terça-feira, 7 de abril de 2026

JESUS CRISTO POETA - JOÃO COELHO DOS SANTOS

 






JESUS CRISTO POETA
João Coelho dos Santos


Senhor, meu Jesus!
Quando a trombeta soou
E o Arcanjo Tua vinda
A este Mundo louco anunciou,
Nesse tão esperado dia…
Aconteceu poesia!

Quando pobre nasceste em Belém,
Como se não fosses ninguém,
Num simples curral e não em albergaria…
Aconteceu poesia!

Quando a fugir da matança,
Para o Egito te levaram
Num burrico em correria…
Aconteceu poesia!

Quando menino ensinaste
No Templo aquele doutor
Que extasiado Te ouvia…
Aconteceu poesia!

Quando te fizeste batizar
Nas águas do Jordão
Por Teu primo João
Que distante Te seguia…
Aconteceu poesia!

Quando os Teus escolheste
E decididos Te seguiram
Tendo tudo abandonado
No seu apostolado
Pela Tua companhia…
Aconteceu poesia!

Quando ensinavas a multidão
Que por todo o lado te seguia
E Tua Santa Palavra não perdia…
Aconteceu poesia!

Quando oravas ao Pai
No silêncio da montanha
Ou no calor do deserto
E Tua voz se não ouvia…
Aconteceu poesia!

Quando por metáforas e parábolas
Ensinavas a Paz, Justiça e Amor
E aos Céus serena se erguia
Tua Santa Palavra, Senhor…
Aconteceu poesia!

Quando em Canaã Te revelaste
Na falta de peixes e pão
E ao Pai do Céu oraste
Uma singela oração,
Nesse tão festivo dia…
Aconteceu poesia!

Quando a Lázaro ordenaste
A saída do frio túmulo
E assim o ressuscitaste
Dando à vida primazia…
Aconteceu poesia!

Quando às revoltas ondas
Mandaste que serenassem
E regressassem à calmaria…
Aconteceu poesia!

Quando resignado e Santo
Aceitaste o martírio do Calvário
Como suplício necessário
Para se cumprir a Profecia…
Aconteceu poesia!

Jesus, meu Cristo Jesus,
Senhor de bondade infinita,
No Reino do Teu Amor
Teremos Tua presença bendita.
Aos Céus ergo as mãos.
Em Ti, Senhor, eu confio.
Sei que sou um vulgar pecador
E que pouco tenho de asceta,
Mas uma certeza agora eu tenho:
Meu Bom Jesus, Tu… és poeta!

(FONTE AVBAP)

VIAGENS - FILEMON MARTINS

 



VIAGENS

Filemon Martins

 

Algum tempo depois de casado fui visitar a terra natal de minha esposa, que nasceu na cidade de Santa Helena, no Maranhão. A cidade está localizada na margem direita do Rio Turiaçu, que banha o estado do Maranhão. Santa Helena é vizinha de Turilândia, Presidente Sarney e Pinheiro, terra natal do ex-presidente José Sarney.

A viagem foi memorável, conheci muitas pessoas da família Jinkings. Muitas frutas da região que não conhecia, a comida excelente. Lá comi uma banana maçã deliciosa que até hoje me lembro. Comi um pão com manteiga na chapa tão gostoso que nunca mais me esqueci. Em companhia do meu saudoso sogro e família comemos um peixe assado na hora ali mesmo à beira do rio Turiaçu.

Visitei a cidade de Pinheiro, terra natal do ex-presidente José Sarney e na época o domínio político da família Sarney era notório. Enquanto andava pela cidade, curioso, perguntava: e aquele edifício a quem pertence?

- É da filha do Sarney. E aquela casa de quem é? – É do filho do Sarney. E aquela emissora de rádio? – É do Sarney. E aquele jornal? – é do genro do Sarney. E aquela empresa? –é da nora do Sarney. Enfim, uma rádio local falava o dia inteiro: ¨um empreendimento José Sarney¨.

