sábado, 22 de agosto de 2026

O GÊNIO DA SOMBRA E O PREÇO DO DESEJO - JOSÉ FELDMAN

 





O Gênio da Sombra e o Preço do Desejo

  

Acomodem-se, ó buscadores da retidão, pois Mustafá traz agora uma história que sopra como o samum (vento quente do deserto), aquele que queima a pele e obscurece a visão. Preparem seus ouvidos para a crônica de uma fortuna que nasceu da sombra e quase terminou em destruição.

 

Havia um andarilho chamado Nasir, que já havia gastado a sola de mil sandálias percorrendo os oásis do Oriente. Nasir era um homem de coração cansado, que suspirava por uma vida de repouso e fartura que nunca chegava.

 

Certa tarde, sob o calor de um sol impiedoso, ele encontrou um oásis esquecido, onde as águas eram escuras como o ébano. Ali, deitado sobre as raízes de uma tamareira retorcida, dormia um jinn (gênio) de aparência pavorosa, com pele cor de cinzas e fumaça saindo de suas narinas. Ao ser despertado, o gênio não rugiu, mas sorriu com uma astúcia maligna.

— “Andarilho, disse o gênio, pela sua ousadia em me acordar, darei a você o que o seu coração desejar. Peça, e o objeto surgirá diante de seus olhos.”

 

Nasir, deslumbrado pela promessa, pediu primeiro um cinto de couro fino com fivelas de prata. Em um piscar de olhos, o cinto apareceu em sua cintura. Depois, pediu uma adaga de punho de marfim e uma sela de seda para seu camelo. Tudo surgia instantaneamente. Nasir partiu dali sentindo-se o homem mais afortunado da Terra, sem saber que aquele era um gênio de maldade, que não criava nada do nada, mas roubava magicamente de outrem para satisfazer o pedido.

 

Semanas depois, enquanto descansava em uma hospedaria de caravanas, Nasir encontrou um velho amigo chamado Zayd. Ao ver Nasir cercado de luxos, Zayd empalideceu.

 

— “Nasir, meu irmão, como conseguiu este cinto?, perguntou Zayd, tremendo de fúria. Ele tem a marca da minha família gravada no couro interno! E esta adaga... ela desapareceu do meu baú na última lua cheia, junto com a sela de seda que herdei de meu pai!”

 

Nasir tentou explicar o encontro com o gênio, mas Zayd, sentindo-se traído, gritou: 'Ladrão!'. 

 

O tumulto atraiu os guardas, e Nasir foi levado acorrentado perante o qadi (juiz) da cidade.

 

No tribunal, o juiz olhou para as provas. A marca de Zayd estava em cada objeto. Nasir, em prantos, contou a verdade sobre o gênio do oásis. O sábio juiz, percebendo que a alma de Nasir estava confusa mas não perversa, deu seu veredito: 

 

— “Aquele que aceita o que não plantou, colhe o espinho da culpa. Mesmo que não tenha movido a mão para roubar, seu desejo foi a mão do gênio.”

 

Nasir teve que devolver tudo e trabalhar por um ano nas terras de Zayd para pagar a indenização pelo transtorno causado. Ele aprendeu, da maneira mais dura, que o gênio não lhe dera presentes, mas dívidas de honra.

 

Mustafá limpou a areia de suas vestes e olhou para o Sheik com gravidade, concluindo:

 

"A lição desta história, ó nobres senhores, é que não existe benção em uma riqueza que nasce da perda de outro. O desejo egoísta é o convite para que o demônio aja em nossas vidas. A verdadeira fortuna é aquela que vem do nosso próprio trabalho e da bênção lícita de Alá. Pois o que o gênio tira de um para dar a outro, a justiça divina sempre encontrará um caminho de devolver ao dono original, deixando o ganancioso com as mãos vazias e o nome manchado.”



(FONTE: "ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN)


POEMA, A MEU JEITO, PARA VOCÊ - FILEMON MARTINS

 




POEMA, A MEU JEITO, PARA VOCÊ…

 Filemon Martins



Quanta saudade depois que você partiu.
Você, olhar meigo, sereno,
sorriso doce, encantador,
voz delicada e calma
que escreve na alma
um poema de amor.

