: — Agora
veja a engenharia aplicada! Projeto finalizado!
Dona Gertrudes abriu os olhos, olhou para o reflexo... e
quase caiu da cadeira. O que ela viu era, ao mesmo tempo, uma obra de arte e um
código de barras. O topo parecia ter sido esculpido por um escultor moderno; a
lateral formava uma rampa que poderia ser utilizada por carrinhos de miniatura;
e a nuca tinha um corte tão geométrico que era possível traçar ângulos retos
com a régua da padaria.
Silêncio. Depois, uma explosão de risos — não de zombaria,
mas de deleite com a situação inusitada. Dona Gertrudes, após uns segundos de
confusão, não resistiu ao riso. Levantou as mãos, acariciou o corte e exclamou:
— Meu filho, você é um gênio! Quem diria que eu sairia
daqui parecendo tão… arquitetônica!
Os demais clientes aplaudiram. João, todo orgulhoso,
constipou-se como se tivesse recebido um diploma invisível. Seu Tonico,
satisfeito com a repercussão, ofereceu um cafezinho para celebrar a “inovação
capilar”.
A notícia do “corte de engenharia” voou pela cidade. A
partir daquele dia, o salão tornou-se ponto turístico. Pessoas vinham não só
por um corte, mas por uma experiência — queriam ouvir as explicações técnicas,
assistir ao “levantamento topográfico” e sair com um penteado que virasse
assunto na praça. João passou a cobrar uma taxa extra: “diagnóstico estrutural”
incluído.
Dona Gertrudes, por sua vez, ganhou um apelido carinhoso —
“A Catedral” — e usou o novo visual para ir à missa e à festa junina, onde
causou sensação. Crianças apontavam, marmanjos cochichavam elogios (ou
risadinhas), e alguns namorados pediam conselhos de estilo com medo de
parecerem antiquados.
Com o tempo, o próprio João começou a aperfeiçoar seus
métodos. Passou a desenhar esboços antes de cortar, pedia um “levantamento
topográfico” mais detalhado (e um cafezinho para a cliente), e até comprou um
capacete de plástico para “medir a resistência dos fios”. Seu currículo de
engenheiro cresceu: engenharia civil, engenharia de corte, engenharia emocional
— tudo com muito orgulho.
No fim das contas, a moral da história chegou numa roda de
conversa, entre um corte e outro:
- Não é bom desconfiar sempre, mas também não custa
perguntar qual é mesmo a sua formação — e se vem com certificado.
E Dona Gertrudes? Voltou algumas semanas depois, com o
cabelo já crescido e um sorriso travesso:
— João, da próxima vez, diz só que é barbeiro. E deixa o
“engenheiro” para os prédios, tá bom?
João sorriu e, com um ar de conselho profissional,
prometeu:
— Prometo, dona Gê. Da próxima vez eu só aplico a
engenharia que cabe no bolso do cliente.
E assim o “Corte & Charme” seguiu sua vida, com cortes mais arrojados, histórias mais altas e a certeza de que, às vezes, a melhor surpresa é descobrir que um barbeiro que se diz engenheiro tem sim o dom de transformar um dia comum numa comédia estrutural.
TROVAS DE JAYME PAULO FILGUEIRAS
TROVAS DE JAYME PAULO FILGUEIRAS
Nos bons tempos de criança,
sonhava rei ser na vida...
Hoje, toda esta esperança
é ser teu servo, querida!
A triste sonoridade
do cantar do bem-te-vi
não se compara à saudade
que sinto n'alma, por ti.
Uma estrela nos destina
- diz a crença popular.
Se é fato, meu Deus, que sina,
minha estrela é teu olhar!
Não queiras ser orgulhoso,
tampouco ser prepotente.
Do mundo - trem pressuroso
és passageiro somente.
(LIVRO "ANUÁRIO - COLETÂNEA DE TROVAS BRASILEIRAS" - 1979)
TROVAS DE BENTO RABELO
(FOTO DE SANDRO, CARRANCA, BAHIA)
TROVAS DE BENTO RABELO
A cruz que Cristo levou
- uma cruz negra e mesquinha -
por mim, na qual expirou,
não era sua, era minha.
Por nada tenho ambição;
com riqueza não me iludo;
pela só contemplação,
eu tenho a posse de tudo.
De formiga eu tenho a lida
e de pássaros, os dons.
Eu trabalho toda a vida,
canto nas quatro estações.
Para o filho, o bom conselho,
qual o que zela por templo,
é o pai servir-lhe de espelho
e a mãe lhe servir de exemplo.
(LIVRO "ANUÁRIO - COLETÂNEA DE TROVAS BRASILEIRAS" - 1979)
TROVAS DE ANTONIO MAIA
TROVAS DE ANTONIO MAIA
O povo sempre se enseja
de dizer, e com razão:
- missa, se espera na igreja,
- mas o trem, só na estação.
Deus o ensino profundo
que leva a gente a viver:
delícias gozar no mundo,
sem ao mundo pertencer.
Tu vives engaiolado,
passarinho... e no teu canto,
há queixume desolado,
triste, triste como um pranto!
Gozar a vida, se deve?
Perigo maior não há.
Pois só o bem que se leve
na outra é o que contará.
(LIVRO "ANUÁRIO - COLETÂNEA DE TROVAS BRASILEIRAS" - 1979)




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