quinta-feira, 16 de abril de 2026

A CAMINHADA - FILEMON MARTINS

 




A CAMINHADA

Filemon Martins

 

Recordo, com prazer, a caminhada

e amigos que ganhei estrada afora.

Quantas vezes fiquei na encruzilhada

tentando achar a luz de nova aurora.

 

Passei manhãs ao som da passarada,

cavando a terra e pondo sem demora

a semente na terra abençoada,

enquanto a enxada tine a voz sonora.

 

Depois, parti. Tornei-me um peregrino

e a saudade marcou o meu destino

deixando-me profunda cicatriz...

 

Hoje, não deixo mágoas nem gemidos,

apenas flores  -  versos coloridos,

e a sensação de ser muito feliz!

 


TROVAS DE DÁGUIMA VERÔNICA

 




TROVAS DE DÁGUIMA VERÔNICA


Ao soltar pipa, a criança
desata as peias do sonho
e acende a luz da esperança
para um futuro risonho.

Coração duro, fechado,
prenhe de angústia e rancor,
constrói cárcere privado
com grades feitas de dor.

Coração, vê se te aquieta
não bebas desse pecado,
cuidado, que ele é poeta...
não fiques apaixonado!

Da minha terra encantada
eu guardo a estação mais bela,
o canto da passarada
e os meus sonhos de janela!

Deixaste sobre o deserto
pegadas de tua andança;
o vento virá, por certo,
dissipar qualquer lembrança.


(ENCANTO DAS TROVAS, VOL. III, JOSÉ FELDMAN)

A ANGÚSTIA DA NOITE - JOSÉ FELDMAN

 




A ANGÚSTIA DA NOITE

José Feldman


TROVA DE WANDA DE PAULA MOURTHÉ


Esta angústia indefinida,

que sempre à noite me invade

são sombras próprias da vida

ou disfarces da saudade?



Sempre que a noite se aproxima, uma sensação estranha começa a se instalar em meu peito. É uma angústia indefinida, como um sussurro distante que se transforma em grito à medida que a escuridão se intensifica. As luzes da cidade, que durante o dia vibram em cores e movimento, agora se tornam sombras longas e inquietantes. O dia, com suas distrações e compromissos, parece uma lembrança distante, e o silêncio da noite traz à tona tudo o que tentei esconder.

Às vezes, me pergunto se essa angústia é apenas uma parte da vida. São sombras próprias da existência humana, aquelas que vêm à tona quando nos encontramos sozinhos, com nossos pensamentos e medos? Ou seriam, na verdade, disfarces da saudade, vestígios de algo ou alguém que deixamos para trás? Essas questões dançam em minha mente enquanto a noite avança, como espectros que se recusam a se dissipar.

A saudade é uma palavra que carrega um peso imenso. Não se trata apenas de sentir falta de alguém; é uma mistura de amor, nostalgia e dor, um sentimento que se entranha nas fibras da nossa alma. É como um perfume que se espalha pelo ar, lembrando-nos de momentos passados, de risos compartilhados e lágrimas derramadas. Às vezes, a saudade aparece na forma de memórias felizes, outras vezes, como um eco triste de algo que não pode ser recuperado.

Na calada da noite, as sombras parecem se agigantar. Lembro-me de pessoas que passaram pela minha vida, de amores que se foram e de sonhos que não se realizaram. A escuridão se torna um espaço fértil para a reflexão, mas também para a dor. É nesse momento que percebo como a vida é efêmera, como tudo pode mudar em um instante. Um olhar, uma palavra, uma decisão, e tudo se transforma. A angústia que sinto não é apenas pela perda, mas pela inevitabilidade da mudança.

Os poetas muitas vezes falam sobre a noite como um tempo de introspecção e inspiração. Eles encontram beleza nas sombras, nas incertezas e nas perguntas sem respostas. Mas, para mim, a noite traz um peso que é difícil de suportar. A angústia se transforma em um companheiro incômodo, uma presença que não me deixa em paz. É como se as paredes do meu quarto se tornassem testemunhas silenciosas das minhas inquietações, absorvendo cada suspiro e cada lágrima que escorrega pelo rosto.

