sábado, 25 de abril de 2026

TROVAS DO FILEMON

 




TROVAS DO FILEMON


Não me queixo desta vida,
apesar da minha idade.
Queixo, sim, da despedida
que me trouxe esta saudade.

Quando a amargura me assalta
e a tristeza o peito invade,
eu sinto que a tua falta
vai me matar de saudade.

Nesta manhã reluzente
de sol aquecendo a terra,
vejo a beleza presente
no teu olhar cor de serra.

Entre flores, no meu sonho
estavas nos braços meus.
Mas de repente, tristonho,
acordei ouvindo “adeus”.

MUNDO PEQUENO - MANOEL DE BARROS

 



MUNDO PEQUENO 
do livro "O Livro das Ignorãças" - ed. Civilização Brasileira.

Manoel de Barros


O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.


(JORNAL DE POESIA, SOARES FEITOSA)

ÚLTIMA PÁGINA - ALCEU WAMOSY

 





" ÚLTIMA PÁGINA  "


Alceu de Freitas Wamosy
1895 - Uruguaiana RS - 14 de fevereiro
1923 - Livramento, RS - 13 de setembro


Todo este grande amor que nasceu em segredo,
e cresceu e floriu na humildade mais pura,
teve o encanto pueril desses contos de enredo
quase ingênuo, onde a graça ao candor se mistura.

Entrou nos nossos corações como a brancura
de uma réstia de luar numa alcova entra a medo.
Nunca teve esse fogo intenso de loucura,
que há em todo amor que nasce tarde e morre cedo.

E quando ele aflorou tímido e pequenino,
como uma estrela azul no meu, no teu destino,
não sei que estranha voz ao coração me disse,

que este amor suave e bom, de pureza e lealdade,
sendo o primeiro amor da tua meninice,
era o último amor da minha mocidade.



(LIVRO "OS MAIS BELOS SONETOS", J. G. DE ARAÚJO JORGE)

sexta-feira, 24 de abril de 2026

ENTRE O SER E AS COISAS - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

 









" Entre o Ser e as Coisas "

Carlos Drummond de Andrade



Onda e amor, onde amor, ando indagando

ao largo vento e a rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva.

As almas, não, as almas vão pairando,
e, esquecendo a lição que já se esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que a de natureza corrosiva.

Nágua e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas a mais nuas.

E nem os elementos encantados
sabem do amor que o punge e que e, pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.


Carlos Drummond de Andrade
Itabira, Minas. 31 de outubro de 1902
Botafogo, Rio de Janeiro 17 de agosto de 1987
in
"Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou"
J.G . de Araújo Jorge - 1a ed. 1963

MEDO DAS TREVAS - MÁRIO RIBEIRO MARTINS

 



MEDO DAS TREVAS
Mário Ribeiro Martins

Nos dolentes caminhos desta vida, 
parei chorosamente pra pensar: 
vi o passado - que grande ferida! 
vi o presente - que tempo vulgar!
 
Com quase a minha fé desfalecida, 
desvendei o futuro a me acenar: 
contemplei minha nau quase perdida, 
do encapelado mar se retirar.
 
Encosta, encosta, encosta foi meu brado. 
Quando saiu meu grito desvairado, 
a nau chegou ao cais lá no porvir.
 
Que tremenda visão eu tive agora! 
Que sonho! Que beleza! Amável hora, 
pois acordei morrendo de sorrir.

PARADOXO - FILEMON MARTINS

 




PARADOXO 

 FILEMON MARTINS



Quase sempre erramos
porque queremos ser fortes e poderosos
na jornada da vida.
Esquecemos que é a brisa leve e suave
que produz música ao balançar as folhas das árvores
e não a tempestade que fere, mata e destrói.

ALENTO DO INFINITO - MIGUEL J. MALTY

 




ALENTO DO INFINITO

Miguel J. Malty


Meu ser é legatário doutras eras,

dum tempo recuado nas lonjuras.

Anterior às lépidas galeras

dos argonautas donos de bravuras.


Antes, bem antes, noutras atmosferas

que cobriam AbKar, noutras alturas,

no oceano das célicas esferas

junto às huris de líricas brancuras.


Eu venho dos portais das nebulosas,

das lindeiras de luz, misteriosas,

onde a vida deflui em suave agito.


Eu sou antes da gênesis que emana

dum gene imemorial na escala humana.

Eu sou um sopro, alento do Infinito!



