domingo, 21 de junho de 2026

GRANDES TROVADORAS

 


      (JARDIM DA LALINHA, TROVADORA TAMBÉM, EM IPUPIARA, BAHIA)



GRANDES TROVADORAS


A gratidão tem memória,

olha atrás, de vez em vez...

vê, nas pegadas da história,

cada bem que alguém lhe fez!


ELVIRA DRUMMOND


Ser justo é ter alcançado

esta enorme dimensão:

- Se grande é o mal do pecado,

maior é o bem do perdão.


VANDA FAGUNDES QUEIROZ


Há mistério neste mundo

que desafia a razão...

Pois, só Deus tem o profundo

supremo poder na mão.


DULCE A. SIQUEIRA


Há sempre o dedo de Deus

na flor, no inseto que voa...

No bem que chega, no adeus;

no gesto de quem perdoa.


MARIA THEREZA CAVALHEIRO



GRANDES TROVADORES

 




GRANDES TROVADORES



Avisto já no horizonte,
em pleno declínio, o sol;
mas não me abato, ergo a fronte
e aguardo um novo arrebol
.
    JESSÉ FERNANDES DO NASCIMENTO


Não levo mágoas comigo,
e tampouco o desamor;
levo a paz de um Deus amigo,
parceiro da minha dor!

MATUSALÉM DIAS DE MOURA

Minha própria mágoa inventa
a rima, como saída,
só assim a gente aguenta
as intempéries da vida.

CARLOS RIBEIRO ROCHA

Cada dia mais me afundo
na vida, em seu vai-e-vem,
e escondo as dores do mundo,
porque são minhas também.

HUMBERTO DEL MAESTRO





sábado, 20 de junho de 2026

CARTA-RESPOSTA A UMA PESQUISADORA - FILEMON MARTINS

 





Carta-resposta a uma pesquisadora.

Cumprimentos.

                         FILEMON MARTINS

 

Em resposta à sua pesquisa, passo a fornecer-lhe algumas informações, conforme solicitou:

Fiz o curso de Administração de Empresas, na Faculdade de Administração e Ciências Econômicas “Santana”, em São Paulo. Contudo, após ter prestado serviços à Empresa Folha da Manhã S/A (proprietária do Jornal Folha de São Paulo) e, por concurso público, à Prefeitura Municipal de São Paulo, tornei-me, posteriormente, também por concurso público, funcionário do Judiciário Federal, lotado no Tribunal Regional Federal da 3ª Região, com sede na Av. Paulista, 1842. Hoje, conforme disse Fernando Henrique Cardoso, sou vagabundo, (aposentado), mas ele também o é. Hobby? Passa tempo? Gosto de ler, escrever, ver filmes, séries, fotografias como amador e relógios de paredes, modelos diversos, além de gostar de plantas, árvores, natureza... Publiquei em 97 o meu primeiro livro de poemas, "FLORES DO MEU JARDIM", com edição esgotada. Depois, vieram outros, como "DICIONÁRIO GENEALÓGICO DA FAMÍLIA RIBEIRO MARTINS", (2007) em coautoria com Mário Ribeiro Martins, "ANSEIOS DO CORAÇÃO" (2011), "FAGULHAS" (artigos, cartas, crônicas e ensaios 2013), "SONETOS & TROVAS" (2014), "FLORES DO MEU JARDIM" (2ª edição revista e ampliada-2016), "HISTÓRIAS QUE SÓ AGORA EU CONTO" (2018), "CAMINHOS DO JORDÃO DA BAHIA" (2022), "O COTIDIANO DA VIDA, HISTÓRIAS E VERDADES" (2024) e "DE TUDO UM POUCO" (2025). Tenho participado de várias antologias pelo Brasil. Publico também pela internet alguns trabalhos, que podem ser acessados através do BLOG LITERÁRIO DO FILEMON – no endereço: blogliterariofilemon.blogspot.com -onde tenho inserido trabalhos de diversos autores e em minha página Filemon F. Martins, do Facebook.

