sábado, 11 de julho de 2026

UM GRITO NO AR - JESSÉ NASCIMENTO

 




UM GRITO NO AR

Jessé Nascimento


Aiiii!

Os gritos de agonia ecoam pelo espaço.

Os golpes se sucedem impiedosamente,

sem misericórdia.

Ninguém parece ouvir seus pedidos de socorro.

E a crueldade do ser humano aumenta a cada dia.

Nada o detém. Nada...

As vítimas vão tombando sucessivamente,

sem ter quem as escute,

sem ter quem impeça crimes tão hediondos.

O ar fica impregnado do cheiro do massacre,

que ameaça os criminosos e os demais viventes.

Inaudíveis ao homem, os gritos e choros

sensibilizam a natureza que se defende como pode

sem conseguir impedir a matança desenfreada.

Não sei...

Não está tão longe o dia

em que a floresta soltará seu último grito,

seu último gemido,

seu último pedido de socorro.

Terá sido tombada a última árvore.

Terá sido dizimada a vida na Terra...





(1º lugar no Concurso de Poesia Livre, do AALA, tema Floresta - 2015)



sexta-feira, 10 de julho de 2026

A MENTIRA - FILEMON MARTINS

 




                                    A MENTIRA

                       Filemon Martins

 

    Nunca no Brasil um vocábulo esteve tão em voga quanto o termo mentira. Mente-se descaradamente em todos os setores, em todos os lugares, em todos os segmentos da sociedade. Aliás, a imprensa, incluindo aí as redes sociais, não diz que são mentiras. São ¨fakes news¨, como se não soubéssemos que são mentiras mesmo ou notícias falsas, o que vem a ser a mesma coisa.

Affonso Romano de Sant’anna, em seu magnifico poema ¨A IMPLOSÃO DA MENTIRA¨, diz: ¨Mentem no passado. E no presente passam a mentira a limpo. E no futuro mentem novamente. Mentem fazendo o sol girar em torno à terra medieval/mente. Por isto, desta vez, não é galileu quem mente, mas o tribunal que o julga herege/mente. Mentem como se Colombo partindo do Ocidente para o Oriente pudesse descobrir de mentira um continente. Mentem desde Cabral, em calmaria, viajando pelo avesso, iludindo a corrente em curso, transformando a história do país num acidente de percurso¨.

A mentira tem o poder de destruir o caráter e a personalidade de qualquer pessoa, seja o cidadão comum ou o político consagrado. É muito frustrante nas eleições brasileiras quando acreditamos que este ou aquele candidato é decente e honesto. Depositamos na urna um voto de confiança. Depois de eleito, já no cargo que o elegemos, vem a decepção porque ele mentiu. Percebe-se que o objetivo do governante não é governar para o bem da coletividade e sim proteger sua família, seus amigos empresários e capitalistas que querem mais lucro, não importa a quem o chicote vai alcançar.

A mentira inferniza e destrói lares, porque um dos parceiros mentiu. Há pessoas que fazem da mentira uma prática diária. Mentem aqui e acolá e vão mentindo pela vida afora, querendo transformar a mentira que apregoam em verdade cristalina e pura. Não é sempre que conseguem. Geralmente são desmascarados pelos fatos.

A sociedade não prospera quando a mentira alimenta a corrupção que medra em todos os terrenos, especialmente onde há dinheiro. O grande jurista e advogado Rui Barbosa, em campanha presidencial contra Epitácio Pessoa, pronunciou um discurso no Rio de Janeiro, em março de 1919, ¨O REINO DA MENTIRA¨ – ¨Mentira toda ela. Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu, onde, segundo o padre Vieira, o próprio sol mentia ao Maranhão, e direis que hoje mente ao Brasil inteiro. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos projetos. Mentira nas reformas. Mentira nas convicções. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações e nos blocos. Mentira nas instituições. Mentira nas eleições. Mentira nas apurações. Mentira nas mensagens, nos relatórios, nos inquéritos, nas candidaturas, nas garantias, nas responsabilidades, nos desmentidos. A mentira é geral. Uma impregnação total das consciências pela mentira, que se acaba por se não discernir a mentira da verdade, que os contaminados acabam por mentir a si mesmos e muitas vezes não sabem se estão, ou não mentindo¨.