Visitei também a cidade de São Luís, capital do estado, banhada pelo Oceano Atlântico, fundada pelos franceses em 1612, com influência dos holandeses e por fim dos portugueses. Conheci o centro histórico com seus casarões coloniais, entrei em agências bancárias enormes, uma delas ocupava um quarteirão inteiro. Outra parte revela uma cidade moderna, bem arborizada e com uma boa indústria na área de madeireira, extrativismo e alimentício. Na agricultura produzem cana-de-açúcar, mandioca, arroz e milho, além da exploração do babaçu.

Conheci e visitei pessoas ilustres, entre outras, Wilton dos Passos Barros, bancário aposentado do Banco do Brasil, hoje de saudosa memória. Voltaire Silva Barros, educador, culto e competente. Em São Luís do Maranhão nasceu em 1917 o escritor Josué de Sousa Montello, da Academia Brasileira de Letras, autor de vários livros, entre os quais, OS TAMBORES DE SÃO LUÍS, JANELAS FECHADAS, CAIS DA SAGRAÇÃO. Faleceu no Rio de Janeiro em 2006.

Em Brejo, Maranhão, nasceu em 1921 o escritor e trovador Eugênio Martins de Freitas. Advogado, escreveu e publicou diversos livros, como: MEUS AIS, MAIS LÁGRIMAS QUE SORRISOS, MEUS SONHOS EM RIMAS. Faleceu em São Luís em 2008. 

De São Luís, eu, esposa e duas filhas, Keise e Maíse voltamos para São Paulo.    

A SERRA DO CARRANCA - CARLOS ARAÚJO


 



(FOTO DE SANDRO, IPUPIARA, BAHIA - VISTA PARCIAL DA SERRA DO CARRANCA)



A SERRA DO CARRANCA
Carlos Araújo


Pra mim
O vento não vinha do sul
Muito menos do norte
O vento vinha era da Serra do Carranca!

Pra mim
A manhã não trazia o sol
E seus raios brilhantes
O sol vinha era da Serra do Carranca!

Pra mim
A noite não trazia a lua
E São Jorge radiante
Quem trazia a lua era a Serra do Carranca!

Pra mim
A chuva não vinha só das nuvens
Trazidas pelos ventos
Nas tardes quentes de dezembro
A chuva vinha era da Serra do Carranca!

Pra mim
A prata não era a prata
Metal valioso e brilhante
A prata era a lagoa que eu via,
Todos os dias, na Serra do Carranca!

Pra mim
O frio não era do clima
Daquelas noites de junho
Quem trazia o frio, nas festas de São João,
Era a brisa que vinha da Serra do Carranca!

Pra mim
A Serra do Carranca
Não era pedra, barro, floresta e areia
Era poesia, magia – encantada!
Era o prolongamento do céu
Da querida Ipupiara!


(FONTE: CD – MEU VERSO – CARLOS ARAÚJO, NA VOZ DE LAÉCIO BEETHOVEN)

O CONTRASTE - JONATHAS BRAGA

 




O CONTRASTE
                  Jonathas Braga


Buscam jazidas ricas de minério
os que imaginam mundos coruscantes,
pensando nos palácios fulgurantes
que poderão encher todo o hemisfério.

Outros devassam o silêncio etéreo
das atmosferas ínvias e distantes,
como se fossem pássaros gigantes
buscando além a chave de um mistério.

E o mundo fica estarrecido e absorto,
mas há milhões que vivem sem conforto
e tantos outros a que falta o pão...

Por que, pois, ir tão alto ou ir tão fundo
quando aqui mesmo, em cima deste mundo,
há tanto que fazer por nosso irmão ?

O VALOR DOS GESTOS - JOSÉ FELDMAN

 


O VALOR DOS GESTOS

José Feldman


TROVA DE JOÃO COSTA

É nobre o gesto de quem

o sofrimento ameniza,

partilhando o que mal tem

com alguém que mais precisa.



Na pequena cidade de Vila Esperança, onde as ruas eram cercadas por árvores frondosas e o aroma de pão fresco pairava no ar, havia um sentimento de comunidade que aquecia o coração dos moradores. As pessoas se conheciam pelo nome e as portas das casas estavam sempre abertas, prontas para acolher quem precisasse. Porém, em meio a essa harmonia, havia um homem que se destacava: seu nome era Miguel.

