terça-feira, 21 de abril de 2026

SEMENTE - MANOEL CARDOSO

 




SEMENTE

MANOEL CARDOSO (SÃO PAULO)


Em cada grânulo
uma latente vida dorme

um ano, uma década
(sempre?)
no aconchego do tempo

se um dia cai ao solo
acorda, cresce
e se nutre de húmus
e de luz

floresce, frutifica
alimenta
vive

Se mente o ser
que não gerou a semente
cabe-lhe culpa
se a grande dor é morrer
sem ter aprendido a operação
que soma e multiplica
nada mais resta a fazer.


(Do livro ESMERILHO-ME NA LÂMINA DO DIA, PÁGINA 20)

TROVAS DE APARÍCIO FERNANDES

 



TROVAS DE APARÍCIO FERNANDES


O rancor inolvidável
cede ao impacto do perdão:
- Não há nada tão moldável
como o próprio coração!

Há paz nos céus estrelados,
vive o amor no azul profundo!
Na Terra – há punhos cerrados
e o ódio avassala o mundo...

Crê que é dono do Destino,
tem poder de vida ou morte.
Mas não passa de um cretino,
escravo da própria sorte...


(ANUÁRIO POETAS DO BRASIL, 1980, 1º VOLUME, PÁGINA 55)

MUDANÇA - THÉO DRUMMOND

 




MUDANÇA
THÉO DRUMMOND (1927/2015)


Durante muito tempo não sonhei,
e se sonhei, do sonho não lembrava.
Antes de levantar sempre fiquei
a ver se de algum sonho recordava.

A todas as pessoas que eu contava
entre elas lembro de uma que encontrei
que se viesse a sonhar logo acordava,
com medo de uma coisa que não sei.

Foi de uns tempos pra cá que quando deito
eu vejo alguém vir caminhando à toa,
e ao vê-la, linda e pura, me deleito.

E ao me acordar sinto uma coisa boa,
mas embora feliz e satisfeito,
quero encontrar, na vida, esta pessoa.


(PORTA DO CORAÇÃO, PÁGINA 43)

ESSE AMOR - MARILDA CONCEIÇÃO

 


                     (FOTO DE KEISE JINKINGS MARTINS - EM ITANHAÉM)



ESSE AMOR
Marilda Conceição


Que amor é esse que me enlouquece,
que me balança o coração.
Que desestrutura meu ser
e me faz vibrar de emoção?

Que amor é esse que me aguça a mente,
que me treme o corpo, me provoca gemidos
e me tira a lucidez?

Que amor é esse que me engrandece a alma,
me renova a vida,
me acalenta e acalma?

Que amor é esse
que me traz alegria, me dá satisfação,
me faz sorrir, vibrar de prazer
e me domina a razão?

Que amor é esse?

Não sei se chamo de amor,
loucura ou paixão!


(FONTE AVBAP )

PER ASPERA AD ASTRA - ANTÔNIO CARLOS CÔRTES

 




 

PER ASPERA AD ASTRA (*)

Antônio Carlos Côrtes


Andarilho da cidade
Doca das frutas a Guarujá
Ruas, becos, vielas, avenidas
De lá pra cá
Encontros de  felicidade
Tentando abrandar
Saudade
Recanto do Sabiá
Sorriso do Negrão Collares
Abraçado a Mãe Norinha
Segue outros ares
Desce um pouco mais
Ouve  voz do além
" Pensem nisso, enquanto lhes digo até amanhã"

