sábado, 18 de abril de 2026

ILUSÕES DA VIDA - FRANCISCO OTAVIANO

 


                                         (FOTO DE SANDRO, CARRANCA, BAHIA)


ILUSÕES DA VIDA
FRANCISCO OTAVIANO
(1825/1889)

Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu...
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem, não foi homem.
Só passou pela vida, não viveu.

À SOMBRA DO LAGO - JOSÉ FELDMAN

 




À SOMBRA DO LAGO

José Feldman


TROVA DE EDY SOARES


Lembrança doce e singela

enchendo o peito de afago:

eu e meu pai na pinguela

jogando pedras no lago...



 

Na pequena cidade de Fragatópolis, havia um lago que parecia ter saído de um conto de fadas. Suas águas eram calmas e refletiam o céu azul em dias ensolarados, enquanto as árvores em volta dançavam suavemente ao vento. Era um lugar mágico, onde as crianças corriam livres e as memórias se formavam como nuvens no céu. Para mim, o lago era mais do que um simples corpo d’água; era um espaço sagrado, um refúgio de lembranças que guardava momentos preciosos ao lado do meu pai.

Certa tarde de verão, quando eu ainda era uma criança, meu pai decidiu que era hora de me levar até a pinguela, uma pequena ponte de madeira que se estendia sobre o lago. Ele sempre dizia que aquele era o melhor lugar para jogar pedras na água e ver as ondas se espalharem como um abraço de boas vindas. Com um sorriso no rosto, peguei sua mão e seguimos juntos pela trilha que levava ao nosso destino.

A pinguela, com suas tábuas desgastadas pelo tempo, rangia sob nossos pés, mas para mim era um som familiar, como uma canção que só nós dois conhecíamos. Meu pai, com seu chapéu de palha e seu jeito despreocupado, era a personificação da alegria. Ele me ensinou a escolher as pedras mais lisas, aquelas que pulavam na superfície da água. “Olhe bem, meu filho. A pedra precisa ter o formato certo. E você deve arremessá-la com confiança”, ele dizia, enquanto eu o observava com admiração.

Nosso ritual de jogar pedras era mais do que uma simples brincadeira; era um momento de conexão. Cada pedra que lançávamos parecia levar consigo um pedaço de nossas preocupações e medos. Eu me lembrava de como meu pai ria quando uma pedra pulava várias vezes antes de se afundar. “Veja! Essa foi uma campeã!”, ele exclamava, e eu ria junto, sentindo a felicidade vibrar em meu peito.

Naquele dia, enquanto jogávamos pedras, ele começou a contar histórias de sua infância. Falou sobre os verões que passara pescando com seu pai e como ele mesmo tinha aprendido a escolher as melhores pedras. A cada risada, a cada história compartilhada, meu coração se enchia de afeto. A presença do meu pai era um abrigo seguro, e nada parecia mais importante do que aqueles momentos simples à beira do lago.

Com o passar do tempo, fui crescendo, e as responsabilidades da vida começaram a se acumular. A escola, os amigos, e mais tarde, o trabalho, foram ocupando meu tempo e minha mente. As visitas ao lago tornaram-se menos frequentes, e a pinguela, uma doce lembrança da infância, foi se tornando apenas uma imagem distante. Mas, em meu coração, eu sabia que aquelas memórias estavam guardadas como um tesouro inestimável.

Anos depois, ao receber a notícia de que meu pai não estava bem, uma onda de nostalgia me invadiu. Eu me lembrei da pinguela, das pedras e das risadas. Naquele momento, percebi que precisava voltar àquele lugar que tanto significava para nós. Assim que pude, organizei uma viagem para Ribeirão Verde.

Chegando lá, encontrei o lago como eu o lembrava, mas a pinguela parecia ter envelhecido. As tábuas estavam mais desgastadas, e o vento parecia sussurrar histórias do passado. Com o coração apertado, me aproximei da beira da água e, por um instante, fechei os olhos. As memórias vieram à tona como se eu estivesse lá novamente, lançando pedras com meu pai, rindo e aprendendo sobre a vida.