Certa vez, conversando com um amigo, compartilhei essa sensação. Ele, com a sabedoria de quem já viveu muitas noites insones, me disse que a angústia é, muitas vezes, um sinal de que estamos vivos. “É a nossa alma pedindo para ser ouvida”, ele disse. “Quando a noite chega, somos forçados a confrontar o que está dentro de nós. A saudade, a dor, a alegria – tudo isso faz parte da experiência humana.” Suas palavras ressoaram em mim como um refrão familiar, mas, àquela altura, eu ainda lutava para aceitar essa verdade.

Com o tempo, comecei a ver a angústia sob uma nova luz. Ela não era apenas um fardo; era também uma oportunidade de reflexão. A cada noite que passava, eu me permitia sentir, mesmo que isso significasse mergulhar em memórias dolorosas. Cada sombra se tornava uma chance de entender melhor a mim mesmo e ao que havia perdido. Descobri que a saudade não era uma inimiga, mas uma parte intrínseca do amor. Amar significa se abrir para a possibilidade da perda, e a saudade é um tributo a isso.

As noites se tornaram um espaço de aprendizado. Comecei a escrever. As palavras fluíam como um rio, levando com elas a dor e a angústia. As páginas se tornaram um refúgio, um lugar onde eu poderia colocar em palavras o que sentia. Escrevi sobre as pessoas que amei, sobre os momentos que me marcaram e sobre as lições que aprendi ao longo do caminho. O ato de escrever transformou a angústia em criação, e a saudade em arte.

Agora, quando a noite chega e a angústia tenta me invadir, respiro fundo e lembro-me de que essas sombras fazem parte da vida. Elas me lembram que sou humano, que sou capaz de amar e de sentir profundamente. Em vez de lutar contra a angústia, aprendi a acolhê-la. É um convite para explorar meu interior, para entender que cada emoção, mesmo as mais desafiadoras, são parte do que significa viver plenamente.

E assim, na quietude da noite, quando as estrelas brilham como testemunhas silenciosas, eu me permito sentir. As sombras podem ser intimidadoras, mas também são belas. Elas contam histórias de amor, de perda e de crescimento. A angústia, com seu peso, é uma amiga difícil, mas leal, que me lembra que a vida é um mosaico de experiências, cada uma contribuindo para a tapeçaria complexa que sou.

No final, percebo que as noites não são apenas momentos de solidão, mas oportunidades para encontrar significado nas sombras e nas saudades. E, enquanto a angústia me invade, eu a abraço, sabendo que ela é parte de minha jornada, uma parte que me ajuda a lembrar que, apesar de tudo, estou vivo.

 

           

 


QUEM FOI MIGUEL RUSSOWSKY - FILEMON MARTINS

 



 

QUEM FOI MIGUEL RUSSOWSKY?

(1923 – 2009)

Filemon Martins

 

 

Sábado, dia 03 de outubro de 2009 faleceu em Joaçaba, SC, o poeta Miguel Russowsky. Essa triste notícia me foi transmitida no dia 5/10/2009, via e-mail, por Angela Togeiro, poetisa e prosadora residente em Belo Horizonte - MG. Mas, afinal, quem foi Miguel Kopstein Russowsky?

Nosso ilustre Dr. Miguel Russowsky nasceu a 21/06/1923 em Santa Maria, Rio Grande do Sul, filho de Jacob Russowsky e Eva Russowsky. Casou-se com Vitória T. Russowsky, com quem teve quatro filhos: Leila Brunoni, June Braganholo, Miguel Igor Russowsky e Silvia Herter.

Estudou na Escola São José, em Jaguari e no Colégio Estadual Santa Maria, entre 1933 e 1940, tendo se formado em medicina em 1946, na URGS, em Porto Alegre.

Transferiu-se, posteriormente, para Joaçaba-SC, onde se tornou médico-empresário. Fundador e Diretor do Hospital São Miguel, de Joaçaba-SC, um dos maiores da região. Exerceu com denodo a medicina livre, atuando como clínico e cirurgia geral, até 2006. Mas, Miguel não era só médico, foi enxadrista, com passagens nos jogos abertos de Santa Catarina, Empresário e proprietário de Hotéis, Cinemas e, sobretudo, um poeta-literato brilhante.

Um campeão em concursos nacionais e internacionais de poesias e trovas. Foi assim que conquistou uma legião de amigos e admiradores pelo Brasil e exterior. Sonetista por excelência e trovador dos mais fluentes, publicou vários livros, entre outros: CÉU D’ESTRELAS, O JULGAMENTO DE TIRADENTES, O SEGREDO DO PÂNTANO, POESIAS MELANCÓLICAS E OUTRAS POESIAS.

