domingo, 15 de fevereiro de 2026

DOMINGO À TARDE - MATUSALÉM DIAS DE MOURA

 



DOMINGO À TARDE

Matusalém Dias de Moura


Domingo. Esvai-se a tarde modorrenta

num silêncio que cai sobre a cidade,

adormecendo toda a velha idade,

já de barriga cheia e sonolenta.


Minha alma, então, se aquieta e se alimenta

da poesia que chega na saudade

discreta, mansa, isenta de ansiedade,

de um alguém que de mim jamais se ausenta.


Distante, um galo canta um canto triste,

no último quintal que ainda existe

nesta cidade minha, culta e bela.


O céu nublado prende-me a atenção

e eu fico a contemplá-lo em oração,

enquanto a noite vem pela janela.


(LIVRO "SONETOS DO PÔR DO SOL", PÁGINA 43)

TROVAS DE ALOISIO ALVES DA COSTA

 



TROVAS DE ALOISIO ALVES DA COSTA


Mesmo nos dias tristonhos

cheios de angústias e anseios,

eu busco à luz dos meus sonhos

dar vida aos sonhos alheios.


O remorso no presente,

das minhas culpas de outrora,

fez de mim - homem valente -

uma criança que chora!


Os meus dias são pedaços

de tempo na eternidade,

que a vida embala nos braços

misturados de saudade.


As estrelas da amplidão

nem todos conseguem vê-las...

e o sonhador põe a mão

muito além dessas estrelas...


(LIVRO "ANUÁRIO - COLETÂNEA DE TROVAS BRASILEIRAS" - 1979 - ORG. DE FERNANDES VIANNA)

CAPRICHO - FILEMON MARTINS

 




CAPRICHO

Filemon Martins

                 

Quis o destino, caprichoso, um dia,

que eu sofresse, na terra, grande dor.

Conspiração dos astros da poesia

que me fizeram crer no teu amor.

 

Ingênuo, acreditei na fantasia

que me ofertou teu lábio sedutor,

e vi morrendo, aos poucos, a alegria

quando partias como o beija-flor.

 

Eras a estrela vésper do meu sonho

povoavas meu céu sempre risonho

em noites de fulgor e de luar...

 

Mas me deixaste assim, cama vazia,

sem ter ninguém na madrugada fria,

um condenado à morte por amar.

LUGAR VAZIO... - GIÓIA JÚNIOR

 



LUGAR VAZIO...

Gióia Júnior

 

HÁ SEMPRE NA DISTÂNCIA UMA CADEIRA VAGA                         

À ESPERA DE UM QUE PARTA E QUE JÁ TENHA ESCRITO

¨NAS PÁGINAS DE LUZ DO LIVRO DO INFINITO¨

A SUA SALVAÇÃO QUE NUNCA MAIS SE APAGA!

 

PERDIDA PELO ESPAÇO A VIDA SE EMBRIAGA

TENTANDO IR BEM ALÉM DO SEU PODER RESTRITO;

MAS, SÓ O CORAÇÃO DESCOBRE A IMENSA PLAGA

ENVOLTA NO MURAL DE JASPE E DE GRANITO...

 

GANHEI O MEU LUGAR DE PREÇO INCALCULÁVEL

DAS MÃOS DE JESUS CRISTO E ESPERO RECEBÊ-LO

DEPOIS DE ATRAVESSAR O CAUDALOSO RIO!

 

...  AMIGO, VEM CHEGANDO O DIA MEMORÁVEL,

MEDITA NO PROBLEMA, ATENDE AO MEU APELO:

NÃO DEIXES PARA SEMPRE O TEU LUGAR VAZIO!!!

OLHAI AS AVES... - GIÓIA JÚNIOR

 




OLHAI AS AVES...
                    Gióia Júnior

Vi um pássaro aceso como um grito
Palpitando canções e movimento,
O corpo solto navegando ao vento,
A alma a sorrir num vôo circunscrito.

Festa no azul, surpresa, anseio e rito,
Espanto e espasmo de deslumbramento:
Nas penas o lampejo do infinito
E no bico os limites do momento.