(LIVRO "ABKAR A CIDADE ENCANTADA", PÁGINA 9)

NOSTALGIA - JOSÉ OUVERNEY

 




NOSTALGIA
JOSÉ OUVERNEY

Desmaia a tarde e a sorrateira brisa,
varanda a dentro, lépida e frugal,
a beliscar meu peito sem camisa
vai desenhando um gesto sensual.

Em lenta despedida o sol desliza,
jorrando sangue sobre o bambual,
e a lua acende a lâmpada, indecisa,
tremeluzindo sobre o meu quintal.

Um pouco mais de espera e surge a noite:
a casa, de repente, tão vazia,
desperta a minha lúdica ansiedade;

e o beliscar da brisa vira açoite,
notadamente quando a nostalgia
bate no peito, e acorda esta saudade!...


(DO SITE FALANDO DE TROVA)

TROVAS DE VIDAL IDONY STOCKLER

 


                                (FOTO DE KEISE JINKINGS MARTINS, EM ITANHAÉM)


TROVAS DE VIDAL IDONY 

STOCKLER 
(29/09/1924 a 25/10/2014)

A trova deita raiz
de união e de esplendores
riqueza é como se diz:
É berço dos trovadores.
 
 
Bem feliz vive o poeta,
peregrino e sonhador,
luzeiro que se completa
no sonho do trovador!
 
 
E nasce a trova sorrindo
na mente do trovador,
é o botão da flor abrindo
mostrando o rico esplendor.
 
 
Trovadores do Brasil,
cultuando nosso chão
com beleza tão sutil
e que toca o coração.
 
 

(UBT – CURITIBA-PR)


A ESPETARIA FATAL - JOSÉ FELDMAN

 




A ESPETARIA FATAL

JOSÉ FELDMAN


TROVA DE JOSÉ FELDMAN


Meu amigo... Quem diria?

Terminou todo "enrolado"...

Foi comer na espetaria

e ficou todo espetado!


Era uma tarde ensolarada de sábado, e Aparecido, um sujeito curioso e um tanto desajeitado, caminhava despreocupado pela rua principal da cidade. Ele tinha acabado de sair do mercadinho, onde comprara pão, leite e, é claro, sua fiel coxinha de frango. Porém, algo chamou sua atenção naquela caminhada rotineira: uma placa vibrante e chamativa, escrita em letras garrafais e com uma seta piscando, anunciava:

“ESPETARIA DO ZEZÃO – OS MELHORES ESPETINHOS DA REGIÃO!”

Parou imediatamente. Espetinhos? Ele adorava espetinhos! Só de pensar na carne suculenta, no cheiro de churrasco e nos acompanhamentos, sua barriga já roncava. Era impossível resistir. "Ora, por que não experimentar?", pensou ele, enquanto ajeitava o chapéu que insistia em escorregar da cabeça.

Ao entrar no estabelecimento, uma música animada tocava ao fundo, e o ambiente tinha um clima acolhedor. Havia mesas de madeira, um balcão cheio de molhos e um menu escrito com giz numa lousa. Mas o que mais chamou a atenção foi a decoração... digamos... exótica. Havia espetos “por toda parte”: espetos na parede, espetos pendurados no teto, espetos atravessando esculturas de carne falsa. Até o mascote da casa, um porquinho de pelúcia, estava espetado em um espeto gigante sobre o balcão.

“Bem-vindo, meu amigo!” gritou Zezão, o dono do lugar, um homem parrudo com um bigode impressionantemente comprido. “O que vai querer? Hoje temos promoção: espeto de carne, frango, linguiça e até vegetariano!”

Aparecido, sem pensar duas vezes, respondeu:  

“Vou querer um de cada! Quero experimentar tudo!”

Zezão deu uma risada calorosa. 

“Assim que eu gosto! Sente-se aí que já já saem os espetos mais gostosos que você já provou!”

Aparecido sentou-se em uma mesa próxima à parede, onde havia mais espetos decorativos, e começou a observar o movimento. O cheiro de churrasco invadia o ar, e ele já salivava. Minutos depois, Zezão veio trazendo uma bandeja cheia de espetinhos. A carne parecia perfeita, dourada, com uma crosta suculenta. Aparecido não perdeu tempo e começou a devorar os espetos, um atrás do outro, enquanto Zezão ria satisfeito.

“Tá gostoso, hein, meu amigo?” perguntou o dono, cruzando os braços.

“Gostoso? Isso aqui é um espetáculo!” respondeu ele, com a boca cheia.

