O
Mercado do Silêncio de Samarcanda
A fama de Mustafá, o peregrino
ganhou tais proporções, que um sheik de Bagdá o convidou para se hospedar em
seu palácio, desde que contasse suas histórias que penetravam e encantavam a
alma de todos.
Mustafá sentava-se em almofadões,
com o sheik sentado em sua cadeira e os súditos espalhados pelo salão, sentados
no chão. Falava pausadamente, gesticulando muito, atraindo a atenção de todos
os ouvintes.
Saiba, ó Rei dos Tempos e Senhor
da Justiça, que as palavras que agora saem de minha boca não são frutos da mera
imaginação, mas sementes colhidas nos portos onde o sol se põe e a lua
descansa. Sou Mustafá, o Peregrino, e meus pés já beijaram as areias de
Mogadíscio e minhas mãos já tocaram as sedas de Samarcanda.
Acomode-se, ó Sultão de Bagdá,
pois o que vou narrar agora não é para ouvidos apressados. Bebam seus chás com
calma, pois a história do Mercado de Silêncio de Samarcanda exige que a alma
esteja em repouso.
Há muitos anos, quando minhas
sandálias ainda eram novas e meu coração buscava o que os olhos não podiam ver,
atravessei as montanhas de gelo até chegar às muralhas azuis de Samarcanda. Mas
não entrei pelo portão dos mercadores barulhentos. Fui guiado por um velho
dervixe até um bairro onde as ruas eram cobertas por tapetes de lã grossa e as
paredes eram revestidas de cortiça e veludo.
Ali, ó Sheik, ficava o Souq
al-Samt (Mercado do Silêncio).
Ao cruzar o arco de entrada, o
som do mundo morria. Não se ouvia o tinir das moedas, nem o grito dos
vendedores de halva (doce de gergelim), nem o relincho dos camelos. O silêncio
era tão denso que se podia ouvir o bater das asas de uma borboleta a dez côvados
de distância. Era um lugar de paz profunda, uma serenidade que descia sobre os
homens como o orvalho da manhã.
Nesse mercado, as transações não
eram feitas com a língua, mas com o coração. Se um homem desejava um frasco de
essência de jasmim, ele não perguntava o preço. Ele sentava-se diante do
mercador, ambos em silêncio, e olhavam-se nos olhos. Ali, o vendedor lia a
necessidade do comprador, e o comprador sentia a honestidade/confiança do
vendedor.
Vi um homem oferecer uma única
tâmara seca por um colar de safiras. Em qualquer outro lugar, seria loucura ou
insulto. Mas ali, naquele silêncio sagrado, o mercador aceitou com um aceno de
cabeça. Por quê? Porque aquela tâmara era o último alimento daquele homem, dada
com um sacrifício que valia mais que todo o tesouro do Califa. O valor das
coisas não era medido pelo ouro, mas pela intenção.
Certa tarde, vi um jovem gharib (estrangeiro)
entrar correndo, gritando por socorro porque perdera sua caravana. No momento
em que sua voz rompeu o ar, as mercadorias nas prateleiras — as sedas, as
cerâmicas, as especiarias — perderam a cor, tornando-se cinzas como as cinzas
de uma fogueira. O silêncio era a magia que mantinha a beleza viva. O jovem,
percebendo o sacrilégio, caiu de joelhos e cobriu a boca. Um ancião apenas
tocou seu ombro e lhe entregou um copo de água. Naquele silêncio, o jovem encontrou
a direção que nenhum mapa poderia dar.
Dizem, ó Sheik, que o Mercado de
Silêncio foi construído sobre o túmulo de um sábio que acreditava que 'a
palavra é prata, mas o silêncio é ouro'. Saí de lá dias depois, mas minha voz
nunca mais foi a mesma. Aprendi que, quando calamos a língua, a alma começa a
falar.
Saí de Samarcanda levando apenas
um pequeno saco de seda vazio. Quando as pessoas me perguntavam o que comprei
no Mercado de Silêncio, eu apenas sorria. Pois o que comprei lá não cabe em
caravanas: comprei a capacidade de ouvir a voz de Alá no sussurro do vento do
deserto.
Escutai com vossa alma, ó
guardiões da paz, pois o Souq al-Samt (Mercado do Silêncio) não é apenas um
lugar em Samarcanda, mas um espelho da verdade divina.
A moral desta história, ó Sheik,
é que o valor de um homem e de suas posses não reside no preço que a língua
apregoa, mas na intenção que o coração sustenta. Vivemos em um mundo de ruído,
onde acreditamos que quanto mais alto gritamos nossa importância, mais seremos
ouvidos. Contudo, o mercado nos ensina que a verdadeira paz profunda e a bênção
só florescem onde o ego se cala.
Muitas vezes, uma única tâmara
dada com sacrifício vale mais que mil dinares (moedas de ouro) dados com
orgulho. A beleza do mundo é uma magia frágil que se desfaz diante da
arrogância e do barulho desnecessário. Quem aprende a silenciar a sua língua
descobre que o universo inteiro começa a falar, e que as trocas mais valiosas
da vida são aquelas feitas em espírito de honra e confiança, sem que uma única
palavra precise ser gasta.
Mustafá inclinou a cabeça, encerrando
o relato.
(FONTE: "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)




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