sexta-feira, 17 de julho de 2026

TROVAS DE HUMBERTO DEL MAESTRO

 



TROVAS DE HUMBERTO DEL MAESTRO


Se desperto com a aurora,

sinto mimos no meu peito,

pois ouço Nossa Senhora

ninando Jesus no leito.


Sou feliz num mar afora,

quando a manhã se insinua,

velando a garça da aurora,

entre os lampejos da lua.


Escondes um mar nos olhos

cheio de estranhos segredos,

onde naufrago em abrolhos

e me estilhaço em penedos.


Fiquei velho a contragosto,

mas não posso reclamar.

Se o tempo amassou meu rosto

não doeu, foi devagar.


quinta-feira, 16 de julho de 2026

HORAS MORTAS - ALBERTO DE OLIVEIRA

 




 

HORAS MORTAS

Alberto de Oliveira


Breve momento, após comprido dia

De incômodos, de penas, de cansaço,

Inda o corpo a sentir quebrado e lasso,

Posso a ti me entregar, doce Poesia!



Desta janela aberta à luz tardia

Do luar em cheio a clarear o espaço,

Vejo-te vir, ouço o leve passo

Na transparência azul da noite fria.



Chegas. O ósculo teu me vivifica.

Mas é tão tarde! Rápido flutuas,

Tornando logo à etérea imensidade;


E na mesa a que escrevo apenas fica,

Sobre o papel – rastro das asas tuas –

Um verso, um pensamento, uma saudade.



( GRANDES SONETOS DA NOSSA LÍNGUA, PÁGINA 81)


NATUREZA - DJANIRA PIO

 




NATUREZA
         DJANIRA PIO


NA POLUIÇÃO INTENSA
DESSA METRÓPOLE DECADENTE
FLORZINHAS COLORIDAS
RESISTEM.
APRESENTAM-SE
MODESTAS E MIMOSAS.
A MÃO DE DEUS
É PODEROSA
E A DO HOMEM,
MINÚSCULA
É CONTUDO PREDADORA.


(O JORNALZINHO-POSTAL CLUBE, SET/OUT-2003, PÁGINA 12).

SEU RETRATO - DJANIRA PIO

 





SEU RETRATO

Djanira Pio


Na caixa velha
esquecida num canto
encontrei coisas antigas.

Lembranças tão esquecidas
de estradas esmaecidas.
Bem no fundo havia seu retrato.
Um três por quatro desbotado
mostrando um quase sorriso.

Rememorei esse tempo
tão longe que tenho certeza
foi nosso.
E lá se foi o seu retrato.


(ANTOLOGIA 16, POSTAL CLUBE, PÁGINA 52)










quarta-feira, 15 de julho de 2026

CANTO SOLITÁRIO - DELASNIEVE DASPET

 




 

CANTO SOLITÁRIO

Delasnieve Daspet

 


Sou do tempo que não era.

Que não foi e não será.

Um grão de areia no vento a rodar.

Uma gota que não vai ao mar;

Que morrerá nos lábios ressequidos,

Num ríctus de dor que não veem.

Sigo sem rumo, filha do mato.

De florestas distantes, solitária, sem luar.

E, neste caminho, sigo.

Caminho que tracei para mim.

Manhãs escuras.  Todos os dias, vazios,

Só a noite e o dia.  Mais nada há...

As flores que balançam não perfumam por mim.

Mas, não desisto, sou desta Terra, filha guerreira,

Em busca da Paz.


Delasnieve Daspet

13.04.21

 (FONTE AVBAP)

PERSISTÊNCIA - FILEMON MARTINS

 




PERSISTÊNCIA

Filemon Martins


Sou persistente como o garimpeiro

que busca a joia rara e deslumbrante,

cavando a terra, construindo aceiro,

para encontrar, altivo, o diamante.



Sou incansável pelo tempo inteiro,

busco a palavra e o brilho fascinante

do verso ardente, puro e verdadeiro

que brilha como o sol, inebriante.



