BLOG LITERÁRIO DO FILEMON
sexta-feira, 3 de julho de 2026
TROVAS DE MARIA THEREZA CAVALHEIRO
TROVAS DE J. G. DE ARAÚJO JORGE
(Livro "TREVOS DE QUATRO VERSOS, - TROVAS", 1964)
TROVAS DO JERRY FILHO
TROVAS BRASILEIRAS
Lucília Decarli
A CIDADE DOS SONHOS - JOSÉ FELDMAN
A
Cidade dos Sonhos
"Salam’aleikum" (que a
paz esteja convosco), meus incansáveis ouvintes. Aproximem-se, pois o que vou
lhes contar agora exige que seus corações estejam abertos como as pétalas de um
jasmim noturno. Eu, Mustafá, caminhei por areias que não guardam pegadas e vi
cidades que os mapas dos homens, por puro medo, decidiram omitir.
"Bismillah" (Em nome de
Deus), entremos nos domínios do invisível.
Diz a lenda que, no coração do
deserto de Rub' al-Khali, existe uma cidade chamada Madinat al-Ahlam (a Cidade
dos Sonhos). Ela não é feita de pedra e cal, mas de luz e memória. Dizem que
suas torres são de marfim e suas cúpulas brilham como se o próprio sol tivesse
decidido descansar nelas.
Muitos viajantes tentaram
encontrá-la. Alguns voltaram loucos, outros nunca mais foram vistos. Mas houve
um jovem, um pastor de camelos chamado Yusuf, que certa noite, sob o brilho de
uma lua de prata, avistou os portões da cidade.
"Ya Allah" (Ó Deus),
exclamou ele ao atravessar as portas.
Dentro da cidade, não havia
comércio, nem moedas, nem gritos. As pessoas caminhavam em paz, e as fontes
jorravam uma água que curava toda a tristeza. Ali, o tempo não era um carrasco,
mas um amigo. Yusuf sentiu-se em casa como nunca antes.
"Ahlan wa Sahlan"
(Bem-vindo), disseram-lhe os habitantes, cujas vozes pareciam o som do vento
nas palmeiras.
Porém, havia uma regra: ninguém
poderia levar nada da cidade, nem mesmo uma pedra do chão. Quando o primeiro
raio de sol tocou o horizonte, "Alhamdulillah" (Louvado seja Deus),
Yusuf sentiu o chão tremer. A cidade começou a desvanecer como a névoa matinal.
Ele tentou agarrar um punhado de areia dourada de um jardim, mas quando abriu a
mão, só havia poeira comum.
A cidade desaparecia ao amanhecer
porque ela não pertencia ao mundo das posses, mas ao mundo das intenções.
"Maktub" (está escrito): ela só se revela para quem não busca o
lucro, mas o propósito.
Yusuf passou o resto de seus dias
contando o que viu, e embora muitos rissem, seus olhos mantinham o brilho de
quem conheceu a eternidade em uma única noite.
A lição, meus caros, é que as
coisas mais belas da vida são aquelas que não podemos guardar no bolso, apenas
na alma.
Obrigado por compartilharem este silêncio
comigo. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de
Deus esteja com vocês).
(FONTE: "ECOS DO DESERTO", ORG. JOSÉ
FELDMAN)
quinta-feira, 2 de julho de 2026
TROVAS DO FILEMON
TROVAS DO FILEMON
Quanta gente não percebe
e a vida acaba em transtorno:
O que se faz se recebe,
é a sábia Lei do retorno.
¨Não há vaga¨. Está escrito
naquele grande portão.
E o trabalhador, aflito,
não tem arroz nem feijão.
Ao ver as marcas no rosto
pelo espelho me ocorreu:
- São troféus e não desgosto
que esta jornada me deu.
Quanto sucesso almejado
para chegar no apogeu.
Hoje triste e desprezado
percebe que não viveu.
Nada valeu as manobras
que fez com grande escarcéu.
Sem fé não há boas obras
que o leve perto do céu.
