terça-feira, 7 de julho de 2026

O MERCADO DO SILÊNCIO DE SAMARCANDA - JOSÉ FELDMAN

 




O Mercado do Silêncio de Samarcanda


José Feldman

  

A fama de Mustafá, o peregrino ganhou tais proporções, que um sheik de Bagdá o convidou para se hospedar em seu palácio, desde que contasse suas histórias que penetravam e encantavam a alma de todos. 

 

Mustafá sentava-se em almofadões, com o sheik sentado em sua cadeira e os súditos espalhados pelo salão, sentados no chão. Falava pausadamente, gesticulando muito, atraindo a atenção de todos os ouvintes.

 

Saiba, ó Rei dos Tempos e Senhor da Justiça, que as palavras que agora saem de minha boca não são frutos da mera imaginação, mas sementes colhidas nos portos onde o sol se põe e a lua descansa. Sou Mustafá, o Peregrino, e meus pés já beijaram as areias de Mogadíscio e minhas mãos já tocaram as sedas de Samarcanda.

 

Acomode-se, ó Sultão de Bagdá, pois o que vou narrar agora não é para ouvidos apressados. Bebam seus chás com calma, pois a história do Mercado de Silêncio de Samarcanda exige que a alma esteja em repouso.

 

Há muitos anos, quando minhas sandálias ainda eram novas e meu coração buscava o que os olhos não podiam ver, atravessei as montanhas de gelo até chegar às muralhas azuis de Samarcanda. Mas não entrei pelo portão dos mercadores barulhentos. Fui guiado por um velho dervixe até um bairro onde as ruas eram cobertas por tapetes de lã grossa e as paredes eram revestidas de cortiça e veludo.

 

Ali, ó Sheik, ficava o Souq al-Samt (Mercado do Silêncio).

 

Ao cruzar o arco de entrada, o som do mundo morria. Não se ouvia o tinir das moedas, nem o grito dos vendedores de halva (doce de gergelim), nem o relincho dos camelos. O silêncio era tão denso que se podia ouvir o bater das asas de uma borboleta a dez côvados de distância. Era um lugar de paz profunda, uma serenidade que descia sobre os homens como o orvalho da manhã.

 

Nesse mercado, as transações não eram feitas com a língua, mas com o coração. Se um homem desejava um frasco de essência de jasmim, ele não perguntava o preço. Ele sentava-se diante do mercador, ambos em silêncio, e olhavam-se nos olhos. Ali, o vendedor lia a necessidade do comprador, e o comprador sentia a honestidade/confiança do vendedor.

 

Vi um homem oferecer uma única tâmara seca por um colar de safiras. Em qualquer outro lugar, seria loucura ou insulto. Mas ali, naquele silêncio sagrado, o mercador aceitou com um aceno de cabeça. Por quê? Porque aquela tâmara era o último alimento daquele homem, dada com um sacrifício que valia mais que todo o tesouro do Califa. O valor das coisas não era medido pelo ouro, mas pela intenção.

 

Certa tarde, vi um jovem gharib (estrangeiro) entrar correndo, gritando por socorro porque perdera sua caravana. No momento em que sua voz rompeu o ar, as mercadorias nas prateleiras — as sedas, as cerâmicas, as especiarias — perderam a cor, tornando-se cinzas como as cinzas de uma fogueira. O silêncio era a magia que mantinha a beleza viva. O jovem, percebendo o sacrilégio, caiu de joelhos e cobriu a boca. Um ancião apenas tocou seu ombro e lhe entregou um copo de água. Naquele silêncio, o jovem encontrou a direção que nenhum mapa poderia dar.

 

Dizem, ó Sheik, que o Mercado de Silêncio foi construído sobre o túmulo de um sábio que acreditava que 'a palavra é prata, mas o silêncio é ouro'. Saí de lá dias depois, mas minha voz nunca mais foi a mesma. Aprendi que, quando calamos a língua, a alma começa a falar.

 

Saí de Samarcanda levando apenas um pequeno saco de seda vazio. Quando as pessoas me perguntavam o que comprei no Mercado de Silêncio, eu apenas sorria. Pois o que comprei lá não cabe em caravanas: comprei a capacidade de ouvir a voz de Alá no sussurro do vento do deserto.

 

Escutai com vossa alma, ó guardiões da paz, pois o Souq al-Samt (Mercado do Silêncio) não é apenas um lugar em Samarcanda, mas um espelho da verdade divina.

 

A moral desta história, ó Sheik, é que o valor de um homem e de suas posses não reside no preço que a língua apregoa, mas na intenção que o coração sustenta. Vivemos em um mundo de ruído, onde acreditamos que quanto mais alto gritamos nossa importância, mais seremos ouvidos. Contudo, o mercado nos ensina que a verdadeira paz profunda e a bênção só florescem onde o ego se cala.