Sentei-me na beira do lago, e as lágrimas escorriam pelo meu rosto. Eu sabia que precisava de um momento de conexão, mesmo que meu pai não estivesse fisicamente presente. Compreendi que as memórias que guardava eram o verdadeiro legado dele. Com um gesto automático, peguei algumas pedras do chão e comecei a jogá-las na água, como fazíamos antes. Cada arremesso trazia de volta um fragmento do passado, um eco das risadas e das lições.

Neste reencontro com o lago, percebi que, embora meu pai não estivesse mais ao meu lado, ele continuava vivo nas lembranças doces e singelas que preenchiam meu peito. Ele havia me ensinado a importância de valorizar os momentos simples, de encontrar alegria nas pequenas coisas, e naquele dia, ao jogar pedras, eu sentia sua presença como se ele estivesse me guiando novamente.

Enquanto o sol se punha no horizonte, tingindo o céu de laranja e rosa, percebi que a vida era feita de ciclos. Embora a dor da ausência fosse aguda, as lembranças eram um bálsamo que aliviava a saudade. Com cada pedra que lançava, eu dizia um silencioso “obrigado” ao meu pai, por todas as lições e pelos momentos que compartilhamos.

Aquela tarde no lago me trouxe paz. Compreendi que a pinguela, as pedras e o lago eram mais do que apenas um cenário; eram símbolos da relação que tivemos e do amor que ainda vive em mim. Ao sair daquele lugar, levei comigo uma nova certeza: mesmo na ausência física, as memórias permanecem vivas, e o amor nunca se apaga.

E assim, ao voltar para casa, meu coração estava mais leve. Eu sabia que, sempre que precisasse, poderia retornar àquela pinguela, onde as lembranças doces e singelas enchiam meu peito de afago, lembrando-me de que, mesmo na solidão, nunca estamos realmente sozinhos.


TROVAS DE JESSÉ NASCIMENTO

 



TROVAS DE JESSÉ NASCIMENTO

(ANGRA DOS REIS/RJ)


A formiga, na labuta,
nos dá profunda lição;
não se curva ao peso e à luta,
vive em perfeita união.

Ah, relógio, meu amigo,
teus ponteiros, como correm!
O tempo voa contigo
e com ele os sonhos morrem...

Após tantos desenganos
e conselhos não ouvidos,
chego ao final dos meus anos
sem ter meus dias vividos.

“Aproveite a promoção”,
na loja, a faixa dizia;
aproveitou-a o ladrão,
num cochilo do vigia.


(ALMANAQUE CHUVA DE VERSOS Nº 

435/JOSÉ FELDMAN)

TROVAS DE VANDA F. QUEIROZ

 


                                       (JARDIM DA LALINHA, IPUPIARA, BAHIA)



TROVAS DE VANDA F. QUEIROZ


Quem sou? Andava cismando...
Afinal me definistes:
- uma sombra carregando
um feixe de rimas tristes.

Um cortejo dobra a esquina...
Dobra um sino tristemente...
Eu – deixo de ser menina
passo a ser órfã somente.

Passa uma pobre menina,
vê numa loja, um brinquedo,
cola o nariz à vitrina,
depois sai... chupando o dedo.

Muita vez tenho cismado
que, ao invés do coração,
muita gente traz guardado
dentro do peito, um cifrão.


(ANUÁRIO COLETÂNEA DE TROVAS BRASILEIRAS, 1981, PÁGINA 10, ORGANIZAÇÃO DE FERNANDES VIANNA)











TROVAS DE NILTON ARAÚJO

 


                                          (FOTO DE LALINHA, IPUPIARA, BAHIA)


TROVAS DE NILTON ARAÚJO (SANTA IZABEL-SP)


Os poemas que componho
com sentimentos diversos,
são as telas dos meus sonhos
reproduzidas em versos.

Se o coração não parasse,
não deixasse de bater,
talvez ainda te amasse
mesmo depois de morrer.