Nove (9) vezes Primeiro Prêmio em Sonetos, em concursos nacionais, e várias vezes em outras colocações. Onze (11) Primeiros Prêmios em concursos nacionais de poesias. Ocupou a Cadeira nº 28 da Academia Sul-Brasileira de Letras. Membro da UBT, da Casa do Poeta “Lampião de Gás”, do Movimento Poético, em São Paulo e outras Entidades Lítero-culturais, além de colaborador de jornais, revistas, como o FANAL, ESTRO, A FIGUEIRA, entre outros alternativos.

O poeta sempre foi um mestre em tudo quanto fez. Fazia elogios e críticas construtivas quando necessário. Em sua última correspondência a este autor, o mestre Miguel, com sua letra de médico, me dizia: “Lendo o seu O NASCIMENTO DE UM SONETO (Ótimo!! Nota 10!) adivinhei que você é um irmão, e por isso, é meu amigo, tá? Tivemos inspiração semelhante, pois este tema tenho explorado com frequência que me parece da mesma Mãe.”

E continua a fazer comentários sobre as minhas publicações em A FIGUEIRA: “Alvorecer, tem os dois tercetos finais brilhantes. Gostei, mas adoraria mais se você aceitasse o desafio de usar rimas mais ricas. Coisas de Amor tem um jeito bom, mas não está tão linear, como os demais e penso que – NÃO TEMA RIMAS DIFÍCEIS, TREINE, REFAÇA! Capacidade você tem.” E o professor Miguel não parou por aí, “Reminiscência é uma joia. Você é bom mesmo. SE TREINAR, VEZ POR OUTRA, OUTROS SONS VAI CHEGAR A MESTRE! SEJA MENINO.” Desde então, venho tentando seguir as lições do mestre.

Transcrevi estas notas para mostrar o quanto me abalou a morte do poeta, de quem eu era um admirador incondicional. Seus sonetos são exemplos de perfeição. Gostava de exercitar seu humor sadio e inteligente, em suas produções, como nestes sonetos e trovas do poeta: ESTOU SÓ!... (DUVIDO)

Estou só?... (Não tão só: eu tenho esta caneta

que adora conversar. É discreta, fiel

e sempre me quis bem. Depois tem o papel

que apoia o meu trabalho e veste a camiseta.)

Eu, só?... (Só se quiser. A ideia, meu corcel,

se parece um “Sputnik”, vai a qualquer planeta,

não cansa de falar, toca flauta e trombeta

e traz ao meu silêncio, amadas em tropel).

Estou só?...Um pouquinho. (Aprendi que a saudade

desfaz da solidão, ao menos a metade

e o resto que sobrar, com jeito, vira pó)

Estou triste, é verdade. Entanto (quem diria?)

uma lágrima só, pode ser companhia.

Duvido, sendo assim, que eu esteja só.

TROVAS:

Na trova, às vezes invento

emoções... e não as sinto.

Mas creia no meu talento:

sou sincero quando minto.

 

Estudo trovas a fundo,

mas persisto na suspeita,

que a trova melhor do mundo

até hoje não foi feita.

 

Muita fome e pouca grana...

Pago o bife a prestação.

Vou entrar esta semana

no consórcio do feijão.

 

Miguel Russowsky era um jovem poeta de 86 anos, atento a tudo e a todos, mantendo saudável correspondência com seus amigos e admiradores de todo o Brasil, e sempre com lições edificantes na vida e na arte de fazer versos:

 

Domingo sem ninguém... De sentinela,

apenas o jornal... (e o cafezinho).

(Muitas vezes é bom estar sozinho

remexendo o Silêncio tagarela).

 

No meu bloco, três rimas adivinho

querendo desfilar na passarela.

A Inspiração, de pé, lá da janela,

se põe a espargir versos no caminho.

 

O meu lápis – batuta de maestro –

decifra as partituras que eu orquestro,

com muito orgulho de reger o show.

 

...E a dona Solidão também se achega

com seu porte senil de estátua grega

e me avisa: o soneto começou!

