BLOG LITERÁRIO DO FILEMON
segunda-feira, 20 de abril de 2026
NEVER MORE - MÁRIO RIBEIRO MARTINS
QUEM FOI O BAIANO MILTON SANTOS? - MÁRIO RIBEIRO MARTINS
TROVAS DE MÁRIO BARRETO FRANÇA
O MAL DE CADA DIA - MÁRIO BARRETO FRANÇA
LIVRO "POEMAS E PENSAMENTOS 5" - HUMBERTO DEL MAESTRO
Recebi do escritor Humberto Del Maestro mais um livro de sua lavra, "POEMAS E PENSAMENTOS 5", com 265 páginas de pura poesia: Trovas, Haicais, Sonetos, Breves, Poemetos e muito mais. O autor informa que este é o livro dos seus oitenta anos. 65 livros escritos e publicados.
Já lendo e divulgando o trabalho do ilustre poeta Humberto Del Maestro, imortal da Academia Espírito-santense de Letras, onde ocupa a cadeira 20.
TROVAS QUE INICIAM O LIVRO, PÁGINA 9:
Aos meus infames algozes,
Com seus "delírios" de neve,
Do infinito escuto vozes:
- Que a terra lhes seja leve.
Meus braços viraram tralhas
Que me causam pesadelos.
Lembram inúteis medalhas...
Mas como temo perdê-los.
Borboletas pequeninas
Sobre o roseiral em flor;
Até parecem meninas
Brincando com bom humor.
Cai a tarde em agonia,
A chuva desce depois;
Chega sem pressa, arredia,
Como carroça de bois.
Chove agora em cataratas,
Com ventanias insanas.
Dos valões sobem baratas
E asquerosas ratazanas.
(LIVRO "POEMAS E PENSAMENTOS 5)
domingo, 19 de abril de 2026
NOITE E VERSOS - FILEMON MARTINS
LUGARES... - ELVIRA DRUMMOND
LUGARES...
Elvira Drummond
Já visitei lugares em que a vista
pasmou, ao ver a cena deslumbrante:
enturveceu, por cerca de um instante,
atônita à mansão com mãos de artista...
Tamanho luxo cabe em uma lista
que inclui a prataria mais brilhante,
cristais e o tom dourado exuberante
compondo um tal "cenário de revista".
Já visitei lugares bem modestos,
vazios de pertences, mas de gestos
fraternos, de uma paz abençoada...
Dos dois lugares, reina soberana
a imagem amorosa da choupana,
que a vida, sem amor, não vale nada!
(LIVRO "OS ESCOLHIDOS versos diversos", PÁGINA 43)
A TEMPESTADE E A JORNADA - JOSÉ FELDMAN
A TEMPESTADE E A JORNADA
José Feldman
TROVA DE JERSON LIMA DE BRITO
Não tema sua jornada
se o céu estiver cinzento
que às vezes a trovoada
faz parte do ensinamento!
Numa pequena cidade, onde as colinas se encontravam com o
céu em um abraço eterno, a vida seguia seu curso tranquila, mas repleta de
desafios. Os moradores daquela cidade eram conhecidos por sua resiliência e
força de espírito. No entanto, havia um jovem chamado Matheus que
frequentemente se deixava abater pelas nuvens cinzentas que pareciam pairar
sobre sua vida.
Matheus era um sonhador. Desde criança, alimentava grandes
aspirações: queria ser escritor. Suas histórias eram recheadas de aventuras e
heróis, mas, à medida que crescia, as incertezas começaram a envolvê-lo. Ele se
via diante de um dilema: como transformar seus sonhos em realidade em meio às
dificuldades do dia a dia? A pressão para ter um emprego estável, a expectativa
da família e o medo do fracasso o deixavam angustiado.
Em uma tarde particularmente nublada, Matheus decidiu que
precisava de um tempo para pensar. Pegou seu caderno e saiu em direção ao
parque da cidade, um lugar que sempre o inspirava. À medida que caminhava, o
céu escurecia, e um vento forte começou a soprar. Ele hesitou, mas a
necessidade de encontrar respostas o levou adiante. Ao chegar ao parque,
sentou-se em um banco sob uma árvore frondosa e começou a escrever.