Carnaval? Considero uma festa popular, uma manifestação artística do povo. Mas, pessoalmente não aprecio. Pena de Morte: não creio que seja a solução dos nossos problemas. Aliás, escrevi um texto com os seguintes dizeres: “Hoje, no Brasil, entre outros problemas, o que se constata é o descaso de nossas autoridades no que diz respeito à saúde, à educação e à administração pública. O desconforto é geral. Ora, sem saúde, sem educação é impossível a população obter seu espaço, crescer, produzir e colher os frutos do seu trabalho. Aliás, uma grande parte do povo não tem sequer um emprego para garantir sua sobrevivência e de sua família.” É assim que penso. Creio que a solução é a longo prazo com educação, principalmente. Pena de Morte não vai resolver.

Quanto aos transgênicos, o assunto ainda é polêmico, os países pobres contam com um aliado poderoso, porque a Comunidade Europeia encara com desconfiança os transgênicos, por considerá-los nocivos à saúde, conforme o Jornal do Brasil. No mercado americano já existem uma infinidade de produtos agrícolas transgênicos, a maioria dos quais produzidos a partir de sementes manipuladas geneticamente por laboratórios multinacionais, conforme a mesma fonte. Não obstante esta desconfiança, acredito que poderá ser útil para resolvermos o problema de alimentação no Brasil e no mundo.

A Tradição Gaúcha é rica e muito interessante. Precisa ser mais difundida. Rodeios? Infelizmente não conheço nem o de Barretos/SP nem o de Vacaria/RS. Aliás, o Rio Grande do Sul, detentor de uma qualidade de vida superior a maioria dos Estados brasileiros, precisa difundir também a literatura e outros costumes. A propósito, mantenho um intercâmbio de correspondência com o Clube dos Escritores de ALVORADA/RS. Um exemplo a ser seguido, porque “um País se faz com homens e livros”. (Monteiro Lobato)  

CONVERSA CALADA - VANDA FAGUNDES QUEIROZ

 




CONVERSA CALADA

Vanda Fagundes Queiroz


 

Com tanto sentimento solitário,

meu existir interno é tão intenso,

que para reparti-lo às vezes penso

num interlocutor imaginário.

 

E sinto, então, falar de modo vário

minha alma com seu repertório imenso,

tão vasto que nem sei como é que venço,

sozinha, o turbilhão do meu fadário.

 

Embora eu tenha apenas uma vida,

termino por fazer-me bipartida,

se eu mesma falo e escuto a minha voz.

 

Na minha eterna e ardente introversão,

de tanto argumentar com a solidão,

eu vivo sempre dialogando... a sós.

 

(Do livro "CONVERSA CALADA", página 7)

A VERDADEIRA RIQUEZA - JOSÉ FELDMAN

 




 A VERDADEIRA RIQUEZA


José Feldman

  

"Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus atentos amigos. Sentem-se mais perto, pois o segredo que vou lhes contar agora é como o almíscar: quanto mais se espalha, mais doce se torna o ambiente. Eu sou Mustafá, o peregrino, e hoje as estrelas nos guiam até o Cairo, onde as areias guardam lições que o ouro não pode comprar.

 

— "Bismillah" (Em nome de Deus), abramos o cofre do conhecimento.

 

Havia um jovem chamado Karim que, ao ficar órfão, recebeu de seu pai uma herança incomum: uma pequena bolsa de couro contendo apenas três moedas de cobre e um pergaminho que dizia: 

 

— "Estas são as moedas da sabedoria. Use-as quando o caminho escurecer e a dúvida for sua única companheira."

 

Karim, decepcionado, pois esperava joias ou propriedades, partiu para a grande cidade para tentar a sorte. 

 

No caminho, encontrou um ancião sentado à beira de uma estrada empoeirada. 

 

— "Ya Waladi" (meu filho), disse o velho, "estou com fome e não tenho nada além de conselhos para vender."

 

Karim, movido por compaixão, entregou a primeira moeda de cobre. O velho sorriu e disse: 

 

— "Nunca tome uma decisão importante enquanto a raiva governar seu sangue." 

