domingo, 23 de agosto de 2026

A CHUVA - JOAQUIM RODRIGUES DE NOVAIS

 




A CHUVA
Joaquim Rodrigues de Novais


A chuva é o maná do Sertão,
o sertanejo sempre ora para que a chuva não demore.
Pede a Deus sua benção.
Com fé e oração,
com suas mãos calejadas da dureza da enxada
que arrasta nesse chão.
Que Deus abençoe esse povo,
não só os do nosso Sertão,
mas todos aqueles que produzem
para alimentar essa grande Nação.



Nota do Blog Literário do Filemon:

Joaquim Rodrigues de Novais é poeta de Ipupiara, Bahia, onde nasceram também outros poetas e escritores, como Carlos Ribeiro Rocha, Mário Ribeiro Martins, Carlos Araújo, Arides Leite Santos, Pedro Antonio dos Santos, Jeremias Ribeiro dos Santos, Filemon Martins, Jeremias Ribeiro Filho,  Saul Ribeiro dos Santos, Laurentina Martins Santos Novais, Glória Guedes Cunha e Moisés Arcanjo Filho, entre outros.


ENCONTRO COM O MERCADOR DE SOMBRAS - JOSÉ FELDMAN

 





Encontro com o Mercador de Sombras



  

Saiba, ó Rei dos Tempos que meus pés já beijaram as areias de Mogadíscio e minhas mãos já tocaram as sedas de Samarcanda.

 

Mas escute bem, pois de todos os homens que conheci sob a cúpula do céu, nenhum possui o nome tão gravado nas estrelas quanto Aldhiyb AlAbyad, o Lobo Branco.

 

— "E quem é este homem?", perguntareis vós.

 

Ele nasceu em um vilarejo de pedras brancas no sopé das montanhas de Hadramaut, onde o ar cheira a incenso e as cabras saltam entre abismos. Aldhiyb não tinha o sangue dos califas, mas dizia-se que sua mãe, ao dar à luz sob um eclipse lunar, viu um lobo de pelos níveos uivando para o mar, embora o oceano estivesse a muitas jornadas de distância.

 

Aldhiyb viveu sua juventude como um pastor de ovelhas, um homem do deserto que lia o destino no voo dos falcões. Ele era de poucas falas, mas de olhos que pareciam guardar o reflexo de espelhos distantes. Sua vida era o silêncio das dunas, até que a Grande Seca devorou os pastos e transformou o gado em ossos ao sol.

 

Sem nada além de uma túnica gasta e a coragem dos desesperados, ele caminhou até o porto de Aden. Lá, diante da imensidão azul que ele nunca imaginara existir, Aldhiyb não sentiu medo. Ele viu os navios balançando como berços e percebeu que as ondas eram apenas dunas que se moviam.

 

Ele foi parar no mar por um lance de dados do destino: ao tentar salvar um marinheiro bêbado de uma briga de taverna, acabou sendo levado para bordo do Vento do Amanhã como remador de última hora. Foi nas galés, entre o suor e o sal, que o pastor das montanhas tornou-se o senhor das águas. Ele não navegava para fugir da terra, mas para encontrar o que o deserto lhe havia prometido em sonhos: o mistério que existe além do horizonte.

 

Assim começou, ó Rei, a lenda do Lobo Branco, que trocou o cajado pelo leme e as ovelhas pelas ondas.

 

Saiba, ó Rei, que o mercado de Bagdá é o umbigo do mundo, onde o ouro de Gana encontra a seda da China e onde se vende de tudo, até o que não se pode tocar. Foi ali, entre o aroma de açafrão e o grito dos camelos, que Aldhiyb Al-Abyad viveu seu encontro mais sombrio antes de se tornar o senhor dos mares.

 

Mustafá, o contador, limpou a garganta e prosseguiu:

 

Enquanto Aldhiyb ainda era um jovem marinheiro buscando carga para seu primeiro navio, ele avistou, em um beco onde a luz do sol parecia ter medo de entrar, uma loja sem teto nem paredes. Ali, sentado sobre um tapete de fios negros, estava Malik Al-Zill, o Mercador de Sombras. À sua frente, frascos de ônix guardavam silhuetas que se contorciam.