TROVAS BRASILEIRAS

 


                                             (FOTO DE LALINHA, IPUPIARA, BAHIA)


TROVAS BRASILEIRAS


Levanto cedo, não nego,
ando pescando a poesia,
na minha rede carrego
todo o mar de fantasia.
Filemon Martins

Felicidade – surpresa
que a vida um dia nos faz...
Não tem base nem firmeza
e, como é linda, é fugaz.
Colombina

Para que jamais te iludas
com fortunas e esplendores,
lembra que as plantas miúdas
também se cobrem de flores!
Humberto Del Maestro

Saudade – um suspiro, uma ânsia,
uma vontade de ver
a quem nos vê a distância,
com os olhos do bem-querer.
Bastos Tigre

TROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA

 



TROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA


O meu desânimo é forte

por esta razão ferina

eu busco o trigo da sorte,

mas, o joio predomina.


Que minha trova modesta

exalte sempre a Jesus,

aos leitores leve a festa

e, nas almas, lance a luz.


É Faculdade, por certo,

a Natureza que inspira,

tendo um livro sempre aberto

para o trovista caipira.


Minha humildade se alarga

nesta cena, com razão:

Humilde, conduz a carga

o jeguinho do Sertão.


(LIVRO "28 SONS" - 1998)

sexta-feira, 17 de abril de 2026

O JOGO DAS ILUSÕES - JOSÉ FELDMAN

 



O JOGO DAS ILUSÕES

José Feldman


TROVA DE SOLANGE COLOMBARA


O mentiroso pensou

ter enganado a donzela...

Por interesse casou,

mas quem o enganou, foi ela!




Na pitoresca vila de São Lucas, onde as casas coloridas se alinhavam como um arco-íris e as flores perfumavam o ar, havia um jovem chamado Álvaro. Ele era charmoso e tinha um sorriso que derretia corações. No entanto, por trás daquela fachada encantadora, Álvaro carregava um segredo: ele era um mentiroso contumaz. Sua habilidade de enganar os outros era quase uma arte, e ele usava isso para conseguir o que desejava.

Certa vez, durante uma festa à beira do rio, Álvaro conheceu Isabela, uma donzela de beleza estonteante e inteligência aguçada. Desde que se olharam pela primeira vez, ele ficou fascinado. Isabela não era apenas uma moça qualquer, ela tinha uma aura de mistério e uma sagacidade que o intrigava. 

Mas, como sempre, Álvaro viu em Isabela uma oportunidade. Ele decidiu que a conquistaria não por amor, mas por interesse: seu pai, um próspero comerciante, possuía uma fortuna considerável.

Álvaro começou a cortejá-la, usando todo o seu charme e persuasão. Ele contava histórias fantásticas sobre suas viagens, suas conquistas e seus planos grandiosos para o futuro. Isabela, no entanto, era mais esperta do que ele imaginava. Embora se sentisse lisonjeada pela atenção, ela percebia que havia algo de superficial nas promessas dele. Mas o jogo de sedução a divertia, e ela decidiu seguir na dança.

Com o decorrer dos meses, ele foi se envolvendo cada vez mais com Isabela, mas sempre com um pé atrás. Ele a via como um meio para alcançar seus objetivos. Quando finalmente pediu sua mão em casamento, ele estava convencido de que tinha enganado a moça. 

Casaram-se em uma cerimônia belíssima, rodeados por amigos e familiares, e Álvaro não podia deixar de pensar o quanto foi bem sucedido o seu plano.

No entanto, a verdadeira trama começou a se desenrolar após o casamento. Isabela, que parecia ser a moça ingênua que ele pensava ter enganado, revelou-se uma mulher astuta e determinada. Ela não era apenas uma herdeira de um grande patrimônio, era também uma empresária perspicaz, bem informada sobre os negócios de seu pai e sobre como o mundo funcionava. Aos poucos, ela começou a perceber que Álvaro não era o homem que ele havia pintado em suas histórias.

Certa noite, enquanto ele se gabava de seus “feitos” em uma conversa, Isabela decidiu dar o troco. Com um sorriso enigmático, ela começou a contar histórias sobre suas próprias "aventuras". Falou sobre como havia viajado por terras distantes, feito investimentos inteligentes e se envolvido em negócios lucrativos. 