Enxerga  nuvem avermelhada
Ocaso horizonte Rei Sol
Sérgio Jockman
Com jaqueta colorada
Na frente do Olímpico
No Timblim Airton Pavilhão
Dá de charleston
No Menino Deus
Ranzolin, Candinho
Na Tristeza o Portinho
Na Catamarã Galvani
Junto do Carlos Nobre
Terra é Guaíba
Só a ponte!!
Mercado Público Borel
Na Primeira Perimetral
Mas longe do quartel
Ariovaldo Paz e a baiana
Tempos de Carnaval
Nega Martha dos Imperadores
Nas imediações da Eurico Lara
Sérgio da Costa Franco
Balança a caneta tinteiro
Vestindo terno de linho branco
Ramalhete de flores
Bem na janela frente ao barranco
Floresta Aurora da Curupaiti
Osmar Fortes Barcellos (Tesoura)
Alpheu, Abgail e Romeu da Cruz
Estande Chaveiro Machado
Frente  beco do mijo
Vilela, Elton, Larry
Na Ponte de Pedra
Club Aymoré
Nego Roxo, pé de valsa
Quem viu, viu
Só andava a pé
Alambique Tuim
Cesar Silva, Barretão, Santana
Turma do funil
Confeitaria Matheus
Só gente bacana
Cababá, Barulho, Franck
Bom Fim do Zé Flávio
Lembrando almôndegas
Acadêmicos da Orgia
Rufem os tambores
Bedeu, Leleco Telles
Cantantes de amores
Na Conceição Lobo Solitário
Afrosul Iara Teodoro
Faz passo de dança
Esplanada da Restinga
Tem Vera Furacão que não cansa
Bambas da Negra Darilce
Na José de Patrocínio Nega Lu
Padre Severino no Luanda
Bebem vinho do Padre
Servido pelo Tide
Praça Garibaldi tem Muamba
Mas nunca cabide
Seguindo pela Venâncio Aires
Quase esquina Santa Terezinha
Oitiva do maior Tribuno do Estado
Carlos da Silva Santos
Que não era um só foi tantos
Na linha direta de Xangô

(*) Através das dificuldades para as estrelas.


(DA ACADEMIA RIO-GRANDENSE DE LETRAS)


segunda-feira, 20 de abril de 2026

NEVER MORE - MÁRIO RIBEIRO MARTINS

 




NEVER MORE

MÁRIO RIBEIRO MARTINS


Lembro-me bem. Faz hoje um ano apenas...
Ela tocava... Tinha a cor de opala...
Às vezes parecia as açucenas
Exalando perfume em grande escala.

Inolvidáveis mãos... Leves quais penas...
O som do seu piano inda me abala...
Notas suaves... Notas bem serenas
Eram toda a beleza lá na sala.

Hoje! Não sei... Talvez mais forte e linda,
Toque melhor e muito mais ainda,
Toque a mesma canção, mas não me alcança...

Lar... Jovem... O piano recostado...
Sala... Beleza... Foram sonho alado,
Pois apenas ficaram na lembrança!


(LETRAS ANAPOLINAS, POESIA E PROSA, PÁGINA 400)

QUEM FOI O BAIANO MILTON SANTOS? - MÁRIO RIBEIRO MARTINS

 



QUEM FOI O BAIANO MILTON SANTOS?
                                                   