Enquanto suas ideias fluíam, ele percebeu que as nuvens no
céu estavam se acumulando, e logo a chuva começou a cair. No início, as gotas
eram suaves, quase como um sussurro. Mas, em poucos minutos, a tempestade se
intensificou, e o que antes era uma leve garoa transformou-se em uma verdadeira
trovoada. Ele se viu preso, sem abrigo, e um sentimento de desespero começou a
tomar conta dele.
No entanto, em meio ao caos, algo inesperado aconteceu. Ele
observou as gotas de chuva batendo nas folhas, criando uma melodia única, um
ritmo que parecia dançar com a natureza. As árvores, que antes pareciam
temerosas, agora se erguiam majestosas, como se estivessem celebrando a
tempestade. Sentiu uma onda de inspiração. Em vez de se deixar levar pelo medo,
decidiu se entregar àquele momento.
Com o caderno em mãos, começou a escrever freneticamente.
As palavras fluíam como a chuva, e ele percebeu que a tempestade não era um
obstáculo, mas uma oportunidade. A trovoada trazia consigo um ensinamento
profundo sobre a vida: os desafios e as dificuldades são partes inevitáveis da
jornada. Cada gota de chuva, cada relâmpago, representava uma lição, uma chance
de crescimento.
Quando a tempestade finalmente começou a se dissipar, ele
sentiu-se renovado. Olhou para o céu, que agora começava a clarear, e sorriu.
As nuvens cinzentas não eram apenas um símbolo de desespero, mas também de
transformação. Percebeu que, assim como a natureza, sua vida também passaria
por fases, com momentos de sol e momentos de chuva. E que não deveria temer
esses momentos difíceis, pois eram eles que o moldavam, que lhe ensinavam a ser
forte e resiliente.
Ao voltar para casa, Matheus sentiu-se leve. Ele sabia que
o caminho à sua frente ainda seria repleto de desafios, mas estava determinado
a enfrentá-los de cabeça erguida. A trovoada daquela tarde se tornara um marco
em sua jornada, um lembrete de que o crescimento muitas vezes vem das
experiências mais difíceis.
A vida, assim como o tempo, é cheia de surpresas. Não
devemos temer a jornada, mesmo quando o céu estiver cinzento, pois às vezes a
trovoada faz parte do ensinamento. E são essas tempestades que nos preparam
para os dias ensolarados, nos ensinando a valorizar cada raio de sol que brilha
em nossas vidas.
sábado, 18 de abril de 2026
ILUSÕES DA VIDA - FRANCISCO OTAVIANO
(FOTO DE SANDRO, CARRANCA, BAHIA)
À SOMBRA DO LAGO - JOSÉ FELDMAN
À SOMBRA DO LAGO
José Feldman
TROVA DE EDY SOARES
Lembrança doce e singela
enchendo o peito de afago:
eu e meu pai na pinguela
jogando pedras no lago...
Na pequena cidade de Fragatópolis, havia um lago que
parecia ter saído de um conto de fadas. Suas águas eram calmas e refletiam o
céu azul em dias ensolarados, enquanto as árvores em volta dançavam suavemente
ao vento. Era um lugar mágico, onde as crianças corriam livres e as memórias se
formavam como nuvens no céu. Para mim, o lago era mais do que um simples corpo
d’água; era um espaço sagrado, um refúgio de lembranças que guardava momentos
preciosos ao lado do meu pai.
Certa tarde de verão, quando eu ainda era uma criança, meu
pai decidiu que era hora de me levar até a pinguela, uma pequena ponte de
madeira que se estendia sobre o lago. Ele sempre dizia que aquele era o melhor
lugar para jogar pedras na água e ver as ondas se espalharem como um abraço de
boas vindas. Com um sorriso no rosto, peguei sua mão e seguimos juntos pela
trilha que levava ao nosso destino.
A pinguela, com suas tábuas desgastadas pelo tempo, rangia
sob nossos pés, mas para mim era um som familiar, como uma canção que só nós
dois conhecíamos. Meu pai, com seu chapéu de palha e seu jeito despreocupado,
era a personificação da alegria. Ele me ensinou a escolher as pedras mais
lisas, aquelas que pulavam na superfície da água. “Olhe bem, meu filho. A pedra
precisa ter o formato certo. E você deve arremessá-la com confiança”, ele
dizia, enquanto eu o observava com admiração.
