Encontro
com o Mercador de Sombras
Saiba, ó Rei dos Tempos que meus
pés já beijaram as areias de Mogadíscio e minhas mãos já tocaram as sedas de
Samarcanda.
Mas escute bem, pois de todos os
homens que conheci sob a cúpula do céu, nenhum possui o nome tão gravado nas
estrelas quanto Aldhiyb AlAbyad, o Lobo Branco.
— "E quem é este
homem?", perguntareis vós.
Ele nasceu em um vilarejo de
pedras brancas no sopé das montanhas de Hadramaut, onde o ar cheira a incenso e
as cabras saltam entre abismos. Aldhiyb não tinha o sangue dos califas, mas
dizia-se que sua mãe, ao dar à luz sob um eclipse lunar, viu um lobo de pelos
níveos uivando para o mar, embora o oceano estivesse a muitas jornadas de
distância.
Aldhiyb viveu sua juventude como
um pastor de ovelhas, um homem do deserto que lia o destino no voo dos falcões.
Ele era de poucas falas, mas de olhos que pareciam guardar o reflexo de
espelhos distantes. Sua vida era o silêncio das dunas, até que a Grande Seca
devorou os pastos e transformou o gado em ossos ao sol.
Sem nada além de uma túnica gasta
e a coragem dos desesperados, ele caminhou até o porto de Aden. Lá, diante da
imensidão azul que ele nunca imaginara existir, Aldhiyb não sentiu medo. Ele
viu os navios balançando como berços e percebeu que as ondas eram apenas dunas
que se moviam.
Ele foi parar no mar por um lance
de dados do destino: ao tentar salvar um marinheiro bêbado de uma briga de
taverna, acabou sendo levado para bordo do Vento do Amanhã como remador de
última hora. Foi nas galés, entre o suor e o sal, que o pastor das montanhas
tornou-se o senhor das águas. Ele não navegava para fugir da terra, mas para
encontrar o que o deserto lhe havia prometido em sonhos: o mistério que existe
além do horizonte.
Assim começou, ó Rei, a lenda do
Lobo Branco, que trocou o cajado pelo leme e as ovelhas pelas ondas.
Saiba, ó Rei, que o mercado de
Bagdá é o umbigo do mundo, onde o ouro de Gana encontra a seda da China e onde
se vende de tudo, até o que não se pode tocar. Foi ali, entre o aroma de
açafrão e o grito dos camelos, que Aldhiyb Al-Abyad viveu seu encontro mais
sombrio antes de se tornar o senhor dos mares.
Mustafá, o contador, limpou a
garganta e prosseguiu:
Enquanto Aldhiyb ainda era um
jovem marinheiro buscando carga para seu primeiro navio, ele avistou, em um
beco onde a luz do sol parecia ter medo de entrar, uma loja sem teto nem
paredes. Ali, sentado sobre um tapete de fios negros, estava Malik Al-Zill, o
Mercador de Sombras. À sua frente, frascos de ônix guardavam silhuetas que se
contorciam.
— "Aproxime-se, Al-Abiyad,"
sibilou Malik. "Vejo que tens um corpo forte, mas uma alma pesada. O que
buscas? Riqueza? Poder? Ou queres te livrar do que te atrasa?"
Aldhiyb, curioso e ainda não
escolado nas armadilhas dos gênios e feiticeiros, perguntou o preço de uma
sombra que parecia a de um rei.
— "Não vendo sombras de
outros," respondeu o Mercador. "Eu compro a tua. Dá-me a tua sombra
e, em troca, dar-te-ei o Vento de Popa. Nunca mais teu navio ficará parado em
calmaria, e chegarás sempre antes de qualquer rival."
O jovem Aldhiyb olhou para o
chão. Sua sombra era longa e fiel. Malik explicou que um homem sem sombra não
sente medo, não sente remorso e não deixa rastros para os inimigos.
Parecia o negócio perfeito para
um marinheiro ambicioso.
Mas, ao estender a mão para selar
o pacto, Aldhiyb percebeu algo terrível: nos frascos de Malik, as sombras não
estavam quietas; elas gritavam em silêncio. Elas eram as memórias e a
humanidade daqueles que as venderam.
Um homem sem sombra é um homem
que não projeta nada no mundo; ele é um buraco vazio que caminha.
— "Guarda o teu vento,
mercador," disse Aldhiyb, recolhendo a mão. "Prefiro lutar contra a
calmaria com meus próprios remos do que navegar rápido sendo apenas metade de
um homem. Minha sombra pode ser escura, mas é ela que prova que eu estou sob a
luz de Allah."
Furioso por perder a alma do
marinheiro, Malik Al-Zill tentou roubar a sombra à força, lançando uma rede de
trevas. Mas Aldhiyb, com a agilidade que aprendera com as cabras nas montanhas,
saltou para onde o sol do meio-dia batia mais forte. A luz intensa do deserto
queimou as mãos de fumaça do Mercador, que desapareceu em um redemoinho de
poeira preta.
Dizem, que desde aquele dia, a
sombra de Aldhiyb tornou-se mais nítida e escura que a de qualquer outro homem,
e que foi esse peso que lhe deu a estabilidade para nunca virar seu navio nas
tempestades que viriam.
(FONTE: "ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN)