quinta-feira, 23 de julho de 2026

DIAMANTES - CARLOS RIBEIRO ROCHA

 


                                  (FOTO DE SAUL RIBEIRO DOS SANTOS)





DIAMANTES

Carlos Ribeiro Rocha




Ousado e firme, o garimpeiro busca,
no seio virginal do solo amado,
a gema rara, que deslumbra e ofusca,
apagando as agruras do passado...



É grande a luta, cansativa e brusca,
tirando rebos, colocando ao lado...
Mas eis que surge a pedra que corusca,
da terra mãe - o fúlgido legado.



Aquela joia pondo sobre a palma,
o altivo garimpeiro sente na alma
a brisa da ventura, tão serena!



Também o bardo, com valor e calma,
um verso vai buscar no fundo da alma,
coberto ainda de saudade e pena!



(ANUÁRIO DE POETAS DO BRASIL, VOLUME 4, 1979, PÁGINAS 64) º

SIMPLICIDADE - CARLOS RIBEIRO ROCHA -

 




SIMPLICIDADE
                        Carlos Ribeiro Rocha

Convidado para ouvir
um talentoso e nobre expositor,
a fim de ser “persona grata”,
tive de usar o paletó
e uma cumprida gravata.

A tudo mesmo ouvi, desajeitado,
pois, melhor que a verborragia,
adoro a filosofia
da humildade.

Esta, minha gente, na verdade
é o envoltório
que oculta, às vezes, a sabedoria...

E o trovador assim brada,
num tom que por certo agrada:
            No Sertão, terra pacata,
            ouço coqui, curió,
            sem aperto de gravata,
            sem peso de paletó.

(Do livro MEDITAÇÕES, LIÇÕES, página 20)

SONETO MONTANHÊS - CARLOS RIBEIRO ROCHA

 




SONETO MONTANHÊS

Carlos Ribeiro Rocha 


Neste soneto montanhês que faço
quero lembrar queridos companheiros
caminhos sinuosos onde passo
ouvindo o linguajar dos garimpeiros.


Falam eles das glórias, dos fracassos
dos seus momentos mais alvissareiros,
das ¨corredeiras¨ feitas por seus braços,
para ali batear meses inteiros...


Mas, uma cena me ficou na mente
que considero a foto permanente
da vida campesina do Sertão:


Enquanto a fonte chora na vertente,
um sabiá gorjeia bem contente
sobre o velho ingazeiro do grotão.

O GRITO DO POETA - FILEMON MARTINS

 




                     O GRITO DO POETA

                           Filemon Martins

             

No meu viver de cidadão, proscrito,
carrego a dor imensa do Universo.
Meu canto desolado traz, aflito,
as tristezas do mundo controverso.

De desespero clamo, sofro e grito,
tudo em vão, pois o povo está imerso
na inépcia política do mito,
- não compreende mais o que é perverso.

A Esperança se esvai a cada aurora,
o poder corrompido se agiganta,
parece não haver outra saída...

Meu protesto, em verdade, não tem hora,
minha voz de poeta ainda espanta
os vendilhões da Pátria adormecida!

quarta-feira, 22 de julho de 2026

A ÁRVORE QUE FALA - JOSÉ FELDMAN

 





A Árvore que Fala


José Feldman

  

"Preste atenção, ó Sheik de Bagdá, pois o que floresce no centro do Oásis dos Espelhos desafia a compreensão dos homens de pouca fé. Ali, onde as águas do autoconhecimento se encontram com a areia sagrada, ergue-se a Shajarat al-Hikmah (Árvore da Sabedoria).

 

Ela não tem folhas de clorofila, mas sim de papel fino como pergaminho, translúcido e prateado. O tronco é de um ébano tão escuro quanto a noite sem lua, e suas raízes bebem diretamente do reflexo das almas.

 

Dizem as lendas que esta árvore não fala com uma língua de carne. Quando o vento do deserto sopra entre seus galhos, as folhas não balançam, elas sussurram. Mas o som que emitem não é o de palavras comuns; é o som da verdade que cada homem tenta esconder de si mesmo.

