segunda-feira, 29 de junho de 2026

O PESCADOR E O SEGREDO DO PALÁCIO SUBMERSO - JOSÉ FELDMAN

 



 O Pescador e o Segredo do Palácio Submerso


José Feldman

  

"Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus amigos. Eu sou Mustafá, o peregrino, preparem o coração, pois esta é uma história que os ventos do deserto sussurram às tendas dos beduínos, sobre o destino, a cobiça e a justiça de Allah.

 

Diz-se, que vivia em uma cidade entre as montanhas e o mar um pescador chamado Abdallah. Ele era um homem de coração limpo, mas de mãos vazias, que mal conseguia o sustento para sua esposa e sete filhos.

 

Certa manhã, após lançar suas redes três vezes e colher apenas algas e pedras, Abdallah clamou aos céus. Na quarta tentativa, a rede pesou tanto que ele precisou mergulhar para soltá-la das rochas. Lá embaixo, no silêncio azul, ele não encontrou peixes, mas um anel de ferro preso a uma laje de mármore branco.

 

Ao puxar o anel, a laje se abriu, revelando uma escadaria que levava às entranhas da terra. Movido pela necessidade e pelo destino, Abdallah desceu. Ao fim dos degraus, ele não encontrou água, mas um palácio de luzes mágicas onde as paredes eram feitas de coral e o chão de pérolas brutas.

 

No centro do salão, repousava um gênio de estatura colossal, cuja pele era da cor do cobre e os olhos brilhavam como brasas.

 

— "Não tema, mortal," trovejou o gênio. "Sou o Guardião do Tesouro de Salomão. Por mil anos esperei por alguém cuja alma não conhecesse a mentira. Leve este frasco de cristal. Ele contém a Água da Verdade.

Quem a beber verá o mundo como ele é, e não como os homens o pintam." Abdallah, embora cercado de ouro, pegou apenas o frasco e subiu. No mercado, ele não vendeu o cristal, mas o usou para ajudar os injustiçados. 

 

Quando um mercador rico acusou um órfão de roubo, Abdallah deu uma gota da água ao juiz. O juiz, sob o efeito do elixir, não pôde proferir a sentença falsa que havia sido comprada e, em vez disso, confessou seus próprios subornos diante de todo o povo.

 

A fama do "Pescador da Verdade" chegou aos ouvidos do Sultão. O soberano, cercado de vizires que sussurravam lisonjas, quis testar o homem.

 

— "Pescador," disse o Sultão, "se sua água é tão poderosa, diga-me:

quem em minha corte é meu maior inimigo?"

 

Abdallah derramou a última gota na taça de ouro do Sultão. Ao beber, o monarca olhou para o seu Grão-Vizir e não viu um homem, mas uma hiena faminta pronta para morder-lhe o pescoço. O traidor foi preso e os planos de um golpe de estado foram desfeitos.

 

Como recompensa, o Sultão nomeou Abdallah seu conselheiro principal. O pescador nunca mais passou fome, mas dizem as crônicas que, todas as noites, ele voltava à praia para lançar suas redes, lembrando-se de que a verdadeira riqueza não está no que o ouro compra, mas no que a verdade liberta.

 

“As-salaam'aleikum” (Que a 


paz de Deus esteja com vocês).






(FONTE "ECOS DO DESERTO", 


JOSÉ FELDMAN)


SONETO DE CARLOS RIBEIRO ROCHA

 




SONETO DE CARLOS RIBEIRO ROCHA
(de memória e constava do livro HARPA SERTANEJA, inédito)


Já não lamento os sonhos destruídos,
- relembrar não desejo as ilusões
e a ventura fugaz dos tempos idos,
- folhas secas tombando aos turbilhões!

Chorar não devo! Os galhos ressequidos
sem flores, sem orvalho, sem canções,
tornam-se, às vezes, belos e floridos
ornando as serras, várzeas e grotões.

Surgem nos ramos novas esperanças
e a relva revestida vai ficando
de áureas flores, corimbos, verdes franças...

Se as nossas ilusões vão sucumbindo,
em nossas almas nasce, vai surgindo
das novas ilusões o álacre bando!

MINHA CASA - CARLOS RIBEIRO ROCHA

 




MINHA CASA

CARLOS RIBEIRO ROCHA



É pobre e tosca a minha casa e sem
sofás macios, leitos chumaçados,
sem ornamentos nem jardins, porém
mais bela que os palácios decantados.

