O Pescador e o Segredo do Palácio Submerso
"Salaam’aleikum" (Que a
paz esteja convosco), meus amigos. Eu sou Mustafá, o peregrino, preparem o
coração, pois esta é uma história que os ventos do deserto sussurram às tendas
dos beduínos, sobre o destino, a cobiça e a justiça de Allah.
Diz-se, que vivia em uma cidade
entre as montanhas e o mar um pescador chamado Abdallah. Ele era um homem de
coração limpo, mas de mãos vazias, que mal conseguia o sustento para sua esposa
e sete filhos.
Certa manhã, após lançar suas
redes três vezes e colher apenas algas e pedras, Abdallah clamou aos céus. Na
quarta tentativa, a rede pesou tanto que ele precisou mergulhar para soltá-la
das rochas. Lá embaixo, no silêncio azul, ele não encontrou peixes, mas um anel
de ferro preso a uma laje de mármore branco.
Ao puxar o anel, a laje se abriu,
revelando uma escadaria que levava às entranhas da terra. Movido pela
necessidade e pelo destino, Abdallah desceu. Ao fim dos degraus, ele não
encontrou água, mas um palácio de luzes mágicas onde as paredes eram feitas de
coral e o chão de pérolas brutas.
No centro do salão, repousava um
gênio de estatura colossal, cuja pele era da cor do cobre e os olhos brilhavam
como brasas.
— "Não tema, mortal,"
trovejou o gênio. "Sou o Guardião do Tesouro de Salomão. Por mil anos
esperei por alguém cuja alma não conhecesse a mentira. Leve este frasco de
cristal. Ele contém a Água da Verdade.
Quem a beber verá o mundo como
ele é, e não como os homens o pintam." Abdallah, embora cercado de ouro,
pegou apenas o frasco e subiu. No mercado, ele não vendeu o cristal, mas o usou
para ajudar os injustiçados.
Quando um mercador rico acusou um
órfão de roubo, Abdallah deu uma gota da água ao juiz. O juiz, sob o efeito do
elixir, não pôde proferir a sentença falsa que havia sido comprada e, em vez
disso, confessou seus próprios subornos diante de todo o povo.
A fama do "Pescador da
Verdade" chegou aos ouvidos do Sultão. O soberano, cercado de vizires que
sussurravam lisonjas, quis testar o homem.
— "Pescador," disse o
Sultão, "se sua água é tão poderosa, diga-me:
quem em minha corte é meu maior
inimigo?"
Abdallah derramou a última gota
na taça de ouro do Sultão. Ao beber, o monarca olhou para o seu Grão-Vizir e
não viu um homem, mas uma hiena faminta pronta para morder-lhe o pescoço. O
traidor foi preso e os planos de um golpe de estado foram desfeitos.
Como recompensa, o Sultão nomeou
Abdallah seu conselheiro principal. O pescador nunca mais passou fome, mas
dizem as crônicas que, todas as noites, ele voltava à praia para lançar suas
redes, lembrando-se de que a verdadeira riqueza não está no que o ouro compra,
mas no que a verdade liberta.
“As-salaam'aleikum” (Que a
paz de Deus esteja com vocês).
(FONTE "ECOS DO DESERTO",
JOSÉ FELDMAN)

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