 

Se um homem carregado de pecados se aproxima, a árvore emite um som de trovão retumbante, que ecoa em seu peito como o bater de um tambor de guerra. O som diz: 'Até quando fugirás da tua própria sombra?'. O barulho é tão forte que o pecador muitas vezes cai ao chão, sentindo o peso de suas escolhas.

 

Mas, se um homem virtuoso senta-se sob sua sombra, a árvore canta. É uma melodia de uns (intimidade espiritual) que lembra o riso de uma criança ou o som de uma fonte no paraíso. Para esse homem, as folhas de pergaminho começam a mostrar escritas em caligrafia de luz. São respostas para perguntas que ele ainda nem ousou fazer.

 

Vi um jovem poeta que perdera a esperança aproximar-se da árvore. Ele chorava, pois sua musa havia partido. A árvore, em um gesto de misericórdia, deixou cair uma única folha em seu colo. Nela, não havia poemas de amor terreno, mas uma única rememoração que dizia: 'O que você procura, procura por você'. Naquele momento, o jovem compreendeu que a beleza que ele buscava fora não era nada comparada à que Alá plantara dentro de sua alma.

 

A árvore é a guardiã do oásis. Ela sabe quem mentiu no Mercado de Silêncio e quem foi sincero com o mercador cego. Ela é o eco da consciência humana amplificado pelo silêncio do deserto.

 

Muitos tentaram levar uma folha daquela árvore para Bagdá, ó Sheik. Mas, assim que cruzam a fronteira do oásis, o pergaminho se transforma em cinzas. Pois a sabedoria da árvore não pode ser possuída, apenas vivenciada no momento de presença absoluta."

 

Mustafá fechou os olhos por um instante, como se ainda ouvisse o sussurro das folhas prateadas.

 

Escutai com vossa alma, ó buscadores da luz, pois o balançar das folhas da Shajarat al-Hikmah (Árvore da Sabedoria) traz uma lição que nenhum livro pode conter sozinho.

 

A moral desta história, ó Sheik, é que a verdade não é algo que se busca no mundo exterior com gritos e demandas, mas algo que se escuta no silêncio do próprio peito. A árvore não falava palavras novas; ela apenas devolvia aos homens o eco de suas próprias consciências. Para o injusto, a verdade soa como um trovão aterrador, pois ele teme o que esconde; para o justo, ela é uma música suave, pois ele vive em harmonia com o seu Criador.

 

Muitas vezes, passamos a vida tentando colher os frutos do conhecimento alheio, mas esquecemos que a sabedoria não pode ser roubada ou transportada como mercadoria em uma caravana. Ela deve ser vivenciada na presença do momento. Quem busca a verdade com orgulho encontrará apenas cinzas, mas quem se senta sob a sombra da humildade verá que a vida inteira é uma escrita de luz feita por Alá.



(FONTE "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN) 


PAZ - ANTÔNIO CARLOS CÔRTES

 




PAZ

Antônio Carlos Côrtes * 

Ao Prof. Sergio Bicca


Quero meus pulmões
Inspirando todo ar
Do mundo
Com  força de vulcões
Peito inflado no lar
Preciso toda energia
Da  Floresta Amazonica
Para poder gritar
Alto e bom som e tom:

"Quero paz de criança
Dormindo
Quero flores se  abrindo"

Caminhos coloridos
Ornando trilhas
Veja bem meu rapaz
Minha menina
Quero apenas paz
Veja a estrela que brilha
Sabe meu senhor
Palavra paciência
Tem paz como ciência
Na Páscoa
Coamos a paz
Ao início da 2.a guerra
Jornal estampou
Estourou a paz.


* (DA ACADEMIA RIO-GRANDENSE DE LETRAS) 

terça-feira, 21 de julho de 2026

A COR DA SAUDADE - ELVIRA DRUMMOND

 




A COR DA SAUDADE


Elvira Drummond


Saudade... para alguns tão dolorida...

confesso, aqui, que a sinto diferente.

Não vejo, na saudade, uma ferida

que sangra tão impiedosamente.


Saudade... para mim, é colorida...

visita o meu passado e vai em frente

prossegue perfumando a minha vida,

pescando, da memória, o olhar contente.


Saudade, só se tem de um bom passado...

(razão de o desejar ressuscitado,

qual brasa que, assoprando, acende a chama).


