segunda-feira, 20 de abril de 2026

NEVER MORE - MÁRIO RIBEIRO MARTINS

 




NEVER MORE

MÁRIO RIBEIRO MARTINS


Lembro-me bem. Faz hoje um ano apenas...
Ela tocava... Tinha a cor de opala...
Às vezes parecia as açucenas
Exalando perfume em grande escala.

Inolvidáveis mãos... Leves quais penas...
O som do seu piano inda me abala...
Notas suaves... Notas bem serenas
Eram toda a beleza lá na sala.

Hoje! Não sei... Talvez mais forte e linda,
Toque melhor e muito mais ainda,
Toque a mesma canção, mas não me alcança...

Lar... Jovem... O piano recostado...
Sala... Beleza... Foram sonho alado,
Pois apenas ficaram na lembrança!


(LETRAS ANAPOLINAS, POESIA E PROSA, PÁGINA 400)

QUEM FOI O BAIANO MILTON SANTOS? - MÁRIO RIBEIRO MARTINS

 



QUEM FOI O BAIANO MILTON SANTOS?
                                                   
Mário Ribeiro Martins*

     
MILTON SANTOS (Milton de Almeida Santos), de Brotas de Macaúbas, Bahia, 03.05.1926, escreveu, entre outros, “O CENTRO DA CIDADE DE SALVADOR” (1959), “O TRABALHO DO GEÓGRAFO NO TERCEIRO MUNDO” (1971), “O ESPAÇO DIVIDIDO” (1975), “POR UMA GEOGRAFIA NOVA” (1978), “ESPAÇO E SOCIEDADE” (1979), “PENSANDO O ESPAÇO DO HOMEM” (1982), “ESPAÇO E MÉTODO” (1985), sem dados biográficos nos livros e sem qualquer outra informação ao alcance da pesquisa, via textos publicados. Após os estudos primários em sua terra natal (de onde também procede o autor destas notas), deslocou-se para outros centros, onde também estudou.
Filho de professores primários, aprendeu a ler e a escrever aos cinco anos de idade, sem frequentar qualquer escola, pois era orientado pelos pais, na vetusta Brotas de Macaúbas. Filho de Adalgisa Umbelina de Almeida Santos e Francisco Irineu dos Santos. Aos oito, já dominava a álgebra e dava os primeiros passos no francês.
Em 1936, mudou-se para Salvador, sendo matriculado, com dez (10) anos de idade, no Instituto Baiano de Ensino. Descendente de escravos emancipados antes da Abolição, pensou fazer engenharia, mas desistiu ao saber da discriminação contra negros na Escola Politécnica de Salvador.
Concluído o Ginásio, matriculou-se na Faculdade de Direito, da Universidade da Bahia, onde se formou em 1948, quando tinha 22 anos de idade. Tornou-se Advogado em Ilhéus, no interior baiano, durante algum tempo, quando também lecionou Geografia nas escolas da cidade. De volta a Salvador, continuou lecionando e trabalhando como Repórter do jornal A TARDE.
Nos anos seguintes, viajou para a França. Em 1958, quando tinha 32 anos, terminou o Doutorado em Geografia, pela Universidade de Estrasburgo, no interior da França. De volta à Bahia, em 1959, escreveu seu primeiro livro sobre a cidade de Salvador.
Atuou como jornalista, tendo acompanhado Jânio Quadros numa viagem a Cuba, em 1960, época em que já era um geógrafo conhecido em seu Estado. Tornou-se amigo e profundo admirador de Jânio, chegando a ser subchefe da Casa Civil e representante do governo federal em seu Estado. Mas se decepcionou com a renúncia do então presidente, em agosto de 1961.
Em 1964, presidiu a Comissão Estadual de Planejamento Econômico, órgão do governo baiano. Durante sua permanência na comissão, foi autor de propostas polêmicas, como a de criar um imposto sobre fortunas. Durante o regime militar, combinou as atividades de redator do jornal "A Tarde", de Salvador, e a de professor universitário. Na época, defendeu posições nacionalistas e denunciou as precárias condições de vida dos trabalhadores do campo.