 

— "Aproxime-se, Al-Abiyad," sibilou Malik. "Vejo que tens um corpo forte, mas uma alma pesada. O que buscas? Riqueza? Poder? Ou queres te livrar do que te atrasa?"

 

Aldhiyb, curioso e ainda não escolado nas armadilhas dos gênios e feiticeiros, perguntou o preço de uma sombra que parecia a de um rei.

 

— "Não vendo sombras de outros," respondeu o Mercador. "Eu compro a tua. Dá-me a tua sombra e, em troca, dar-te-ei o Vento de Popa. Nunca mais teu navio ficará parado em calmaria, e chegarás sempre antes de qualquer rival."

 

O jovem Aldhiyb olhou para o chão. Sua sombra era longa e fiel. Malik explicou que um homem sem sombra não sente medo, não sente remorso e não deixa rastros para os inimigos. 

 

Parecia o negócio perfeito para um marinheiro ambicioso.

 

Mas, ao estender a mão para selar o pacto, Aldhiyb percebeu algo terrível: nos frascos de Malik, as sombras não estavam quietas; elas gritavam em silêncio. Elas eram as memórias e a humanidade daqueles que as venderam. 

 

Um homem sem sombra é um homem que não projeta nada no mundo; ele é um buraco vazio que caminha.

 

— "Guarda o teu vento, mercador," disse Aldhiyb, recolhendo a mão. "Prefiro lutar contra a calmaria com meus próprios remos do que navegar rápido sendo apenas metade de um homem. Minha sombra pode ser escura, mas é ela que prova que eu estou sob a luz de Allah."

 

Furioso por perder a alma do marinheiro, Malik Al-Zill tentou roubar a sombra à força, lançando uma rede de trevas. Mas Aldhiyb, com a agilidade que aprendera com as cabras nas montanhas, saltou para onde o sol do meio-dia batia mais forte. A luz intensa do deserto queimou as mãos de fumaça do Mercador, que desapareceu em um redemoinho de poeira preta.

 

Dizem, que desde aquele dia, a sombra de Aldhiyb tornou-se mais nítida e escura que a de qualquer outro homem, e que foi esse peso que lhe deu a estabilidade para nunca virar seu navio nas tempestades que viriam.



(FONTE: "ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN)


MEUS ENCONTROS COM DEUS - MATUSALÉM DIAS DE MOURA

 




MEUS ENCONTROS COM DEUS

Matusalém Dias de Moura


Nas horas longas de terríveis dores,

de provação moral ou desencanto,

vertendo, triste, um incontido pranto,

vou até Deus levando meus clamores.


E ali, em frente Dele, sem temores,

ponho-me a ouvir a Sua voz, Seu canto,

feitos de amor, os quais me dizem tanto

nessas difíceis horas de amargores.


Recobro, logo após, o meu alento

e volto à luta, livre do tormento

das provações da humilhação sofrida,


pois Deus, vendo-me assim, mandou Seu filho

repor em minha vida o velho brilho,

dando-me, novamente, a paz perdida.


(LIVRO "SONETOS INSONES", PÁGINA 29)

MÍSTICA VISÃO - MIGUEL J. MALTY

 




MÍSTICA VISÃO

Miguel J. Malty


O céu guardava a cor dos alabastros,

na placidez balsâmica da noite,

que descera cobrindo os frescos rastros

da carruagem do sol na entrenoite.


As aragens, barquetas sem os mastros,

vagavam leves, calmas, sem açoite,

fazendo coro com a voz dos astros,

iam na calma, em busca de pernoite.


Os olhos levantei. Ergui os braços

para a amplidão suprema dos espaços,

como a beber a luz da eternidade.


Pus-me a sorrir, gritar embevecido,

ante a visão de glória, comovido,

ante a lúmina e mística Cidade.