Mário Ribeiro Martins*

     
MILTON SANTOS (Milton de Almeida Santos), de Brotas de Macaúbas, Bahia, 03.05.1926, escreveu, entre outros, “O CENTRO DA CIDADE DE SALVADOR” (1959), “O TRABALHO DO GEÓGRAFO NO TERCEIRO MUNDO” (1971), “O ESPAÇO DIVIDIDO” (1975), “POR UMA GEOGRAFIA NOVA” (1978), “ESPAÇO E SOCIEDADE” (1979), “PENSANDO O ESPAÇO DO HOMEM” (1982), “ESPAÇO E MÉTODO” (1985), sem dados biográficos nos livros e sem qualquer outra informação ao alcance da pesquisa, via textos publicados. Após os estudos primários em sua terra natal (de onde também procede o autor destas notas), deslocou-se para outros centros, onde também estudou.
Filho de professores primários, aprendeu a ler e a escrever aos cinco anos de idade, sem frequentar qualquer escola, pois era orientado pelos pais, na vetusta Brotas de Macaúbas. Filho de Adalgisa Umbelina de Almeida Santos e Francisco Irineu dos Santos. Aos oito, já dominava a álgebra e dava os primeiros passos no francês.
Em 1936, mudou-se para Salvador, sendo matriculado, com dez (10) anos de idade, no Instituto Baiano de Ensino. Descendente de escravos emancipados antes da Abolição, pensou fazer engenharia, mas desistiu ao saber da discriminação contra negros na Escola Politécnica de Salvador.
Concluído o Ginásio, matriculou-se na Faculdade de Direito, da Universidade da Bahia, onde se formou em 1948, quando tinha 22 anos de idade. Tornou-se Advogado em Ilhéus, no interior baiano, durante algum tempo, quando também lecionou Geografia nas escolas da cidade. De volta a Salvador, continuou lecionando e trabalhando como Repórter do jornal A TARDE.
Nos anos seguintes, viajou para a França. Em 1958, quando tinha 32 anos, terminou o Doutorado em Geografia, pela Universidade de Estrasburgo, no interior da França. De volta à Bahia, em 1959, escreveu seu primeiro livro sobre a cidade de Salvador.
Atuou como jornalista, tendo acompanhado Jânio Quadros numa viagem a Cuba, em 1960, época em que já era um geógrafo conhecido em seu Estado. Tornou-se amigo e profundo admirador de Jânio, chegando a ser subchefe da Casa Civil e representante do governo federal em seu Estado. Mas se decepcionou com a renúncia do então presidente, em agosto de 1961.
Em 1964, presidiu a Comissão Estadual de Planejamento Econômico, órgão do governo baiano. Durante sua permanência na comissão, foi autor de propostas polêmicas, como a de criar um imposto sobre fortunas. Durante o regime militar, combinou as atividades de redator do jornal "A Tarde", de Salvador, e a de professor universitário. Na época, defendeu posições nacionalistas e denunciou as precárias condições de vida dos trabalhadores do campo.
Por causa de suas posições políticas, acabou sendo demitido da Universidade Federal da Bahia e passou 60 dias preso no quartel do Bairro de Cabula, em Salvador. Só foi libertado porque sofreu um princípio de infarto e um derrame facial.
Aconselhado por amigos, aceitou convite para lecionar no exterior. Nomeado Professor da Universidade de Bordeaux (interior da França), lecionou também na Universidade de Sorbonne, em Paris. Seguiu para os Estados Unidos, tendo trabalhado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Foi professor das Universidades de Paris (França), Columbia, em Nova York (EUA), Toronto (Canadá) e Dar Assalaam (Tanzânia). Também lecionou na Venezuela e Reino Unido.
Só regressou ao Brasil em 1977, com 51 anos de idade, na época da "distensão". Mudou-se para São Paulo, tornando-se professor, em 1984, da Faculdade de Filosofia, Ciências Humanas e Letras da USP (FFLCH), consultor da OIT (Organização Internacional do Trabalho), da OEA (Organização dos Estados Americanos) e da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).
Com o passar do tempo, tornou-se especialista em problemas urbanos dos países subdesenvolvidos, tendo sido Consultor dos Governos da Argélia e de Guiné-Bissau. Fez-se reconhecido internacionalmente, tendo sido professor na França, nos Estados Unidos, na Tanzânia e na Venezuela, entre outros. Expoente do movimento de renovação crítica da Geografia.
Por concurso público de provas e títulos, tornou-se Professor Titular da Universidade de São Paulo. GEÓGRAFO BRASILEIRO. Escritor, Ensaísta, Pesquisador. Memorialista, Intelectual, Educador. Cronista, Contista, Ficcionista. Literato, Conferencista, Produtor Cultural. Administrador, Orador, Poeta.
Em 1994, ganhou o Prêmio Internacional de Geografia VAUTRIN LUD, bem como o Prêmio Homem de Ideias, do JORNAL DO BRASIL e ainda o Prêmio Gilberto Freyre de Brasilidade, da Federação do Comércio de São Paulo.
Ao longo de sua carreira de mestre, recebeu 12 (doze) títulos de DOUTOR HONORIS CAUSA, de diferentes Universidades estrangeiras. Era membro da Comissão de Justiça e Paz, da Arquidiocese de São Paulo, desde 1991.
Em 1997, com 71 anos de idade, esteve na Universidade Federal de Goiás, em Goiânia, quando falou sobre “O PAPEL DO INTELECTUAL NO SÉCULO XXI”. Escrevia para o jornal FOLHA DE SÃO PAULO.
Faleceu em São Paulo, em 24.06.2001, com 75 anos de idade, sendo enterrado no Cemitério da Paz, no Morumbi. Pai de dois filhos, um deles Rafael Santos. Na MOSTRA MULTICULTURAL MILTON SANTOS, promoção da Universidade Federal de Goiás, em junho de 2002, uma homenagem lhe foi prestada pelo professor de Geografia da USP, Francisco Capuano Scarlato, que fez conferência sobre a sua vida e obra.
O grande pecado do baiano Milton Santos foi, tendo nascido em Brotas de Macaúbas, na Chapada, jamais ter dado a devida importância à CHAPADA DIAMANTINA, não no sentido de mencionar em seus livros de Geografia, mas no sentido de estudá-la e DIVULGÁ-LA com mais vigor, eis que nela nascera.
Apesar de sua importância, não é mencionado no livro BAIANOS ILUSTRES, de Antonio Loureiro de Souza, não é referido na ENCICLOPÉDIA DE LITERATURA BRASILEIRA, de Afrânio Coutinho e J. Galante, edição do MEC, 1990, com revisão de Graça Coutinho e Rita Moutinho, em 2001 ou DICIONÁRIO HISTÓRICO-BIOGRÁFICO BRASILEIRO (2001), da Fundação Getúlio Vargas e nem, em nenhuma das enciclopédias nacionais, Delta, Barsa, Larousse, Mirador, Abril, Koogan/Houaiss, Larousse Cultural, etc.
É verbete do DICIONÁRIO BIOBIBLIOGRÁFICO REGIONAL DO BRASIL, de Mário Ribeiro Martins, via INTERNET, dentro de ENSAIO, no site www.usinadeletras.com.br.