Miguel era um trabalhador humilde. Todos os dias, ele acordava antes do sol nascer e ia até a padaria onde trabalhava. Seu salário mal cobria as contas, mas ele sempre encontrava um jeito de estender a mão para aqueles que tinham menos. Para Miguel, o valor de uma pessoa não estava na riqueza que acumulava, mas na bondade que era capaz de oferecer.

Certa manhã, enquanto Miguel se preparava para ir ao trabalho, ele ouviu batidas suaves na porta. Ao abrir, encontrou uma jovem, Clara, com olhos tristes e um bebê nos braços. “Desculpe incomodar”, ela disse, hesitante. “Estou sem comida e sem dinheiro. Meu filho está com fome.” 

O coração de Miguel apertou. Ele sabia como era difícil sobreviver com pouco, mas naquele momento, ele não tinha muito a oferecer.

Miguel olhou para dentro de casa e viu a mesa simples, onde havia uma pequena cesta de pães. Em vez de hesitar, ele sorriu e disse: “Entre, por favor.” Ele pegou a cesta e a ofereceu à Frida. “Leve isso. É o que posso fazer por você hoje.” A jovem ficou surpresa, mas sua gratidão era visível. 

“Obrigada! Que Deus te abençoe!” Ela saiu, levando os pães e um pouco de esperança.

A cena se repetiu ao longo das semanas. Miguel ajudava quem aparecia em sua porta, mesmo que isso significasse sacrificar um pouco de seu próprio conforto. Ele não tinha muito, mas o que tinha era compartilhado com generosidade. No entanto, apesar de seu grande coração, Miguel também sentia o peso da vida. Às vezes, a amargura e a tristeza o cercavam, e ele se perguntava se suas ações realmente faziam a diferença.

Certa tarde, enquanto voltava do trabalho, Miguel avistou um grupo de crianças brincando na praça. Entre elas estava Frida, agora sorrindo enquanto seu bebê brincava ao seu lado. Ela o viu e correu até ele, cheia de energia. “Miguel! Quero te agradecer! Desde que você nos ajudou, consegui um emprego em uma lavanderia. Estou conseguindo cuidar do meu filho!” 

As palavras dela iluminaram o dia de Miguel.

“Fico feliz em ouvir isso”, respondeu ele, sentindo uma onda de alívio. “Todos nós enfrentamos dificuldades, mas é incrível ver como você se levantou.” 

O tom de Miguel era sincero, e Frida percebeu que suas palavras tinham um impacto positivo. 

“Você é uma inspiração para nós. O que você faz é nobre, Miguel. Você nos lembrou que ainda há bondade no mundo.”

A conexão entre eles cresceu, e Miguel começou a se envolver mais na comunidade. Ele organizava pequenas campanhas para ajudar aqueles que estavam em situações difíceis. As pessoas começaram a se unir, formando um círculo de apoio. O que começou como um gesto solitário se transformou em uma onda de solidariedade. A cidade de Vila Esperança floresceu como nunca antes, com moradores que se ajudavam mutuamente.

Miguel percebeu que, ao compartilhar o que tinha, ele não apenas ajudava os outros, mas também se ajudava. A amargura que por vezes o envolvia foi se dissipando, substituída pela alegria de ver a comunidade prosperar. Ele se sentia mais conectado ao seu entorno, e a vida começou a ter um novo significado.

Em uma noite de outono, Miguel organizou um jantar comunitário na praça. Todos trouxeram algo para compartilhar: pratos caseiros, risadas e histórias. O clima era de celebração, e as crianças corriam, enquanto os adultos conversavam animadamente. 

Miguel observou tudo isso com um sorriso no rosto, sentindo-se parte de algo maior. O que antes parecia um ato isolado de bondade agora se tornara um movimento de amor.

Enquanto as estrelas brilhavam no céu, Miguel subiu em uma pequena caixa para falar com todos. 