Eterno sonho de felicidade,
promessa, carinho, segredo,
- ventura que chegou tão tarde,
- ventura que se foi tão cedo.

Saudades... eu me recordo ainda
a ausência, a mágoa, a dor infinda,
lembranças – por que não esquecê-las?
- Sonho de amor, de meiguice,
quantas palavras que não disse
e que é tarde demais para dizê-las.

                      

              Hoje, essa estranha saudade

chega em tom de confissão
para apertar-me o peito,
que reclama, insatisfeito,
porque tudo mudou quando você partiu.

E agora, nada me resta, a não ser
a eterna certeza de que nunca mais,
nunca mais terei alguém como você.

A MAGIA DO PODER - FILEMON MARTINS

 




 

A MAGIA DO PODER

 

 

Custa-me crer que o eleitor, por mais alienado que seja, mas que tenha princípios morais e religiosos, não se sinta constrangido, não se sinta envergonhado e revoltado com as falcatruas perpetradas pela equipe do governo, nos dois mandatos anteriores (aliás, chamada de quadrilha, pelo Ministério Público), ao longo de oito anos no período de 2003 a 2011. Acreditar que Lula, com todo o aparato de inteligência e mecanismos de fiscalização à sua disposição, não soubesse de nada, como disse repetidas vezes, é achar que somos imbecis.

“Falar pouco, às vezes, é sinal de inteligência”, conforme Gabriel Perissé, em A ARTE DE CALAR. Contudo, diz ele, “calar-se é ainda mais importante, quando calar-se é dizer tudo. Há quem se cale por não ter realmente o que dizer, mas há também quem se cale por omissão, quando seria um dever falar, escrever, gritar, colocar a boca no trombone, como se dizia antigamente.”  Não é o que fez o presidente. Diante de tantos desvios de verbas, mostrou-se incapaz de falar, de gerenciar o dinheiro público. Se houve CPI dos Bingos, dos Correios, do Mensalão e das Sanguessugas, ao contrário do que mostra a propaganda de figurões políticos, foram instaladas contra a vontade do governo. Foi assim que caíram o ex-ministro da Fazenda, o presidente da Caixa Econômica Federal e alguns assessores do Gabinete da Presidência da República.

O silêncio do presidente foi intrigante e comprometedor. Considerou que seus companheiros de partido cometeram apenas um deslize, um erro ao permitir que a sociedade tomasse conhecimento. Já ocorrera esta conivência quando o então ministro José Dirceu utilizou-se de sua posição para alavancar a carreira política de seu filho Zeca Dirceu, no Paraná. Segundo Pedro Tobias, em A Tribuna, de Santos: “Lula criticou não a ação em si, mas o fato dela ter sido feita de “forma descuidada”, revelando o “estilo nada discreto do ministro”.

Lula não cumpriu nada do que prometeu, ao contrário: aumentou tributos, aumentou e prorrogou a CPMF, na época, taxou inativos do serviço público federal, não corrigiu a tabela do imposto de renda (antes, dizia que salário não era renda). Não fez Reforma Agrária, não fez Reforma Política, nem Tributária, a Previdência continua deficitária, continuaram os escândalos, os desvios de verbas alimentados pela sonegação dos próprios membros do governo.

Oito anos de mandato já foi demais, mas sua excelência, o eleitor, quis que tudo continuasse assim: o governo, que se dizia dos pobres, humildes e trabalhadores transformou-se em paraíso de empresários, deputados e senadores desonestos que sugam, de todas as formas, o dinheiro que deveria ser investido em saúde, pesquisas, habitação, educação, segurança pública e geração de empregos.

Assim, Lula conseguiu colocar no Planalto, Dilma Rousseff que se tornou Presidente do Brasil de 2011 a 2016, quando foi afastada por um processo de impeachment, sendo substituída por Michel Temer, que governou o país até janeiro de 2019.

