(FOTO DE SANDRO, CARRANCA, BAHIA)
(FOTO DE SANDRO, CARRANCA, BAHIA)
À SOMBRA DO LAGO
José Feldman
TROVA DE EDY SOARES
Lembrança doce e singela
enchendo o peito de afago:
eu e meu pai na pinguela
jogando pedras no lago...
Na pequena cidade de Fragatópolis, havia um lago que
parecia ter saído de um conto de fadas. Suas águas eram calmas e refletiam o
céu azul em dias ensolarados, enquanto as árvores em volta dançavam suavemente
ao vento. Era um lugar mágico, onde as crianças corriam livres e as memórias se
formavam como nuvens no céu. Para mim, o lago era mais do que um simples corpo
d’água; era um espaço sagrado, um refúgio de lembranças que guardava momentos
preciosos ao lado do meu pai.
Certa tarde de verão, quando eu ainda era uma criança, meu
pai decidiu que era hora de me levar até a pinguela, uma pequena ponte de
madeira que se estendia sobre o lago. Ele sempre dizia que aquele era o melhor
lugar para jogar pedras na água e ver as ondas se espalharem como um abraço de
boas vindas. Com um sorriso no rosto, peguei sua mão e seguimos juntos pela
trilha que levava ao nosso destino.
A pinguela, com suas tábuas desgastadas pelo tempo, rangia
sob nossos pés, mas para mim era um som familiar, como uma canção que só nós
dois conhecíamos. Meu pai, com seu chapéu de palha e seu jeito despreocupado,
era a personificação da alegria. Ele me ensinou a escolher as pedras mais
lisas, aquelas que pulavam na superfície da água. “Olhe bem, meu filho. A pedra
precisa ter o formato certo. E você deve arremessá-la com confiança”, ele
dizia, enquanto eu o observava com admiração.
Nosso ritual de jogar pedras era mais do que uma simples
brincadeira; era um momento de conexão. Cada pedra que lançávamos parecia levar
consigo um pedaço de nossas preocupações e medos. Eu me lembrava de como meu
pai ria quando uma pedra pulava várias vezes antes de se afundar. “Veja! Essa
foi uma campeã!”, ele exclamava, e eu ria junto, sentindo a felicidade vibrar
em meu peito.
Naquele dia, enquanto jogávamos pedras, ele começou a
contar histórias de sua infância. Falou sobre os verões que passara pescando
com seu pai e como ele mesmo tinha aprendido a escolher as melhores pedras. A
cada risada, a cada história compartilhada, meu coração se enchia de afeto. A
presença do meu pai era um abrigo seguro, e nada parecia mais importante do que
aqueles momentos simples à beira do lago.
Com o passar do tempo, fui crescendo, e as
responsabilidades da vida começaram a se acumular. A escola, os amigos, e mais
tarde, o trabalho, foram ocupando meu tempo e minha mente. As visitas ao lago
tornaram-se menos frequentes, e a pinguela, uma doce lembrança da infância, foi
se tornando apenas uma imagem distante. Mas, em meu coração, eu sabia que
aquelas memórias estavam guardadas como um tesouro inestimável.
Anos depois, ao receber a notícia de que meu pai não estava
bem, uma onda de nostalgia me invadiu. Eu me lembrei da pinguela, das pedras e
das risadas. Naquele momento, percebi que precisava voltar àquele lugar que
tanto significava para nós. Assim que pude, organizei uma viagem para Ribeirão
Verde.
Chegando lá, encontrei o lago como eu o lembrava, mas a
pinguela parecia ter envelhecido. As tábuas estavam mais desgastadas, e o vento
parecia sussurrar histórias do passado. Com o coração apertado, me aproximei da
beira da água e, por um instante, fechei os olhos. As memórias vieram à tona
como se eu estivesse lá novamente, lançando pedras com meu pai, rindo e
aprendendo sobre a vida.
Sentei-me na beira do lago, e as lágrimas escorriam pelo
meu rosto. Eu sabia que precisava de um momento de conexão, mesmo que meu pai
não estivesse fisicamente presente. Compreendi que as memórias que guardava
eram o verdadeiro legado dele. Com um gesto automático, peguei algumas pedras
do chão e comecei a jogá-las na água, como fazíamos antes. Cada arremesso
trazia de volta um fragmento do passado, um eco das risadas e das lições.