Jesus afirmou que o pai da mentira é o diabo. Portanto, aqueles que mentem e não se arrependem se tornam filhos do diabo. No episódio da crucificação de Cristo, Pedro, o grande Pedro mentiu três (3) vezes antes que o galo cantasse. Mas as Escrituras Sagradas também informam que Pedro se arrependeu e chorou amargamente. E a Bíblia é muito clara sobre a mentira: ¨Não darás falso testemunho contra o teu próximo¨. Êxodo 20:16 - ¨A testemunha sincera não engana, mas a falsa transborda em mentiras¨. Provérbios 14:5 - ¨Não furtem. Não mintam. Não enganem uns aos outros¨. Levítico 19:11 - ¨Pelo que deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo¨. Efésios 4:25 - ¨E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará¨. João 8:32 - ¨Quem pratica a fraude não habitará no meu santuário; o mentiroso não permanecerá na minha presença¨. Salmos 101:7 - ¨Que a sua palavra seja sim, sim e não, não¨. Mateus 5:37.

Diante de tudo isto, o quadro é desanimador, porque infelizmente no Brasil a mentira foi banalizada e se transformou em arma para destruir pessoas, relacionamentos, mina a confiança e quase sempre machuca tanto que é impossível o conserto.

 

FONTE:

A BÍBLIA

DISCURSO DE RUI BARBOSA: ¨O reino da mentira¨

Poema de Affonso Romano de Sant’anna ¨A implosão da mentira¨

Visão do autor








CONTRASTE - ARISTEU BULHÕES

 





CONTRASTE

Aristeu Bulhões

 

No chão do meu quintal, que rústico era,

Eu, que de sonhos enfeitava a vida,

Numa linda manhã de primavera,

Plantei ramos de uma árvore caída...

 

E, cheio de ilusão e de quimera,

Abandonei a terra estremecida

Como o viajante que atingir espera

A rósea meta, a que o Ideal convida...

 

Anos depois voltei... Na alma cansada

Nem mais um sonho, uma ilusão trazia

Porque tudo eu perdera na jornada.

 

Mas, cada ramo que plantei a esmo,

Era uma árvore imensa que floria

Para arrimo e conforto de mim mesmo.

GRATIDÃO - STELA CÂMARA DUBOIS

 






GRATIDÃO 

Stela Câmara Dubois (Autora do excelente livro "RAMALHETE DE MIRRA".

 

A gratidão é a flor desabrochada
quando tudo é secura na colina.
É o suave tom da abóboda estrelada,
enquanto a noite às trevas se destina.

 

A gratidão não pode ser comprada.
A riqueza a seus pés é pequenina.
Qual boa mãe no lar, mestra inspirada,
a lição mais perfeita nos ensina.

 

Vede-a com sangue, escrita numa cruz!
A gratidão somente amor produz,
por isso põe os céus no coração!

 

Oh! Que me falte o amparo nos escolhos,
falte-me o pão e a luz dos próprios olhos,
PORÉM, NUNCA ME FALTE A GRATIDÃO!

QUANDO A NOITE... - FILEMON MARTINS

 




QUANDO A NOITE...

Filemon Martins

                       

 

Quando a noite chegar

serena e bela,

a lua há de brilhar em meu semblante,

e andando, solitário, pela rua,

hei de lembrar do meu passado errante.

 

E no meu peito sofrido e apaixonado

uma agridoce saudade em tom de mágoa

há de apertar meu coração amante

e ficarás a sós, no mundo triste,

se de mim continuares tão distante.

 

Mas, se quiseres que eu vá,

já estou partindo.

Melhor partir do que viver fingindo,

que nosso amor, parece, feneceu.

 

E quando a lua brilhar mais uma vez,

não sofrerei de amor,

porque talvez:

- uma paixão não dure a vida inteira.

TROVAS DO FILEMON

 




TROVAS DO FILEMON

 

Não me fascina, na vida,

poder ou fama alcançar,

que a vitória merecida

é pelo Amor triunfar! 

