MÁSCARAS DA VIDA
José Feldman
TROVA DE RENATO ALVES
Fiz da vida um carnaval,
mas terminei num impasse:
A máscara do irreal
grudou-se na minha face!
Fiz da vida um Carnaval, onde cada dia era uma nova festa,
uma celebração vibrante de cores e sons. Desde pequeno, sempre encontrei na
música e na dança um refúgio, uma forma de esquecer as dores e as frustrações
do cotidiano. As ruas da cidade se tornavam meu palco, e eu, um artista em
busca de aplausos e sorrisos. As fantasias que usava não eram apenas trajes,
mas armaduras que me protegiam da realidade. Cada máscara que eu colocava me
permitia ser quem quisesse, longe das amarras do eu cotidiano.
Naquele Carnaval, tudo era permitido. Sorrir, dançar, amar
sem medo. As pessoas se entregavam à euforia, e eu, em meio a essa alegria, me
sentia invencível. As cores se misturavam, as risadas ecoavam e a música
envolvia tudo como um abraço caloroso. Mas, à medida que os dias passavam,
percebi que havia algo mais profundo escondido atrás da festa. A realidade,
como um espectro, pairava à espreita, esperando o momento certo para se
revelar.
O que começou como uma celebração transformou-se em um
labirinto de ilusões. A cada desfile de Carnaval, percebia que as risadas se
tornavam mais distantes, os olhares mais vazios. As pessoas, antes tão
vibrantes, pareciam presas em suas próprias fantasias, vivendo uma vida que não
era a sua. Eu também me vi preso nesse ciclo. A alegria que antes me preenchia
começou a se transformar em uma máscara pesada, grudada em meu rosto como um
lembrete constante de que a vida estava se tornando uma encenação.
Certa noite, enquanto as luzes do Carnaval brilhavam
intensamente, eu me afastei da multidão. O som da música se tornava um ruído
ensurdecedor, e a dança, uma repetição mecânica de movimentos. Sentei-me à
beira de um lago, onde a água refletia as estrelas como pequenos diamantes no
céu. Olhei para meu reflexo e percebi a verdade que eu havia ignorado. A
máscara do irreal não era apenas um adorno; tornara-se parte de mim, uma
segunda pele que ocultava quem eu realmente era.
A realidade começou a se infiltrar em meus pensamentos. O
que eu havia construído em torno de mim era uma fantasia que me afastava de uma
vida autêntica. A busca incessante por aprovação e aplausos me deixava em um
impasse, preso entre a necessidade de ser visto e o desejo de ser verdadeiro. O
Carnaval, que deveria ser um momento de libertação, transformou-se em uma
prisão de ilusões.
Naquela noite à beira do lago, decidi que era hora de
desmascarar a verdade. O primeiro passo foi enfrentar a dor que eu havia
ignorado por tanto tempo. As memórias de perdas, de desilusões, de momentos em
que a vida não foi uma festa. Enfrentei cada uma delas, uma a uma, permitindo
que a tristeza e a vulnerabilidade emergissem. Com lágrimas nos olhos, percebi
que era essa autenticidade que me tornava humano, que me conectava aos outros
de forma genuína.
Na manhã seguinte, acordei com o sol filtrando-se pelas
janelas. O Carnaval ainda pulsava lá fora, mas eu estava disposto a participar
dele de uma maneira diferente. Não como um espectador, mas como alguém que
escolhe dançar ao ritmo de sua própria música. Comecei a me despir das máscaras
que havia usado por tanto tempo, uma a uma. Cada peça que caía ao chão era um
peso a menos, uma libertação da expectativa que havia me aprisionado.
Ao longo dos dias que se seguiram, a vida continuou a ser
um Carnaval, mas agora eu participava dele de forma autêntica. Aprendi a rir
sem medo, a dançar sem vergonha e a amar sem reservas. A máscara do irreal, que
antes grudara-se em meu rosto, agora era apenas uma lembrança de um tempo em
que eu não sabia quem era. Eu me permiti ser vulnerável, e essa vulnerabilidade
me trouxe uma força inesperada.
As pessoas ao meu redor começaram a notar a mudança. O
brilho em meus olhos não era mais uma ilusão, mas a chama de alguém que havia
encontrado seu verdadeiro eu. As conexões se tornaram mais profundas, as
risadas mais sinceras. Eu não precisava mais da aprovação alheia; a alegria que
eu buscava estava dentro de mim, e a vida se transformou em uma celebração
genuína.
O Carnaval se tornou uma metáfora da vida. Aprendi que,
mesmo nas festas mais vibrantes, é essencial estar em contato com a realidade,
com a dor e com a alegria que a vida traz. A máscara do irreal, que um dia me
aprisionou, agora estava guardada como um símbolo de uma jornada de
autodescoberta. E assim, enquanto a vida continuava a ser um Carnaval, eu
dançava livre, com o coração leve, pronto para enfrentar o que quer que viesse,
sempre fiel à verdade do meu ser.





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