Álvaro, que estava acostumado a ser o centro das atenções, começou a se sentir desconfortável. Ele percebeu que Isabela não era uma moça desavisada, mas uma mulher que poderia, de fato, ser sua parceira em vez de apenas um troféu.

As semanas se passaram, e ele se viu cada vez mais encurralado. Ela começou a administrar os bens do casal com uma habilidade que ele nunca imaginara. As histórias de suas "aventuras" se tornaram realidade, e logo ele percebeu que sua esposa era mais do que apenas uma herdeira: ela era uma força a ser reconhecida. O que ele via como uma conquista se transformou em um desafio, e a verdade começou a emergir.

Certa manhã, enquanto Álvaro revisava as contas da casa, encontrou um documento que o deixou intrigado. Era um contrato de sociedade que Isabela havia assinado com um grupo de investidores. Ao ler os detalhes, percebeu que ela não apenas conhecia o valor do dinheiro, mas também sabia como multiplicá-lo. O que ele pensava ser uma vida de luxo às custas da fortuna dela se tornara uma parceria em que ele não tinha controle.

Com o passar do tempo, a confiança que ele tinha em sua própria capacidade de manipulação começou a desmoronar. Sentia-se cada vez mais impotente e, em suas tentativas de manter a aparência de um marido bem sucedido, começou a mentir indiscriminadamente. Mas, para a sua surpresa, ela estava sempre um passo à frente. Sabia de suas mentiras e, em vez de confrontá-lo de imediato, decidiu usar isso a seu favor.

Certa noite, enquanto Álvaro tentava impressionar os amigos em um jantar, ele começou a contar uma história que envolvia uma conquista de negócios que, na verdade, nunca havia acontecido. Isabela, com um sorriso no rosto, interrompeu-o. “Álvaro, você se esqueceu de mencionar aquele investimento que fizemos juntos, não é? O que você está contando é um pouco diferente da realidade.” 

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Os amigos de Álvaro trocaram olhares confusos, e ele percebeu que a máscara estava prestes a cair.

A partir daquele momento, ela começou a tomar as rédeas da situação. Ela não fez um escândalo, em vez disso, usou sua inteligência e astúcia para transformar a dinâmica do relacionamento. Com um jeito gentil, mas firme, começou a fazer com que Álvaro percebesse o valor da honestidade. Ele, que pensava ter enganado a moça, agora se via engolido por suas próprias mentiras.

Isabela não apenas se tornou a administradora dos bens do casal, mas também a mentora de Álvaro. Com paciência e compreensão, ela o ensinou sobre a importância da transparência, da verdade e da parceria. Ele começou a perceber que suas mentiras não o protegiam, mas o isolavam. A vida a dois se transformou em um aprendizado mútuo, onde ambos se tornavam melhores a cada dia.

Com o tempo, ele aprendeu a ser mais verdadeiro, não apenas consigo mesmo, mas também com Isabela. O amor que antes parecia baseado em interesses tornou-se uma relação autêntica, onde ambos se apoiavam e cresciam juntos. Ele começou a admirar a força e a determinação de sua esposa, e, mesmo que o início de sua história tivesse sido repleto de erros, o final prometia ser diferente.

Anos depois, quando olhavam para trás, ambos riam das artimanhas que haviam usado no início de seu relacionamento. Álvaro percebeu que, embora tivesse tentado enganar Isabela, foi ela quem realmente o havia ensinado sobre o amor verdadeiro. Em vez de um conto de fadas, sua história era uma narrativa de crescimento, de superação e de aprendizado mútuo.

E assim, a lição ficou clara: as mentiras podem enganar por um tempo, mas a verdade sempre se revela. Na dança do amor, quem tenta manipular pode acabar sendo o manipulado, e o que parece um jogo de interesses pode se transformar em uma parceria genuína.

 

           

 


VITA NUOVA - MANUEL BANDEIRA

 


                                        (FOTO DE SANDRO, CARRANCA, BAHIA)


VITA NUOVA

Manuel Bandeira


De onde me veio esse tremor de ninho

A alvorecer na morta madrugada?

Era todo o meu ser... Não era nada,

Senão na pele a sombra de um carinho.


Ah, bem velho carinho! Um desalinho

De dedos tontos no painel da escada...