Saudade é o cantar tristonho

do canário, no Sertão.

É sentir que o nosso sonho

não passou de uma ilusão.

 

Assim é que vejo a vida:

uma estrada singular,

às vezes erma e cumprida

que a gente tem que trilhar.


Não julgue pela aparência,

não condene sem saber;

às vezes com paciência

algo bom temos de ver.

TROVAS DO FILEMON

 






TROVAS DO FILEMON


Viver sozinho é sofrer,
que a solidão também mata.
Mas amar é um prazer
e uma eterna serenata.


Ouço a noite às escondidas
estes sons de violão:
lembranças de duas vidas
vivendo a mesma paixão.


Nem é preciso que agites
essa chama não se apaga
na cama ficamos quites,
amor com amor se paga.


Em meio a nossa paixão
não deve haver o ciúme.
Só amor no coração
que a flor exala o perfume.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

ANOITECE - DOUMERVAL TAVARES FONTES

 





  ANOITECE
                            Doumerval Tavares Fontes

A NOITE SE APROXIMA... A SOMBRA CRESCE...
O LUAR QUE SE ESTENDE SOBRE OS PRADOS
QUAL ESCADA DE SEDA SE OFERECE
PARA ASCENSÃO DOS SONHOS SOSSEGADOS...

REINA O SILÊNCIO... APENAS ESPAÇADOS,
PIOS DE AVES NO ESPAÇO... ATÉ PARECE
QUE A NATUREZA REZA EM TONS MAGOADOS
NESSE SILÊNCIO EXTÁTICO DE PRECE!

AS ESTRELAS, AOS POUCOS, VÃO SURGINDO
COMO FAGULHAS, LÚCIDAS, SUBINDO
DO INCÊNCIO FEITO PELO SOL POENTE...

ENQUANTO IRREQUIETOS PIRILAMPOS
PARECEM COPIAR, POR SOBRE OS CAMPOS
OS ASTROS A LUZIR NO CÉU SILENTE...



(O JORNALZINHO, POSTAL CLUBE, PÁGINA 8)











CASO SÉRIO - ALBA CHRISTINA CAMPOS NETTO

 




CASO SÉRIO

              Alba Christina Campos Netto



Eu tive um caso, um caso muito sério,
Envolvente, teimoso, e sem saída,
Que me prendeu, tranquila e distraída,
Sem condições de achar um revertério.

Deixei demais a minha voz perdida
Em palavras inúteis, sem critério,
Onde às vezes ouvia um impropério
Em vez de uma resposta prometida.

E numa inútil justificação,
Sensação nova que eu jamais sentira,
Eu passei a viver sem emoção

Bem longe do final que eu tinha em mira:
Em vez de um grande amor, uma ilusão,
Em vez de um caso sério, uma mentira.



(O JORNALZINHO, Postal Clube, Set/Out/2011, página 9)

RITUAL DE PURIFICAÇÃO - JOSÉ FELDMAN

 





Ritual de Purificação


José Feldman

  

Aproxime-se, ó Protetor dos Crentes, pois o tahara (ritual de purificação) para cruzar o limiar do Mercado de Silêncio não exige apenas água, mas uma disposição da alma que poucos conseguem sustentar.

 

Antes que um viajante possa tocar o arco de entrada da porta do mercado, ele deve passar por três etapas de despojamento.

 

A primeira é o Wudu da Voz (lavagem da voz). À entrada, há uma fonte de mármore onde a água não faz barulho ao cair. O peregrino deve beber três goles de água gelada, jurando a si mesmo que sua língua permanecerá colada ao céu da boca. Ele deve lavar os ouvidos para remover o ruído das discussões mundanas e o som das moedas que tilintam nos mercados comuns.

 

A segunda etapa é o Despojamento do Orgulho. O viajante deve retirar seus sapatos e caminhar descalço sobre um tapete feito de areia finíssima e pétalas de rosa secas. Isso serve para que ele sinta a terra e se lembre de que, no silêncio, todos os homens — do Sheik ao mendigo — têm a mesma estatura perante o Criador. Suas vestes são borrifadas com incenso de mirra, cujo aroma denso serve para 'anestesiar' os desejos apressados do corpo.