Por causa de suas posições políticas, acabou sendo demitido da Universidade Federal da Bahia e passou 60 dias preso no quartel do Bairro de Cabula, em Salvador. Só foi libertado porque sofreu um princípio de infarto e um derrame facial.
Aconselhado por amigos, aceitou convite para lecionar no exterior. Nomeado Professor da Universidade de Bordeaux (interior da França), lecionou também na Universidade de Sorbonne, em Paris. Seguiu para os Estados Unidos, tendo trabalhado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Foi professor das Universidades de Paris (França), Columbia, em Nova York (EUA), Toronto (Canadá) e Dar Assalaam (Tanzânia). Também lecionou na Venezuela e Reino Unido.
Só regressou ao Brasil em 1977, com 51 anos de idade, na época da "distensão". Mudou-se para São Paulo, tornando-se professor, em 1984, da Faculdade de Filosofia, Ciências Humanas e Letras da USP (FFLCH), consultor da OIT (Organização Internacional do Trabalho), da OEA (Organização dos Estados Americanos) e da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).
Com o passar do tempo, tornou-se especialista em problemas urbanos dos países subdesenvolvidos, tendo sido Consultor dos Governos da Argélia e de Guiné-Bissau. Fez-se reconhecido internacionalmente, tendo sido professor na França, nos Estados Unidos, na Tanzânia e na Venezuela, entre outros. Expoente do movimento de renovação crítica da Geografia.
Por concurso público de provas e títulos, tornou-se Professor Titular da Universidade de São Paulo. GEÓGRAFO BRASILEIRO. Escritor, Ensaísta, Pesquisador. Memorialista, Intelectual, Educador. Cronista, Contista, Ficcionista. Literato, Conferencista, Produtor Cultural. Administrador, Orador, Poeta.
Em 1994, ganhou o Prêmio Internacional de Geografia VAUTRIN LUD, bem como o Prêmio Homem de Ideias, do JORNAL DO BRASIL e ainda o Prêmio Gilberto Freyre de Brasilidade, da Federação do Comércio de São Paulo.
Ao longo de sua carreira de mestre, recebeu 12 (doze) títulos de DOUTOR HONORIS CAUSA, de diferentes Universidades estrangeiras. Era membro da Comissão de Justiça e Paz, da Arquidiocese de São Paulo, desde 1991.
Em 1997, com 71 anos de idade, esteve na Universidade Federal de Goiás, em Goiânia, quando falou sobre “O PAPEL DO INTELECTUAL NO SÉCULO XXI”. Escrevia para o jornal FOLHA DE SÃO PAULO.
Faleceu em São Paulo, em 24.06.2001, com 75 anos de idade, sendo enterrado no Cemitério da Paz, no Morumbi. Pai de dois filhos, um deles Rafael Santos. Na MOSTRA MULTICULTURAL MILTON SANTOS, promoção da Universidade Federal de Goiás, em junho de 2002, uma homenagem lhe foi prestada pelo professor de Geografia da USP, Francisco Capuano Scarlato, que fez conferência sobre a sua vida e obra.
O grande pecado do baiano Milton Santos foi, tendo nascido em Brotas de Macaúbas, na Chapada, jamais ter dado a devida importância à CHAPADA DIAMANTINA, não no sentido de mencionar em seus livros de Geografia, mas no sentido de estudá-la e DIVULGÁ-LA com mais vigor, eis que nela nascera.
Apesar de sua importância, não é mencionado no livro BAIANOS ILUSTRES, de Antonio Loureiro de Souza, não é referido na ENCICLOPÉDIA DE LITERATURA BRASILEIRA, de Afrânio Coutinho e J. Galante, edição do MEC, 1990, com revisão de Graça Coutinho e Rita Moutinho, em 2001 ou DICIONÁRIO HISTÓRICO-BIOGRÁFICO BRASILEIRO (2001), da Fundação Getúlio Vargas e nem, em nenhuma das enciclopédias nacionais, Delta, Barsa, Larousse, Mirador, Abril, Koogan/Houaiss, Larousse Cultural, etc.
É verbete do DICIONÁRIO BIOBIBLIOGRÁFICO REGIONAL DO BRASIL, de Mário Ribeiro Martins, via INTERNET, dentro de ENSAIO, no site www.usinadeletras.com.br.

