segunda-feira, 27 de abril de 2026

REFUTAÇÕES - EUGENIO DE FREITAS

 



REFUTAÇÕES 
Eugenio de Freitas


Só Deus conhece o que nossa alma sente.
Debalde esforças-te por encontrar
alguma explicação inteligente
da origem deste mundo singular.

Enganas-te ao supor que fatalmente
tua incerteza um dia há de cessar.
Não vês sequer, embora a tua frente,
o resplendor que ofusca teu olhar.

A Bíblia nos ilude? Não aceito,
de modo algum, a tese anticristã.
Quem poderá chegar a ser perfeito?

Não continues nesse penoso afã.
Não te palpita um coração no peito?
Ninguém descerra as portas do amanhã.

SONETO DE CASTRO ALVES

 




SONETO DE CASTRO ALVES (1847/1871)


Se houvesse ainda talismã bendito
que desse ao pântano – a corrente pura,
musgo ao rochedo, festa – à sepultura,
das águias negras – harmonia ao grito...


Se alguém pudesse ao infeliz precito
dar lugar no banquete da ventura...
E tocar-lhe o velar da insônia escura
no poema dos beijos – infinito...


Certo... serias tu, donzela casta,
quem me tomasse em meio do Calvário
a cruz de angústias que o meu ser arrasta!...


Mas, se tudo recusa-me o fadário,
na hora de expirar, ó Dulce, basta

morrer beijando a cruz de teu rosário!...

NOITE DE INSÔNIA - EMÍLIO DE MENEZES

 



NOITE DE INSÔNIA
EMÍLIO DE MENEZES

Este leito que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito,
Onde este grande amor floriu, sincero e justo,
E unimos, ambos nós, o peito contra o peito,
Ambos cheios de anelo e ambos cheios de susto;

Este leito que aí está revolto assim, desfeito,
Onde humilde beijei teus pés, as mãos, o busto,
Na ausência do teu corpo a que ele estava afeito,
Mudou-se, para mim, num leito de Procusto!…

Louco e só! Desvairado! — A noite vai sem termo
E estendendo, lá fora, as sombras augurais,
Envolve a Natureza e penetra o meu ermo.

E mal julgas, talvez, quando, acaso, te vais,
Quanto me punge e corta o coração enfermo
Este horrível temor de que não voltes mais!…

TROVAS DE "O JORNALZINHO" - POSTAL CLUBE

 




TROVADORES EM “O JORNALZINHO” - 

POSTAL CLUBE


A bigorna vejam bem,
suporta os golpes do malho,
mas na ferrugem também,
morreria sem trabalho!
        
C. A. BEIRAL

As vagas cobrem as praias,
Pra descobrir a seguir;
Tal as procelas humanas,
Estão sempre a ir e vir.
        
LEONE CAVALCANTE

A vida pôs por maldade,
Tanta distância entre nós;
Que quando eu canto é a saudade,
Que faz a segunda voz.
        
IZO GOLDMAN

Fosses menos orgulhoso,
dissesses o que não dizes,
serias mais venturoso
e nós dois bem mais felizes...
        
AMÉLIA THOMAZ


(ANTOLOGIA 15, PÁGINA 96)

TROVAS BRASILEIRAS

 


                                     (JARDIM DA LALINHA, IPUPIARA, BAHIA)


TROVAS BRASILEIRAS


Quem frequenta esses altares

onde rezam seriemas,

bem pode tecer milhares

dos mais gritantes poemas.

CARLOS RIBEIRO ROCHA


As águas descem cantando

e chegam a um grande rio,

rola água, vai levando

as dores que te confio.

HERVAL DE SOUZA TAVARES


Eu vou ver felicidade

que chegou e logo escuto:

- Adeus e toma a saudade,

eu só demoro um minuto.

MAURICIO CAVALCANTE GOMES


Perguntei a um passarinho

se existe rumo no espaço,

ele me disse, baixinho:

o rumo, sou eu quem faço.

GLAUCY MARTINS CUNTA

domingo, 26 de abril de 2026

TROVAS BRASILEIRAS

 


                        (FOTO DE KEISE JINKINGS MARTINS, ITANHAÉM-SP)


TROVAS BRASILEIRAS


Pensei não haver fronteira

no amor, que julguei ser meu,

mas a vida é traiçoeira

e o preconceito venceu!

DUVERLINA SANTOS


Ao cantar minhas cantigas,

quanta vez canto a chorar!

São saudades... as cantigas,

Cantigas que eu sei cantar!

EDGARD BARCELLOS CERQUEIRA


A dor que mais nos maltrata,

que estraçalha o coração,

que nos fere e quase mata,

- é a dor da ingratidão!