Feliz de quem carrega na memória

retalhos magistrais de sua história.

Saudade é privilégio de quem ama!



(LIVRO "OS ESCOLHIDOS", PÁGINA 14)

ÂNGELUS - MATUSALÉM DIAS DE MOURA

 




ÂNGELUS


Matusalém Dias de Moura


A noite vem caindo, mansamente...

sobre a cidade em brando movimento,

guardando em cada rosto um sofrimento,

enquanto a vida passa lentamente...


Sozinho, conduzido pela mente,

numa prece de choro e de lamento,

vou subindo com fé, com doce alento,

até chegar a Deus onipotente.


Ali, nas mãos do Pai, deixo o pedido

de compaixão por mim, filho perdido,

miserável, pequeno e pecador.


Logo sinto uma paz chegar a mim,

dizendo que meu Deus, ah, me ama, sim,

e que ao próximo devo dar amor...



(LIVRO "SONETOS DO PÔR DO SOL", PÁGINA 76)

segunda-feira, 20 de julho de 2026

AS PEDRAS - THALMA TAVARES

 




AS PEDRAS
THALMA TAVARES  (SÃO SIMÃO-SP)



Dos caminhos ruins, que a vida me apontou,
as pedras afastei, limpei todo o cascalho.
Removi-os com fé e com muito trabalho,
sem que ninguém soubesse o quanto me custou.


Sem andar pela sombra ou buscar um atalho,
amparado na fé que Jesus me inspirou,
meu caminho de pedra, o amor transformou
em vereda de flores, de sol e de orvalho.


Mas não canto vitória, apesar de feliz,
se o que é mais importante eu ainda não fiz,
não levei meu irmão a trilhar nova estrada.


Não lhe dei, por dever, a sublime lição
deste amor que Jesus pôs em meu coração,
que mudou minha vida em eterna alvorada.



(Recebido por e-mail do amigo ORNELLAS-SP) 

MINHA CASA - CARLOS RIBEIRO ROCHA

 




MINHA CASA

CARLOS RIBEIRO ROCHA


É pobre e tosca a minha casa e sem
sofás macios, leitos chumaçados,
sem ornamentos nem jardins, porém
mais bela que os palácios decantados.


Pouco importa que a vejam com desdém
os fúcaros mandões e potentados
que gozam sem o Cristo um falso bem
e são, por fim, eternos condenados.


Só tenho em minha casa o necessário:
a mesa, o meu grabato e um tosco armário
e os livros, meus amigos estimados,


junto aos quais tenho dias fulgurantes,
enquanto os sonhos deles bem distantes
vão se tornando turvos e apagados...

UTOPIA - FILEMON MARTINS

 




                                    UTOPIA

      Filemon Martins




Uma ternura infinda estou sentindo
já no ocaso do meu viver tristonho.
Meu coração se abriu, feliz, sorrindo,
pois a Esperança renasceu num sonho.

Meu desejo é cantar um hino lindo
para falar de paz tudo transponho,
que toda Humanidade siga ouvindo
os acordes do amor que já componho.

Eu quero ver o povo trabalhando,
construindo, vivendo e se educando
para que todos sejam mais felizes.

Que os políticos sejam mais honestos
e possam nas ações e nos seus gestos
construir um País livre das crises!

TROVAS BRASILEIRAS

 



TROVAS BRASILEIRAS


Levanto cedo, não nego,
ando pescando a poesia,
na minha rede carrego
todo o mar de fantasia.
Filemon Martins

Felicidade – surpresa
que a vida um dia nos faz...
Não tem base nem firmeza
e, como é linda, é fugaz.
Colombina

Para que jamais te iludas
com fortunas e esplendores,
lembra que as plantas miúdas
também se cobrem de flores!
Humberto Del Maestro

Saudade – um suspiro, uma ânsia,
uma vontade de ver
a quem nos vê a distância,
com os olhos do bem-querer.
Bastos Tigre

O CANTO DO ROUXINOL - JOSÉ FELDMAN

 