Pouco importa que a vejam com desdém
os fúcaros mandões e potentados
que gozam sem o Cristo um falso bem
e são, por fim, eternos condenados.

Só tenho em minha casa o necessário:
a mesa, o meu grabato e um tosco armário
e os livros, meus amigos estimados,

junto aos quais tenho dias fulgurantes,
enquanto os sonhos deles bem distantes
vão se tornando turvos e apagados...

TROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA

 




TROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA

(DO ACERVO DE FILEMON MARTINS)




Eis a norma a ser seguida
por quem quer viver em paz:
receba as lições da vida,
dê seu exemplo aos demais.

Nuvens passam pelo céu,
de luz existe escassez,
mas, afastado esse véu,
mostra o céu a limpidez.

Vejam que belo trabalho!
- Nos arbustos, velhos ninhos
são rosas em cada galho
com corolas de pauzinhos...

TROVAS DE EDUARDO V. VISCONTI

 





TROVAS DE EDUARDO V. VISCONTI

Da rua bela e curtinha,
chamada felicidade,
vê-se outra longa e sozinha,
que dei nome de saudade...

Minha vida é longa rua
cheia de abismos medonhos,
nela um gênio mau atua,
matando todos meus sonhos!

Bahia, rincão amado,
de céu sempre tão azul,
só penso em ti, exilado
nos pagos tristes do Sul.

O AMOR II - FILEMON MARTINS

 




O AMOR II

Filemon Martins



Como a planta que nasce no quintal, 
se bem cuidada cresce e fica linda. 
Também o amor que nasce natural 
pode crescer, viver, florir, ainda.
 

É preciso, porém, que o amor normal 
seja cuidado com ternura infinda. 
O verdadeiro amor não tem rival, 
a beleza do corpo é que se finda.
 

Quando o amor se revela por inteiro, 
o carinho renasce e vem primeiro 
ornando a vida e sobrepondo a dor.
 

E juntos seguem pela vida afora 
vivendo intensamente a nova aurora, 
iluminados pela luz do amor. 

PENSAMENTOS - HUMBERTO DEL MAESTRO

 





PENSAMENTOS:


- Deus criou a noite para a vaidade das estrelas.
- Perdão é o galho mais robusto da árvore do amor.
- A lua é uma hóstia de esplendor no tabernáculo da noite.
- O alimento do bem só é encontrado nos mercados da       virtude.
- Uma pessoa que se vende não possui valor.
- Quem é puro de coração julga que toda a humanidade é formada de anjos.
                            

HUMBERTO DEL MAESTRO

                            

(Imortal da Academia Espírito-santense de Letras)

SEM FRONTEIRAS - FILEMON MARTINS

 




     SEM FRONTEIRAS
                                  
               FILEMON MARTINS




Viajo com as nuvens. Sou poeta.
Gosto de dar vazão ao pensamento.
Sou capaz de chegar ao firmamento
e voltar para a terra como atleta.

Na terra, pego a minha bicicleta,
vou pedalando mesmo contra o vento,
enquanto os versos nascem no acalento
de uma paixão suave e não secreta...

Não há fronteiras, pois o amor é brando,
poetas são assim, vivem sonhando
com um mundo feliz e mais humano.

Não importa se a vida é muito breve,
importa o amor que faz o peso leve,
quando o perdão se torna soberano.

domingo, 28 de junho de 2026

GALERA E REMADA - ANTÔNIO CARLOS CÔRTES

 




 

GALERA e REMADA

Antônio Carlos Côrtes *



Copa do Mundo 2026
Tem brasileiro,
Francês,
Noruega e Remadores
Ativos como faísca  isqueiro
Mas não esqueço dores
De jogadores estrangeiros
Do continente africano
Pelo mundo escravizados
Remando Galeras  negreiras
Futebol europeu raiz acabou
Sequestram  em contratos
Leoninos jogadores negros
Para manter soccer
Milionário impedindo  atuar
Por pais de origem
O destino é sofrer
Porões com tumbeiros
Obrigados a remar
No ritmo marcado pelo tambor
Torcedores noruegueses
Suas remadas lembram vikings
A mim o desamor.

28.06.2026

 

·    DA ACADEMIA RIO-GRANDENSE DE LETRAS


COISAS DE AMOR - FILEMON MARTINS

 




COISAS DE AMOR

Filemon Martins


É noite calma. A lua está brilhando,
namorados passeiam pela rua,
enquanto aqui a sós fico sonhando,
- como dói no meu peito a ausência tua.