“É nobre o gesto de quem o sofrimento ameniza”, começou. “Partilhando o que mal temos com alguém que mais precisa, encontramos nosso verdadeiro propósito. Cada um de nós tem o poder de fazer a diferença, mesmo que pareça pequena. Juntos, somos mais fortes.”

As palmas ecoaram na noite tranquila, e Miguel sentiu uma onda de gratidão. Ele compreendeu que a verdadeira riqueza não estava em posses materiais, mas na capacidade de tocar a vida das pessoas. O amor e a solidariedade que ele havia semeado floresceram de maneiras que ele nunca poderia ter imaginado.

E assim, a cidade de Vila Esperança tornou-se um exemplo de compaixão e união. 

Miguel, com sua alma generosa, havia mostrado que, mesmo nas dificuldades, a bondade pode criar laços indestrutíveis. Pois ao partilhar o que temos, mesmo que pouco, construímos um mundo onde a esperança brilha e o sofrimento é amenizado, lembrando-nos de que a verdadeira nobreza reside no coração.

 

           


segunda-feira, 6 de abril de 2026

TROVAS DO FILEMON


 


TROVAS DO FILEMON


Céu azul, todo estrelado,

sorrindo, ao clarão da lua,

e o meu peito, apaixonado,

a chorar a ausência tua.


Segue uma estrada florida

quem, na verdade, tiver

a glória de ter, na vida,

um coração de Mulher!


O tempo passa levando

nossos doces ideais...

Mas, quando estamos chorando,

ele vem trazendo mais!


No mundo do desamor

ao poeta, nada importa,

se na saudade e na dor

a inspiração o conforta.



(LIVRO "SONETOS E TROVAS", 2014)

TROVAS DE ELVIRA DRUMMOND

 



TROVAS DE ELVIRA DRUMMOND


Ao lembrar da mocidade,

plena de encanto e crendice,

eu sorvo o mel da saudade

e adoço minha velhice.


A juventude é uma taça

que o tempo sorve com gosto.

E ao bebê-la, por pirraça,

deixa marcas no meu rosto.


Amparo minhas tristezas

nas páginas de um caderno,

que transforma as asperezas

em versos de amor fraterno.


Tudo que restou de ti,

eu pretendo eliminar,

mas, um detalhe esqueci:

saudade eu não sei rasgar...



(LIVRO "OS ESCOLHIDOS versos diversos", 2025)



TROVAS DE MATUSALÉM DIAS DE MOURA


 


TROVAS DE MATUSALÉM DIAS DE MOURA 


Com seus galhos sobre o rio,
a generosa ingazeira
- faça sol, calor ou frio -
dá-se, em sombra, à lavadeira.

A mão que encontro estendida
de meu irmão, na calçada,
além de pão e guarida,
mendiga afeto e mais nada.

Derramo o suor do rosto
para ganhar o meu pão,
às vezes a contragosto,
mas sem explorar o irmão.

Passo noites indormidas
tentando encontrar um jeito
de amenizar as feridas
que trago dentro do peito.


(LIVRO "SELETA DE TROVAS", 2017)

ANIVERSÁRIO DE MARLI RIBEIRO MARTINS

 

                                                              (Nesta foto, a do meio)


                                          (Aqui, da esquerda para a direita, a última)



Hoje temos uma aniversariante especial, minha irmã Marli Martins, digamos um pouquinho mais idosa que eu, comemora o seu niver junto aos filhos, netos, familiares e amigos. A dona Marli é uma guerreira, lutadora e na defesa dos seus entes queridos, uma leoa. 

Por isso desejamos muita saúde, paz, luz e muita garra para continuar sua caminhada aqui no plano terreno.

Felicidades é o que desejamos todos nós, Filemon, Celene e toda a família Ribeiro Martins. 

Salve! Salve dona Marli!

domingo, 5 de abril de 2026

A QUARTA VEZ - JOSÉ FELDMAN

 




A QUARTA VEZ

José Feldman


TROVA DE DARLY O. BARROS

- Minha filha, tens certeza?

- Tenho, mãe, é gravidez!

- Se vais dizer: "foi fraqueza",

já não cola, é a quarta vez!