 

Karim guardou a frase e seguiu.

 

Mais adiante, em um mercado movimentado, ele viu um homem errante sendo injustiçado. Ele entregou a segunda moeda a este homem, um sábio errante que fora confundido com um ladrão. 

 

O sábio lhe disse: 

 

— "A verdade dita no momento certo vale mais que mil orações em silêncio."

 

Por fim, ao chegar às portas de um palácio onde se buscava um novo conselheiro para o Vizir, Karim encontrou um mendigo cego. 

 

— "Inshallah" (Se Deus quiser), disse o mendigo, "você encontrará o que busca se ouvir o que o coração dita e não o que o ego grita." 

 

Karim deu sua última moeda e o mendigo sussurrou: 

 

— "A verdadeira riqueza é o que você dá, pois é a única coisa que levará para o túmulo."

 

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), pensou Karim, sentindo-se estranhamente leve. Ao entrar no palácio, ele não tentou impressionar o Vizir com títulos ou mentiras. Quando o Vizir perguntou o que ele trazia para oferecer ao reino, Karim contou as três lições.

 

O Vizir, cansado de bajuladores que só queriam ouro, viu em Karim a clareza de um oásis. 

 

— "Shukran", disse o governante, "você não trouxe moedas de metal, mas moedas que nunca perdem o valor." 

 

Karim tornou-se o conselheiro mais respeitado da região, provando que a herança de seu pai era, de fato, a maior de todas as fortunas.

 

Que a sabedoria seja sempre a


vossa moeda de troca mais


valiosa. “Assalaam'aleikum” (Que


a paz de Deus esteja 


com vocês).






(Fonte: "ECOS DO DESERTO", 



DE JOSÉ FELDMAN)  

 


sexta-feira, 19 de junho de 2026

HAICAIS DO FILEMON

 




HAICAIS DO FILEMON



Não desejo a glória
que o poder acena e traz,
porque sou poeta.


A tarde gostosa
traz a carícia da brisa,
e beijos também.


Choveu no Sertão
e enquanto a Natura chora,
o povo sorri.


A tarde desmaia
e a noite estende seus braços
colorindo o céu.


Nesta tarde quente
nuvens negras, ventos fortes,
é temporal certo.


HAICAIS DO FILEMON

 




HAICAIS DO FILEMON


A lua me acena


em noite de inspiração

com luz e poesia.



A brisa que passa

acaricia o meu rosto

e lembra você.



A noite de estrelas

traz luz e felicidade

aos olhos humanos.


Lua cheia, brilhante

a bailar na imensidão

é graça e magia.


Há cheiro de chuva

e o Sertão está molhado,

- sinal de fartura!




CARLOS RIBEIRO ROCHA E SUA POESIA - FILEMON MARTINS

 





CARLOS RIBEIRO ROCHA

E SUA POESIA


Filemon Martins *



Um dos mais notáveis poetas do Brasil. Nascido na cidade de Ipupiara, Bahia, próximo à Chapada Diamantina, Carlos Ribeiro Rocha é no dizer do sociólogo e crítico literário, Mário Ribeiro Martins, “o poeta da natureza, para quem a oportunidade não sorriu, mas cuja poesia é um sorriso eterno.”

Autodidata, o poeta baiano, com o apoio da comunidade, fundou em Santo Inácio, o Ginásio Diamantino (CNEC), do qual foi professor de Português durante dois anos seguidos. No início de sua carreira também fora professor municipal e particular em Ibitunane, Ibipeba e Ipupiara.

Por concurso público, tornou-se Coletor Federal, tendo residido em Santo Inácio, Xique-Xique, Itamaraju e Salvador, mas foi no interior da Bahia, onde teceu a maioria dos seus versos.

Cronista, sonetista e trovador fluente, aprendeu com a natureza e com os livros, sem frequentar, contudo, as salas de um Colégio, como ele mesmo afirma em suas trovas:

“Colégio sem endereço/é o que me fez bacharel.../Nas trovas que sempre teço/é que brilha o meu anel.” “Sem Colégio, encontro tudo/ no livro da Natureza, / e como não tive estudo, / sou ave no visgo presa.” “O nome do meu Colégio? /Ninguém suas letras soma:/Nunca tive o privilégio/de receber um diploma.”