*Mário Ribeiro Martins era escritor e Procurador de Justiça do Estado de Goiás.

TROVAS DE MÁRIO BARRETO FRANÇA

 




TROVAS DE MÁRIO BARRETO FRANÇA


Não olhe tanto o futuro
nem no passado se ausente,
porquanto o melhor seguro
é ser útil no presente!

Não é nem será fraqueza,
de um erro se arrepender.
Sempre demonstra nobreza
quem vence o seu próprio ser.

O circo é cópia discreta
do mundo, em glória e fracasso:
- Sofre no risco do atleta,
mente no rir do palhaço.

Raras são as criaturas
de julgamento sereno,
pois quando estão nas alturas
veem todo mundo pequeno.

O MAL DE CADA DIA - MÁRIO BARRETO FRANÇA

 




O MAL DE CADA DIA
                   Mário Barreto França
 

Sim, eu sei a injustiça que hei sofrido.
Que vontade me vem de protestar!
Mas, domino este impulso e, decidido,
Continuo servindo à Pátria e ao lar.

Não choro ter, ó Deus, algo perdido,
Pois sei que muito mais tens para dar.
O que me dói é ver o amor fingido
Em ter-se, a qualquer preço, um bom lugar...

Quanta ambição de alguns o peito invade,
Pois para alimentar sua vaidade,
Mancham e ofendem de outros a moral.

E, nesse anseio de melhor destino,
Esquecem de Jesus o nobre ensino:
- “A cada dia basta o próprio mal!”


(Do livro “VEJO A GLÓRIA DE DEUS” página 119)

LIVRO "POEMAS E PENSAMENTOS 5" - HUMBERTO DEL MAESTRO

 




Recebi do escritor Humberto Del Maestro mais um livro de sua lavra, "POEMAS E PENSAMENTOS 5", com 265 páginas de pura poesia: Trovas, Haicais, Sonetos, Breves, Poemetos e muito mais. O autor informa que este é o livro dos seus oitenta anos. 65 livros escritos e publicados.


 Já lendo e divulgando o trabalho do ilustre poeta Humberto Del Maestro, imortal da Academia Espírito-santense de Letras, onde ocupa a cadeira 20.


TROVAS QUE INICIAM O LIVRO, PÁGINA 9:


Aos meus infames algozes,

Com seus "delírios" de neve,

Do infinito escuto vozes:

- Que a terra lhes seja leve.


Meus braços viraram tralhas

Que me causam pesadelos.

Lembram inúteis medalhas...

Mas como temo perdê-los.


Borboletas pequeninas

Sobre o roseiral em flor;

Até parecem meninas

Brincando com bom humor.


Cai a tarde em agonia,

A chuva desce depois;

Chega sem pressa, arredia,

Como carroça de bois.


Chove agora em cataratas,

Com ventanias insanas.

Dos valões sobem baratas

E asquerosas ratazanas.


(LIVRO "POEMAS E PENSAMENTOS 5)

domingo, 19 de abril de 2026

NOITE E VERSOS - FILEMON MARTINS

 



NOITE E VERSOS

Filemon Martins


Vai alta a noite. A madrugada é fria,
a insônia chega, fica e me namora.
Levanto-me à procura da poesia,
mas ela, impaciente, vai embora.

Percorro o céu do amor, da fantasia,
fico em vigília e vejo a luz da aurora:
- que paz a humanidade alcançaria,
se o amor reinasse pelo mundo afora.

Ouço, distante, o farfalhar do vento,
e por que minha voz não tem alento,
- se o dia vai nascer como criança?

Surge, então, o cantar da passarada
e outros versos virão, na madrugada,
talvez mais coloridos de esperança!

LUGARES... - ELVIRA DRUMMOND

 



LUGARES...

Elvira Drummond


Já visitei lugares em que a vista

pasmou, ao ver a cena deslumbrante:

enturveceu, por cerca de um instante,

atônita à mansão com mãos de artista...