Na charmosa e agitada cidade de Tontolândia, onde os boatos se espalhavam mais rápido que a luz e as fofocas eram um esporte nacional, a vida da família Souza sempre teve um certo tempero. Dona Fulustreca, a matriarca, era conhecida por sua língua afiada e seu talento inigualável para transformar qualquer situação em um drama digno de novela mexicana. Mas nada se comparava à conversa que estava prestes a acontecer em sua casa.

Certa manhã ensolarada, enquanto o cheiro do café fresco invadia a cozinha, sua filha, Januária, entrou com uma expressão que misturava nervosismo e determinação. Era visível que algo a atormentava. 

“Mãe, preciso te contar uma coisa”, disse ela, com a voz trêmula. 

O coração de Dona Fulustreca disparou. “Ai, meu Deus! O que foi agora? Você não pode simplesmente entrar assim, com essa cara de quem viu um fantasma!”

Januária respirou fundo e, com toda a coragem que conseguiu reunir, soltou: 

“Estou grávida.” 

A cozinha, que antes estava cheia de sons alegres, mergulhou em um silêncio constrangedor. Dona Fulustreca olhou para a filha, depois para a xícara de café, e, em seguida, voltou a olhar para Fernanda. 

“Minha filha, tens certeza?” perguntou, tentando processar a informação.

“Tenho, mãe, é gravidez!” respondeu, agora com um brilho nos olhos que misturava esperança e medo.

Mas Dona Fulustreca não estava pronta para aceitar a notícia sem fazer um verdadeiro interrogatório.  “E você sabe quem é o pai?”, perguntou, levantando uma sobrancelha e preparando-se para a próxima etapa da sua investigação.

“É o Aparecido, mãe. Aquele que conheci na festa de aniversário da Tia Lúcia”, respondeu Fernanda, tentando parecer mais confiante do que realmente estava. 

Dona Fulustreca fez uma careta. 

“Aparecido? Aquele safado que sempre vem aqui com a camiseta do Iron Man? Ele não me convence muito, minha filha. Se for pra escolher, eu preferiria que você tivesse ficado com o Lucas, que sempre trouxe flores!”

Antes que Januária pudesse retrucar, Dona Fulustreca continuou, agora com um tom de voz mais firme: “Se vais dizer: ‘foi fraqueza’, já não cola, é a quarta vez!” 

A frase ressoou na cozinha como um eco. Januária, tentando manter a dignidade, olhou para a mãe com um misto de indignação e nervosismo.

“Quarta vez? Mãe, isso é um exagero! Da última vez, eu só estive com o Paulo por um mês!” 

Dona Nair não estava disposta a abrir mão de sua narrativa. 

“Sim, mas foi um mês intenso! E, se não me engano, você também teve aquele ‘acidente’ com o Bruno, e não vamos esquecer do ‘deslize’ com o Felipe. O que você tem a dizer sobre esses?!”

Januária, agora nervosa entre lágrimas, respondeu: 

“Mãe, eu sei que você se preocupa, mas não foi por fraqueza! Eu realmente amo o Aparecido!” 

Dona Fulustreca, percebendo que sua filha estava realmente decidida, começou a relaxar. 

“Está bem, mas você sabe que eu vou ser avó, certo? E eu exijo um nome que preste. Nada de ‘Cidinho’ ou ‘Dona Flor’!”

A conversa tomou um rumo inesperado e, enquanto as duas discutiam nomes, Dona Fulustreca começou a fazer uma lista de possíveis avós que poderiam ajudar a filha a se preparar para a maternidade. 

“Olha, minha filha, eu vou te apresentar a Dona Edite. Ela fez crochê até a última gravidez e ainda é a avó mais ativa da Tontolândia. E também a Dona Rita, que tem um blog de dicas para mães! Você precisa de tudo isso!” Januária riu. 

“Mãe, não preciso de uma consultoria para ser mãe. E, sinceramente, você não vai ter tempo para me ajudar. Você vai estar ocupada demais cuidando das suas plantas e fazendo fofocas no salão de beleza!”