 

É verbete da ENCICLOPÉDIA DE LITERATURA BRASILEIRA, de Afrânio Coutinho e Graça Coutinho, edição do MEC-1990, com revisão de Graça Coutinho e Rita M. Botelho, edição revista e atualizada em 2001.

Vítima de acidente de carro no centro de Joaçaba, onde morava, silenciou o poeta aos 86 anos de idade. Deus o chamou para reger seu coro de poetas no céu, deixando-nos uma saudade dorida e indizível em nossos corações.


BIBLIOGRAFIA:
BLOG DO ARTCULTURALBRASIL (Rossyr Berny Editor)
WWW.FALANDODETROVA.COM.BR
QUARTA E QUINTA ANTOLOGIA POÉTICA DE A FIGUEIRA (1996-1998)

CORRESPONDÊNCIA EM PODER DO AUTOR DESTAS NOTAS COM PAPEL TIMBRADO DO HOSPITAL SÃO MIGUEL (HSM) –JOAÇABA – SC.

 


SAUDADE - MIGUEL RUSSOWSKY

 




SAUDADE
Miguel Russowsky


Quando a saudade quer... se assenta no sofá
da varanda vazia (ou então na cozinha)
e se põe a escrever... Às vezes toma chá
e mastiga, em silêncio, alguma bolachinha.

(Eu via que a saudade, ultimamente vinha
com letras de “Tristeza” exposta no crachá.
E só muito depois, por insistência minha,
fazia a solidão não parecer tão má.)

... “e se põe a escrever”, - conforme atrás eu disse –
com talento invulgar, querendo que a velhice
não seja uma ilusão que murchou e se esvai.

“Quando a saudade escreve...” a caneta soluça
e a tarde, sem querer, quatro rimas debruça
num soneto de luto... e uma lágrima cai.

BRISA BRANDA - MIGUEL RUSSOWSKY

 



BRISA BRANDA
MIGUEL RUSSOWSKY


Começo a versejar... A brisa branda
vai furungando ao léu, sem disciplina.
De quando em quando as pontas da cortina,
se põem a balançar como em ciranda.

A tarde está dormindo na varanda,
como se fosse cortesã grã-fina.
O relógio, viciado na rotina,
parece concordar: Quase nem anda.

O sol fratura a luz em mil pedaços,
no jarro de cristal polido, antigo,
e a parede recolhe os estilhaços.

Escrever versos pode ser castigo?
Não seria pior cruzar os braços?
(Envelhecer me dói... mas eu nem ligo!)


(SONETOS BEM-SUCEDIDOS, PÁGINA 88)

quarta-feira, 15 de abril de 2026

SONETO DE ARVERS - TRADUÇÃO J. G. DE ARAÚJO JORGE

 


                            FOTO DE LALINHA, IPUPIARA, BAHIA)



SONETO DE ARVERS
Tradução de J. G. de Araújo Jorge


Tenho um segredo na alma, e um mistério na vida:
Um repentino amor que me empolga e devora;
Louca paixão que trago em minha alma escondida
E aquela que a inspirou, entretanto ignora…


Ai, de mim! Sigo só, mesmo a seu lado, embora
Levo no coração sua imagem querida
Até que venha a morte, e amanhã, como agora,
Nada possa esperar dessa paixão proibida…


E ela que a alma possui só de ternuras cheia
Seguirá seu caminho, indiferente, e alheia
Ao sussurro de amor que em vão a seguirá…


Presa a um nobre dever, a um tempo fiel e bela,
Dirá depois que ler meus versos cheios dela:
-“Que mulher será essa?…” E não compreenderá…

MORTE DA ÁRVORE - FILEMON MARTINS

 


 

MORTE DA ÁRVORE

(Lendo o soneto ÁRVORE MORTA, do Padre Saturnino de Freitas)

Filemon Martins

 

Árvore triste, que ontem foi bonita,

não tens mais ramos, frutos e nem flores,

dos pássaros não és mais favorita

e não abrigas mais tantos amores.

 

Neste teu tronco já ninguém habita,

sequer amantes loucos, sonhadores,

que outrora segredavam na Mesquita

de suas folhas vivas, multicores...

 

Quantas vezes ouviste namorados

em carinhos e beijos, descuidados,

como se o tempo não fosse passar.

 

Hoje, teus galhos secos, ressequidos,

são lembranças de sonhos esquecidos,

que nunca mais, na vida, vão voltar!