A partir daí tornou-se Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, eleito pelo Partido Social Liberal até 31 de dezembro de 2022. Fez um governo polêmico e recheado de contradições no seu estilo de governar. Poderia ter feito uma administração superior, se tivesse escolhido melhor seus ministros e assessores e fosse mais sociável no trato com as pessoas.

Em 1º de janeiro de 2023 Luiz Inácio Lula da Silva se torna pela terceira vez Presidente do Brasil para deleite de uma parcela da população desmemoriada e para políticos e empresários de um balcão de negócios, onde tudo e quase todos se vendem em troca de muito dinheiro público que escapa pelo ralo sem que a população tenha conhecimento.

Agora, está pleiteando um quarto mandato com as mesmas promessas que sempre fez e não cumpriu.

Só nos resta ficar preparados para arcar com o prejuízo, fruto da nefasta administração do país, caso ele consiga o quarto mandato.

Pior, com a conivência proposital da Suprema Corte, ¨chefiada¨ por um ministro brasileiro, autor de um plano maquiavélico com outros amigos de igual jaez.

Meu avô paterno Gasparino Francisco Martins é quem tinha razão: “SE O HOMEM PROMETE E NÃO CUMPRE, NÃO TEM PALAVRA, NÃO TEM MORAL, PORTANTO, NÃO MERECE RESPEITO¨.

 

Filemon Martins

Escritor e poeta

Da Confraria Brasileira de Letras


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

MODORRANDO... VOU DE CARONA... - MIGUEL RUSSOWSKY

 





MODORRANDO... VOU DE CARONA...
                   (Miguel Russowsky (1923 – 2009), poeta nascido em Santa Maria – RS, tendo residido em Joaçaba –SC.)



Verão. Domingo. A brisa morna e branda
vai furungando ao léu, sem disciplina.
De vez em quando, as franjas da cortina
agitam-se em meneios de ciranda.

A tarde está dormindo na varanda
com seu perfil de cortezã grã-fina.
O relógio, viciado na rotina,
parece concordar... Quase não anda.

A preguiça – senhora muito obesa –
cansada, se estatela no sofá,
boceja, devagar... Só quer moleza!...

A vida muitas vezes estaciona...
Mas, se quiser seguir... Deixo que vá!
Eu não posso impedir... Vou de carona!...

(Do BALI – LETRAS ITAOCARENSES – Dezembro/2009-página 12)

INDIFERENÇA - ZIVER RITTA

 




INDIFERENÇA
           ZIVER RITTA (Porto Alegre-RS)


Dias depois da nossa desavença,
naquela tarde, num final de agosto,
eu compreendi o aviso na sentença
que, sem sorrir, ela jogou-me em rosto.

Disse, claro demais para meu gosto:
“Bem ao contrário do que reza a crença
que nós chamamos popular, o oposto
do amor não é o ódio. É a indiferença”.

Depois da nossa briga assim me disse,
e o fez, como se vê, de forma clara,
para que eu não tomasse por tolice.

Por isso hoje, ao ver-nos frente a frente,
se ela com ódio em seu olhar me encara,
desvio o meu olhar indiferente.

(Jornal FANAL, n° 564, agosto de 2002, página 01, órgão oficial da Casa do Poeta “Lampião de Gás”, de São Paulo)








POR QUE O BRASIL NÃO CRESCE? - FILEMON MARTINS

 




 

POR QUE O BRASIL NÃO CRESCE?

 

 

Somos um país grande e exuberante, com diversidade de culturas e costumes. Temos tudo: terras, águas, rios, mares e florestas que muitos países não possuem.

Então, por que não crescemos? O que nos falta?

Estamos experimentando uma crise de desconfiança, não se trata de sensação, é real mesmo.

Entre outros motivos, podemos citar alguns: Indústrias estão se transferindo para outros países, onde a carga de impostos é menor. Fábricas e lojas estão fechando suas portas. A cada fábrica ou loja que se fecha, significa menos empregos, menos vagas para o trabalhador.

Os especialistas afirmam que o Brasil estagnou há décadas. Nossa educação está defasada, tecnologia já ultrapassada, enquanto as facções se espalham pelo Brasil, deixando a sociedade refém de assaltos e crimes. Por outro lado, o governo aumenta a carga tributária de quem produz e trabalha, e gasta desordenadamente, não sobrando dinheiro para investimentos em tecnologia, pesquisas, saúde, educação, segurança etc.