CRESTOMATIA DE TROVAS Nº 04, ORG. DE JOSÉ FELDMAN
CRESTOMATIA
DE TROVAS Nº 04-JULHO 2026, ORG. DE JOSÉ FELDMAN
Era
um guri tão terror,
que
a escola inteira o temia.
Cresceu...
virou professor...
paga
com juro hoje em dia!
A. A.
De Assis Maringá/PR
Perco a calma se
demoras...
Mas chegas e, ao te
abraçar,
quisera reter as
horas...
fazer o tempo parar...
Abigail De Araújo Lima
Rizzini Nova Friburgo/RJ
Num dos rodeios da vida
conquistei o meu
espaço...
Não pela prova vencida,
mas por vencer meu
fracasso!
Abílio Kac Rio de
Janeiro/RJ
Quem seu ciúme proclama,
fazendo questão de
expô-lo,
insulta aquela a quem
ama,
e ainda faz papel de
tolo…
Adalberto Dutra Resende
Bandeirantes/PR (1913 – 1999)
Num mundo congestionado,
em qualquer parte da
terra,
o lema está consagrado:
"Se queres paz, vai
à guerra".
Adamo Pasquarelli São
José dos Campos/SP
Nossa história inacabada
acabou sem começar…
é uma página virada
que eu tento em vão
resgatar.
Alba Christina Campos
Netto São Paulo/SP
SALVE, A BAHIA! - JOAQUIM RODRIGUES DE NOVAIS
SALVE, A BAHIA!
Joaquim Rodrigues de
Novais
Bahia maravilhosa, Terra
de Vera Cruz
e das mulheres
corajosas que se vestiam
como homens com muito amor para
defender nossa terra,
Bahia de São Salvador.
Bahia do apetitoso acarajé,
aqui colhe quem
planta com fé,
hoje eu te saúdo com
alegria
minha linda e
abençoada Bahia.
Obrigado a esse povo valente,
povo gentil e forte que
defendeu
com unhas e
dentes não só a Bahia,
mas também o nosso imenso
Brasil.
Ipupiara, 02 de
julho de 2026
quarta-feira, 1 de julho de 2026
A EXECUÇÃO DE CARLOS LAMARCA EM IPUPIARA - ARIDES LEITE SANTOS
A EXECUÇÃO DE CARLOS
LAMARCA EM IPUPIARA
Arides Leite Santos
Agosto de 1971. Aos 6
anos e 7 meses de idade, Euzim havia saído de casa na Rua Rui Barbosa, levando
de comer para a casa de seus avós, na Rua das Fruteiras, perto do cemitério.
Uma calmaria insossa anunciava o que seria mais um daqueles dias monótonos, longos,
de sol escaldante, como sói acontecer no semiárido do sertão; um dia como outro
qualquer. No meio do caminho, nas proximidades do prédio da Escola Batista Ruth
Isabel de Souza, subitamente, deparou com um comboio de caminhões, abarrotados
de homens sentados, sob uma cobertura de lona, cantando sabe-se lá o quê, em
vozes altissonantes, esbanjando sorriso nos rostos, armados com faca pendurada
de lado e fuzil ou metralhadora exibido com as mãos, ostentando uma
demonstração de poder e força capaz de meter medo até em cabra valente. A
súbita visão da carruagem de homens sorridentes, viçosos, lisos, brilhando de
gordos, em contraste com a imagem de rostos murchos e tristonhos, gravada em
sua tenra memória, deixou-o tão assombrado que a válvula do seu infante coração
só não explodiu, ele crê, pela misericórdia de Deus. E-agora-José? Dominado
pelo medo, sem ânimo para sequer pensar sobre um possível motivo do
aparecimento daquilo que seus olhos viam, levou às pernas uma força oriunda do
instinto de sobrevivência, voltou disparado para casa, o coração saindo pela
boca. Tendo conseguido adentrar o asilo inviolável, jogou o de comer pra lá e
foi se enfiar no lugar mais recôndito que havia em casa. A mãe o viu chegar
correndo. Assustada com aquele avexame de menino assombrado em plena luz do
dia, veio perguntando o que houve. Se não lhe tivesse faltado o fôlego, com
certeza ter-lhe-ia dito:
- Mãe, o que é eu não
sei não, mas deve ser o fim do mundo! Ela ainda estava sem saber de nada, até
ali ninguém sabia de nada. E assustada ficou a perguntar:
- O que é?!... O que
é?! Ai, ai, ai!!!... O que foi que “tu viu”, menino?!