(LIVRO "ABKAR A CIDADE ENCANTADA", PÁGINA 36)

REVISITANDO CASTRO ALVES - FILEMON MARTINS

 





REVISITANDO CASTRO ALVES  

 


Antônio Frederico de CASTRO ALVES nascido na Fazenda Cabaceiras, Curralinho, hoje cidade de Castro Alves, Bahia, um dos mais populares poetas do Brasil, escreveu versos admiráveis, entre outros, “O NAVIO NEGREIRO – Tragédia no mar”, do qual extraímos parte da VI estrofe:

“E existe um povo que a bandeira empresta/pra cobrir tanta infâmia e cobardia!... /E deixa-a transformar-se nessa festa/em manto impuro de bacante fria!... /Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta, /que impudente na gávea tripudia?!.../Silêncio!...Musa! chora, chora tanto/que o pavilhão se lave no teu pranto.../Auriverde pendão de minha terra, /que a brisa do Brasil beija e balança, /Estandarte que a luz do sol encerra/às promessas divinas da esperança.../Tu, que da liberdade após a guerra, /foste hasteado dos heróis na lança, /antes te houvessem roto na batalha, /que servires a um povo de mortalha”!...

Parece que o poeta baiano escreveu estes versos, que considero um dos mais belos e significativos da Língua Portuguesa, em nossos dias. Hoje, não temos a escravatura a que se referia o poeta, mas continuamos escravos do analfabetismo, da corrupção, da política de exclusão social, do desemprego, do crescimento da miséria, da fome, da violência, do medo, dos preconceitos, da falta de investimentos em pesquisas, educação, segurança e saúde, da submissão ao poder econômico. Aqueles que vivem em seus gabinetes atapetados e não têm contato com o povo, não percebem ou fingem não perceber como tem aumentado o exército de desempregados que passam fome e da miséria, acomodados esperando o Bolsa Família do Governo Federal.

Não malhamos o Brasil, mas sim aqueles que têm tido a responsabilidade de dirigir os destinos do País e não enxergam o futuro. Nasci e cresci no interior da Bahia e, em busca de dias melhores, como outros o fizeram, me transferi para São Paulo, onde trabalhei e estudei, e sempre ouvi falar em programas de erradicação do analfabetismo. Aos 76 anos, constato entristecido, que pouco se fez para alcançar tal objetivo. A educação, no Brasil, está defasada, assim como a saúde, transportes, saneamento básico e qualidade de vida, e nunca foram prioridades de nenhum governo.

Dizer que a “saúde é universal, que temos salário-mínimo, garantias individuais, direitos sociais e somos uma grande democracia do mundo ocidental” é balela e não enche barriga de ninguém, nem satisfaz a busca da sociedade brasileira por dias melhores, por um Brasil decente, digno, com oportunidades iguais para seus filhos, e grande não somente na dádiva da Natureza, que, a bem da verdade nunca soubemos aproveitar.

Na época, a pandemia do Coronavírus em 2020/2021 escancarou nossa deficiência na saúde pública, porque não houve investimentos como deveria.

Enquanto isso, as imagens na televisão e os artigos em jornais e revistas mostram a situação caótica do povo brasileiro, com a crescente onda de violência e crimes que assolam o território do Brasil. É preciso valorizar a indústria brasileira, que é capaz e competente. Essa reflexão me fez lembrar de uma história escrita pela colunista Helena Silveira, da Folha de S. Paulo, que em passeio na Argentina com uma amiga, entrou numa loja e viu uns lenços de seda de primeira qualidade. Comprou e comentou com a amiga: -¨imagina se no Brasil vou encontrar lenços assim?” Chegando ao hotel, abriu a embalagem para admirar a compra e veio a surpresa: a etiqueta dizia Indústria Brasileira. Vamos dar valor ao Brasil. O Brasil é um continente que merece ser visto, amado e respeitado pelos brasileiros.

Nas próximas eleições ajude o Brasil a expurgar esses políticos corruptos, enganadores, que só querem propina e enriquecer a família e os amigos com o dinheiro público. Use a massa cinzenta que você tem entre uma orelha e outra. Ative sua memória. Fuja deles!

No momento, não há o que comemorar, porque o sonho de um Brasil mais justo, decente, evoluído e independente se esbarra na incompetência e improvisação dos que dirigem o destino do País.

Mas a mensagem bíblica nos ensina: “HÁ TEMPO PARA TUDO: TEMPO DE CHEGAR E DE PARTIR. TEMPO DE AMAR E DE ABORRECER; TEMPO DE FICAR CALADO E TEMPO DE FALAR; TEMPO DE PLANTAR E TEMPO DE ARRANCAR O QUE SE PLANTOU”. (ECLESIASTES 3.1-2). Aplica-se ao caso.

 

Filemon Martins

Escritor e poeta

Da Confraria Brasileira de Letras

Do Clube Baiano de Trovas – Salvador, Bahia.

 


sábado, 22 de agosto de 2026

AUMENTA A PREOCUPAÇÃO COM A ECONOMIA - SAUL RIBEIRO DOS SANTOS

 

AUMENTA A PREOCUPAÇÃO COM

A ECONOMIA

 

Pesquisas revelam que a carestia muda a perspectiva do povo e tira a esperança dos brasileiros. Uma boa parte da população está frustrada com a forma do presidente e seus ministros governarem. A inflação está subindo e causando temor.

 

Entender e acompanhar as mudanças na política fiscal e seus reflexos na economia não é tarefa fácil. Olhei os jornais de hoje e vi uma manchete dizendo o seguinte: O Brasil está diante de dois caminhos – o caminho que nos últimos anos vem derrubando o poder de compra do brasileiro e o outro, o caminho das mudanças no rumo da economia.

As mudanças serão necessárias para colocar o Brasil no caminho do desenvolvimento. Pesquisas realizadas nestes últimos meses,  indicam que 80% dos brasileiros desejam mudanças.

Muitos economistas falam que os gastos públicos desenfreados trazem como consequência a desconfiança. A desconfiança nos atos do governo faz aumentar a preocupação com os rumos da economia.  Outros dizem que o tal do arcabouço fiscal implantado pelo Ministério da Economia em 2023 já nasceu frouxo e os resultados prejudiciais começam a aparecer. Além de tudo, estamos no ano de campanhas eleitorais e geralmente em períodos eleitorais os gastos excedem os limites.

A verdade é que a insatisfação com a economia é geral e ocorre em momentos ruins para o Brasil. Com tantos casos de corrupção, como no caso do desfalque nas contas dos aposentados do INSS, das contas dos Correios, do Banco Master. Tudo isso virou um mar de lama, muita sujeira que aumenta a desconfiança nos atos do governo e atrapalham o bom andamento da economia.

As guerras na Ucrânia, no Irã e em outras partes do mundo fazem o preço do petróleo subir. São problemas que o Brasil não pode controlar, não é da competência do nosso país, mas com inteligência e sabedoria fiscal conseguiremos atravessar essa crise. O governo Lula tomou algumas medidas eficazes, como isenção do PIS-Programa de Integração Social e da COFINS-Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social e um apelo aos governadores para que mexam e reduzam a cobrança do ICMS.

A verdade é que a economia do Brasil segue vacilando ao sabor dos acontecimentos internacionais e de atitudes políticas do governo. Todos percebem que o Brasil precisa ter a economia, pelo menos, um pouco mais forte.

A Bíblia é um livro que tem muito para nos ensinar. Os nossos governantes precisam ser inteligentes, honestos e justos. Precisam adotar procedimentos sábios, semelhantes aos que José, o filho de Jacó, tomou na idade antiga para beneficiar o Egito. Veja na Bíblia, no livro de Gênesis cap. 41 a partir do versículo 33 ao 43.



 

Saul Ribeiro dos Santos

Contador e economista aposentado.