Trata-se de um tempo sombrio que paira sobre o Brasil, com um projeto de poder, chefiado pelos que governam a nação, que pretende obter mais 4 anos no comando do país.

Há, inegavelmente, uma tremenda inversão de valores no atual cenário do Brasil. Até a Suprema Corte, que seria a guardiã da Constituição Federal e já foi confiável, está desacreditada pela sociedade brasileira. Agora virou chacota diante da Comunidade Internacional. E com razão. O que vimos nestes últimos tempos, é que além dos políticos corruptos, o Supremo Tribunal Federal os defende de forma veemente e indecente. Uma denúncia e você será investigado, perseguido e, talvez, preso, porque teve a ousadia de denunciar o ilícito.

Hoje, todos pagam imposto. Ninguém escapa da sanha incontrolável do governo. Até os pensionistas e aposentados do serviço público federal continuam pagando 14% com o nome de “contribuição previdenciária”. Ou seja, um roubo oficializado.

Precisamos com urgência de valores morais, éticos, educativos e religiosos que poderão nos resgatar de tantos corruptos e de tantas peripécias que aumentam a desigualdade no Brasil.

Não há pais que prospere e vá adiante em termos de desenvolvimento gastando erradamente.

 

Filemon Martins

Cronista e poeta

Da Confraria Brasileira de Letras


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O QUE É O AMOR? - FILEMON MARTINS

 


(NA FOTO, KELLY (SOBRINHA), FILEMON, CELENE (ESPOSA) E A MANA MARLI)



O QUE É O AMOR?

 

 

Segundo o grande apóstolo Paulo, - ¨ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos e tivesse toda a sabedoria do mundo, SE NÃO TIVESSE AMOR, nada seria. Ainda que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, SE NÃO TIVESSE AMOR, de nada me adiantaria¨.

A expressão Amor engloba uma série de significados e símbolos dos mais simples aos mais exóticos e sofisticados: amor divino, amor maternal, paternal, filial, puro, sincero, eterno, frágil, aparente, secreto, inatingível, sensual, carnal, enfim quase um dicionário inteiro.

Pensadores, filósofos, poetas e escritores têm-se expressado sobre o amor. Luís de Camões, um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, senão o maior, escreveu: ¨Amor é um fogo que arde sem se ver; é ferida que dói e não se sente; é um contentamento descontente; é dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; é solitário andar por entre a gente; é nunca contentar-se de contente; é cuidar que se ganha em se perder. É um estar-se preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode o seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo amor¨?

Nos tempos hodiernos parece haver um individualismo exagerado nas relações que envolvem o amor. O conceito bíblico afirma que ¨o amor é paciente, não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta¨, parece estar fora de moda. É natural que cada ser humano tenha suas vontades próprias, mas o egoísmo transformou o amor num sentimento interesseiro e exibicionista.

Contudo, deixando de lado as teses de filósofos e pensadores, o amor continua sendo um sentimento nobre, sublime e que merece ser regado por toda a vida. Triste do ser humano que não tem amor, pois jamais sentiu alguma dor, que faz crescer e evoluir e não terá uma agridoce saudade a recordar.

Para muitos o amor se tornou um lucrativo negócio; para outros, um acordo político, financeiro, origem de prestígio, posição social ou algo parecido. O amor puro, genuíno, verdadeiro ficou em segundo plano, não é real, soa falso e incomoda muita gente estúpida e apalermada.

Muitos trovadores têm tecido suas trovas falando de amor. José Paulo Tavares: ¨Amor - mistério profundo... Milagre que enfeita o verso, oferta de Deus ao mundo, razão de ser do Universo¨. Iraci do Nascimento e Silva: ¨Amor se dá, - não se vende, não se compra não se empresta... Quem o compra, se arrepende, e quem o vende, não presta¨. Geraldo Pimenta de Moraes: ¨Com muita certeza eu digo que agrada mais ao Senhor, quem, além do pão de trigo, dá ao pobre o pão do amor¨!      