Vi um pássaro alegre e descuidado
Sem lições de futuro ou de passado,
Sem aflições ou pensamentos graves...

E pensei na Palavra que me acalma:
Confio em Cristo e sei do fundo da alma
Que Ele cuida de mim como das aves!

sábado, 14 de fevereiro de 2026

TROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA

 



TROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA


Coisa com coisa não digo?

No que digo ponham fé.

Para mim é um castigo

ter pão e não ter café.


Foi minha mãe o meu templo

caro e sagrado. Isto posto,

o espelho do seu exemplo

reflete do filho o rosto.


Ninguém a Jesus resiste,

Ele é passado e porvir,

Ele faz quem estava triste

abrir a boca e sorrir.


Já é muito o que recebo

nesta vida transitória:

tenho sede e sei que bebo,

sem letras, eu faço história.


(LIVRO "28 SONS", TROVAS - 1998)

VEM, NOTURNA VISÃO - MANOEL CARDOSO

 



VEM, NOTURNA VISÃO

Manoel Cardoso


Pula à minha frente

materializa-te, sê mais que anjo

ser um símile meu

que me cicie o verbo ao ouvido

afaga-me o rosto

e modula a canção

que nunca ouvi!


chega-me mansamente

deixa-me tuas mãos segurar

beijar teu rosto e te proferir

o nome que nenhum ser

jamais ouviu!


quem sabe se eu não

desembarcaria em teu porto

e não me juntaria a ti

numa tentativa de segurar

o dia, que me traria o Sol

por todo o sempre... Amém!


(2015)


(LIVRO "PÉTREA COLHEITA", PÁGINA 86)

TROVAS BRASILEIRAS


 


TROVAS BRASILEIRAS


Quanta gente convencida

em ser boa conselheira,

quanto aos problemas da vida,

erra de toda maneira!...

PALUMA FILHO


O dom de fazermos bem

jamais nos permite engodos.

Não só venere o que tem,

mas preserve o que é de todos.

LUIZ MÁXIMO DE SOUZA


Ao passar na tua porta,

me fingindo indiferente,

senti a saudade morta

ressuscitar de repente.

SEVERINO UCHÔA


Neste mundo de martírios

onde a maldade flutua

Deus pôs nos lábios dos lírios

o beijo puro da lua...

PETRARCA MARANHÃO


(LIVRO "ANUÁRIO-COLETÂNEA DE TROVAS BRASILEIRAS - 1979, ORG. FERNANDES VIANNA-RECIFE-PE)

TROVAS BRASILEIRAS

 


                                            (FOTO DE LALINHA, IPUPIARA, BAHIA)


TROVAS BRASILEIRAS


O homem que se imagina

senhor do Mundo, sem dó,

mal sabe que a sua sina

é um dia tornar-se pó...

WALTER SIQUEIRA


Lei, que é honesta, não susta

o seu castigo aos velhacos:

qualquer lei se torna injusta

quando só se aplica aos fracos.

WALTER WAENY


A lama que no pé trazes,

suja o lar de lodo impuro,

mas o vício e o mal que fazes,

podem sujar teu futuro.

PE. HÉBER SALVADOR DE LIMA


Quem se arvora de juiz,

julgando as ações alheias,

calça botas de verniz,

sem cuidar se usa meias...

FERNANDES VIANNA


(LIVRO - "ANUÁRIO-COLETÂNEA DE TROVAS BRASILEIRAS" - 1979)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

SOBRE A TROVA - FILEMON MARTINS

 




SOBRE A TROVA


A trova mãe é do grande trovador CIPRIANO FERREIRA GOMES, que eu conheci na UBT, de São Paulo. Naquela época, grandes nomes da Trova frequentavam a UBT, Seção de São Paulo, como Izo Goldman (presidente), Orestes Turano, Clóvis Maia, Geraldo Pimenta, Walter Rossi, Marilita Pozzoli, Vanda Fagundes de Queiroz, Antônio Lafayette, Afonso Vicente Ferreira, Alice Bueno de Oliveira e o próprio Cipriano, entre outros. Eu era iniciante na Trova e continuo sendo aprendiz de trovador. Pois bem, se não me engano, num concurso interno, o Cipriano conquistou o 1º lugar com uma Trova magistral. E eu, partindo da trova do Cipriano, escrevi esta ESCADA DE TROVAS, com o título HUMILDADE e fiz publicar em meu livro SONETOS & TROVAS, página 112.