Carlos Ribeiro Rocha escreve com o coração, porque sua lavra poética é uma fonte inesgotável que continua jorrando tanto no soneto, quanto no trovismo. O poeta, pesquisador, cronista e trovador já editou alguns livros, entre outros: “HARPA SERTANEJA”, “PINGOS DE MIM”, “MEDITAÇÕES, LIÇÕES”, “CAFÉ REQUENTADO”, “28 SONS” e “COROA DE SONETOS”. Mas possui diversos livros inéditos, contendo poemas, crônicas, sonetos e trovas.

Humberto Del Maestro, poeta e intelectual do Espírito Santo, prefaciando “MEDITAÇÕES, LIÇÕES”, afirma: “ o vate e trovador das terras de Rui Barbosa e Castro Alves foi além das expectativas, criando instantes maravilhosos, mágicos não apenas em versos com linguagem clássica, ritmados, quando deu asas à sua inspiração elástica e farta, mas construindo momentos de grande profundidade, na poesia livre.”

Já o professor e escritor Osmar Barbosa, do Colégio Estadual de Nova Friburgo, RJ, diz: “Vê-se que você é inspirado poeta, pois, quem talha sonetos como “Cigarras e Formigas”, “Velha Mangueira”, “Borboletas” etc., tem a poesia na alma, a arte nas veias.”
O poeta não se prendeu a formas e a nenhuma corrente literária, por isso sua poesia é gostosa de ser lida, é harmônica e livre, como ele mesmo diz:

“Não sou parnasiano, não pertenço/a escola alguma da arte modernista, /porquanto escrevo como sinto e penso... Se anel não tenho, mesmo de ametista, / nas maravilhas desse livro imenso/ hei de encontrar a glória da conquista.”

Sensível aos problemas brasileiros, especialmente do trabalhador simples e desvalido do Nordeste, empunha sua pena e diz: “Pega da enxada – seu fuzil sagrado, e as ervas más fulmina do roçado, cantando sempre a chula da vitória. Eu te amo, lavrador abandonado... Se não podes por mim ser amparado, quero, ao menos, contar a tua história!”

Não esqueceu, porém, das crianças abandonadas: “Cheirando cola, sem comida, sem escola, sem um barraco ao menos como lar, dá pena ver meninos a cumprir duros destinos, só aprendendo a roubar!... Faz vergonha aos Presidentes ver meninos nas vielas, com as bocas cheias de dentes e sem nada nas panelas...”

Com um toque de mestre, ele fala dos garimpeiros: “Ousado e firme, o garimpeiro busca,/no seio virginal do solo amado,/ a gema rara, que deslumbra e ofusca,/apagando as agruras do passado... Aquela joia pondo sobre a palma, /o altivo garimpeiro sente na alma/a brisa da ventura, tão serena! Também o bardo, com valor e calma, / um verso vai buscar no fundo da alma, /coberto ainda de saudade e pena!”

Em correspondência ao autor destas linhas, o poeta numa deferência que me honra, encaminha alguns trabalhos abrangendo temas políticos, filosóficos, sociológicos etc. Eis alguns exemplos: “Político sabichão promete a cada eleitor, a casa, saúde e pão, qual um “santo” protetor.” “Se o povo cai na conversa, vai eleito, faz a festa, e aí a coisa é diversa, não realiza o que presta.”
Em OBSERVAÇÕES, CONCLUSÕES, escreveu: “Olhando nossas matas e cerrados, nossas caatingas, descubro, vejo florescências de Poder, cachos de Sabedoria... E assim, este humilde sertanejo vai tecendo a poesia e confessando que Deus está criando noite e dia. Levantando mais os olhos, vejo estrelas lá no Espaço, que aos olhos causam cansaço, mas, trazem reflexões e conclusões acertadas. Com razão e sapiência afirmou o Cristo: - “ Na casa de meu pai há muitas moradas” – e, pouca gente consegue entender isto!”