Quisera, nesta noite, estar amando
tranquilo a contemplar a luz da lua
e seguirmos, unidos, procurando
novos sonhos, que a vida continua...

Meu coração, porém, desconfiado,
parece reviver triste passado,
- não acredita mais nesta emoção.

Se a vida não perdeu o encantamento
desse sonho de amor, desse momento,
- coisas de amor não têm explicação.

sábado, 27 de junho de 2026

TROVAS DE MÁRIO BARRETO FRANÇA

 




TROVAS DE MÁRIO BARRETO FRANÇA

 

Não olhe tanto o futuro
nem no passado se ausente,
porquanto o melhor seguro
é ser útil no presente!

 

Não é nem será fraqueza,
de um erro se arrepender.
Sempre demonstra nobreza
quem vence o seu próprio ser.

 

O circo é cópia discreta
do mundo, em glória e fracasso:
- Sofre no risco do atleta,
mente no rir do palhaço.

 

Raras são as criaturas
de julgamento sereno,
pois quando estão nas alturas
veem todo mundo pequeno.

 


O CAÇADOR DO SILÊNCIO - JOSÉ FELDMAN

 





  O CAÇADOR DO SILÊNCIO 


José Feldman

  

"Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus ouvintes de alma atenta. O silêncio que agora nos envolve é o tapete sobre o qual esta história vai caminhar. Eu, Mustafá, vi muitos homens tentarem roubar ouro e poder, mas apenas um teve a ousadia de roubar o que pertence aos desertos profundos.

 

Em Nishapur, vivia um poeta chamado Faruq. Seus versos eram belos, mas a cidade era barulhenta — o martelar dos ferreiros, o grito dos mercadores e as intrigas dos palácios sufocavam sua inspiração. 

 

— "Ya Allah" (Ó Deus), clamava ele, "como posso ouvir a música das esferas se o mundo não para de gritar?".

 

Consumido por um desejo ardente, Faruq viajou até o coração do deserto, onde dizem que o silêncio é tão espesso que se pode cortá-lo com uma adaga. 

 

Lá, ele encontrou um "dervixe" (monge sufi) que meditava sobre uma duna que nunca se movia.

 

— "Ensina-me a capturar o silêncio", pediu Faruq. 

 

O ancião entregou-lhe um frasco de cristal vazio e disse: 

 

— "O silêncio não se captura com as mãos, mas com a ausência do 'ana' (eu/ego). Se fores capaz de passar sete dias sem pensar em ti mesmo, o silêncio entrará no frasco."

 

Faruq lutou. No sétimo dia, ele esqueceu seu nome, sua fome e sua fama. O frasco brilhou com uma luz opala. Ele o arrolhou e voltou para a cidade. 

 

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), ele conseguira!

 

Ao abrir o frasco em sua casa, o silêncio derramou-se como um rio invisível. Subitamente, todo o barulho de Nishapur cessou ao redor de sua morada. 

 

Mas houve um preço: as pessoas não conseguiam mais se entender, os pássaros esqueceram o canto e até o vento parou de soprar. Faruq percebeu que, ao roubar o silêncio para si, ele roubara a alma do mundo.

 

Arrependido, ele subiu ao minarete mais alto e quebrou o frasco. O silêncio espalhou-se, mas desta vez ele não abafou os sons; ele tornou-se a pausa entre as notas, o espaço entre as palavras que permite que a fala tenha sentido. 

 

"Shukran", murmurou o poeta, entendendo que o silêncio não é a ausência de som, mas a presença da paz.

 

Desde aquele dia, Faruq escreveu seus melhores poemas, pois aprendeu que o segredo não é fugir do barulho, mas carregar o deserto dentro do peito.

 

“As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês). Que o silêncio de vocês seja sempre um refúgio, e nunca uma prisão.



(FONTE "ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN) 

 


RUGAS - DOMINGOS SOUSA

 




RUGAS

Domingos Sousa


Tenho rugas no rosto e cada ruga

tem para mim um preço especial;

das lágrimas que o tempo dá e enxuga,

são os sulcos deixados por sinal...


São testemunhas mudas dessa fuga,

fuga da vida, a fuga mais real,

iguais a um parasita que algo suga,

levando a mocidade ao seu final.


São os anos, os dias, os momentos,

a vida amargurada, a dor sentida

e vigílias das noites de tormentos!


Também o são - o espelho me mostrou - 

na face descorada e envelhecida,

as pegadas do tempo que passou...



(LIVRO "ANUÁRIO DE POETAS DO BRASIL - 1980" - 2º VOLUME, PÁGINA 131)