Se o Cipriano estiver lendo estas notas, por favor, entre em contato.

ESCADA DE TROVAS – HUMILDADE

SUBINDO:

“Sem dizer nada a ninguém”

espalha a paz e a esperança,

como o Cristo de Belém

deixando o Amor como herança.

 

“E partir humildemente”

sem alarde pelo mundo,

pregando a fé, como crente,

no sentido mais profundo.

 

“Chegar e fazer o bem”

a todos sem distinção,

é ter, na vida e no Além

muita luz no coração.

 

“É um prazer bem diferente”

sentir a missão cumprida,

ver o mundo sorridente

dando mais valor à vida.

NO TOPO:

“É um prazer bem diferente

Chegar e fazer o bem,

E partir humildemente

Sem dizer nada a ninguém”.

 

Cipriano Ferreira Gomes - São Paulo – SP

 

TROVAS DE APARÍCIO FERNANDES

 




               TROVAS DE APARÍCIO FERNANDES

 

Meu canto é humilde e meu estro,

numa oração triunfal,
rende graças ao Maestro
da harmonia universal!

     

Eu formulo esta sentença
como um libelo à tolice:
antes cego de nascença
do que cego de burrice!

 

Nome dos mais esquisitos,
que, aliás, não foi bem posto;
há na Rua dos Aflitos
uma calma que faz gosto...

     

Amor - mistério profundo
que não se pode explicar.
Mesmo, assim, pobre do mundo
se ninguém soubesse amar...

O ECO - GIÓIA JÚNIOR

 




O ECO

GIÓIA JÚNIOR 
(atendendo pedido da leitora Ely, de Fortaleza – Ceará)



O que posso fazer se a vida, a glória fez-ma
rotineira, a ilusão não muda, é sempre a mesma.
Que fazer se o prazer é sempre essa utopia
de um minuto feliz! A maior alegria
é ligeira, é fugaz como uma gargalhada,
... inunda a sala e cessa e volta para o nada...
Que fazer para ter alguma recompensa?
Mecânico e fatal o eco responde: ...pensa...

Pensar? Como, pensar? Perder a mocidade
no egoísmo sem razão dessa inutilidade...
Pensar apenas? Não, teria acaso um fim,
pensar, pensar, pensar... de mim e para mim?
Esgotar a existência em um plano ilusório,
sozinho usufruir da paz de um escritório?
Quero menosprezar a vida dissoluta...
Mecânico e fatal o eco responde:...luta...

Lutar... porque lutar... ver bandeiras ao vento,
tambores e clarim, galões e fardamentos,
ver o sangue jorrar em vis revoluções,
ver Césares, Pompeus, Felipes, Napoleões...
Lutar... porque lutar, se essa glória que embriaga
tem o brilho na aurora e no poente se apaga...
Quero mais, muito mais... quero a brasa que inflama.
Mecânico e fatal o eco responde:... ama...

Amar... amei a vida e a vida é tão ingrata...
“Traz o pó que alimenta o micróbio que mata”...
Não, de modo nenhum, permaneço na teima...
“A fogueira que aquece é a mesma que nos queima.”
Amar, de que nos vale amar se o amor é vário,
se ao beijo tem sequência as dores do calvário...
Quero fugir do mundo e procurar a calma...
Mecânico e fatal o eco responde:... alma...

Alma... quando escutei essa palavra, quando
meditei, vi que havia uma força operando
além da compreensão... vi que o meu ódio acerbo
era a minha impotência ante o mando do Verbo.
Quando, porém, notei que a paz aurifulgente
está em nós firmada... algo puro, inerente
ao nosso próprio ser... chama viva e sagrada
que opera no interior sem depender de nada.


