terça-feira, 21 de julho de 2026

A COR DA SAUDADE - ELVIRA DRUMMOND

 




A COR DA SAUDADE


Elvira Drummond


Saudade... para alguns tão dolorida...

confesso, aqui, que a sinto diferente.

Não vejo, na saudade, uma ferida

que sangra tão impiedosamente.


Saudade... para mim, é colorida...

visita o meu passado e vai em frente

prossegue perfumando a minha vida,

pescando, da memória, o olhar contente.


Saudade, só se tem de um bom passado...

(razão de o desejar ressuscitado,

qual brasa que, assoprando, acende a chama).


Feliz de quem carrega na memória

retalhos magistrais de sua história.

Saudade é privilégio de quem ama!



(LIVRO "OS ESCOLHIDOS", PÁGINA 14)

ÂNGELUS - MATUSALÉM DIAS DE MOURA

 




ÂNGELUS


Matusalém Dias de Moura


A noite vem caindo, mansamente...

sobre a cidade em brando movimento,

guardando em cada rosto um sofrimento,

enquanto a vida passa lentamente...


Sozinho, conduzido pela mente,

numa prece de choro e de lamento,

vou subindo com fé, com doce alento,

até chegar a Deus onipotente.


Ali, nas mãos do Pai, deixo o pedido

de compaixão por mim, filho perdido,

miserável, pequeno e pecador.


Logo sinto uma paz chegar a mim,

dizendo que meu Deus, ah, me ama, sim,

e que ao próximo devo dar amor...



(LIVRO "SONETOS DO PÔR DO SOL", PÁGINA 76)

segunda-feira, 20 de julho de 2026

AS PEDRAS - THALMA TAVARES

 




AS PEDRAS
THALMA TAVARES  (SÃO SIMÃO-SP)



Dos caminhos ruins, que a vida me apontou,
as pedras afastei, limpei todo o cascalho.
Removi-os com fé e com muito trabalho,
sem que ninguém soubesse o quanto me custou.


Sem andar pela sombra ou buscar um atalho,
amparado na fé que Jesus me inspirou,
meu caminho de pedra, o amor transformou
em vereda de flores, de sol e de orvalho.


Mas não canto vitória, apesar de feliz,
se o que é mais importante eu ainda não fiz,
não levei meu irmão a trilhar nova estrada.


Não lhe dei, por dever, a sublime lição
deste amor que Jesus pôs em meu coração,
que mudou minha vida em eterna alvorada.



(Recebido por e-mail do amigo ORNELLAS-SP) 

MINHA CASA - CARLOS RIBEIRO ROCHA

 




MINHA CASA

CARLOS RIBEIRO ROCHA


É pobre e tosca a minha casa e sem
sofás macios, leitos chumaçados,
sem ornamentos nem jardins, porém
mais bela que os palácios decantados.


Pouco importa que a vejam com desdém
os fúcaros mandões e potentados
que gozam sem o Cristo um falso bem
e são, por fim, eternos condenados.


Só tenho em minha casa o necessário:
a mesa, o meu grabato e um tosco armário
e os livros, meus amigos estimados,


junto aos quais tenho dias fulgurantes,
enquanto os sonhos deles bem distantes
vão se tornando turvos e apagados...

UTOPIA - FILEMON MARTINS

 




                                    UTOPIA

      Filemon Martins




Uma ternura infinda estou sentindo
já no ocaso do meu viver tristonho.
Meu coração se abriu, feliz, sorrindo,
pois a Esperança renasceu num sonho.

Meu desejo é cantar um hino lindo
para falar de paz tudo transponho,
que toda Humanidade siga ouvindo
os acordes do amor que já componho.

Eu quero ver o povo trabalhando,
construindo, vivendo e se educando
para que todos sejam mais felizes.

Que os políticos sejam mais honestos
e possam nas ações e nos seus gestos
construir um País livre das crises!