Neste reencontro com o lago, percebi que, embora meu pai
não estivesse mais ao meu lado, ele continuava vivo nas lembranças doces e
singelas que preenchiam meu peito. Ele havia me ensinado a importância de
valorizar os momentos simples, de encontrar alegria nas pequenas coisas, e
naquele dia, ao jogar pedras, eu sentia sua presença como se ele estivesse me
guiando novamente.
Enquanto o sol se punha no horizonte, tingindo o céu de
laranja e rosa, percebi que a vida era feita de ciclos. Embora a dor da
ausência fosse aguda, as lembranças eram um bálsamo que aliviava a saudade. Com
cada pedra que lançava, eu dizia um silencioso “obrigado” ao meu pai, por todas
as lições e pelos momentos que compartilhamos.
Aquela tarde no lago me trouxe paz. Compreendi que a
pinguela, as pedras e o lago eram mais do que apenas um cenário; eram símbolos
da relação que tivemos e do amor que ainda vive em mim. Ao sair daquele lugar,
levei comigo uma nova certeza: mesmo na ausência física, as memórias permanecem
vivas, e o amor nunca se apaga.
E assim, ao voltar para casa, meu coração estava mais leve.
Eu sabia que, sempre que precisasse, poderia retornar àquela pinguela, onde as
lembranças doces e singelas enchiam meu peito de afago, lembrando-me de que,
mesmo na solidão, nunca estamos realmente sozinhos.
(JARDIM DA LALINHA, IPUPIARA, BAHIA)
(FOTO DE LALINHA, IPUPIARA, BAHIA)
TROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA
O meu desânimo é forte
por esta razão ferina
eu busco o trigo da sorte,
mas, o joio predomina.
Que minha trova modesta
exalte sempre a Jesus,
aos leitores leve a festa
e, nas almas, lance a luz.
É Faculdade, por certo,
a Natureza que inspira,
tendo um livro sempre aberto
para o trovista caipira.
Minha humildade se alarga
nesta cena, com razão:
Humilde, conduz a carga
o jeguinho do Sertão.
(LIVRO "28 SONS" - 1998)
O JOGO DAS ILUSÕES
José Feldman
TROVA DE SOLANGE COLOMBARA
O mentiroso pensou
ter enganado a donzela...
Por interesse casou,
mas quem o enganou, foi ela!
Na pitoresca vila de São Lucas, onde as casas coloridas se
alinhavam como um arco-íris e as flores perfumavam o ar, havia um jovem chamado
Álvaro. Ele era charmoso e tinha um sorriso que derretia corações. No entanto,
por trás daquela fachada encantadora, Álvaro carregava um segredo: ele era um
mentiroso contumaz. Sua habilidade de enganar os outros era quase uma arte, e
ele usava isso para conseguir o que desejava.
Certa vez, durante uma festa à beira do rio, Álvaro
conheceu Isabela, uma donzela de beleza estonteante e inteligência aguçada.
Desde que se olharam pela primeira vez, ele ficou fascinado. Isabela não era
apenas uma moça qualquer, ela tinha uma aura de mistério e uma sagacidade que o
intrigava.
Mas, como sempre, Álvaro viu em Isabela uma oportunidade.
Ele decidiu que a conquistaria não por amor, mas por interesse: seu pai, um
próspero comerciante, possuía uma fortuna considerável.
Álvaro começou a cortejá-la, usando todo o seu charme e
persuasão. Ele contava histórias fantásticas sobre suas viagens, suas
conquistas e seus planos grandiosos para o futuro. Isabela, no entanto, era
mais esperta do que ele imaginava. Embora se sentisse lisonjeada pela atenção,
ela percebia que havia algo de superficial nas promessas dele. Mas o jogo de
sedução a divertia, e ela decidiu seguir na dança.
Com o decorrer dos meses, ele foi se envolvendo cada vez
mais com Isabela, mas sempre com um pé atrás. Ele a via como um meio para
alcançar seus objetivos. Quando finalmente pediu sua mão em casamento, ele
estava convencido de que tinha enganado a moça.