HERVAL DE SOUZA TAVARES


Agora percebo a prova

de um tão difícil dilema...

O que contém uma trova

é verdadeiro poema!

LAURENTINA DOS SANTOS NOVAIS


JANGADA - VALDEMAR ALVES

 



JANGADA

Valdemar Alves


Jangadeiro do Mucuripe

Verdes mares bravios

Contempla a natureza

Navegar é preciso


Enfrenta as procelas

Segue o destino

No oceano tenebroso

Desafia perigos


De punhos calejados

Pelo indômito arrojo

Apruma o anzol, na isca

Redes de pescar, mastro e vela


A regata de jangada

Vagas encapeladas

Os frutos marinhos no samburá

Iemanjá, a Rainha do Mar.


(LIVRO "POESIAS CEARENSES - TEMAS MARINHOS", PÁGINA 23)



sábado, 25 de abril de 2026

TROVAS DO FILEMON

 




TROVAS DO FILEMON


Não me queixo desta vida,
apesar da minha idade.
Queixo, sim, da despedida
que me trouxe esta saudade.

Quando a amargura me assalta
e a tristeza o peito invade,
eu sinto que a tua falta
vai me matar de saudade.

Nesta manhã reluzente
de sol aquecendo a terra,
vejo a beleza presente
no teu olhar cor de serra.

Entre flores, no meu sonho
estavas nos braços meus.
Mas de repente, tristonho,
acordei ouvindo “adeus”.

MUNDO PEQUENO - MANOEL DE BARROS

 



MUNDO PEQUENO 
do livro "O Livro das Ignorãças" - ed. Civilização Brasileira.

Manoel de Barros


O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.


(JORNAL DE POESIA, SOARES FEITOSA)

ÚLTIMA PÁGINA - ALCEU WAMOSY

 





" ÚLTIMA PÁGINA  "


Alceu de Freitas Wamosy
1895 - Uruguaiana RS - 14 de fevereiro
1923 - Livramento, RS - 13 de setembro


Todo este grande amor que nasceu em segredo,
e cresceu e floriu na humildade mais pura,
teve o encanto pueril desses contos de enredo
quase ingênuo, onde a graça ao candor se mistura.

Entrou nos nossos corações como a brancura
de uma réstia de luar numa alcova entra a medo.
Nunca teve esse fogo intenso de loucura,
que há em todo amor que nasce tarde e morre cedo.

E quando ele aflorou tímido e pequenino,
como uma estrela azul no meu, no teu destino,
não sei que estranha voz ao coração me disse,

que este amor suave e bom, de pureza e lealdade,
sendo o primeiro amor da tua meninice,
era o último amor da minha mocidade.



(LIVRO "OS MAIS BELOS SONETOS", J. G. DE ARAÚJO JORGE)

sexta-feira, 24 de abril de 2026

ENTRE O SER E AS COISAS - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

 









" Entre o Ser e as Coisas "

Carlos Drummond de Andrade



Onda e amor, onde amor, ando indagando

ao largo vento e a rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva.

As almas, não, as almas vão pairando,
e, esquecendo a lição que já se esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que a de natureza corrosiva.

Nágua e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas a mais nuas.

E nem os elementos encantados
sabem do amor que o punge e que e, pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.


Carlos Drummond de Andrade
Itabira, Minas. 31 de outubro de 1902
Botafogo, Rio de Janeiro 17 de agosto de 1987
in
"Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou"
J.G . de Araújo Jorge - 1a ed. 1963

MEDO DAS TREVAS - MÁRIO RIBEIRO MARTINS

 



MEDO DAS TREVAS
Mário Ribeiro Martins

Nos dolentes caminhos desta vida, 
parei chorosamente pra pensar: 
vi o passado - que grande ferida! 
vi o presente - que tempo vulgar!
 
Com quase a minha fé desfalecida, 
desvendei o futuro a me acenar: 
contemplei minha nau quase perdida, 
do encapelado mar se retirar.
 
Encosta, encosta, encosta foi meu brado. 
Quando saiu meu grito desvairado, 
a nau chegou ao cais lá no porvir.
 
Que tremenda visão eu tive agora! 
Que sonho! Que beleza! Amável hora, 
pois acordei morrendo de sorrir.

PARADOXO - FILEMON MARTINS

 




PARADOXO 

 FILEMON MARTINS



Quase sempre erramos
porque queremos ser fortes e poderosos
na jornada da vida.
Esquecemos que é a brisa leve e suave
que produz música ao balançar as folhas das árvores
e não a tempestade que fere, mata e destrói.