TROVAS BRASILEIRAS

 



TROVAS BRASILEIRAS


Levanto cedo, não nego,
ando pescando a poesia,
na minha rede carrego
todo o mar de fantasia.
Filemon Martins

Felicidade – surpresa
que a vida um dia nos faz...
Não tem base nem firmeza
e, como é linda, é fugaz.
Colombina

Para que jamais te iludas
com fortunas e esplendores,
lembra que as plantas miúdas
também se cobrem de flores!
Humberto Del Maestro

Saudade – um suspiro, uma ânsia,
uma vontade de ver
a quem nos vê a distância,
com os olhos do bem-querer.
Bastos Tigre

O CANTO DO ROUXINOL - JOSÉ FELDMAN

 




O CANTO DO ROUXINOL

José Feldman



O som do silêncio que se instala após o último acorde é o que mais machuca. Não é a ausência de som, mas o peso do que deveria estar ali e já não está.
Há anos observo aquela gaiola pendurada na varanda do apartamento vizinho, balançando discretamente ao sabor de um vento que traz o cheiro da chuva, mas que nunca traz a liberdade. Dentro dela, habita um rouxinol. Um pequeno fragmento de vida, com penas que perderam o brilho fosco das matas, mas que carrega nos olhos o tamanho exato de um horizonte que ele desaprendeu a tocar.
O soneto que alguém escreveu um dia sobre ele não mentia. Cada nota que escapa daquele bico pequenino, nas primeiras horas da manhã, não é um espetáculo para os nossos ouvidos humanos, é um pranto disfarçado de arte.
O rouxinol canta nas grades da vida, e o eco de sua voz é de uma profundidade que chega a doer no peito de quem se detém para escutar. Nós, os transeuntes apressados de nossas próprias rotinas aprisionadas, costumamos chamar aquilo de "belo cantar". Que terrível cegueira a nossa. Confundir o grito de socorro de uma alma com entretenimento doméstico.
Olho para ele agora, enquanto o sol desponta timidamente entre as folhas verdes das árvores da rua. Aquelas árvores estão tão perto. Apenas alguns metros separam o pássaro do galho mais próximo de uma mangueira frondosa, onde outros de sua espécie pousam, gritam, brigam e voam sem rumo. A liberdade clama ali fora, escancarada, vestida de vento e folhas secas que dançam no asfalto. Mas ele não vai. Ele não pode ir. A fronteira invisível do arame galvanizado define o limite do seu universo.
Em cada melodia que ele ensaia quando o dia clareia, a vida parece se afrontar. É um embate silencioso e cruel entre o instinto de ser céu e a realidade de ser ferro. Há uma tristeza densa, quase palpável, que se instala no ambiente a cada trinado mais longo. É a melancolia pura de quem sabe exatamente o que perdeu, mesmo sem nunca ter vivido plenamente o que perdeu. O peito do pequeno cantor sobe e desce rapidamente, num ritmo frenético que parece subtrair-lhe as forças, um pouquinho a cada dia. Quantas canções faltam para que o coração dele desista de bater?
E, no entanto, o mistério mais profundo daquela criatura não é a sua dor, mas a sua insistência.
Mesmo no calabouço daquela varanda cinzenta de cimento encardido, há algo dentro daquele peito que se recusa a morrer. Uma canção esperançosa insiste em brotar de onde só deveria haver desespero. A alma do rouxinol não se esquece de amar. Ele ama o fiapo de sol que toca a gaiola às nove da manhã. Ele ama a água fresca que trocam de seu pequeno pote. Ele ama, acima de tudo, a própria memória do voo, uma herança genética de asas abertas que o tempo e o cativeiro não conseguiram apagar.
Ele canta na busca de um ramo, de uma vida que ele intui ser gloriosa e vasta. O canto ainda ecoa pela vizinhança, cortando o barulho dos motores e das buzinas, mesmo que a chorar. É um choro afinado, uma lágrima em forma de solfejo que atravessa as frestas da minha janela e me faz parar o café pela metade, com os olhos fixos no vazio.
Quantos de nós também não cantamos nossas dores em nossas próprias gaiolas invisíveis, esperando que alguém entenda o código do nosso lamento?
Fico olhando o pequeno rouxinol e uma onda de melancolia me invade por completo. Penso na fragilidade da vida, no tempo que passa e nas correntes que nós mesmos criamos ou aceitamos carregar. Mas o soneto termina com uma promessa, e é nela que decido ancorar o resto do meu dia, para não sucumbir à tristeza de vê-lo ali.
Um dia, as correntes irão se desfazer. Seja pela mão compassiva de quem finalmente enxergar a crueldade daquele cativeiro, seja pelo ciclo inevitável da própria natureza que a tudo liberta no final. O rouxinol livre poderá renascer. Suas asas, hoje entorpecidas, encontrarão o ponto de apoio exato na densidade do ar. Ele subirá tão alto que o som do seu canto finalmente deixará de ser um lamento para se tornar, em absoluto, a pura tradução do espaço.
Até lá, eu continuo aqui, na janela da minha própria solidão, servindo de testemunha e plateia para a mais triste e bela ópera da terra: o canto de quem sofre, mas não desiste de esperar o céu.