Sem divagações, o que importa mesmo é que o amor é como a planta que nasce no quintal e quando bem cuidada floresce e fica linda. Assim o amor que nasce naturalmente pode ser regado com ternura infinda, porque o amor autêntico não tem rival, embora a beleza do corpo seja fugaz e transitória.

É imprescindível cuidar com carinho e zelo todos os dias, regando-o com compreensão, defendendo-o do ciúme tão nocivo que teima em dividir, separar e criar atropelos entre as pessoas.

Quando aprendermos a cultivar o amor no Planeta Terra, com certeza o mundo será melhor.

 

Filemon Martins

Escritor e poeta

Da Confraria Brasileira de Letras


O ROSTO DE SEDA E O CORAÇÃO DE ESPINHOS - JOSÉ FELDMAN

 




 O Rosto de Seda e o Coração de Espinhos


José Feldman

  

Preparem seus sentidos, ó ouvintes da verdade, pois Mustafá vos contará uma história onde o rosto é um espelho, mas a alma é um abismo de discórdia. Em Bagdá, o sol brilha para todos, mas a sombra de um homem pode esconder um segredo que nem a lua consegue iluminar.

 

Nas terras férteis que margeiam o Tigre, governava o Sheik Omar, um homem de imensa generosidade e justiça. Mas o que poucos súditos sabiam, ó Nobre Sheik, é que Omar tinha um gêmeo chamado Karim. Enquanto Omar dedicava sua vida ao serviço do povo, Karim vivia isolado nas bordas do deserto, consumido pela inveja, pois nascera apenas alguns minutos depois do irmão, perdendo o direito ao título.

 

Karim possuía o mesmo rosto esculpido, a mesma barba negra e os mesmos olhos cor de âmbar de Omar. Aproveitando-se dessa semelhança divina, ele tramou um plano de mentira. Sempre que o Sheik Omar partia em longas viagens para mediar conflitos entre tribos distantes, Karim entrava furtivamente na cidade ao cair da noite.

 

Vestido com as sedas reais e usando o perfume de sândalo do irmão, Karim apresentava-se aos criados e mercadores. Com uma voz que imitava perfeitamente o tom de autoridade de Omar, ele começou a exigir tributos antecipados. 

 

— “Tragam-me dez camelos de raça pura para minhas cavalariças particulares!”, ordenava ele no mercado. “Enviem doze criados para a minha residência no oásis sul, pois o Sheik deseja expandir sua vigília!”, dizia ele aos prefeitos.

 

Por meses, Karim acumulou uma riqueza ilícita. Sua casa no deserto tornou-se um palácio oculto, cheia de servos que acreditavam estar servindo ao verdadeiro governante. Enquanto isso, o Sheik Omar, ao retornar de suas viagens, estranhava os olhares de medo de seu povo e as reclamações sobre impostos que ele nunca decretara.

 

A farsa ruiu quando um velho sábio, que conhecia a alma de Omar através de seus olhos, percebeu que o 'Sheik' que pedia camelos no mercado não retribuía a paz com a mesma luz de antes. O sábio alertou Omar, que armou uma emboscada de silêncio.

 

Certa tarde, Omar fingiu partir, mas escondeu-se atrás das cortinas da sala de audiências. Karim entrou, altivo, e começou a dar ordens para confiscar mais ouro. No momento em que Karim sentou-se no trono, Omar surgiu das sombras. Era como ver um homem diante de seu próprio reflexo.

 

— “O rosto pode ser o mesmo, meu irmão, disse Omar com uma voz cheia de tristeza, mas o trono não é feito de carne, é feito de confiança. Você roubou o que o dinheiro compra, mas nunca poderá roubar o amor que o povo tem por quem os serve com a verdade.”

 

Karim, tomado pela vergonha, caiu de joelhos. Omar, em sua infinita misericórdia, não o executou, mas o condenou a trabalhar como um simples pastor para os mesmos camelos que ele havia roubado, até que suas mãos calosas aprendessem o valor do suor honesto.