 

A terceira e mais difícil etapa, ó Nobre Senhor, é o Jejum do Pensamento. Um ancião, o haaris (guardião), coloca a mão sobre a testa do visitante. Nesse momento, o homem deve realizar um pedido de perdão interno, limpando sua mente de planos, esquemas ou ganâncias. Ele deve entrar no mercado como um bebê que acaba de nascer: sem passado para lamentar e sem futuro para temer.

 

Somente quando o guardião sente que o coração do homem bate em um ritmo lento e em glorificação silenciosa, ele entrega uma pequena pedra de ônix negra. Essa pedra deve ser carregada na mão fechada; se o homem sentir o desejo de falar, ele deve apertar a pedra até que a dor o lembre da preciosidade do silêncio.

 

Ao cruzar o portão, a luz do sol parece mudar, tornando-se uma luz divina suave que não fere os olhos, e o homem finalmente compreende que o verdadeiro ritual não foi limpar o corpo, mas silenciar o mundo dentro de si."

 

Mustafá fez uma pausa reverente, observando a reação dos súditos.

 

Escutai com vossa alma e silenciai o vosso orgulho, ó nobres ouvintes, pois o portal do Souq al-Samt (Mercado do Silêncio) não se abre para quem carrega o barulho do mundo nas vestes.

 

A lição desta história, ó Sheik, é que para alcançar a verdadeira sabedoria e as bênçãos do invisível, o homem deve primeiro despojar-se de si mesmo. O tahara (ritual de purificação) não é apenas o ato de lavar a pele com água, mas o sacrifício da língua e a limpeza do coração de toda a vaidade.

 

Muitas vezes, tentamos entrar nos jardins da paz carregando as correntes das nossas preocupações e o ruído das nossas glórias passadas. Mas o haaris (guardião) da verdade só permite a entrada daquele que se torna leve como um bebê. O ritual nos ensina que a maior jornada de um homem não é cruzar desertos com uma caravana, mas cruzar o abismo que existe entre o que ele aparenta ser e o que ele realmente é no silêncio perante o seu Criador. Quem não sabe silenciar o próprio ego, jamais ouvirá a voz da bênção.




(FONTE: "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN) 


COMPONDO VERSOS - FILEMON MARTINS

 






        COMPONDO VERSOS

                   Filemon Martins



Eu quisera compor uns lindos versos
que falassem do amor e da paixão,
destes sonhos  antigos e dispersos
que ocuparam meu pobre coração.

Teus olhos cor de mar, (quase perversos),
pousaram sobre mim, que perdição,
e meus sonhos agora estão imersos
neste mar de beleza e solidão.

Por que partiste assim, sem dizer nada,
deixando apenas tua gargalhada
que em saudade se fez e em mim convive.

Peço para que voltes, doce amada,
porque sem luz não há mais alvorada,
sem teu amor meu coração não vive!

TROVAS DO FILEMON

 




 TROVAS DO FILEMON

       

Não me queixo desta vida,
apesar da minha idade.
Queixo, sim, da despedida
que me trouxe esta saudade.

Quando a amargura me assalta
e a tristeza o peito invade,
eu sinto que a tua falta
vai me matar de saudade.

Nesta manhã reluzente
de sol aquecendo a terra,
vejo a beleza presente
no teu olhar cor de serra.

Entre flores, no meu sonho
estavas nos braços meus.
Mas de repente, tristonho,
acordei ouvindo “adeus”.

TROVAS DIVERSAS

 




TROVAS DIVERSAS

São as mulheres formosas
como os rosais nos caminhos:
de longe, mostram as rosas;
mostram, de perto, os espinhos.
Leonardo Henke

Com pena, por vê-lo morto,
a borboleta, piedosa,
simulou, no galho torto,
duas pétalas de rosa...
Orlando Brito

Mesmo soltas e espalhadas
as pétalas são formosas;
porém somente abraçadas
é que elas se tornam rosas!
A. A. de Assis

Pobre horizonte pequeno
de quem crê, sem ver mais nada,
que uma rosa com sereno,
é só uma rosa molhada!
Arlindo Tadeu Hagen