Natural de Ipupiara – BA.

📧 saul.ribeiro1945@gmail.com

 

 


TROVAS BRASILEIRAS

 




TROVAS BRASILEIRAS


A Deus pergunta o descrente
qual o Seu melhor trabalho,
sem notar à sua frente
uma gotinha de orvalho.
        LANNOY DORIN


Seguindo-as pelo infinito
e sem poder entendê-las,
nosso olhar passeia aflito,
mas se encontra nas estrelas...
        MARIA THEREZA CAVALHEIRO


No mundo do desamor,
ao poeta, nada importa,
se na saudade ou na dor
a inspiração o conforta.
        FILEMON MARTINS


Por um capricho da sorte,
por uma estranha tortura,
o amor que me leva à morte
é o que me dá mais ventura!
        ELISABETH SOUSA CRUZ


(Coluna de Maria Thereza Cavalheiro, BALI, página 14)

AMOR SUPREMO - FILEMON MARTINS

 




AMOR SUPREMO
Filemon Martins

Meu coração recorda, emocionado,
o amor que norteou a minha vida,
e continua presente e bem guardado
na inspiração dos versos meus, querida.

Envolto nas lembranças do passado
preservo o que vivi, de fronte erguida.
Vou galopando pelo verde prado
onde a Esperança mora e faz guarida.

E enquanto o coração bater sedento,
vou prosseguir buscando o meu intento:
- continuar feliz por onde eu for.

Quero rever a Luz da madrugada
e despertar ao som da passarada
para viver, contrito, o nosso Amor!

GRINALDA DE TROVAS - AUSÊNCIA - FILEMON MARTINS

 






GRINALDA DE TROVAS – AUSÊNCIA
Filemon Martins


E vem a noite tão bela,
o céu se torna um bordado,
e eu vejo pela janela,
céu azul, todo estrelado.

Céu azul, todo estrelado,
a brisa sopra na rua
e eu fico bem acordado,
sorrindo, ao clarão da lua.

Sorrindo, ao clarão da lua,
pensando no ser amado,
meu coração te cultua,
e o meu peito, apaixonado.

E o meu peito, apaixonado,
por teu amor se insinua.
Sou, agora, um desolado,
a chorar a ausência tua...

******

Céu azul, todo estrelado,
sorrindo, ao clarão da lua,
e o meu peito, apaixonado,
a chorar a ausência tua...

(ALMANAQUE CHUVA DE VERSOS Nº 408, JOSÉ FELDMAN)

O GÊNIO DA SOMBRA E O PREÇO DO DESEJO - JOSÉ FELDMAN

 





O Gênio da Sombra e o Preço do Desejo

  

Acomodem-se, ó buscadores da retidão, pois Mustafá traz agora uma história que sopra como o samum (vento quente do deserto), aquele que queima a pele e obscurece a visão. Preparem seus ouvidos para a crônica de uma fortuna que nasceu da sombra e quase terminou em destruição.

 

Havia um andarilho chamado Nasir, que já havia gastado a sola de mil sandálias percorrendo os oásis do Oriente. Nasir era um homem de coração cansado, que suspirava por uma vida de repouso e fartura que nunca chegava.

 

Certa tarde, sob o calor de um sol impiedoso, ele encontrou um oásis esquecido, onde as águas eram escuras como o ébano. Ali, deitado sobre as raízes de uma tamareira retorcida, dormia um jinn (gênio) de aparência pavorosa, com pele cor de cinzas e fumaça saindo de suas narinas. Ao ser despertado, o gênio não rugiu, mas sorriu com uma astúcia maligna.

— “Andarilho, disse o gênio, pela sua ousadia em me acordar, darei a você o que o seu coração desejar. Peça, e o objeto surgirá diante de seus olhos.”