Tamanho luxo cabe em uma lista

que inclui a prataria mais brilhante,

cristais e o tom dourado exuberante

compondo um tal "cenário de revista".


Já visitei lugares bem modestos,

vazios de pertences, mas de gestos

fraternos, de uma paz abençoada...


Dos dois lugares, reina soberana

a imagem amorosa da choupana,

que a vida, sem amor, não vale nada!


(LIVRO "OS ESCOLHIDOS versos diversos", PÁGINA 43)

A TEMPESTADE E A JORNADA - JOSÉ FELDMAN

 



A TEMPESTADE E A JORNADA

José Feldman


TROVA DE JERSON LIMA DE BRITO


Não tema sua jornada

se o céu estiver cinzento

que às vezes a trovoada

faz parte do ensinamento!



           

Numa pequena cidade, onde as colinas se encontravam com o céu em um abraço eterno, a vida seguia seu curso tranquila, mas repleta de desafios. Os moradores daquela cidade eram conhecidos por sua resiliência e força de espírito. No entanto, havia um jovem chamado Matheus que frequentemente se deixava abater pelas nuvens cinzentas que pareciam pairar sobre sua vida.

Matheus era um sonhador. Desde criança, alimentava grandes aspirações: queria ser escritor. Suas histórias eram recheadas de aventuras e heróis, mas, à medida que crescia, as incertezas começaram a envolvê-lo. Ele se via diante de um dilema: como transformar seus sonhos em realidade em meio às dificuldades do dia a dia? A pressão para ter um emprego estável, a expectativa da família e o medo do fracasso o deixavam angustiado.

Em uma tarde particularmente nublada, Matheus decidiu que precisava de um tempo para pensar. Pegou seu caderno e saiu em direção ao parque da cidade, um lugar que sempre o inspirava. À medida que caminhava, o céu escurecia, e um vento forte começou a soprar. Ele hesitou, mas a necessidade de encontrar respostas o levou adiante. Ao chegar ao parque, sentou-se em um banco sob uma árvore frondosa e começou a escrever.

Enquanto suas ideias fluíam, ele percebeu que as nuvens no céu estavam se acumulando, e logo a chuva começou a cair. No início, as gotas eram suaves, quase como um sussurro. Mas, em poucos minutos, a tempestade se intensificou, e o que antes era uma leve garoa transformou-se em uma verdadeira trovoada. Ele se viu preso, sem abrigo, e um sentimento de desespero começou a tomar conta dele.

No entanto, em meio ao caos, algo inesperado aconteceu. Ele observou as gotas de chuva batendo nas folhas, criando uma melodia única, um ritmo que parecia dançar com a natureza. As árvores, que antes pareciam temerosas, agora se erguiam majestosas, como se estivessem celebrando a tempestade. Sentiu uma onda de inspiração. Em vez de se deixar levar pelo medo, decidiu se entregar àquele momento.

Com o caderno em mãos, começou a escrever freneticamente. As palavras fluíam como a chuva, e ele percebeu que a tempestade não era um obstáculo, mas uma oportunidade. A trovoada trazia consigo um ensinamento profundo sobre a vida: os desafios e as dificuldades são partes inevitáveis da jornada. Cada gota de chuva, cada relâmpago, representava uma lição, uma chance de crescimento.

Quando a tempestade finalmente começou a se dissipar, ele sentiu-se renovado. Olhou para o céu, que agora começava a clarear, e sorriu. As nuvens cinzentas não eram apenas um símbolo de desespero, mas também de transformação. Percebeu que, assim como a natureza, sua vida também passaria por fases, com momentos de sol e momentos de chuva. E que não deveria temer esses momentos difíceis, pois eram eles que o moldavam, que lhe ensinavam a ser forte e resiliente.

Ao voltar para casa, Matheus sentiu-se leve. Ele sabia que o caminho à sua frente ainda seria repleto de desafios, mas estava determinado a enfrentá-los de cabeça erguida. A trovoada daquela tarde se tornara um marco em sua jornada, um lembrete de que o crescimento muitas vezes vem das experiências mais difíceis.