Sem fôlego para
balbuciar sequer uma palavra, esbaforido, enfiou-se debaixo de uma cama de
ferro, através de uma frincha pela qual mal passava a cabeça, e ali permaneceu
recluso, contemporizando o monstruoso sentimento que abalara os fundamentos de
sua alma.
Um exército de homens
incursionou em Ipupiara à procura do homem mais procurado do Brasil. Em questão
de dias, conquistaram a simpatia do povo, cortando o cabelo de graça,
instalando postes para iluminar a cidade com gerador e motor a diesel, muitas
outras bondades fizeram no intuito de lograr êxito na árdua tarefa que teriam
doravante: convencer os autóctones da justiça da causa ignóbil que os levava a
armar suas tendas ali.
No Morro do Cruzeiro e
adjacências, homens do Exército Brasileiro gastaram munição de metralhadora,
treinando tiro ao alvo na selva. Sua passagem por lá deixou vestígios que
subsistiram durante décadas.
Euzim e outros “eus”
viviam brincando de colecionar cápsulas de projéteis de metralhadora que os
caçadores de Lamarca haviam disparado nos morros que circundam Ipupiara.
As garrafinhas
metálicas despertavam-lhes o desejo de encontrá-las porque tinham algo de
mágico que lhes dava prazer. Meninos sem rédeas paternas, Euzim e amigos saíam
em bandos, embrenhavam-se nos morros e, uma vez imersos na mata, concentravam
todos os sentidos no labor à cata delas. Seus gozo e divertimento, hauridos da
propriedade delas, provinham do simples ato de possuí-las e fazê-las brilhar. Captado
por olhares infantes, o brilho mágico das garrafinhas era obra produzida com o
esfregar das mãos impregnadas de pó de barita, brilho extraído com esforço
infantil, a coisa parecia ganhar vida, a meninada se encantava. Em seu mundo de
criança sertaneja, viviam inocentes sobre o para quê tinham sido fabricadas. O
utensílio que seus olhos viam não chegava à consciência como símbolo de uma
sociedade que gera morte violenta, não senhor! Aquilo era só uma garrafinha joia
de brincar!
Carlos Lamarca nasceu
em 27/10/1937 no Estácio, norte do Rio de Janeiro, filho de Gertrudes e de
Antônio Lamarca. Abandonou o posto de oficial do Exército Brasileiro e partiu
para a luta armada contra o governo da ditadura militar.
29 de junho de 1971,
Lamarca chega em Buriti Cristalino, lugarejo entranhado nas serras de Brotas de
Macaúbas. Recolhe-se num acampamento secreto, guardado por José Carlos de
Souza, Luís Antônio Santa Bárbara e José Campos Barreto (Zequinha), militantes
do Movimento Revolucionário Oito de Outubro – MR-8.
Zequinha nasceu no
Buriti Cristalino, filho de José Araújo Barreto e Adelaide Campos Barreto.
Do acampamento
secreto, a menos de dois quilômetros do Buriti, Lamarca e Zequinha ouvem ruídos
de tiroteio e se embrenham pelas serras adentro. Andam dias e noites pela
caatinga. No dia 12 de setembro de 1971, alcançam Ibotirama, na beira do Rio
São Francisco. Lamarca precisa de socorro médico, mas não consegue, e o cerco
se fecha. Decidem voltar na direção de Brotas, em precisão de médico.
17 de setembro de 1971.
Extenuados de tanto correr pelas matas do sertão, fugindo dos “lobos” em forma
de homens que saíram no seu encalço, Lamarca e Zequinha folguejavam moribundos
à sombra de uma baraúna, próximo ao povoado de Pintada, município de Ipupiara,
e ali seus algozes os executaram.