O CANTO DO ROUXINOL

José Feldman



O som do silêncio que se instala após o último acorde é o que mais machuca. Não é a ausência de som, mas o peso do que deveria estar ali e já não está.
Há anos observo aquela gaiola pendurada na varanda do apartamento vizinho, balançando discretamente ao sabor de um vento que traz o cheiro da chuva, mas que nunca traz a liberdade. Dentro dela, habita um rouxinol. Um pequeno fragmento de vida, com penas que perderam o brilho fosco das matas, mas que carrega nos olhos o tamanho exato de um horizonte que ele desaprendeu a tocar.
O soneto que alguém escreveu um dia sobre ele não mentia. Cada nota que escapa daquele bico pequenino, nas primeiras horas da manhã, não é um espetáculo para os nossos ouvidos humanos, é um pranto disfarçado de arte.
O rouxinol canta nas grades da vida, e o eco de sua voz é de uma profundidade que chega a doer no peito de quem se detém para escutar. Nós, os transeuntes apressados de nossas próprias rotinas aprisionadas, costumamos chamar aquilo de "belo cantar". Que terrível cegueira a nossa. Confundir o grito de socorro de uma alma com entretenimento doméstico.
Olho para ele agora, enquanto o sol desponta timidamente entre as folhas verdes das árvores da rua. Aquelas árvores estão tão perto. Apenas alguns metros separam o pássaro do galho mais próximo de uma mangueira frondosa, onde outros de sua espécie pousam, gritam, brigam e voam sem rumo. A liberdade clama ali fora, escancarada, vestida de vento e folhas secas que dançam no asfalto. Mas ele não vai. Ele não pode ir. A fronteira invisível do arame galvanizado define o limite do seu universo.
Em cada melodia que ele ensaia quando o dia clareia, a vida parece se afrontar. É um embate silencioso e cruel entre o instinto de ser céu e a realidade de ser ferro. Há uma tristeza densa, quase palpável, que se instala no ambiente a cada trinado mais longo. É a melancolia pura de quem sabe exatamente o que perdeu, mesmo sem nunca ter vivido plenamente o que perdeu. O peito do pequeno cantor sobe e desce rapidamente, num ritmo frenético que parece subtrair-lhe as forças, um pouquinho a cada dia. Quantas canções faltam para que o coração dele desista de bater?
E, no entanto, o mistério mais profundo daquela criatura não é a sua dor, mas a sua insistência.
Mesmo no calabouço daquela varanda cinzenta de cimento encardido, há algo dentro daquele peito que se recusa a morrer. Uma canção esperançosa insiste em brotar de onde só deveria haver desespero. A alma do rouxinol não se esquece de amar. Ele ama o fiapo de sol que toca a gaiola às nove da manhã. Ele ama a água fresca que trocam de seu pequeno pote. Ele ama, acima de tudo, a própria memória do voo, uma herança genética de asas abertas que o tempo e o cativeiro não conseguiram apagar.
Ele canta na busca de um ramo, de uma vida que ele intui ser gloriosa e vasta. O canto ainda ecoa pela vizinhança, cortando o barulho dos motores e das buzinas, mesmo que a chorar. É um choro afinado, uma lágrima em forma de solfejo que atravessa as frestas da minha janela e me faz parar o café pela metade, com os olhos fixos no vazio.
Quantos de nós também não cantamos nossas dores em nossas próprias gaiolas invisíveis, esperando que alguém entenda o código do nosso lamento?
Fico olhando o pequeno rouxinol e uma onda de melancolia me invade por completo. Penso na fragilidade da vida, no tempo que passa e nas correntes que nós mesmos criamos ou aceitamos carregar. Mas o soneto termina com uma promessa, e é nela que decido ancorar o resto do meu dia, para não sucumbir à tristeza de vê-lo ali.
Um dia, as correntes irão se desfazer. Seja pela mão compassiva de quem finalmente enxergar a crueldade daquele cativeiro, seja pelo ciclo inevitável da própria natureza que a tudo liberta no final. O rouxinol livre poderá renascer. Suas asas, hoje entorpecidas, encontrarão o ponto de apoio exato na densidade do ar. Ele subirá tão alto que o som do seu canto finalmente deixará de ser um lamento para se tornar, em absoluto, a pura tradução do espaço.
Até lá, eu continuo aqui, na janela da minha própria solidão, servindo de testemunha e plateia para a mais triste e bela ópera da terra: o canto de quem sofre, mas não desiste de esperar o céu.