Ninguém me deterá neste garimpo,

irei, se for preciso até o Olimpo

buscar minha divina inspiração.



E nestes versos pobres, mas floridos

meus sonhos ficarão mais coloridos,

oriundos do Amor, do coração!



(Do livro "Anseios do Coração", página 48)

PALAVRA - DOUMERVAL TAVARES FONTES

 




PALAVRA

DOUMERVAL TAVARES FONTES



Na Bíblia, livro sagrado,

É onde encontramos o registro

Daquilo que Deus quis dizer

A nós... desde o Gênese até o Apocalipse.



Cristo, divino mestre nos guia

Com suas sábias mensagens

Nelas, encontramos respostas

Para nossas indagações.



São mensagens de coragem e exortação.

Quando a consultamos, abrimos

Nosso coração ao que Ele

Espera de nós...



(POSTAL CLUBE, ANTOLOGIA 14, PÁGINA 31)

 

BRASIL MODERNO - FILEMON MARTINS

 




BRASIL MODERNO

Filemon Martins

 

Quem são esses párias do destino

que passam pelas ruas

desamparados e oprimidos?

- São todos trabalhadores

com o salário da fome.

Mas muitos não têm trabalho,

muitos não têm saúde,

vivem todos desnutridos,

- são todos descamisados.

 

E essas crianças abandonadas,

crianças que passam fome,

crianças que não têm nome,

crianças que não têm lar?

E esses idosos tristes,

cabelos brancos, cansados,

que, uma vez aposentados,

são acusados de vagabundos

e vivem nesta imensa fila?

 

O povo já não tem norte,

quer apenas um bom transporte,

mas o trem parte lotado,

o ônibus sempre atrasado,

o metrô abarrotado.

É o caos na cidade grande.

 

Ganha dinheiro o empresário

e os políticos muito mais,

mas o pobre assalariado

recebe cada vez menos.

É mensalão, mensalinho,

é sanguessuga de plantão,

tem até um petrolão.

Não há emprego, nem pão,

nem arroz, carne e feijão,

só se for a prestação,

já que o dinheiro sumiu...

 

 

Eis o retrato do Brasil Moderno:

emendas parlamentares regando a corrupção, luxo e desperdício,

negociatas lá no Planalto,

para o povo mais sacrifício,

cada dia é um novo assalto.

Primeiro Mundo, que horror:

- é a miséria total de nossa gente,

- é a falência de um povo sofredor.

 

- Será esta a Justiça Social que o Brasil almeja e quer?

 

SALVE, CASTRO ALVES - CARLOS RIBEIRO ROCHA

 




SALVE, CASTRO ALVES


Carlos Ribeiro Rocha


Vivendo, embora, a fase Romanismo,

fluia seu civismo com fulgor,

e assim, o moço fez  Condoreirismo,

sendo, ele próprio, o fúlgido Condor.


Amando a liberdade com fervor,

e a pulsar em seu peito o patriotismo,

parlamentou, bradou com destemor,

contra aquela vergonha do Escravismo.


Merece não um só, diversos salves,

pelo seu estro e nobres atitudes,

o imortal  condoreiro CASTRO ALVES


Namorante do mar e das amantes,

no mais pleno vigor da juvntude

nos legou as "ESPUMAS FLUTUANTES".

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                ......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................

TEMPO PARA AMAR - ADRIANA SKAMVETSAKIS

 





TEMPO PARA AMAR

Adriana Skamvetsakis



Ame hoje como nunca amou antes...

Ame hoje como se fosse a primeira vez, com toda intensidade que o encantamento é capaz de produzir...

Ame hoje como se fosse a última vez, com toda profundidade que a despedida pode exigir...

Ame hoje como se fosse um recomeço, com toda resiliência que o perdão pode ensinar...

Ame hoje, com generosidade, leveza e bondade...