Seus sonetos são belos e perfeitos, à moda de Olavo Bilac e entre outros, transcrevo AMAR SEMPRE, belíssimo soneto que o poeta teceu a partir de uma trova minha: “No mundo do desamor ao poeta, nada importa, se na saudade e na dor, a inspiração o conforta.”

Eis o soneto:

“No mundo de sequestros, males, dores, / da humanidade foge o sentimento/maior de fraternismo, e só horrores/a criar o ambiente mais nojento! Confrade amigo, no lugar que fores, / semeia, sem mostrar constrangimento, / o amor que faz brotar somente flores, / que a todos leva só contentamento. Amar sempre, o Evangelho assim exorta, / porque do bem o amor é larga porta/a nos mostrar futuro promissor. O mundo de egoísmo e desamor, /ao poeta, em verdade, nada importa, /porque a inspiração é que o conforta.”

Muito mais se poderia dizer da poesia de Carlos Ribeiro Rocha, que, não obstante ter participado do Anuário de Poetas do Brasil, Rio de Janeiro, organizado pelo saudoso APARÍCIO FERNANDES, em 1978, volume 1, página 105 e 1979, volume 4, página 63, infelizmente só é conhecido na Bahia e nos meios alternativos, onde goza de prestígio e do merecido respeito, mas seu nome consta no DICIONÁRIO BIO BIBLIOGRÁFICO REGIONAL DO BRASIL, do escritor Mário Ribeiro Martins, no site usinadeletras.com.br em ENSAIOS ou no www.mariomartins.com.br.

Sua poesia, seu trabalho e seu nome, com certeza, estarão incrustados no panorama da Literatura Brasileira.

 

* DA CONFRARIA BRASILEIRA DE         LETRAS


A FORÇA DO AMOR - JOSÉ FELDMAN

 




A FORÇA DO AMOR

José Feldman

 

 

"Salam’Aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus perseverantes amigos. As estrelas já caminham para o repouso, mas antes que a luz do sol apague as nossas lanternas, eu, Mustafá, o peregrino, lhes darei este presente: uma história onde o amor provou ser a magia mais poderosa que existe sobre a face da terra. "Bismillah" (Em nome de Deus), deixem que o voo desta narrativa comece. Em um reino entre as dunas e o mar, um jovem Príncipe chamado Khalid casou-se com a bela Amira. "Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), dizia o povo, pois nunca se viu par tão perfeito. No entanto, o que ninguém sabia era que uma bruxa invejosa, despeitada por não ter sido convidada para o banquete de noivado, lançara sobre a jovem um feitiço cruel. Na noite de núpcias, quando a lua subiu ao zênite, Amira sentiu seus ossos tornarem-se leves e seus braços cobrirem-se de penas. Antes que Khalid entrasse no quarto, ela transformou-se em um falcão real e partiu pela janela, ganhando o céu noturno. Noite após noite, o Príncipe entrava no leito e encontrava apenas o vazio e uma única pena dourada sobre o travesseiro. — "Ya Allah" (Ó Deus), clamava ele, "onde se esconde a minha amada quando as sombras caem?". O desespero começou a consumir sua alma, e muitos diziam que o Príncipe estava perdendo o juízo, pois ele passava as noites em claro, vigiando as torres do castelo. Certa madrugada, Khalid fingiu dormir. Sob a luz pálida de uma lamparina de azeite, ele viu o indizível: a sua doce Amira, com os olhos cheios de lágrimas, contorcer-se enquanto o encanto a transformava em ave. Num bater de asas frenético, o falcão pousou no parapeito da janela, pronto para ganhar a escuridão. Num ímpeto, Khalid correu e, em vez de tentar capturá-la ou feri-la, caiu de joelhos diante da ave. — "Ya Habibi" (Meu amor), exclamou ele com a voz embargada, "não fuja mais de mim! Não importa se tens pele de seda ou penas de rapina, se tens voz de mulher ou o grito dos céus. O que eu amo habita no teu coração, e ele é minha morada. Se fores humana, serei teu marido; se fores falcão, serei teu ninho e teu céu. Tu moras em mim, para além de qualquer forma!" Ao ouvir essas palavras de entrega total, o impossível aconteceu. O amor puro de Khalid agiu como um fogo que consumiu a maldição. Uma luz ofuscante preencheu o quarto e, onde antes estava o falcão, surgiu Amira, chorando de alegria, agora humana para sempre. — "Shukran" (Obrigado), sussurrou ela, "pois só um amor que aceita o impossível poderia quebrar o que a maldade teceu". "Maktub" (Está escrito): a verdadeira beleza não está no que os olhos veem, mas no que o coração reconhece. — “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês), meus caros. Que vossos amores sejam tão fortes quanto o voo de um falcão e tão firmes quanto as pedras de Bagdá.