 

Nasir, deslumbrado pela promessa, pediu primeiro um cinto de couro fino com fivelas de prata. Em um piscar de olhos, o cinto apareceu em sua cintura. Depois, pediu uma adaga de punho de marfim e uma sela de seda para seu camelo. Tudo surgia instantaneamente. Nasir partiu dali sentindo-se o homem mais afortunado da Terra, sem saber que aquele era um gênio de maldade, que não criava nada do nada, mas roubava magicamente de outrem para satisfazer o pedido.

 

Semanas depois, enquanto descansava em uma hospedaria de caravanas, Nasir encontrou um velho amigo chamado Zayd. Ao ver Nasir cercado de luxos, Zayd empalideceu.

 

— “Nasir, meu irmão, como conseguiu este cinto?, perguntou Zayd, tremendo de fúria. Ele tem a marca da minha família gravada no couro interno! E esta adaga... ela desapareceu do meu baú na última lua cheia, junto com a sela de seda que herdei de meu pai!”

 

Nasir tentou explicar o encontro com o gênio, mas Zayd, sentindo-se traído, gritou: 'Ladrão!'. 

 

O tumulto atraiu os guardas, e Nasir foi levado acorrentado perante o qadi (juiz) da cidade.

 

No tribunal, o juiz olhou para as provas. A marca de Zayd estava em cada objeto. Nasir, em prantos, contou a verdade sobre o gênio do oásis. O sábio juiz, percebendo que a alma de Nasir estava confusa mas não perversa, deu seu veredito: 

 

— “Aquele que aceita o que não plantou, colhe o espinho da culpa. Mesmo que não tenha movido a mão para roubar, seu desejo foi a mão do gênio.”

 

Nasir teve que devolver tudo e trabalhar por um ano nas terras de Zayd para pagar a indenização pelo transtorno causado. Ele aprendeu, da maneira mais dura, que o gênio não lhe dera presentes, mas dívidas de honra.

 

Mustafá limpou a areia de suas vestes e olhou para o Sheik com gravidade, concluindo:

 

"A lição desta história, ó nobres senhores, é que não existe benção em uma riqueza que nasce da perda de outro. O desejo egoísta é o convite para que o demônio aja em nossas vidas. A verdadeira fortuna é aquela que vem do nosso próprio trabalho e da bênção lícita de Alá. Pois o que o gênio tira de um para dar a outro, a justiça divina sempre encontrará um caminho de devolver ao dono original, deixando o ganancioso com as mãos vazias e o nome manchado.”



(FONTE: "ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN)


POEMA, A MEU JEITO, PARA VOCÊ - FILEMON MARTINS

 




POEMA, A MEU JEITO, PARA VOCÊ…

 Filemon Martins



Quanta saudade depois que você partiu.
Você, olhar meigo, sereno,
sorriso doce, encantador,
voz delicada e calma
que escreve na alma
um poema de amor.

Eterno sonho de felicidade,
promessa, carinho, segredo,
- ventura que chegou tão tarde,
- ventura que se foi tão cedo.

Saudades... eu me recordo ainda
a ausência, a mágoa, a dor infinda,
lembranças – por que não esquecê-las?
- Sonho de amor, de meiguice,
quantas palavras que não disse
e que é tarde demais para dizê-las.

                      

              Hoje, essa estranha saudade

chega em tom de confissão
para apertar-me o peito,
que reclama, insatisfeito,
porque tudo mudou quando você partiu.

E agora, nada me resta, a não ser
a eterna certeza de que nunca mais,
nunca mais terei alguém como você.

A MAGIA DO PODER - FILEMON MARTINS

 




 

A MAGIA DO PODER

 

 

Custa-me crer que o eleitor, por mais alienado que seja, mas que tenha princípios morais e religiosos, não se sinta constrangido, não se sinta envergonhado e revoltado com as falcatruas perpetradas pela equipe do governo, nos dois mandatos anteriores (aliás, chamada de quadrilha, pelo Ministério Público), ao longo de oito anos no período de 2003 a 2011. Acreditar que Lula, com todo o aparato de inteligência e mecanismos de fiscalização à sua disposição, não soubesse de nada, como disse repetidas vezes, é achar que somos imbecis.