 

Mustafá ajustou seu turbante e olhou profundamente para os presentes, finalizando:

 

"O ensinamento desta história, ó ilustres, é que a personalidade de um homem não está na sua aparência, mas em suas ações. Pode-se enganar os olhos com um rosto idêntico, mas nunca se pode enganar o destino com uma alma roubada. O que é construído sobre a sombra do outro desmorona assim que a luz da verdade brilha, pois ninguém pode sustentar o peso de uma coroa que não conquistou com a própria virtude."



(FONTE: "ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN)


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

ALVORECER - FILEMON MARTINS

 


                               (FOTO DE SANDRO, CARRANCA, BA)



ALVORECER
Filemon Martins



Num festival de luz, a madrugada
vem surgindo no céu, risonhamente:
a Estrela d’Alva brilha alcandorada
sobre a Terra, que a fita, resplendente!

A Natureza, então, qual namorada,
de flores se engalana, sorridente,
cigarras cantam, canta a passarada
agradecendo a Deus esse presente.

E a estrela que brilhava, já sombria
desaparece... e o mundo que dormia,
desperta, alegre, em meio dessa festa...

Não há beleza que se iguale a esta,
quando luzente o sol se manifesta
no começo feliz de um novo dia!...

DEZ ANOS DEPOIS - FILEMON MARTINS

 




 

DEZ ANOS DEPOIS

 

 

Na política, boa parte da população brasileira tem memória curta, curtíssima, visto que já se passaram vários anos, décadas de promessas e mais promessas, e poucas realizações do partido que governa. Na teoria são quase iguais, apenas mudam para se adequar aos novos tempos, conforme a ocasião, para enganar eleitores desavisados e simplórios.

Mas na prática pouco se fez. Enquanto o trabalhador se esfola no dia a dia para ganhar algumas migalhas, o grupo político que está no poder, se enriquece cada vez mais. Vamos reler um texto, publicado pela Revista Veja, em 02/03/2016, de J. R. Guzzo, falecido em agosto de 2025, com o título de AGONIA MORAL:

 

J. R. GUZZO

(REVISTA VEJA, QUE FOI PARA AS BANCAS EM 02/03/2016)

 

“O ex-presidente Lula perdeu o bem mais precioso que poderia ter – a força decisiva para tornar-se alguém que valha a pena como pessoa e como homem público.

A desmontagem da estrutura ética do ex-presidente está sendo feita unicamente através de fatos, não de alegações; e são fatos que não precisam mais ser provados, pois todas as provas já foram exibidas e confirmadas. Mais: nenhum deles, até agora, foi apresentado ao público brasileiro pela oposição, que se limita a acompanhar sua divulgação na imprensa e fazer o mínimo possível de comentários”.

 

Estamos em 2026, dez anos depois e Lula é presidente, já no terceiro mandato e continua fazendo as mesmas promessas para um povo incauto e sem memória. Agora, esbraveja enfurecido, defendendo organizações criminosas que atuam no Brasil, onde criminosos são protegidos e trabalhadores são explorados. E há um contingente de interesseiros e bajuladores que o defendem, com a pretensão de um quarto mandato.

Para nossa ventura, o Brasil é um país grande e exuberante, com certeza sobreviverá a esta hecatombe.

 

 

Filemon Martins

Escritor e poeta

Da Confraria Brasileira de Letras


A RUA QUE EU IMAGINO -GIÓIA JÚNIOR

 




A RUA QUE EU IMAGINO

Gióia Júnior


A minha rua há de ser muito bela.

Não há de ser edificada a limas

com as róseas, doiradas pantomimas

de um menestrel que deslumbrou-se ao vê-la.


Não de ter castelos e vindimas

e fulgores miríficos de estrela;

a minha há de ser simples como as rimas

que ora ocupo entretido a descrevê-la.


Há de ter uma igreja pequenina

(e neste meditar me glorifico)

não haverá badalos e nem dobres...


Ela há de ter o dístico que ensina:

Um pouquinho de paz para o mais rico,

um pedaço de pão para os mais pobres.


(FONTE: "O CÂNTICO NOVO", PÁGINA 36)