Dona Fulustreca, percebendo que a conversa estava tomando um rumo diferente, decidiu que era hora de se colocar no papel de avó. 

“Ok, mas eu vou te ensinar tudo que aprendi. E, se você deixar, eu vou ser a avó que vai fazer bolos de aniversário extravagantes e levar a criança para dançar no parque. A criança vai ser a mais estilosa da Tontolândia!”

Naquele momento, as duas se olharam e, mais relaxadas, perceberam que, apesar da confusão, a vida estava apenas começando a se desenrolar de uma forma nova e emocionante. A gravidez, que poderia ter sido um tema de tensão, se transformou em uma ocasião de alegria e união.

“As coisas podem ser complicadas, mas pelo menos teremos histórias para contar”, disse Januária, sorrindo. “E você vai ser a avó mais divertida que Tontolândia já viu!” 

E assim, entre promessas de uma nova vida, Dona Fulustreca e Januária  descobriram que a maternidade, com todas as suas reviravoltas e desafios, era, na verdade, uma grande aventura em família.

E, no final das contas, mesmo com as ‘fraquezas’ do passado, o que realmente importava era o amor e a conexão que crescia a cada novo desafio, provando que, na vida, o que conta é o que se constrói juntos, mesmo que isso signifique enfrentar a quarta vez com um sorriso no rosto!

 

           

 


TROVAS DE J. G. DE ARAÚJO JORGE


 

                                    (JARDIM DA LALINHA, IPUPIARA, BAHIA)



TROVAS DE J. G. DE ARAÚJO JORGE


Por certo a pior solidão
é aquela que a gente sente
sem ninguém no coração...
no meio de muita gente...

Praias longe, em solidão,
fora de todas as rotas,
tal como o meu coração
só com o sonho... das gaivotas...

Enriquece quem mais tira...
Trabalhar? Lenta agonia...
Democracia? Mentira!
Simples Dinheirocracia...

Ó liberdade, o teu crime
é ser burguesa também
e servir a esse regime
em que “só vale quem tem”!

(Livro "TREVOS DE QUATRO VERSOS", - TROVAS, 1964)

TROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA

 




TROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA


Risque o ódio, companheiro,
mesmo o de graves momentos,
coração não é lixeiro
de guardar ressentimentos.

Trova às vezes é mulher
com muito amor e paixão,
minha andorinha que quer
sozinha fazer verão.

Por certo sou um “banzai”
de homem cá do Sertão,
porém, de minha alma sai
a trova que é um trovão.

Em minha vida, uma briga
acontece, de alto porte:
É o azar fazendo intriga
para não dar vez à sorte.


(Do livro "28 SONS - TROVAS")

NO CORAÇÃO DA ARTE - JOSÉ FELDMAN

 



NO CORAÇÃO DA ARTE

José Feldman


TROVA DE ANTÔNIO JURACI SIQUEIRA


Mata a revolta em teu peito,

não a deixes florescer:

rio com pedras no leito

não pode alegre correr!...



 

Em uma cidade do interior, onde a vida pulsava em cada esquina e as cores das flores enfeitavam os jardins, havia um ar de expectativa. No entanto, sob a superfície dessa beleza, muitas pessoas carregavam revoltas silenciosas. A cidade, com suas ruas movimentadas e sorrisos superficiais, escondia angústias que frequentemente se manifestavam em olhares tristes e conversas sussurradas.

Entre os habitantes, estava Daniel, um jovem artista cujas obras refletiam a complexidade da vida ao seu redor. Ele era conhecido por sua sensibilidade e por captar a essência das emoções humanas com suas pinceladas. Mas, nos últimos meses, ele se sentia cada vez mais frustrado. A pressão da sociedade, as expectativas familiares e a luta por reconhecimento como artista o deixavam inquieto. Sua alma criativa, antes livre, agora estava aprisionada por uma revolta crescente.