Porém, ao se empolgar com o último espeto de carne, Aparecido, desajeitado como era, fez um movimento brusco com a mão. O espeto escapou dos seus dedos, ricocheteou no prato, bateu na mesa, e antes que ele pudesse entender o que estava acontecendo, o espeto veio girando pelo ar… “e acertou sua nádega.”

O restaurante inteiro parou. Aparecido estava ali, com um espeto fincado em uma das nádegas, pulando de dor e tentando manter a pose.

“AI! ZEZÃO! TÔ ESPETADO!” gritou ele, enquanto os outros clientes tentavam segurar o riso.

Zezão, que já tinha visto de tudo na vida, ficou boquiaberto por uns segundos, mas logo correu para ajudar. 

“Calma, meu amigo, é só um espeto pequeno! Já já a gente resolve isso!”

Entre risos e lágrimas de vergonha, Aparecido foi ajudado por Zezão e outro cliente, que cuidadosamente tiraram o espeto de sua nádega. O clima, apesar da situação, era de total descontração. Quando tudo se resolveu, Zezão olhou para Aparecido e disse:

“Olha, meu amigo, aqui na Espetaria do Zezão o lema é que todo mundo sai satisfeito… mas você se empolgou demais, hein? Isto não vai virar costume, né?”

Aparecido, ainda vermelho de vergonha, não conseguiu segurar a risada. E, apesar de tudo, antes de ir embora, ele ainda levou mais dois espetinhos para viagem.

Moral da história: 

Na vida, cuidado ao brincar com espetos… às vezes, eles brincam de volta!

quinta-feira, 23 de abril de 2026

APELO - ENO TEODORO WANKE

 



APELO
Eno Theodoro Wanke (1929/2001)


  Eu venho das lições dos tempos idos,
e vejo a Guerra no horizonte armada.
Será que os homens bons não fazem nada?
Será que não me prestarão ouvidos?

Eu vejo a Humanidade manejada
em prol dos interesses corrompidos.
É mister acabar com esta espada
suspensa sobre os lares oprimidos!

É preciso ganhar maturidade
no fomento da paz e da verdade,
na supressão do mal e da loucura...

Que a estrutura econômica da guerra
 se faça em pó! E reinem sobre a Terra
os frutos do trabalho e da fartura!



Nota: APELO, é o soneto em português mais traduzido para idiomas estrangeiros: 101 idiomas. Um verdadeiro fenômeno!










MAIS UM ADEUS - JOSÉ FELDMAN

 



MAIS UM ADEUS

José Feldman


TROVA DE ELIANA PALMA


Adeus com dores combina,

adeus inspira piedade.

Adeus de amor, triste sina

de quem vive de saudade!




O sol estava se pondo em Maringá, tingindo o céu de laranja e rosa, como se o próprio dia estivesse se despindo para dar lugar à noite. As ruas começavam a se esvaziar, e o movimento frenético do centro da cidade diminuía, dando espaço a um silêncio que parecia carregar a melancolia de tantos “adeus” que haviam sido ditos ao longo dos anos. Em cada esquina, um pedaço de história, um resquício de amor ou amizade, ecoava na memória dos que por ali passavam.

Naquela tarde, Maria, uma jovem de cabelos cacheados e olhos brilhantes, caminhava pela Avenida XV de Novembro. Seu coração pulsava descompassado. Ela sabia que estava prestes a se despedir de Humberto, seu primeiro amor, que decidira se mudar para outra cidade em busca de novas oportunidades. 

O anúncio da partida havia caído sobre ela como uma tempestade de verão: repentino e avassalador.

"Quando você vai embora mesmo?", ela perguntou, tentando esconder a tristeza na voz. 

Humberto, com um sorriso nostálgico, respondeu que partiria na manhã seguinte. O que era uma nova chance para ele, tornava-se um abismo para ela. O amor, que havia sido uma doce melodia, agora era um lamento que ecoava pelas ruas de Maringá.

Enquanto Maria caminhava, lembranças dançavam em sua mente. O primeiro encontro no Parque do Ingá, com suas árvores majestosas e o perfume das flores. As tardes passadas em um banco à sombra, onde eles trocavam promessas e risadas, como se o mundo ao redor não existisse. E agora, todas aquelas memórias pareciam pesadas, como se cada risada carregasse um peso insuportável.