 

Muitas vezes, uma única tâmara dada com sacrifício vale mais que mil dinares (moedas de ouro) dados com orgulho. A beleza do mundo é uma magia frágil que se desfaz diante da arrogância e do barulho desnecessário. Quem aprende a silenciar a sua língua descobre que o universo inteiro começa a falar, e que as trocas mais valiosas da vida são aquelas feitas em espírito de honra e confiança, sem que uma única palavra precise ser gasta.

 

Mustafá inclinou a cabeça, encerrando 

relato.



(FONTE: "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)   

TROVAS DO FILEMON

 





TROVAS DO FILEMON


 

O tempo passou depressa

e com tal celeridade,

que tudo virou promessa...

Já não tenho mais vaidade.


Amei demais. Fui criança,

busquei luz, felicidade.

A vida enchi de esperança

e a minha alma, de saudade.


Abrindo a boca dos ventos,

farfalhando em arvoredos

nascem sonhos, sentimentos

que sufocam nossos medos.


Com tanto brilho e beleza

a vida começa, agora,

prometendo, com certeza,

a luz de uma nova aurora.

TROVAS DO FILEMON

 





TROVAS DO FILEMON


 

Quando te beijo, meu bem,

eu sinto o nascer da aurora.

Meu coração diz amém

e manda a tristeza embora.


No meu sonho apaixonado,

meu eterno beija-flor,

nunca é demais ser amado,

nunca é demais ter amor.


Se estamos tristes, cansados,

quando a dor invade o peito,

os amigos são chamados

e o mundo fica perfeito.


Bem tranquilo chega o outono

trazendo grande saudade,

e a sensação de abandono

à noite o meu peito invade.

ESCADA DE TROVAS - FILEMON MARTINS

 





ESCADA DE TROVAS 

Filemon Martins



SUBINDO:

Deixava a vida passar
se, numa rede deitado,
eu tivesse teu olhar
para os meus olhos, voltado.

No afago do teu calor
viver a vida sorrindo,
mais feliz que um trovador
quando as trovas vão surgindo.

Como canção de ninar
ao embalo do coração,
quero viver, quero amar,
curtindo toda a emoção.

Se eu tivesse teu amor
nunca haveria depois.
Bailando qual beija-flor
num beijo só de nós dois.

NO TOPO:

SE EU TIVESSE TEU AMOR
COMO CANÇÃO DE NINAR,
NO AFAGO DO TEU CALOR
DEIXAVA A VIDA PASSAR.

TROVAS DE EUCLIDES PEREIRA DA CUNHA

 





TROVAS DE EUCLIDES PEREIRA DA 
CUNHA


 

O sol no ocaso desmaia

deixando na terra as brumas;

as ondas batem na praia

tecendo rendas de espumas.


Quem dá valor à riqueza,

fazendo do ouro um troféu,

não dá valor à pureza,

que só tem valor no céu.


Não temo da vida a afronta,

nem os maus ventos dispersos,

eu colho o bem que desponta

da semente de meus versos.


Vejo a chuva na vidraça,

como lágrimas de prata,

chorando a dor que não passa,

na saudade que me mata.


(Do livro “GENTE E COISAS NA FRONTEIRA DAS LEMBRANÇAS”, página 21)

TROVAS DO FILEMON

 





TROVAS DO FILEMON 


 

Pela terra e pelos mares

nunca me afasto dos meus,

e sinto que em meus cantares,

fico mais perto de Deus.


Teu amor é um lenço branco,

que, de longe, acena ao cais.

E eu fico naquele banco

em vão procurando a paz.


Meu pensamento flutua

ao som das águas do mar,

quando vem, bate e recua,

para, de novo, avançar.


A inspiração peregrina

que mora dentro de mim,

vem com ternura e ilumina

minha poesia sem fim.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

ÚLTIMA PÁGINA - ALCEU DE FREITAS WAMOSY

 




Alceu de Freitas Wamosy
1895 - Uruguaiana RS - 14 de fevereiro
1923 - Livramento, RS - 13 de setembro


" Última Página "


Todo este grande amor que nasceu em segredo,
e cresceu e floriu na humildade mais pura,
teve o encanto pueril desses contos de enredo
quase ingênuo, onde a graça ao candor se mistura.

Entrou nos nossos corações como a brancura
de uma réstia de luar numa alcova entra a medo.
Nunca teve esse fogo intenso de loucura,
que há em todo amor que nasce tarde e morre cedo.

E quando ele aflorou tímido e pequenino,
como uma estrela azul no meu, no teu destino,
não sei que estranha voz ao coração me disse,

que este amor suave e bom, de pureza e lealdade,
sendo o primeiro amor da tua meninice,
era o último amor da minha mocidade.