Ame hoje, pois o amor é semente para o futuro, alimento para o presente e cura para o passado...

Ame hoje, pois sempre é tempo para amar, para ser amado(a), para aprender a amar...

O amor é sempre a melhor resposta e o maior presente!

15.07.2026

 


terça-feira, 14 de julho de 2026

O MERCADOR CEGO - JOSÉ FELDMAN

 




O Mercador Cego


José Feldman

  

Escute com o coração, ó Protetor dos Desamparados, pois a história do mercador cego é o brilho mais puro de Samarcanda. No canto mais profundo do Souq al-Samt (Mercado do Silêncio), onde a sombra das tamareiras toca o mármore frio, vivia um homem chamado Rashid.

 

Rashid era cego de nascença. Seus olhos eram como duas pérolas foscas que nunca viram a luz do sol. Diante dele, não havia tapetes de seda ou vasos de ouro, mas apenas uma pequena bacia de madeira de sândalo, aparentemente vazia.

 

Diziam os mercadores que Rashid guardava as Joias da Paciência.

 

Certo dia, um jovem rico e impaciente, que buscava poder imediato, parou diante dele. O jovem não compreendia o silêncio e, quebrando o ritual, sussurrou: — 'Velho, onde estão as joias? Só vejo uma bacia vazia!'.

 

Rashid não se irritou. Ele apenas sorriu, um sorriso que parecia vir de um paraíso distante. Ele mergulhou a mão na bacia e, para quem tinha a alma limpa, era possível ver que seus dedos seguravam pedras que brilhavam com uma luz violeta e suave. Eram as joias esculpidas pelo tempo, formadas por cada segundo que um homem espera sem reclamar, por cada dor suportada com gratidão.

 

— “As joias da paciência não se veem com a visão física, meu filho”, disse Rashid com uma voz que parecia o deslizar da areia. “Elas são pesadas. Cada uma carrega o peso de um desejo que foi sacrificado em nome da paz. Quem as possui, não precisa de exércitos, pois sua força é a tranquilidade da alma que ninguém pode abalar.”

 

O mercador cego explicou que ele 'lapidava' aquelas pedras invisíveis ouvindo o crescimento das flores e o movimento das estrelas. Para ele, a cegueira não era um infortúnio, mas um véu que Alá colocara para que ele não se distraísse com as cores falsas do mundo e pudesse focar na verdadeira luz interna.

 

O jovem, tocado por uma súbita humildade, pediu uma daquelas joias. Rashid estendeu a mão e 'entregou' o vazio. No momento em que o jovem aceitou o presente invisível, sentiu um peso enorme em sua palma, seguido por uma calma que nunca experimentara. Ele compreendeu que a paciência não é esperar que algo aconteça, mas a aceitação serena de que tudo acontece no tempo de Allah (Deus).

 

Rashid continuou ali, sentado em seu silêncio, guardando tesouros que os reis cobiçariam se soubessem que a maior riqueza de um homem é a capacidade de esperar com o coração em paz."

 

Escutai com as orelhas da alma, ó nobres ouvintes, pois a luz que guia o cego Rashid brilha mais que o próprio sol ao meio-dia.

 

A moral desta história, ó Sheik, é que a verdadeira visão interior não depende da luz que entra pelos olhos de carne, mas da luz que emana do coração em estado de paciência. O mundo é um mercado de ilusões onde os homens correm atrás de ouro e glórias que o vento apaga, mas quem cultiva a paciência lapida joias que nem o tempo pode corroer.

 

Muitas vezes, reclamamos da nossa necessidade ou do nosso infortúnio, sem perceber que é no silêncio da espera e na aceitação do destino divino que as maiores riquezas são forjadas. O mercador cego era o homem mais rico de Samarcanda não pelo que possuía na mão, mas pela tranquilidade da alma que o tornava imune às tempestades da vida. Quem tem paciência, tem o próprio Alá como guia, e para esse, o invisível torna-se a única realidade que importa.

