(FOTO DE SAUL RIBEIRO DOS SANTOS)
(FOTO DE SAUL RIBEIRO DOS SANTOS)
O GRITO DO POETA
"Preste atenção, ó Sheik de
Bagdá, pois o que floresce no centro do Oásis dos Espelhos desafia a
compreensão dos homens de pouca fé. Ali, onde as águas do autoconhecimento se
encontram com a areia sagrada, ergue-se a Shajarat al-Hikmah (Árvore da Sabedoria).
Ela não tem folhas de clorofila,
mas sim de papel fino como pergaminho, translúcido e prateado. O tronco é de um
ébano tão escuro quanto a noite sem lua, e suas raízes bebem diretamente do
reflexo das almas.
Dizem as lendas que esta árvore
não fala com uma língua de carne. Quando o vento do deserto sopra entre seus
galhos, as folhas não balançam, elas sussurram. Mas o som que emitem não é o de
palavras comuns; é o som da verdade que cada homem tenta esconder de si mesmo.
Se um homem carregado de pecados
se aproxima, a árvore emite um som de trovão retumbante, que ecoa em seu peito
como o bater de um tambor de guerra. O som diz: 'Até quando fugirás da tua
própria sombra?'. O barulho é tão forte que o pecador muitas vezes cai ao chão,
sentindo o peso de suas escolhas.
Mas, se um homem virtuoso
senta-se sob sua sombra, a árvore canta. É uma melodia de uns (intimidade
espiritual) que lembra o riso de uma criança ou o som de uma fonte no paraíso.
Para esse homem, as folhas de pergaminho começam a mostrar escritas em caligrafia
de luz. São respostas para perguntas que ele ainda nem ousou fazer.
Vi um jovem poeta que perdera a
esperança aproximar-se da árvore. Ele chorava, pois sua musa havia partido. A
árvore, em um gesto de misericórdia, deixou cair uma única folha em seu colo.
Nela, não havia poemas de amor terreno, mas uma única rememoração que dizia: 'O
que você procura, procura por você'. Naquele momento, o jovem compreendeu que a
beleza que ele buscava fora não era nada comparada à que Alá plantara dentro de
sua alma.
A árvore é a guardiã do oásis.
Ela sabe quem mentiu no Mercado de Silêncio e quem foi sincero com o mercador
cego. Ela é o eco da consciência humana amplificado pelo silêncio do deserto.
Muitos tentaram levar uma folha
daquela árvore para Bagdá, ó Sheik. Mas, assim que cruzam a fronteira do oásis,
o pergaminho se transforma em cinzas. Pois a sabedoria da árvore não pode ser
possuída, apenas vivenciada no momento de presença absoluta."
Mustafá fechou os olhos por um
instante, como se ainda ouvisse o sussurro das folhas prateadas.
Escutai com vossa alma, ó
buscadores da luz, pois o balançar das folhas da Shajarat al-Hikmah (Árvore da
Sabedoria) traz uma lição que nenhum livro pode conter sozinho.
A moral desta história, ó Sheik,
é que a verdade não é algo que se busca no mundo exterior com gritos e
demandas, mas algo que se escuta no silêncio do próprio peito. A árvore não
falava palavras novas; ela apenas devolvia aos homens o eco de suas próprias
consciências. Para o injusto, a verdade soa como um trovão aterrador, pois ele
teme o que esconde; para o justo, ela é uma música suave, pois ele vive em
harmonia com o seu Criador.
Muitas vezes, passamos a vida tentando colher os frutos do conhecimento alheio, mas esquecemos que a sabedoria não pode ser roubada ou transportada como mercadoria em uma caravana. Ela deve ser vivenciada na presença do momento. Quem busca a verdade com orgulho encontrará apenas cinzas, mas quem se senta sob a sombra da humildade verá que a vida inteira é uma escrita de luz feita por Alá.
(FONTE "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)
PAZ
A COR DA SAUDADE
Elvira Drummond
Saudade... para alguns tão dolorida...
confesso, aqui, que a sinto diferente.
Não vejo, na saudade, uma ferida
que sangra tão impiedosamente.
Saudade... para mim, é colorida...
visita o meu passado e vai em frente
prossegue perfumando a minha vida,
pescando, da memória, o olhar contente.
Saudade, só se tem de um bom passado...
(razão de o desejar ressuscitado,
qual brasa que, assoprando, acende a chama).
Feliz de quem carrega na memória
retalhos magistrais de sua história.
Saudade é privilégio de quem ama!
(LIVRO "OS ESCOLHIDOS", PÁGINA 14)
ÂNGELUS
Matusalém Dias de Moura
A noite vem caindo, mansamente...
sobre a cidade em brando movimento,
guardando em cada rosto um sofrimento,
enquanto a vida passa lentamente...