Casaram-se em uma cerimônia belíssima, rodeados por amigos
e familiares, e Álvaro não podia deixar de pensar o quanto foi bem sucedido o
seu plano.
No entanto, a verdadeira trama começou a se desenrolar após
o casamento. Isabela, que parecia ser a moça ingênua que ele pensava ter
enganado, revelou-se uma mulher astuta e determinada. Ela não era apenas uma
herdeira de um grande patrimônio, era também uma empresária perspicaz, bem
informada sobre os negócios de seu pai e sobre como o mundo funcionava. Aos
poucos, ela começou a perceber que Álvaro não era o homem que ele havia pintado
em suas histórias.
Certa noite, enquanto ele se gabava de seus “feitos” em uma
conversa, Isabela decidiu dar o troco. Com um sorriso enigmático, ela começou a
contar histórias sobre suas próprias "aventuras". Falou sobre como
havia viajado por terras distantes, feito investimentos inteligentes e se
envolvido em negócios lucrativos.
Álvaro, que estava acostumado a ser o centro das atenções,
começou a se sentir desconfortável. Ele percebeu que Isabela não era uma moça
desavisada, mas uma mulher que poderia, de fato, ser sua parceira em vez de
apenas um troféu.
As semanas se passaram, e ele se viu cada vez mais
encurralado. Ela começou a administrar os bens do casal com uma habilidade que
ele nunca imaginara. As histórias de suas "aventuras" se tornaram
realidade, e logo ele percebeu que sua esposa era mais do que apenas uma
herdeira: ela era uma força a ser reconhecida. O que ele via como uma conquista
se transformou em um desafio, e a verdade começou a emergir.
Certa manhã, enquanto Álvaro revisava as contas da casa,
encontrou um documento que o deixou intrigado. Era um contrato de sociedade que
Isabela havia assinado com um grupo de investidores. Ao ler os detalhes,
percebeu que ela não apenas conhecia o valor do dinheiro, mas também sabia como
multiplicá-lo. O que ele pensava ser uma vida de luxo às custas da fortuna dela
se tornara uma parceria em que ele não tinha controle.
Com o passar do tempo, a confiança que ele tinha em sua
própria capacidade de manipulação começou a desmoronar. Sentia-se cada vez mais
impotente e, em suas tentativas de manter a aparência de um marido bem
sucedido, começou a mentir indiscriminadamente. Mas, para a sua surpresa, ela
estava sempre um passo à frente. Sabia de suas mentiras e, em vez de
confrontá-lo de imediato, decidiu usar isso a seu favor.
Certa noite, enquanto Álvaro tentava impressionar os amigos
em um jantar, ele começou a contar uma história que envolvia uma conquista de
negócios que, na verdade, nunca havia acontecido. Isabela, com um sorriso no
rosto, interrompeu-o. “Álvaro, você se esqueceu de mencionar aquele
investimento que fizemos juntos, não é? O que você está contando é um pouco
diferente da realidade.”
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Os amigos de
Álvaro trocaram olhares confusos, e ele percebeu que a máscara estava prestes a
cair.
A partir daquele momento, ela começou a tomar as rédeas da
situação. Ela não fez um escândalo, em vez disso, usou sua inteligência e
astúcia para transformar a dinâmica do relacionamento. Com um jeito gentil, mas
firme, começou a fazer com que Álvaro percebesse o valor da honestidade. Ele,
que pensava ter enganado a moça, agora se via engolido por suas próprias
mentiras.
Isabela não apenas se tornou a administradora dos bens do
casal, mas também a mentora de Álvaro. Com paciência e compreensão, ela o
ensinou sobre a importância da transparência, da verdade e da parceria. Ele
começou a perceber que suas mentiras não o protegiam, mas o isolavam. A vida a
dois se transformou em um aprendizado mútuo, onde ambos se tornavam melhores a
cada dia.
Com o tempo, ele aprendeu a ser mais verdadeiro, não apenas
consigo mesmo, mas também com Isabela. O amor que antes parecia baseado em
interesses tornou-se uma relação autêntica, onde ambos se apoiavam e cresciam
juntos. Ele começou a admirar a força e a determinação de sua esposa, e, mesmo
que o início de sua história tivesse sido repleto de erros, o final prometia
ser diferente.