Certa manhã, enquanto caminhava pela feira local, viu algo que o tocou profundamente. Uma mulher idosa, com o rosto marcado pelo tempo, estava vendendo flores. Seus olhos, embora cansados, brilhavam com uma sabedoria única. Ela sorria para cada cliente, oferecendo não apenas flores, mas esperança. Daniel parou para admirar a cena, mas logo a revolta em seu peito começou a se manifestar. “Por que as pessoas não veem a beleza que realmente importa?”, pensou, sentindo-se frustrado com a superficialidade ao seu redor.

A mulher percebeu sua inquietação e, quando ele se aproximou, disse: – Caro jovem, mata a revolta em teu peito, não a deixes florescer. 

As palavras dela ressoaram em sua mente, como um eco de sabedoria. Daniel hesitou, mas decidiu compartilhar suas preocupações. 

             Sinto que a arte e a sinceridade estão se perdendo nesta cidade. Todos parecem tão focados em seguir o que é esperado, esquecendo-se do que realmente importa.

Ela sorriu com ternura. 

             A vida é como um rio, meu jovem. Se o leito do rio está cheio de pedras, ele não pode correr alegremente. Se você deixar a revolta dominar, não conseguirá fluir. A arte deve ser um reflexo da vida, e a vida é feita de altos e baixos. Encontre beleza nas pedras e transforme-as em parte da sua jornada.

A conversa com a mulher deixou-o pensativo. Ele percebeu que estava permitindo que a revolta o impedisse de criar. Aquelas palavras o inspiraram a buscar a beleza nas dificuldades, a transformar sua dor em arte. Decidiu que era hora de mudar sua perspectiva e não deixar que a frustração o definisse.

Nos dias seguintes, começou a trabalhar em uma nova série de pinturas. Em vez de se concentrar apenas nas alegrias da vida, ele decidiu capturar também as lutas e as emoções complexas que todos enfrentavam. Usou cores escuras para representar a dor e a revolta, mas também introduziu tons vibrantes que simbolizavam a esperança e a resiliência. Cada pincelada era uma tentativa de mostrar que, mesmo em meio ao sofrimento, a beleza poderia surgir.

Quando chegou o dia da exposição, a cidade estava em festa. As pessoas se reuniram para celebrar a arte e a cultura local. 

Daniel estava nervoso, mas também animado. Suas pinturas, que refletiam sua jornada interna e a luta comum de muitos, começaram a atrair a atenção. As pessoas paravam diante de suas obras, algumas com lágrimas nos olhos, outras sorrindo ao reconhecer suas próprias histórias nas telas.

Uma jovem se aproximou dele e disse: – Seus quadros me tocaram profundamente. Nunca pensei que alguém pudesse expressar tão bem o que sinto por dentro. 

Ele sorriu, sentindo que a conexão que buscava finalmente se concretizava. Percebeu que sua arte tinha o poder de tocar os corações das pessoas e que, ao compartilhar suas emoções, poderia também aliviar a revolta que muitos carregavam.

A exposição foi um sucesso, e a cidade começou a se transformar. As pessoas começaram a falar mais sobre suas emoções e a compartilhar suas lutas. Daniel se tornou um símbolo de coragem e autenticidade, mostrando que é possível enfrentar a revolta e ainda encontrar beleza na jornada. As conversas nas praças e cafés agora incluíam discussões sobre arte, vida e a importância de abraçar tanto as alegrias quanto as tristezas.

Certa noite, enquanto caminhava pela cidade iluminada, ele encontrou a mulher idosa vendendo flores novamente. Ele se aproximou e a agradeceu. 

– Você me ajudou a ver a beleza que estava escondida. Agora, consigo fluir como um rio. 

A mulher sorriu, seus olhos brilhando com a sabedoria que só o tempo pode trazer. 

– Lembre-se, jovem artista, que a vida é feita de ciclos. Sempre haverá pedras no caminho, mas é sua escolha como lidar com elas.

E assim, Daniel aprendeu que a revolta, quando bem direcionada, pode se transformar em força criativa. Pois, ao matar a revolta em seu peito, ele não apenas encontrou seu próprio caminho, mas também reacendeu a luz em outros, mostrando que, mesmo com pedras no leito, é possível fazer o rio correr alegremente.