(FONTE: ECOS DO DESERTO, JOSÉ FELDMAN)


A CAMINHADA - FILEMON MARTINS

 





A CAMINHADA

Filemon Martins

 

Recordo, com prazer, a caminhada

e amigos que ganhei estrada afora.

Quantas vezes fiquei na encruzilhada

tentando achar a luz de nova aurora.

 

Passei manhãs ao som da passarada,

cavando a terra e pondo sem demora

a semente na terra abençoada,

enquanto a enxada tine a voz sonora.

 

Depois, parti. Tornei-me um peregrino

e a saudade marcou o meu destino

deixando-me profunda cicatriz...

 

Hoje, não deixo mágoas nem gemidos,

apenas flores  -  versos coloridos,

e a sensação de ser muito feliz!

 


quinta-feira, 18 de junho de 2026

A PROCURA DA FELICIDADE - JOSÉ FELDMAN

 




A PROCURA DA FELICIDADE

José Feldman

  

"Salaam’Aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus diletos ouvintes. Vejo que a chama da curiosidade ainda brilha em vossos olhos! Pois bem, ajustem seus turbantes e prestem atenção, pois esta história é um bálsamo para as almas inquietas. Eu sou Mustafá, o peregrino, e lhes contarei sobre o Sultão que possuía tudo, menos o que realmente importa.

 "Bismillah" (Em nome de Deus), entremos no palácio da reflexão.

 Havia outrora, na magnífica cidade de Damasco, um Sultão chamado Harun, cujas riquezas eram tão vastas que seus tesoureiros perdiam o fôlego apenas tentando contá-las. Seus jardins tinham fontes de água de rosas e suas mesas transbordavam com as iguarias mais raras de "AlMashriq" (O Oriente). No entanto, Harun vivia com o semblante fechado. Nada lhe dava prazer. 

 — "Ya Allah" (Ó Deus), suspirava ele, "tenho o mundo aos meus pés e, ainda assim, meu coração é um deserto seco."

 Sentindo-se definhar, o Sultão convocou os sábios mais renomados. Após muitos debates, um velho "Hakim" (Médico/Sábio) aproximou-se e disse: 

 — "Majestade, o vosso mal tem cura. Deveis encontrar um homem verdadeiramente feliz, pedir-lhe a camisa e vesti-la por uma noite. A felicidade dele passará para vós através do tecido."

 O Sultão, esperançoso, enviou seus mensageiros por todos os cantos. 

 "Shukran" (Obrigado), diziam eles ao interrogar os mercadores ricos, mas estes reclamavam dos impostos. Procuraram os generais vitoriosos, mas estes temiam as conspirações. Procuraram os poetas famosos, mas estes sofriam por amores não correspondidos. Ninguém era plenamente feliz.

 Certo dia, um dos mensageiros passava por uma colina árida quando ouviu uma risada cristalina e uma canção de louvor que subia aos céus. Era um humilde pastor de cabras, sentado à sombra de uma tamareira.

 — "Sabah al-Khair" (Bom dia), saudou o mensageiro. "Diga-me, bom homem, você é feliz?"

 O pastor sorriu, e sua alegria era como o sol do meio-dia. 