A vida, assim como o tempo, é cheia de surpresas. Não devemos temer a jornada, mesmo quando o céu estiver cinzento, pois às vezes a trovoada faz parte do ensinamento. E são essas tempestades que nos preparam para os dias ensolarados, nos ensinando a valorizar cada raio de sol que brilha em nossas vidas.


sábado, 18 de abril de 2026

ILUSÕES DA VIDA - FRANCISCO OTAVIANO

 


                                         (FOTO DE SANDRO, CARRANCA, BAHIA)


ILUSÕES DA VIDA
FRANCISCO OTAVIANO
(1825/1889)

Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu...
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem, não foi homem.
Só passou pela vida, não viveu.

À SOMBRA DO LAGO - JOSÉ FELDMAN

 




À SOMBRA DO LAGO

José Feldman


TROVA DE EDY SOARES


Lembrança doce e singela

enchendo o peito de afago:

eu e meu pai na pinguela

jogando pedras no lago...



 

Na pequena cidade de Fragatópolis, havia um lago que parecia ter saído de um conto de fadas. Suas águas eram calmas e refletiam o céu azul em dias ensolarados, enquanto as árvores em volta dançavam suavemente ao vento. Era um lugar mágico, onde as crianças corriam livres e as memórias se formavam como nuvens no céu. Para mim, o lago era mais do que um simples corpo d’água; era um espaço sagrado, um refúgio de lembranças que guardava momentos preciosos ao lado do meu pai.

Certa tarde de verão, quando eu ainda era uma criança, meu pai decidiu que era hora de me levar até a pinguela, uma pequena ponte de madeira que se estendia sobre o lago. Ele sempre dizia que aquele era o melhor lugar para jogar pedras na água e ver as ondas se espalharem como um abraço de boas vindas. Com um sorriso no rosto, peguei sua mão e seguimos juntos pela trilha que levava ao nosso destino.

A pinguela, com suas tábuas desgastadas pelo tempo, rangia sob nossos pés, mas para mim era um som familiar, como uma canção que só nós dois conhecíamos. Meu pai, com seu chapéu de palha e seu jeito despreocupado, era a personificação da alegria. Ele me ensinou a escolher as pedras mais lisas, aquelas que pulavam na superfície da água. “Olhe bem, meu filho. A pedra precisa ter o formato certo. E você deve arremessá-la com confiança”, ele dizia, enquanto eu o observava com admiração.

Nosso ritual de jogar pedras era mais do que uma simples brincadeira; era um momento de conexão. Cada pedra que lançávamos parecia levar consigo um pedaço de nossas preocupações e medos. Eu me lembrava de como meu pai ria quando uma pedra pulava várias vezes antes de se afundar. “Veja! Essa foi uma campeã!”, ele exclamava, e eu ria junto, sentindo a felicidade vibrar em meu peito.

Naquele dia, enquanto jogávamos pedras, ele começou a contar histórias de sua infância. Falou sobre os verões que passara pescando com seu pai e como ele mesmo tinha aprendido a escolher as melhores pedras. A cada risada, a cada história compartilhada, meu coração se enchia de afeto. A presença do meu pai era um abrigo seguro, e nada parecia mais importante do que aqueles momentos simples à beira do lago.

Com o passar do tempo, fui crescendo, e as responsabilidades da vida começaram a se acumular. A escola, os amigos, e mais tarde, o trabalho, foram ocupando meu tempo e minha mente. As visitas ao lago tornaram-se menos frequentes, e a pinguela, uma doce lembrança da infância, foi se tornando apenas uma imagem distante. Mas, em meu coração, eu sabia que aquelas memórias estavam guardadas como um tesouro inestimável.

Anos depois, ao receber a notícia de que meu pai não estava bem, uma onda de nostalgia me invadiu. Eu me lembrei da pinguela, das pedras e das risadas. Naquele momento, percebi que precisava voltar àquele lugar que tanto significava para nós. Assim que pude, organizei uma viagem para Ribeirão Verde.

Chegando lá, encontrei o lago como eu o lembrava, mas a pinguela parecia ter envelhecido. As tábuas estavam mais desgastadas, e o vento parecia sussurrar histórias do passado. Com o coração apertado, me aproximei da beira da água e, por um instante, fechei os olhos. As memórias vieram à tona como se eu estivesse lá novamente, lançando pedras com meu pai, rindo e aprendendo sobre a vida.