Alma... quando notei que em meu corpo carnal
morava um universo, uma essência imortal,
entreguei-me a Jesus e firmado em seu nome,
na vivificação matei a minha fome.
Pensei... soube pensar em seu reino... lutei
sem medo de derrota ao lado do meu Rei...
Amei aos meus irmãos. E agora em mim revive
a encantadora voz do eco bradando: VIVE!

São Paulo, Julho de 1948.

(Do livro “O CANTICO NOVO” – páginas 25/26)

O ESPOSO ATRASADO - JOSÉ FELDMAN

 




O ESPOSO ATRASADO

José Feldman

 

 

TROVA DE BELMIRO BRAGA

(Vargem Grande/MG, 1872 – 1937, Juiz de Fora/MG)

Casa em março Ester Macedo

e em julho é mãe... Ora, o alarde!

O filho não veio cedo,

o esposo é que veio tarde...

 

 

A pequena cidade de Caranaguá nunca foi fã de matemática, exceto quando o assunto era o calendário gestacional das vizinhas. Naquele ano, o assunto das calçadas era um só: o casamento relâmpago de Ester Macedo com o pacato bancário Getúlio.

Diz uma trova, com a sabedoria ácida das fofoqueiras de plantão: "Casa em março Ester Macedo / e em julho é mãe... Ora, o alarde! / O filho não veio cedo / o esposo é que veio tarde..."

O enlace ocorreu num sábado ensolarado de março. 

Ester estava radiante em um vestido de cetim que, segundo a costureira Dona Zuleide, "tinha umas pregas estratégicas para acomodar a felicidade da noiva". Getúlio, coitado, suava tanto no altar, como vaca no cio, com o ar de quem tinha acabado de ganhar na loteria, mas perdido o bilhete logo em seguida.

— Que pressa é essa, Ester? — perguntavam as tias, enquanto devoravam os bem-casados.

— É o amor, titia! O amor não pode esperar o inverno! — respondia ela, com um sorriso enigmático.

Os meses passaram como um trem-bala. Abril trouxe as chuvas; maio, as flores; junho, as festas juninas. E em julho, antes mesmo de as bandeirinhas de São João serem recolhidas, o grito ecoou na maternidade local. Nasceu o pequeno e robusto "Getulinho", com 3,8 kg e pulmões de tenor.

— Março, abril, maio, junho, julho... Cinco meses! — digitou Dona fofoqueira-mor, com a precisão de uma calculadora suíça. — Esse menino não é prematuro nem aqui, nem na China. Olha as bochechas dele! Parece que já nasceu querendo um prato de feijoada!

A cidade entrou em polvorosa. No mercado, na farmácia e até na fila do banco, o julgamento era unânime: Ester tinha "atropelado" as leis da biologia. 

Foi então que o Padre Justino, cansado de ouvir confissões que eram, na verdade, fofocas sobre a barriga alheia, resolveu intervir durante a missa de domingo.

— Meus filhos — começou o padre, olhando fixamente para as beatas da primeira fila — parem de dizer que o bebê veio cedo demais. O bebê veio no tempo de Deus.

Ester, que estava no banco de trás com o filho no colo e Getúlio ao lado, levantou-se com uma dignidade de rainha. Ela não estava nem um pouco abalada. Virou-se para a congregação e, com uma voz que silenciou até o ventilador de teto da paróquia, soltou a pérola final:

— Parem de olhar para o berço e olhem para o altar! O meu filho não se adiantou nem um minuto. Ele é um bebê de nove meses rigorosamente contados. O problema é que o Getúlio é que foi um noivo atrasado! Se ele tivesse criado coragem de pedir minha mão no ano passado, o batizado seria junto com o casamento!

A revelação caiu como uma bomba. O "escândalo" não era uma gravidez precoce, mas sim a lentidão crônica de Getúlio em assumir o compromisso. Ele, o esposo, é que "veio tarde" para o cartório, enquanto a vida, apressada, já tinha resolvido florescer por conta própria.

A partir daquele dia, mudou de tom. Não era mais sobre pecado, era sobre a pontualidade masculina. Getúlio virou o santo padroeiro dos namorados enrolados, e Ester, a padroeira das mulheres que não perdem tempo com calendários burocráticos.