*Mário Ribeiro Martins era escritor e Procurador de Justiça do Estado de Goiás.

TROVAS DE MÁRIO BARRETO FRANÇA

 




TROVAS DE MÁRIO BARRETO FRANÇA


Não olhe tanto o futuro
nem no passado se ausente,
porquanto o melhor seguro
é ser útil no presente!

Não é nem será fraqueza,
de um erro se arrepender.
Sempre demonstra nobreza
quem vence o seu próprio ser.

O circo é cópia discreta
do mundo, em glória e fracasso:
- Sofre no risco do atleta,
mente no rir do palhaço.

Raras são as criaturas
de julgamento sereno,
pois quando estão nas alturas
veem todo mundo pequeno.

O MAL DE CADA DIA - MÁRIO BARRETO FRANÇA

 




O MAL DE CADA DIA
                   Mário Barreto França
 

Sim, eu sei a injustiça que hei sofrido.
Que vontade me vem de protestar!
Mas, domino este impulso e, decidido,
Continuo servindo à Pátria e ao lar.

Não choro ter, ó Deus, algo perdido,
Pois sei que muito mais tens para dar.
O que me dói é ver o amor fingido
Em ter-se, a qualquer preço, um bom lugar...

Quanta ambição de alguns o peito invade,
Pois para alimentar sua vaidade,
Mancham e ofendem de outros a moral.

E, nesse anseio de melhor destino,
Esquecem de Jesus o nobre ensino:
- “A cada dia basta o próprio mal!”


(Do livro “VEJO A GLÓRIA DE DEUS” página 119)

LIVRO "POEMAS E PENSAMENTOS 5" - HUMBERTO DEL MAESTRO

 




Recebi do escritor Humberto Del Maestro mais um livro de sua lavra, "POEMAS E PENSAMENTOS 5", com 265 páginas de pura poesia: Trovas, Haicais, Sonetos, Breves, Poemetos e muito mais. O autor informa que este é o livro dos seus oitenta anos. 65 livros escritos e publicados.


 Já lendo e divulgando o trabalho do ilustre poeta Humberto Del Maestro, imortal da Academia Espírito-santense de Letras, onde ocupa a cadeira 20.


TROVAS QUE INICIAM O LIVRO, PÁGINA 9:


Aos meus infames algozes,

Com seus "delírios" de neve,

Do infinito escuto vozes:

- Que a terra lhes seja leve.


Meus braços viraram tralhas

Que me causam pesadelos.

Lembram inúteis medalhas...

Mas como temo perdê-los.


Borboletas pequeninas

Sobre o roseiral em flor;

Até parecem meninas

Brincando com bom humor.


Cai a tarde em agonia,

A chuva desce depois;

Chega sem pressa, arredia,

Como carroça de bois.


Chove agora em cataratas,

Com ventanias insanas.

Dos valões sobem baratas

E asquerosas ratazanas.


(LIVRO "POEMAS E PENSAMENTOS 5)

domingo, 19 de abril de 2026

NOITE E VERSOS - FILEMON MARTINS

 



NOITE E VERSOS

Filemon Martins


Vai alta a noite. A madrugada é fria,
a insônia chega, fica e me namora.
Levanto-me à procura da poesia,
mas ela, impaciente, vai embora.

Percorro o céu do amor, da fantasia,
fico em vigília e vejo a luz da aurora:
- que paz a humanidade alcançaria,
se o amor reinasse pelo mundo afora.

Ouço, distante, o farfalhar do vento,
e por que minha voz não tem alento,
- se o dia vai nascer como criança?

Surge, então, o cantar da passarada
e outros versos virão, na madrugada,
talvez mais coloridos de esperança!

LUGARES... - ELVIRA DRUMMOND

 



LUGARES...

Elvira Drummond


Já visitei lugares em que a vista

pasmou, ao ver a cena deslumbrante:

enturveceu, por cerca de um instante,

atônita à mansão com mãos de artista...