Anos depois, quando olhavam para trás, ambos riam das
artimanhas que haviam usado no início de seu relacionamento. Álvaro percebeu
que, embora tivesse tentado enganar Isabela, foi ela quem realmente o havia
ensinado sobre o amor verdadeiro. Em vez de um conto de fadas, sua história era
uma narrativa de crescimento, de superação e de aprendizado mútuo.
E assim, a lição ficou clara: as mentiras podem enganar por
um tempo, mas a verdade sempre se revela. Na dança do amor, quem tenta
manipular pode acabar sendo o manipulado, e o que parece um jogo de interesses
pode se transformar em uma parceria genuína.
(FOTO DE SANDRO, CARRANCA, BAHIA)
VITA NUOVA
Manuel Bandeira
De onde me veio esse tremor de ninho
A alvorecer na morta madrugada?
Era todo o meu ser... Não era nada,
Senão na pele a sombra de um carinho.
Ah, bem velho carinho! Um desalinho
De dedos tontos no painel da escada...
Batia a minha cor multiplicada,
- Era o sangue de Deus mudado em vinho!
Bandeiras tatalavam no alto mastro
Do meu desejo. No fervor da espera
Clareou a distância o súbito alabastro
E na memória em nova primavera,
Revivesceu, candente como um astro,
A flor do sonho, o sonho da quimera.
(LIVRO "GRANDES SONETOS DA NOSSA LÍNGUA", PÁGINA 169)
ESTRANHAS LÁGRIMAS
Felix Pacheco
Lágrimas... Noutras épocas verti-as,
Não tinha o olhar enxuto, como agora.
- Alma, dizia então comigo, chora,
Que assim minorarás as Agonias!
Ah, quantas vezes, pelas faces frias,
Umas, outras, após, a toda hora,
Gota a gota rolando, elas, outrora,
Marcaram noites e marcaram dias!
Vinham do Oceano d'Alma imenso e fundo,
De espuma as ondas salpicando o flanco,
Numa fremência amargurada e louca.
Nos olhos hoje as Lágrimas estanco...
Rolam, porém, sem que as descubra o Mundo,
Sob a forma de Risos, pela boca!
(LIVRO "GRANDES SONETOS DA NOSSA LÍNGUA", PÁGINA 123)
O CORAÇÃO SONHADOR
José Feldman
TROVA DE THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
Envergonhado e sem jeito,
meu coração sonhador
conserta o ninho desfeito
enquanto espera outro amor!
Em uma pequena cidade à beira do mar, onde as ondas
sussurravam segredos e o sol se despedia em cores vibrantes, vivia um jovem
chamado Rafael. Ele era conhecido por seu espírito sonhador e sua sensibilidade
à flor da pele. Com seus cabelos bagunçados e um olhar que carregava a luz do
horizonte, Rafael caminhava pelas ruas da cidade com um caderno sempre à mão,
onde anotava pensamentos, poesias e fragmentos de suas esperanças.
Ele acreditava no amor como algo mágico, um laço que
transcende a lógica e as barreiras do cotidiano. Desde pequeno, ele sonhara em
encontrar sua alma gêmea, aquela pessoa que faria seu coração bater mais forte
e transformaria sua vida em uma aventura. Porém, a realidade o havia ensinado
que os amores nem sempre são eternos. Recentemente, ele havia passado por um
término doloroso com Lúcia, uma jovem que iluminou sua vida como poucos. A
separação foi abrupta, deixando um ninho desfeito em seu coração, repleto de
memórias e promessas não cumpridas.
Sentado em seu quarto, cercado por livros e poemas, Rafael
sentia-se envergonhado e sem jeito. A dor da perda ainda pulsava em seu peito,
mas, ao mesmo tempo, havia uma chama de esperança que se recusava a se apagar.
Ele sabia que precisava consertar o ninho que havia se desfeito, não apenas
para curar suas feridas, mas também para se abrir a novas possibilidades. O
amor poderia ser um ciclo, e ele estava determinado a não deixar que o medo do
fracasso o impedisse de voar novamente.