 


sábado, 18 de julho de 2026

RESGATANDO AURORAS - PEDRO ORNELLAS

 





RESGATANDO AURORAS

Pedro Ornellas



Meu verso é o eco de um fugaz anseio
que brotou cedo e cedo foi desfeito...
Grito sem som no abismo do meu peito,
promessa vã de um bem que nunca veio.

Meu verso, embora de pesar tão cheio,
por outro lado é gratidão, é preito
por esse dom, que sempre arruma um jeito
de suavizar o que é medonho e feio.

Na direção de um norte imaginário
meu verso, inverso à rigidez das horas,
à risca risca o próprio itinerário...

Já não se prende ao jugo das demoras
e, avesso ao senso, e à lucidez contrário,
vai pela noite resgatando auroras!



(DO LIVRO "RESGATANDO AURORAS")

TRANSE - ELZA MEIRELLES CHOLA

 





TRANSE

ELZA MEIRELLES CHOLA



Que tempo de transtorno, estou vivendo...
Tudo acontece sem estar nos planos.
Quando algum dissabor vou esquecendo,
logo aparecem novos desenganos...

Sinto-me amarga... as ilusões perdendo...
vendo ruir os sonhos mais ufanos.
Olho o vazio, e clamo aos céus, querendo,
aplacar os temores mais tiranos!

Ó almas invisíveis, protetoras,
eu venho suplicar a mão amiga,
não neguem uma ajuda redentora.

Anjos, venho pedir-lhe proteção:
- Eu só quero reaver a paz antiga
que desapareceu do coração!

NOVA COBRANÇA - FILEMON MARTINS

 





                     NOVA COBRANÇA 
                          (Filosofando)
                       Filemon Martins


 

Se cobro alguma coisa desta vida, 
ela disfarça e vai me respondendo: 
“qualquer dia, meu caro, pago a dívida” 
e sem pensar, aceito e vou vivendo. 

O tempo vai passando e na corrida 
aqueles sonhos vão-se desfazendo, 
já não sinto esperança na descida 
e o mundo, sem amor, está horrendo. 

A vida dissimula um falso encanto 
que acaba em choro, dor e desencanto 
sem cumprir as promessas que nos fez. 

E tudo não passou de ledo engano, 
porque sem fé, sem luz, o ser humano 
carrega a cruz de sua insensatez.

TROVAS DO PROFESSOR GARCIA

 




TROVAS DO PROFESSOR GARCIA – CAICÓ - RN


Nunca me entrego aos fracassos,
o amor, tanto me seduz…
Que, preso à cruz dos teus braços,
esqueço da minha cruz!

O sol, a brisa e esta rede,
no entardecer, que esplendor!
E o mar, morrendo de sede,
mata-me a sede de amor!

Para a criança sem teto,
que mendiga o pão que come,
qualquer palavra de afeto
é alívio que mata a fome.

Para que brilhe o esplendor
no Natal, entre os irmãos,
que a mão que semeia o amor,
encha de amor, outras mãos!

A MULHER É POETISA OU POETA? - FILEMON MARTINS

 



A MULHER É POETISA OU POETA?