Nosso ritual de jogar pedras era mais do que uma simples
brincadeira; era um momento de conexão. Cada pedra que lançávamos parecia levar
consigo um pedaço de nossas preocupações e medos. Eu me lembrava de como meu
pai ria quando uma pedra pulava várias vezes antes de se afundar. “Veja! Essa
foi uma campeã!”, ele exclamava, e eu ria junto, sentindo a felicidade vibrar
em meu peito.
Naquele dia, enquanto jogávamos pedras, ele começou a
contar histórias de sua infância. Falou sobre os verões que passara pescando
com seu pai e como ele mesmo tinha aprendido a escolher as melhores pedras. A
cada risada, a cada história compartilhada, meu coração se enchia de afeto. A
presença do meu pai era um abrigo seguro, e nada parecia mais importante do que
aqueles momentos simples à beira do lago.
Com o passar do tempo, fui crescendo, e as
responsabilidades da vida começaram a se acumular. A escola, os amigos, e mais
tarde, o trabalho, foram ocupando meu tempo e minha mente. As visitas ao lago
tornaram-se menos frequentes, e a pinguela, uma doce lembrança da infância, foi
se tornando apenas uma imagem distante. Mas, em meu coração, eu sabia que
aquelas memórias estavam guardadas como um tesouro inestimável.
Anos depois, ao receber a notícia de que meu pai não estava
bem, uma onda de nostalgia me invadiu. Eu me lembrei da pinguela, das pedras e
das risadas. Naquele momento, percebi que precisava voltar àquele lugar que
tanto significava para nós. Assim que pude, organizei uma viagem para Ribeirão
Verde.
Chegando lá, encontrei o lago como eu o lembrava, mas a
pinguela parecia ter envelhecido. As tábuas estavam mais desgastadas, e o vento
parecia sussurrar histórias do passado. Com o coração apertado, me aproximei da
beira da água e, por um instante, fechei os olhos. As memórias vieram à tona
como se eu estivesse lá novamente, lançando pedras com meu pai, rindo e
aprendendo sobre a vida.
Sentei-me na beira do lago, e as lágrimas escorriam pelo
meu rosto. Eu sabia que precisava de um momento de conexão, mesmo que meu pai
não estivesse fisicamente presente. Compreendi que as memórias que guardava
eram o verdadeiro legado dele. Com um gesto automático, peguei algumas pedras
do chão e comecei a jogá-las na água, como fazíamos antes. Cada arremesso
trazia de volta um fragmento do passado, um eco das risadas e das lições.
Neste reencontro com o lago, percebi que, embora meu pai
não estivesse mais ao meu lado, ele continuava vivo nas lembranças doces e
singelas que preenchiam meu peito. Ele havia me ensinado a importância de
valorizar os momentos simples, de encontrar alegria nas pequenas coisas, e
naquele dia, ao jogar pedras, eu sentia sua presença como se ele estivesse me
guiando novamente.
Enquanto o sol se punha no horizonte, tingindo o céu de
laranja e rosa, percebi que a vida era feita de ciclos. Embora a dor da
ausência fosse aguda, as lembranças eram um bálsamo que aliviava a saudade. Com
cada pedra que lançava, eu dizia um silencioso “obrigado” ao meu pai, por todas
as lições e pelos momentos que compartilhamos.
Aquela tarde no lago me trouxe paz. Compreendi que a
pinguela, as pedras e o lago eram mais do que apenas um cenário; eram símbolos
da relação que tivemos e do amor que ainda vive em mim. Ao sair daquele lugar,
levei comigo uma nova certeza: mesmo na ausência física, as memórias permanecem
vivas, e o amor nunca se apaga.
E assim, ao voltar para casa, meu coração estava mais leve.
Eu sabia que, sempre que precisasse, poderia retornar àquela pinguela, onde as
lembranças doces e singelas enchiam meu peito de afago, lembrando-me de que,
mesmo na solidão, nunca estamos realmente sozinhos.
TROVAS DE JESSÉ NASCIMENTO
TROVAS DE VANDA F. QUEIROZ
(JARDIM DA LALINHA, IPUPIARA, BAHIA)
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