“Eu vi tudo isso
quando pensei nas coisas que acontecem neste mundo. Houve um tempo em que
alguns tinham o poder, e outros sofriam, dominados por eles”. Eclesiastes 8.9
(Bíblia NTLH).
Brasília-DF, 12 de novembro de 2017
(FONTE: “ANTOLOGIA DE POESIAS, CONTOS E CRÔNICAS – IMPRESSÕES LITERÁRIAS”,
PÁGINAS 26/28)
terça-feira, 30 de junho de 2026
O ESPELHO DA ALMA - JOSÉ FELDMAN
O ESPELHO DA ALMA
"Salaam’aleikum" (Que a
paz esteja convosco), meus caros amigos. Vejo que a luz das lamparinas reflete
em vossos olhos uma sede de verdade. Eu, Mustafá, o peregrino, já vi muitos
rostos se esconderem atrás de máscaras de seda e sorrisos de mel, mas a
história que lhes conto agora fala de um objeto que não aceita disfarces.
Havia em Isfahan um joalheiro tão
habilidoso que diziam ser capaz de lapidar o brilho das estrelas. Ele criou uma
peça única: o "mir'at al-qalb" (espelho do coração). Não era feito de
prata ou vidro comum, mas de uma liga de metais colhidos de meteoritos que
caíram no deserto.
A fama do objeto chegou aos
ouvidos do Grão-Vizir, um homem poderoso e temido, que suspeitava de todos ao
seu redor.
— "Ya Rabb" (Ó Senhor),
dizia ele, "estou cercado de traidores que me elogiam enquanto afiam suas
adagas".
Ele comprou o espelho e o colocou
no salão principal de seu palácio.
O enigma era simples, mas
terrível: quando um homem olhava para o espelho, ele não via seus traços
físicos — sua barba bem cuidada ou seu turbante luxuoso. O espelho refletia o
estado de sua alma. Se o homem era ganancioso, via um lobo faminto; se era
invejoso, via uma serpente; se era puro, via um jardim em flor.
O Vizir convocou todos os seus
cortesãos. Um a um, eles passaram diante do espelho.
"Alhamdulillah"
(Louvado seja Deus), exclamavam alguns antes de olhar, mas ao verem suas
próprias imagens distorcidas em monstros e sombras, fugiam em pânico, incapazes
de encarar a própria verdade. O palácio, antes cheio de risos falsos, tornou-se
um lugar de silêncio e medo.
Por fim, o próprio Vizir parou
diante do espelho. Ele esperava ver um leão majestoso, mas o que viu foi um
abutre, curvado sobre o poder que não lhe pertencia. Ele percebeu que sua
desconfiança era apenas o reflexo de sua própria desonestidade.
— "Shukran" (obrigado),
sussurrou ele ao artesão, "pois me destes a visão que nenhum conselheiro
ousou me dar".
O Vizir quebrou o espelho em mil
pedaços e distribuiu os cacos. Dizem que, desde aquele dia, cada homem em
Isfahan carrega um pequeno pedaço de metal no bolso para se lembrar de que a
beleza que buscamos no mundo deve primeiro ser cultivada dentro de nós.
"Inshallah" (Se Deus
quiser), todos nós teremos a coragem de olhar para o espelho da alma sem
desviar o olhar. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
(FONTE: "ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN)
O SONHADOR - FILEMON MARTINS
O SONHADOR
Filemon Martins
Tenho sido, na vida, um sonhador
ando pegando o vento com a mão,
enquanto teço um verso sem valor,
só desejo voar na imensidão.
Quisera no Universo inspirador
poder cantar meus versos de paixão,
voltar a terra leve como a flor
exalando o perfume da afeição.
Procuro a nuvem, fujo da razão
quero viver em paz, na multidão,
como se fosse um ser angelical.
E me extasio dentro da verdade,
ao constatar a triste realidade:
um ser humano sou e assim,
mortal!