Batia a minha cor multiplicada,

- Era o sangue de Deus mudado em vinho!


Bandeiras tatalavam no alto mastro

Do meu desejo. No fervor da espera

Clareou a distância o súbito alabastro


E na memória em nova primavera,

Revivesceu, candente como um astro,

A flor do sonho, o sonho da quimera.


(LIVRO "GRANDES SONETOS DA NOSSA LÍNGUA", PÁGINA 169)

ESTRANHAS LÁGRIMAS - FELIX PACHECO

 




ESTRANHAS LÁGRIMAS

Felix Pacheco


Lágrimas... Noutras épocas verti-as,

Não tinha o olhar enxuto, como agora.

- Alma, dizia então comigo, chora,

Que assim minorarás as Agonias!


Ah, quantas vezes, pelas faces frias,

Umas, outras, após, a toda hora,

Gota a gota rolando, elas, outrora,

Marcaram noites e marcaram dias!


Vinham do Oceano d'Alma imenso e fundo,

De espuma as ondas salpicando o flanco,

Numa fremência amargurada e louca.


Nos olhos hoje as Lágrimas estanco...

Rolam, porém, sem que as descubra o Mundo,

Sob a forma de Risos, pela boca!


(LIVRO "GRANDES SONETOS DA NOSSA LÍNGUA", PÁGINA 123)

SONETO DE MÁRIO QUINTANA

 




SONETO
Mário Quintana

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
verde!... E que leves, lindas filigranas
desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos de luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando.


(DO SITE FALANDO DE TROVA)














O CORAÇÃO SONHADOR - JOSÉ FELDMAN

 




O CORAÇÃO SONHADOR

José Feldman


TROVA DE THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA


Envergonhado e sem jeito,

meu coração sonhador

conserta o ninho desfeito

enquanto espera outro amor!



Em uma pequena cidade à beira do mar, onde as ondas sussurravam segredos e o sol se despedia em cores vibrantes, vivia um jovem chamado Rafael. Ele era conhecido por seu espírito sonhador e sua sensibilidade à flor da pele. Com seus cabelos bagunçados e um olhar que carregava a luz do horizonte, Rafael caminhava pelas ruas da cidade com um caderno sempre à mão, onde anotava pensamentos, poesias e fragmentos de suas esperanças.

Ele acreditava no amor como algo mágico, um laço que transcende a lógica e as barreiras do cotidiano. Desde pequeno, ele sonhara em encontrar sua alma gêmea, aquela pessoa que faria seu coração bater mais forte e transformaria sua vida em uma aventura. Porém, a realidade o havia ensinado que os amores nem sempre são eternos. Recentemente, ele havia passado por um término doloroso com Lúcia, uma jovem que iluminou sua vida como poucos. A separação foi abrupta, deixando um ninho desfeito em seu coração, repleto de memórias e promessas não cumpridas.

Sentado em seu quarto, cercado por livros e poemas, Rafael sentia-se envergonhado e sem jeito. A dor da perda ainda pulsava em seu peito, mas, ao mesmo tempo, havia uma chama de esperança que se recusava a se apagar. Ele sabia que precisava consertar o ninho que havia se desfeito, não apenas para curar suas feridas, mas também para se abrir a novas possibilidades. O amor poderia ser um ciclo, e ele estava determinado a não deixar que o medo do fracasso o impedisse de voar novamente.

Os dias passaram, e ele começou a se dedicar a si mesmo, a recuperar o que havia se perdido na relação anterior. Ele se permitiu sentir a dor, mas também se permitiu sonhar. Começou a frequentar uma nova cafeteria na cidade, um lugar aconchegante e repleto de pessoas criativas. Ali, entre risos e conversas, ele começou a se abrir para o mundo. O cheiro do café fresco e o som das xícaras se chocando criavam um ambiente acolhedor, onde ele podia se perder em pensamentos e anotações.