O "adeus" que se aproximava era uma verdadeira sina. Maria sentia o coração apertar ao pensar nas despedidas que já havia vivido — a partida do pai para o exterior, a saída da melhor amiga que se mudara para a capital, as idas e vindas da vida. Cada adeus trazia consigo um rastro de saudade, e ela se perguntava se um dia aprenderia a lidar com isso.

Na esquina da Avenida XV com a Avenida São Paulo, um grupo de amigos se despedia. Riam e se abraçavam, mas Maria percebia que, por trás das risadas, havia um fundo de tristeza. O “adeus” sempre vinha acompanhado de uma sombra. "Adeus com dores combina, adeus inspira piedade", pensou. As despedidas em Maringá eram como melodias que se repetiam, sempre com a mesma harmonia triste.

Com o coração pesado, ela decidiu encontrar Humberto uma última vez. Dirigiu-se ao café onde costumavam ir, um pequeno lugar aconchegante, com mesas de madeira e um cheiro inconfundível de café fresco. Ao entrar, avistou Humberto na mesa do canto, olhando pela janela. Ele parecia distante, perdido em pensamentos, e Maria percebeu que ele também estava sentindo o peso da partida.

— Oi, você veio! — Ele sorriu, mas a alegria não alcançou seus olhos.

— Precisamos conversar — disse Maria, sentando-se à sua frente. 

O clima estava carregado, e as palavras pareciam não querer sair. O garçom trouxe os pedidos, mas o café esfriou enquanto eles trocavam olhares que falavam mais do que mil palavras.

— Eu não sei como vou lidar com isso — ela finalmente desabafou. — Vai ser tão difícil te ver partir.

— Eu também não sei, Maria. É como se estivéssemos vivendo um sonho e agora temos que acordar. — ele hesitou. — Mas isso não significa que o que tivemos não foi real.

 

A conversa fluiu entre risos nervosos, 

lembranças e promessas de que tudo ficaria 

bem. Mas, no fundo, ambos sabiam que a 

vida 

os levaria por caminhos diferentes. O café 

esvaziou-se em suas xícaras enquanto as 

horas passavam, e o sol começava a se 

esconder, deixando uma sombra sobre a 

cidade.

Quando finalmente se levantaram para sair, Maria sentiu que aquele momento se tornaria mais uma memória, mais um “adeus” a ser guardado na caixa de saudades. Eles caminharam lado a lado, sem saber se deveriam se abraçar ou apenas se despedir com um aceno. O medo da dor os impedia de se aproximar.

Na porta do café, Humberto parou e, em um gesto inesperado, puxou Maria para perto. O abraço foi apertado, cheio de sentimentos não ditos. Era um “adeus” que transbordava dor, mas também gratidão. Um “adeus” que, mesmo triste, celebrava o que haviam vivido juntos.

— Adeus, Maria. Cuide-se! — ele disse, com a voz embargada.

— Adeus. E não se esqueça de mim — respondeu ela, enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto. 

O “adeus” ecoou, pesado e doce como um canto de despedida, deixando no ar a promessa de que, apesar da distância, as memórias permaneceriam.

Enquanto ele se afastava, Maria ficou ali, observando o homem que um dia fora seu amor. O céu estava agora escuro, e as luzes da cidade começavam a brilhar. Em cada ponto luminoso, ela via uma lembrança, uma risada, um abraço.

E, assim, em Maringá, onde os adeuses são sempre acompanhados de saudade, Maria aprendeu que a vida segue, mesmo entre dores e despedidas. O amor se transforma, mas nunca desaparece completamente. E, ao final, cada “adeus” traz consigo a semente de um novo “olá”, mesmo que, por ora, a saudade seja a única companhia.

 

 

      


TROVAS ESCOLHIDAS

 


                       (FOTO DE KEISE JINKINGS MARTINS, EM ITANHAÉM-SP)



TROVAS ESCOLHIDAS
 

Nuvens que vejo ao sol posto
fico a pensar com meu eu:
Parecem rugas no rosto
da tarde que envelheceu.
        
Geraldo Amâncio

Se alguma dor te entristece,
levanta-te, abre as janelas
e ao fervor de tua prece,
deixa Deus entrar por elas...
        
Thalma Tavares

Esconde o pranto depressa
e finge que estás contente,
que aos outros não interessa
saber as mágoas da gente.
        
Maria Thereza Cavalheiro

As sombrias madrugadas
- discretas, sem alaridos -,
são testemunhas caladas
dos amores mais sofridos...

 Lucília Decarli