 — "Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), respondeu ele. "Tenho o ar para respirar, o leite das minhas cabras e a paz de quem nada deve a ninguém.

Sou o homem mais feliz que caminha sobre a areia!"

 O mensageiro, exultante, gritou: 

 — "Rápido! O Sultão precisa da sua camisa! Daremos a você uma bolsa de ouro em troca!"

 O pastor começou a rir ainda mais alto, uma risada que ecoava pelas rochas. Ele abriu seu manto surrado e, para o espanto do mensageiro, por baixo dele não havia nada. O homem mais feliz do reino era tão pobre que sequer possuía uma camisa.

 Ao receber a notícia, o Sultão Harun finalmente compreendeu. A felicidade não era algo que se pudesse vestir ou comprar; ela não estava nas sedas, mas na ausência de desejos desnecessários. 

 Ele distribuiu parte de sua riqueza aos necessitados e, pela primeira vez em anos, sorriu de verdade.

 "Inshallah" (Se Deus quiser), todos nós entenderemos que a camisa da felicidade é feita de gratidão, não de fios de ouro. Obrigado por me acompanharem em mais esta jornada. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).




(DE JOSÉ FELDMAN, "ECOS DO DESERTO" HISTÓRIAS DO ORIENTE ANTIGO)


A CHUVA - JOAQUIM RODRIGUES DE NOVAIS

 




 

A CHUVA

Joaquim Rodrigues de Novais

 

A chuva é o maná do Sertão,

o sertanejo sempre ora para que a chuva não demore.

Pede a Deus sua benção.

Com fé e oração,

com suas mãos calejadas da dureza da enxada

que arrasta nesse chão.

Que Deus abençoe esse povo,

não só os do nosso Sertão,

mas todos aqueles que produzem

para alimentar essa grande Nação.


 

SOBRE O AUTOR:

 

JOAQUIM RODRIGUES DE NOVAIS nasceu em 11/04/52, no município de Ipupiara, Bahia.  Filho de Marcionilia Pereira de Novais e Manuel Pereira de Novais. Em 1971 transferiu-se para São Paulo, onde trabalhou em algumas empresas, entre as quais, Auto Ônibus Alto do Pari, Metalúrgica Silvone, por duas vezes, situada na rua Curuçá, Vila Maria. Trabalhou também na Blindex, Parque Novo Mundo, quando conheceu sua futura esposa, Cleide Oliveira de Novais, nascida em 26/04/1959, no bairro da Penha, em São Paulo. Casaram-se em 26/11/77, no cartório de Tucuruvi, São Paulo. Moradores da rua Padre Sabóia de Medeiros, nº 1467, bairro Vista Alegre, SP. Em 1981 resolveram voltar à Ipupiara, a fim de comprar roça e terrenos nos quais foi criado trabalhando com sua mãe, dona Marcionilia Pereira de Novais e os avós. Hoje, são pais de 7 filhos e 13 netos.

Outra vez, voltaram para São Paulo em 1985, tendo trabalhado na Indústria de Papel e Papelão, São Roberto S.A. na Vila Maria Baixa.  Vieram para ficar em Ipupiara, definitivamente em 1990. Foi agricultor por muitos anos, hoje está aposentado, mas continua trabalhando na lavoura. Gosta de ler e escrever poemas nas horas vagas. Fez curso no INSTITUTO DE CORRESPONDÊNCIA INTERNACIONAL, em1985, sobre PONTOS SALIENTES DA VIDA DE CRISTO. Frequentou o COLÉGIO DEMOCRÁTICO ESTADUAL CASTRO ALVES, no Ensino Médio, em Ipupiara, Bahia. Fez também cursos na área da computação, como Digitação, IPD, Windows, Introdução à Internet, entre outros, ministrados pelo PRONAC0 – Programa Nacional de Computação, em 2008.

Ecologista, agricultor, defensor da natureza, aprecia paisagens, pássaros, flores e escreve versos nas horas vagas.

Administra o Blog Poético do Joaquim Novais, na Internet e é colaborador do Blog Literário do Filemon.