Os dias passaram, e ele começou a se dedicar a si mesmo, a
recuperar o que havia se perdido na relação anterior. Ele se permitiu sentir a
dor, mas também se permitiu sonhar. Começou a frequentar uma nova cafeteria na
cidade, um lugar aconchegante e repleto de pessoas criativas. Ali, entre risos
e conversas, ele começou a se abrir para o mundo. O cheiro do café fresco e o
som das xícaras se chocando criavam um ambiente acolhedor, onde ele podia se
perder em pensamentos e anotações.
Em uma dessas manhãs ensolaradas, enquanto rabiscava
algumas linhas de poesia, uma jovem entrou na cafeteria. Seu nome era Raquel, e
sua presença iluminou o ambiente. Ela tinha um sorriso contagiante e um olhar
curioso, que imediatamente capturou a atenção de Rafael. Eles começaram a
conversar, e, a cada trocadilho e risada, ele sentia seu coração despertar
lentamente. Era como se ele estivesse consertando seu ninho desfeito, colocando
de volta cada pedaço que havia se espalhado com a dor da separação.
Raquel e Rafael começaram a se encontrar regularmente,
trocando histórias sobre suas vidas, sonhos e desejos. A conexão entre eles
cresceu de maneira orgânica, como uma planta que se adapta ao ambiente. Rafael
se sentia mais vivo e mais inspirado do que nunca. Ele redescobriu a alegria de
escrever, agora fluindo com versos que falavam sobre recomeços e a beleza de se
abrir novamente para o amor.
No entanto, mesmo com a felicidade renascente, Rafael não
conseguia esquecer completamente Lúcia. A saudade ainda o acompanhava em
momentos de solidão, e ele se perguntava se estava sendo justo com Raquel ao
permitir que essa sombra ainda existisse em seu coração. Era um dilema que o
deixava angustiado: como poderia amar plenamente outra pessoa se ainda havia
espaços ocupados por memórias passadas?
Uma noite, enquanto caminhava pela praia com Raquel, ele
decidiu que era hora de ser honesto. Com o som das ondas como pano de fundo,
ele compartilhou suas inseguranças. “Raquel, eu estou tão feliz por estar aqui
com você, mas preciso te contar que ainda sinto a falta de minha ex. É um
sentimento que não sei como lidar, e temo que isso possa afetar o que estamos
construindo juntos.”
A brisa do mar trouxe um silêncio momentâneo, e Rafael
sentiu seu coração apertar.
Ela olhou para ele com compreensão: “Rafael, é normal
carregar algumas bagagens, mas o que importa é o que decidimos fazer com elas.
O amor não é uma competição; é um espaço onde podemos crescer juntos. Se você
está disposto a abrir seu coração para mim, estarei aqui, ao seu lado.”
Suas palavras foram como um bálsamo para as feridas dele.
Percebeu que, embora as sombras do passado ainda estivessem presentes, a luz do
novo amor poderia iluminá-las.
Com o passar do tempo, ele aprendeu a equilibrar seus
sentimentos. Ele não precisava apagar Lúcia de sua memória, mas poderia
permitir que Raquel ocupasse um lugar especial em seu coração. A cada encontro,
a cada conversa, seu ninho se tornava mais forte, mais acolhedor. Ele
dedicou-se a construir uma nova história, onde o amor não era uma substituição,
mas uma continuidade.
O que começou como uma angústia se transformou em um
aprendizado profundo sobre amor, perda e renovação. Rafael percebeu que a vida
é feita de ciclos, e cada amor traz suas lições. Ele aprendeu a olhar para suas
experiências não como fardos, mas como parte da bela tapeçaria que compõe sua
existência.
E assim, enquanto o sol se desvanecia no ocaso em mais um
dia, ele sentiu seu coração sonhador pulsar com uma nova esperança. Sabia que
estava em um caminho de cura, e que, enquanto consertava seu ninho desfeito,
estava também se preparando para voar mais alto. Afinal, o amor verdadeiro não
se apaga; ele se transforma, se adapta e, na maioria das vezes, nos ensina a
amar de uma maneira ainda mais profunda.
(FOTO DE SANDRO, IPUPIARA, BAHIA)
como uma dor que não dói.