 

Mustafá inclinou-se profundamente, encerrando sua jornada por Samarcanda.



(FONTE: "ECOS DO DESERTO", ORG. DE JOSÉ FELDMAN)


SÃO DESCRIÇÕES DO ATO DE ESCREVER

 




 

SÃO DESCRIÇÕES DO ATO DE ESCREVER:



"Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias." (Pablo Neruda)


"Escrever é, simplesmente, uma maneira de falar sem que nos interrompam." (Sofocleto)

"É preciso escrever o mais possível como se fala e não falar demais como se escreve." (Sainte-Beuve)


"O ato de escrever é a arte de sentar-se numa cadeira." (Sinclair Lewis)


"Somos todos escritores. Só que uns escrevem, outros não."(José Saramago)

"Escrever é ter coisas para dizer." (Darcy Ribeiro)

"Perdoe-me, senhora, se escrevi carta tão comprida. Não tive tempo de fazê-la curta." (Voltaire)


"Reescrevi 30 vezes o último parágrafo de 'Adeus às Armas' antes de me sentir satisfeito." (Ernest Hemingway)


"Uma história se conta, não se explica." (Jorge Amado)


"Escrevo para que meus amigos me amem ainda mais." (Gabriel García-Márquez)

"Quem não lê não escreve." (Wander Soares)

"Cada um escreve do jeito que respira. Cada um tem seu estilo. Devo minha literatura à asma." (Fabrício Carpinejar)

"Escrever é um ato de liberdade." (Martin Amis)


"Escrever é uma forma de a voz sobreviver à pessoa." (Margaret Atwood)

"De escrever para marmanjos já me enjoei. Bichos sem graça. Mas para crianças um livro é todo um mundo." (Monteiro Lobato)


"Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer é porque um dos dois é burro." (Mário Quintana)

"Existem três regras para escrever ficção. Infelizmente ninguém sabe quais são elas." (W. Somerset Maugham)

"O autor escreve apenas metade de um livro. A outra metade fica por conta do leitor." (Joseph Conrad)


"Corrigir uma página é fácil, mas escrevê-la, ah, amigo! Isso é difícil." (Jorge Luis Borges)


"Escrever não é fácil ou difícil, mas possível ou impossível." (Camilo José Cela)

"Escrever é deixar uma marca. É impor ao papel em branco um sinal permanente, é capturar um instante em forma de palavra." (Margaret Atwood)

"Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida." (Clarice Lispector)

"Para escrever bem é preciso uma facilidade natural e uma dificuldade adquirida." (Joseph Joubert)


"Escrever não é nada mais senão ter o tempo de dizer: estou morrendo." (Gaëtan Picon)


"Uns escrevem para salvar a humanidade ou incitar lutas de classes, outros para se perpetuar nos manuais de literatura ou conquistar posições e honrarias. Os melhores são os que escrevem pelo prazer de escrever." (Lêdo Ivo)


"Escrever é sacudir o sentido do mundo." (Roland Barthes)



Luiz Caversan, 56 anos, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.


Texto publicado no portal Folha On Line em 21/10/2006, conteúdo aberto ao público.

 

 

TROVAS DO FILEMON

 




TROVAS DO FILEMON

 

Não sei em que mundo vives

sem amor, sem compaixão.

Tudo que pregas e dizes

são falácias sem razão.

 

Nesta vida, meu amigo

a Lei é justa e eficaz:

É o retorno que bendigo

de tudo que a gente faz.

 

Quanta gente se imagina

no mundo ser imortal.

Não vê que a vida termina

num silêncio sepulcral.

 

Eu creio que nossa vida

neste Planeta acabou.

Tudo agora é despedida

porque o moderno chegou.

 

Para que agradar a todos,

se a vida é breve jornada?

Melhor viver sem engodos

e vencer a caminhada.