“Falar pouco, às vezes, é sinal de inteligência”, conforme Gabriel Perissé, em A ARTE DE CALAR. Contudo, diz ele, “calar-se é ainda mais importante, quando calar-se é dizer tudo. Há quem se cale por não ter realmente o que dizer, mas há também quem se cale por omissão, quando seria um dever falar, escrever, gritar, colocar a boca no trombone, como se dizia antigamente.”  Não é o que fez o presidente. Diante de tantos desvios de verbas, mostrou-se incapaz de falar, de gerenciar o dinheiro público. Se houve CPI dos Bingos, dos Correios, do Mensalão e das Sanguessugas, ao contrário do que mostra a propaganda de figurões políticos, foram instaladas contra a vontade do governo. Foi assim que caíram o ex-ministro da Fazenda, o presidente da Caixa Econômica Federal e alguns assessores do Gabinete da Presidência da República.

O silêncio do presidente foi intrigante e comprometedor. Considerou que seus companheiros de partido cometeram apenas um deslize, um erro ao permitir que a sociedade tomasse conhecimento. Já ocorrera esta conivência quando o então ministro José Dirceu utilizou-se de sua posição para alavancar a carreira política de seu filho Zeca Dirceu, no Paraná. Segundo Pedro Tobias, em A Tribuna, de Santos: “Lula criticou não a ação em si, mas o fato dela ter sido feita de “forma descuidada”, revelando o “estilo nada discreto do ministro”.

Lula não cumpriu nada do que prometeu, ao contrário: aumentou tributos, aumentou e prorrogou a CPMF, na época, taxou inativos do serviço público federal, não corrigiu a tabela do imposto de renda (antes, dizia que salário não era renda). Não fez Reforma Agrária, não fez Reforma Política, nem Tributária, a Previdência continua deficitária, continuaram os escândalos, os desvios de verbas alimentados pela sonegação dos próprios membros do governo.

Oito anos de mandato já foi demais, mas sua excelência, o eleitor, quis que tudo continuasse assim: o governo, que se dizia dos pobres, humildes e trabalhadores transformou-se em paraíso de empresários, deputados e senadores desonestos que sugam, de todas as formas, o dinheiro que deveria ser investido em saúde, pesquisas, habitação, educação, segurança pública e geração de empregos.

Assim, Lula conseguiu colocar no Planalto, Dilma Rousseff que se tornou Presidente do Brasil de 2011 a 2016, quando foi afastada por um processo de impeachment, sendo substituída por Michel Temer, que governou o país até janeiro de 2019.

A partir daí tornou-se Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, eleito pelo Partido Social Liberal até 31 de dezembro de 2022. Fez um governo polêmico e recheado de contradições no seu estilo de governar. Poderia ter feito uma administração superior, se tivesse escolhido melhor seus ministros e assessores e fosse mais sociável no trato com as pessoas.

Em 1º de janeiro de 2023 Luiz Inácio Lula da Silva se torna pela terceira vez Presidente do Brasil para deleite de uma parcela da população desmemoriada e para políticos e empresários de um balcão de negócios, onde tudo e quase todos se vendem em troca de muito dinheiro público que escapa pelo ralo sem que a população tenha conhecimento.

Agora, está pleiteando um quarto mandato com as mesmas promessas que sempre fez e não cumpriu.

Só nos resta ficar preparados para arcar com o prejuízo, fruto da nefasta administração do país, caso ele consiga o quarto mandato.

Pior, com a conivência proposital da Suprema Corte, ¨chefiada¨ por um ministro brasileiro, autor de um plano maquiavélico com outros amigos de igual jaez.

Meu avô paterno Gasparino Francisco Martins é quem tinha razão: “SE O HOMEM PROMETE E NÃO CUMPRE, NÃO TEM PALAVRA, NÃO TEM MORAL, PORTANTO, NÃO MERECE RESPEITO¨.

 

Filemon Martins

Escritor e poeta

Da Confraria Brasileira de Letras