Filemon Martins



    Não é minha intenção polemizar, mas ainda não li, nem vi nenhum registro de que o feminino da palavra POETA seja A POETA, como defendem algumas mulheres. A Gramática ou Dicionário da Língua Portuguesa afirma que o feminino da palavra POETA é POETISA. Uma palavra poética, amena, sublime e que foi honrada por tantas poetisas brasileiras e ainda o é, pois temos atualmente notáveis mulheres poetisas. Não vejo preconceito, não vislumbro sentido depreciativo ou pejorativo, como alegam algumas mulheres.
      Parece que a polêmica começou quando a notável poetisa CECÍLIA MEIRELES escreveu o poema MOTIVO, inserido no livro Viagem, publicado em 1938/1939: ¨Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta¨.  Pronto, a poetisa resolveu o problema dela, buscou a rima e a encontrou. Jamais teve a intenção de menosprezar ou depreciar a mulher e muito menos dignificar o homem.
     Sabemos que a nossa Língua Portuguesa é dinâmica, podendo haver transformações e mudanças no decorrer do tempo.  Cabe, portanto, aos dicionaristas e filólogos registrarem essas alterações. Enquanto isso não ocorrer, continuarei a tratar nossas notáveis mulheres que escrevem versos como poetisas, assim como foram Cecília Meireles, Hilda Hilst, Cora Coralina, Gilka Machado, Francisca Júlia da Silva, Auta de Souza, Florbela Espanca, Maria Thereza Cavalheiro, Claúdia Roquete pinto e ainda o são, entre outras, Carolina Ramos, Alice Ruiz, Djanira Pio, Maria José Zanini Tauil, Conceição Evaristo, Walda Baldoni, Arita Damasceno Pettená, Beatriz Dutra, Célia Lamounier de Araújo, Elisa Lucinda, Adélia Victória Ferreira, Laura Liuzzi, Ledusha Spinardi, Adélia Prado, Angela Togueiro, Carmen Martin Pazzanese, Ana Martins Marques, Renata Pallottini, Lílian Maial, Martha Medeiros, Vanda Fagundes Queiroz, Araci Barreto da Costa, Marisa Amorim, Doroni Hilgenberg e tantas outras.  
    Para concluir minhas observações, transcrevo os versos de Maria do Carmo Gaspar de Oliveira, do Rio de Janeiro, cujo título é: ESCREVO COMO MULHER E SOU UMA POETISA E NÃO ¨UM POETA¨
¨Não sei escrever como um homem, cujo verso é igual ao ribombar do forte trovão! Mas posso fazê-lo como mulher: suave, leve como a brisa, a brisa que se torna vento, o vento que se avoluma e toma forma de um furacão.
O feminino de poeta é poetisa. Eu tenho orgulho de ser mulher. Simplesmente ridículo uma mulher dizer: Eu sou um poeta. Parece que tem vergonha, ou acha pejorativo ser mulher¨!
Maria do Carmo Gaspar de Oliveira
Rio de Janeiro – RJ.
      Como se vê não há motivo para dizer que a mulher é poeta quando o termo apropriado é poetisa, conforme reza a gramática. Embora (conheço o episódio)  em que o jornal Folha de S. Paulo elaborou um Manual de Redação, acatando o termo poeta para mulheres, ou seja todo e qualquer jornalista que trabalha no jornal é obrigado a escrever que a mulher é poeta.             Trabalhei na Empresa por mais de 20 anos e pelo que me consta lá no jornal não há nenhum Filólogo ou membro da Academia Brasileira de Letras com competência para mudar o Dicionário da Língua Portuguesa. 

NO PALCO - CÉLIA LAMOUNIER

 




NO PALCO
Célia Lamounier


Estamos todos sozinhos,
Entregues a nosso destino:
Vede uma dor que aparece,
Uma criança que chora,
Um grande amor que se esquece,
Um homem velho que tomba!

Vede também quanta guerra,
Quanta ambição desmedida
E tanta luta perdida!

Sozinhos...
No palco da terra.


(Postal Clube, Antologia 14, página 25)