Sentei-me na beira do lago, e as lágrimas escorriam pelo meu rosto. Eu sabia que precisava de um momento de conexão, mesmo que meu pai não estivesse fisicamente presente. Compreendi que as memórias que guardava eram o verdadeiro legado dele. Com um gesto automático, peguei algumas pedras do chão e comecei a jogá-las na água, como fazíamos antes. Cada arremesso trazia de volta um fragmento do passado, um eco das risadas e das lições.

Neste reencontro com o lago, percebi que, embora meu pai não estivesse mais ao meu lado, ele continuava vivo nas lembranças doces e singelas que preenchiam meu peito. Ele havia me ensinado a importância de valorizar os momentos simples, de encontrar alegria nas pequenas coisas, e naquele dia, ao jogar pedras, eu sentia sua presença como se ele estivesse me guiando novamente.

Enquanto o sol se punha no horizonte, tingindo o céu de laranja e rosa, percebi que a vida era feita de ciclos. Embora a dor da ausência fosse aguda, as lembranças eram um bálsamo que aliviava a saudade. Com cada pedra que lançava, eu dizia um silencioso “obrigado” ao meu pai, por todas as lições e pelos momentos que compartilhamos.

Aquela tarde no lago me trouxe paz. Compreendi que a pinguela, as pedras e o lago eram mais do que apenas um cenário; eram símbolos da relação que tivemos e do amor que ainda vive em mim. Ao sair daquele lugar, levei comigo uma nova certeza: mesmo na ausência física, as memórias permanecem vivas, e o amor nunca se apaga.

E assim, ao voltar para casa, meu coração estava mais leve. Eu sabia que, sempre que precisasse, poderia retornar àquela pinguela, onde as lembranças doces e singelas enchiam meu peito de afago, lembrando-me de que, mesmo na solidão, nunca estamos realmente sozinhos.


TROVAS DE JESSÉ NASCIMENTO

 



TROVAS DE JESSÉ NASCIMENTO

(ANGRA DOS REIS/RJ)


A formiga, na labuta,
nos dá profunda lição;
não se curva ao peso e à luta,
vive em perfeita união.

Ah, relógio, meu amigo,
teus ponteiros, como correm!
O tempo voa contigo
e com ele os sonhos morrem...

Após tantos desenganos
e conselhos não ouvidos,
chego ao final dos meus anos
sem ter meus dias vividos.

“Aproveite a promoção”,
na loja, a faixa dizia;
aproveitou-a o ladrão,
num cochilo do vigia.


(ALMANAQUE CHUVA DE VERSOS Nº 

435/JOSÉ FELDMAN)

TROVAS DE VANDA F. QUEIROZ

 


                                       (JARDIM DA LALINHA, IPUPIARA, BAHIA)



TROVAS DE VANDA F. QUEIROZ


Quem sou? Andava cismando...
Afinal me definistes:
- uma sombra carregando
um feixe de rimas tristes.

Um cortejo dobra a esquina...
Dobra um sino tristemente...
Eu – deixo de ser menina
passo a ser órfã somente.

Passa uma pobre menina,
vê numa loja, um brinquedo,
cola o nariz à vitrina,
depois sai... chupando o dedo.

Muita vez tenho cismado
que, ao invés do coração,
muita gente traz guardado
dentro do peito, um cifrão.


(ANUÁRIO COLETÂNEA DE TROVAS BRASILEIRAS, 1981, PÁGINA 10, ORGANIZAÇÃO DE FERNANDES VIANNA)











TROVAS DE NILTON ARAÚJO

 


                                          (FOTO DE LALINHA, IPUPIARA, BAHIA)


TROVAS DE NILTON ARAÚJO (SANTA IZABEL-SP)


Os poemas que componho
com sentimentos diversos,
são as telas dos meus sonhos
reproduzidas em versos.

Se o coração não parasse,
não deixasse de bater,
talvez ainda te amasse
mesmo depois de morrer.