(OS MAIS BELOS SONETOS, J. G. DE ARAÚJO JORGE)








TROVAS DO FILEMON

 




TROVAS DO FILEMON



A trova é simples, pequena,
flor que vem do coração.
Brota no peito, serena,
- são gotas de inspiração.


São quatro linhas somente
para dizer o que sinto,
pois te quero loucamente,
essa é a verdade, não minto.


Gosto da vida pacata,
homens simples dos Sertões,
pois vejo usando gravata
por aqui muitos ladrões.


Corre, entre o povo, um ditado,
lição para ser lembrada:
“boi manso” – tome cuidado,
“nunca perde uma chifrada”.


 
(ANTOLOGIA 15, PÁGINA 47, POSTAL CLUBE)

PARADOXO - FILEMON MARTINS

 




PARADOXO 

 FILEMON MARTINS



Quase sempre erramos
porque queremos ser fortes e poderosos
na jornada da vida.
Esquecemos que é a brisa leve e suave
que produz música ao balançar as folhas das árvores
e não a tempestade que fere, mata e destrói.

A CARTA - FILEMON MARTINS

 




A CARTA 

(Lendo o Soneto A CARTA INTERROMPIDA, 
de COLOMBINA – 1882-1963) 
Filemon Martins

 

A carta interrompi. Ninguém resiste 
que tanto amor acabe desprezado. 
Meu mundo colorido ficou triste, 
quando escrevi: está tudo acabado. 

O trauma deste amor inda persiste, 
- por que viver assim amargurado? 
a minha mão, irada, ainda insiste 
em terminar o show já começado... 

Basta postar a carta já escrita, 
tudo acabou, não há mais favorita, 
vou aprender viver no meu limite... 

No envelope lacrado – quanto medo, 
o correio há de levar o meu segredo, 
mas o meu coração já não permite! 

domingo, 5 de julho de 2026

LUZ NO SERTÃO - LAURENTINA DOS SANTOS NOVAIS

 




LUZ NO SERTÃO

Ao Centro Educacional de Ipupiara


Laurentina dos Santos Novais


Dos rincões desta terra querida,

deste forte e gigante Brasil,

a semente da luz do saber

já chegou ao Sertão varonil!


Avante! Sem temor!

Lutai pela verdade...

Estudando, trabalhando,

sim, lutai, ó mocidade!


Educar, eis o grande ideal,

do Ginásio aqui neste chão!

Infundir entre os seus educandos

o bom senso, a moral e a razão!...


Com desvelo, denodo e carinho,

juventude deveis estudar,

pra melhor, num futuro bem perto,

nossa Pátria servir e exaltar!


Levantai a Sagrada Bandeira,

vivo símbolo de nossa Nação,

dando vivas aos nossos heróis

que lutaram por nós no Sertão!


Dá, ó Deus, que este Templo de Ensino,

possa sempre marchar e subir,

ver os seus educandos galgarem

os gloriosos troféus do porvir!



(LIVRO "ANUÁRIO DE POETAS DO BRASIL" - 1981 - 4º VOLUME, PÁGINA 299)

DESPEDIDA - BELMIRO FERREIRA

 




DESPEDIDA

Belmiro Ferreira


Tímidos, a tremer, nos despedimos,
Um pesar n'alma nossa sufocando.
Teus olhos negros vi quase chorando...
E mudos, tal dois cegos, persistimos.

Horas mortais se aproximando vimos,
À despedida lúgubre levando
Nossos seres de dor agonizando,
Neste mundo esquecidos, sem arrimos.

Um aperto de mão, e te ausentas...
Olhos mortos, e flébil', e calada...
A senda do desterro só enfrentas.

Com a vista de lágrimas banhada,
Vejo-te ir-te, em passadas muito lentas,

E dobrar, sem adeus, a curva da estrada.


(JORNAL LITERARTE, AGOSTO/2014, 

EDITADO POR ARLINDO NÓBREGA)

TROVAS BRASILEIRAS

 




TROVAS BRASILEIRAS

  • Há gente que muito corre,
  • sempre em constante vaivém,
  • mas não percebe que morre,
  • porque não vive também!

  •         Maria Thereza Cavalheiro

  • Essa que afasta os abrolhos
  • de minha existência louca,
  • carrega a noite nos olhos
  • e a madrugada na boca.

  •         Alceu Wamosy

  • Quem ama parece louco,
  • leva uma vida enganosa,
  • é como eu, que inda há pouco,
  • disse – Bom dia! A uma rosa.

  •         Martins Fontes

  • Para matar as saudades,
  • fui ver-te em ânsias, correndo...
  • - E eu, que fui matar saudades,
  • vim de saudades morrendo!

  •         Adelmar Tavares


(Do livro TROVAS PARA REFLETIR, MARIA 

THEREZA CAVALHEIRO)