Em uma dessas manhãs ensolaradas, enquanto rabiscava algumas linhas de poesia, uma jovem entrou na cafeteria. Seu nome era Raquel, e sua presença iluminou o ambiente. Ela tinha um sorriso contagiante e um olhar curioso, que imediatamente capturou a atenção de Rafael. Eles começaram a conversar, e, a cada trocadilho e risada, ele sentia seu coração despertar lentamente. Era como se ele estivesse consertando seu ninho desfeito, colocando de volta cada pedaço que havia se espalhado com a dor da separação.

Raquel e Rafael começaram a se encontrar regularmente, trocando histórias sobre suas vidas, sonhos e desejos. A conexão entre eles cresceu de maneira orgânica, como uma planta que se adapta ao ambiente. Rafael se sentia mais vivo e mais inspirado do que nunca. Ele redescobriu a alegria de escrever, agora fluindo com versos que falavam sobre recomeços e a beleza de se abrir novamente para o amor.

No entanto, mesmo com a felicidade renascente, Rafael não conseguia esquecer completamente Lúcia. A saudade ainda o acompanhava em momentos de solidão, e ele se perguntava se estava sendo justo com Raquel ao permitir que essa sombra ainda existisse em seu coração. Era um dilema que o deixava angustiado: como poderia amar plenamente outra pessoa se ainda havia espaços ocupados por memórias passadas?

Uma noite, enquanto caminhava pela praia com Raquel, ele decidiu que era hora de ser honesto. Com o som das ondas como pano de fundo, ele compartilhou suas inseguranças. “Raquel, eu estou tão feliz por estar aqui com você, mas preciso te contar que ainda sinto a falta de minha ex. É um sentimento que não sei como lidar, e temo que isso possa afetar o que estamos construindo juntos.” 

A brisa do mar trouxe um silêncio momentâneo, e Rafael sentiu seu coração apertar.

Ela olhou para ele com compreensão: “Rafael, é normal carregar algumas bagagens, mas o que importa é o que decidimos fazer com elas. O amor não é uma competição; é um espaço onde podemos crescer juntos. Se você está disposto a abrir seu coração para mim, estarei aqui, ao seu lado.” 

Suas palavras foram como um bálsamo para as feridas dele. Percebeu que, embora as sombras do passado ainda estivessem presentes, a luz do novo amor poderia iluminá-las.

Com o passar do tempo, ele aprendeu a equilibrar seus sentimentos. Ele não precisava apagar Lúcia de sua memória, mas poderia permitir que Raquel ocupasse um lugar especial em seu coração. A cada encontro, a cada conversa, seu ninho se tornava mais forte, mais acolhedor. Ele dedicou-se a construir uma nova história, onde o amor não era uma substituição, mas uma continuidade.

O que começou como uma angústia se transformou em um aprendizado profundo sobre amor, perda e renovação. Rafael percebeu que a vida é feita de ciclos, e cada amor traz suas lições. Ele aprendeu a olhar para suas experiências não como fardos, mas como parte da bela tapeçaria que compõe sua existência.

E assim, enquanto o sol se desvanecia no ocaso em mais um dia, ele sentiu seu coração sonhador pulsar com uma nova esperança. Sabia que estava em um caminho de cura, e que, enquanto consertava seu ninho desfeito, estava também se preparando para voar mais alto. Afinal, o amor verdadeiro não se apaga; ele se transforma, se adapta e, na maioria das vezes, nos ensina a amar de uma maneira ainda mais profunda.

 

 


TROVAS DE J. G. DE ARAÚJO JORGE

 


                                            (FOTO DE SANDRO, IPUPIARA, BAHIA)


TROVAS DE J. G. ARAÚJO JORGE


Amor que sofro, que almejo,
mata-me logo de vez!
Longe que estejas, te vejo,
ao teu lado, nem me vês...

Ao ler uma bela trova
depois que pronta ficou,
- quem calcula a dura prova
por que o poeta passou?

A poesia que desejo
tiro de mim como aquela
cantiga do realejo
se alguém roda a manivela…

A saudade é este vazio
que a vida, ao partir, deixou;
rio seco, que foi rio,
porque a água já secou...

A saudade, intimamente,
devagarzinho nos rói;
é uma emoção diferente,

como uma dor que não dói.


(ENCANTO DE TROVAS, TOMO VIII, VOL. II, JOSÉ FELDMAN)