Tamanho luxo cabe em uma lista

que inclui a prataria mais brilhante,

cristais e o tom dourado exuberante

compondo um tal "cenário de revista".


Já visitei lugares bem modestos,

vazios de pertences, mas de gestos

fraternos, de uma paz abençoada...


Dos dois lugares, reina soberana

a imagem amorosa da choupana,

que a vida, sem amor, não vale nada!


(LIVRO "OS ESCOLHIDOS versos diversos", PÁGINA 43)

A TEMPESTADE E A JORNADA - JOSÉ FELDMAN

 



A TEMPESTADE E A JORNADA

José Feldman


TROVA DE JERSON LIMA DE BRITO


Não tema sua jornada

se o céu estiver cinzento

que às vezes a trovoada

faz parte do ensinamento!



           

Numa pequena cidade, onde as colinas se encontravam com o céu em um abraço eterno, a vida seguia seu curso tranquila, mas repleta de desafios. Os moradores daquela cidade eram conhecidos por sua resiliência e força de espírito. No entanto, havia um jovem chamado Matheus que frequentemente se deixava abater pelas nuvens cinzentas que pareciam pairar sobre sua vida.

Matheus era um sonhador. Desde criança, alimentava grandes aspirações: queria ser escritor. Suas histórias eram recheadas de aventuras e heróis, mas, à medida que crescia, as incertezas começaram a envolvê-lo. Ele se via diante de um dilema: como transformar seus sonhos em realidade em meio às dificuldades do dia a dia? A pressão para ter um emprego estável, a expectativa da família e o medo do fracasso o deixavam angustiado.

Em uma tarde particularmente nublada, Matheus decidiu que precisava de um tempo para pensar. Pegou seu caderno e saiu em direção ao parque da cidade, um lugar que sempre o inspirava. À medida que caminhava, o céu escurecia, e um vento forte começou a soprar. Ele hesitou, mas a necessidade de encontrar respostas o levou adiante. Ao chegar ao parque, sentou-se em um banco sob uma árvore frondosa e começou a escrever.

Enquanto suas ideias fluíam, ele percebeu que as nuvens no céu estavam se acumulando, e logo a chuva começou a cair. No início, as gotas eram suaves, quase como um sussurro. Mas, em poucos minutos, a tempestade se intensificou, e o que antes era uma leve garoa transformou-se em uma verdadeira trovoada. Ele se viu preso, sem abrigo, e um sentimento de desespero começou a tomar conta dele.

No entanto, em meio ao caos, algo inesperado aconteceu. Ele observou as gotas de chuva batendo nas folhas, criando uma melodia única, um ritmo que parecia dançar com a natureza. As árvores, que antes pareciam temerosas, agora se erguiam majestosas, como se estivessem celebrando a tempestade. Sentiu uma onda de inspiração. Em vez de se deixar levar pelo medo, decidiu se entregar àquele momento.

Com o caderno em mãos, começou a escrever freneticamente. As palavras fluíam como a chuva, e ele percebeu que a tempestade não era um obstáculo, mas uma oportunidade. A trovoada trazia consigo um ensinamento profundo sobre a vida: os desafios e as dificuldades são partes inevitáveis da jornada. Cada gota de chuva, cada relâmpago, representava uma lição, uma chance de crescimento.

Quando a tempestade finalmente começou a se dissipar, ele sentiu-se renovado. Olhou para o céu, que agora começava a clarear, e sorriu. As nuvens cinzentas não eram apenas um símbolo de desespero, mas também de transformação. Percebeu que, assim como a natureza, sua vida também passaria por fases, com momentos de sol e momentos de chuva. E que não deveria temer esses momentos difíceis, pois eram eles que o moldavam, que lhe ensinavam a ser forte e resiliente.

Ao voltar para casa, Matheus sentiu-se leve. Ele sabia que o caminho à sua frente ainda seria repleto de desafios, mas estava determinado a enfrentá-los de cabeça erguida. A trovoada daquela tarde se tornara um marco em sua jornada, um lembrete de que o crescimento muitas vezes vem das experiências mais difíceis.

A vida, assim como o tempo, é cheia de surpresas. Não devemos temer a jornada, mesmo quando o céu estiver cinzento, pois às vezes a trovoada faz parte do ensinamento. E são essas tempestades que nos preparam para os dias ensolarados, nos ensinando a valorizar cada raio de sol que brilha em nossas vidas.