Sozinho, conduzido pela mente,
numa prece de choro e de lamento,
vou subindo com fé, com doce alento,
até chegar a Deus onipotente.
Ali, nas mãos do Pai, deixo o pedido
de compaixão por mim, filho perdido,
miserável, pequeno e pecador.
Logo sinto uma paz chegar a mim,
dizendo que meu Deus, ah, me ama, sim,
e que ao próximo devo dar amor...
(LIVRO "SONETOS DO PÔR DO SOL", PÁGINA 76)
O CANTO DO ROUXINOL
José Feldman
O som do silêncio que se instala após o último acorde é o que mais machuca. Não
é a ausência de som, mas o peso do que deveria estar ali e já não está.
Há anos observo aquela gaiola pendurada na varanda do apartamento vizinho,
balançando discretamente ao sabor de um vento que traz o cheiro da chuva, mas
que nunca traz a liberdade. Dentro dela, habita um rouxinol. Um pequeno
fragmento de vida, com penas que perderam o brilho fosco das matas, mas que
carrega nos olhos o tamanho exato de um horizonte que ele desaprendeu a tocar.
O soneto que alguém escreveu um dia sobre ele não mentia. Cada nota que escapa
daquele bico pequenino, nas primeiras horas da manhã, não é um espetáculo para
os nossos ouvidos humanos, é um pranto disfarçado de arte.
O rouxinol canta nas grades da vida, e o eco de sua voz é de uma profundidade
que chega a doer no peito de quem se detém para escutar. Nós, os transeuntes
apressados de nossas próprias rotinas aprisionadas, costumamos chamar aquilo de
"belo cantar". Que terrível cegueira a nossa. Confundir o grito de
socorro de uma alma com entretenimento doméstico.
Olho para ele agora, enquanto o sol desponta timidamente entre as folhas verdes
das árvores da rua. Aquelas árvores estão tão perto. Apenas alguns metros
separam o pássaro do galho mais próximo de uma mangueira frondosa, onde outros
de sua espécie pousam, gritam, brigam e voam sem rumo. A liberdade clama ali
fora, escancarada, vestida de vento e folhas secas que dançam no asfalto. Mas
ele não vai. Ele não pode ir. A fronteira invisível do arame galvanizado define
o limite do seu universo.
Em cada melodia que ele ensaia quando o dia clareia, a vida parece se afrontar.
É um embate silencioso e cruel entre o instinto de ser céu e a realidade de ser
ferro. Há uma tristeza densa, quase palpável, que se instala no ambiente a cada
trinado mais longo. É a melancolia pura de quem sabe exatamente o que perdeu,
mesmo sem nunca ter vivido plenamente o que perdeu. O peito do pequeno cantor
sobe e desce rapidamente, num ritmo frenético que parece subtrair-lhe as
forças, um pouquinho a cada dia. Quantas canções faltam para que o coração dele
desista de bater?
E, no entanto, o mistério mais profundo daquela criatura não é a sua dor, mas a
sua insistência.
Mesmo no calabouço daquela varanda cinzenta de cimento encardido, há algo
dentro daquele peito que se recusa a morrer. Uma canção esperançosa insiste em
brotar de onde só deveria haver desespero. A alma do rouxinol não se esquece de
amar. Ele ama o fiapo de sol que toca a gaiola às nove da manhã. Ele ama a água
fresca que trocam de seu pequeno pote. Ele ama, acima de tudo, a própria
memória do voo, uma herança genética de asas abertas que o tempo e o cativeiro
não conseguiram apagar.
Ele canta na busca de um ramo, de uma vida que ele intui ser gloriosa e vasta.
O canto ainda ecoa pela vizinhança, cortando o barulho dos motores e das
buzinas, mesmo que a chorar. É um choro afinado, uma lágrima em forma de
solfejo que atravessa as frestas da minha janela e me faz parar o café pela
metade, com os olhos fixos no vazio.
Quantos de nós também não cantamos nossas dores em nossas próprias gaiolas
invisíveis, esperando que alguém entenda o código do nosso lamento?
Fico olhando o pequeno rouxinol e uma onda de melancolia me invade por
completo. Penso na fragilidade da vida, no tempo que passa e nas correntes que
nós mesmos criamos ou aceitamos carregar. Mas o soneto termina com uma
promessa, e é nela que decido ancorar o resto do meu dia, para não sucumbir à
tristeza de vê-lo ali.
Um dia, as correntes irão se desfazer. Seja pela mão compassiva de quem
finalmente enxergar a crueldade daquele cativeiro, seja pelo ciclo inevitável
da própria natureza que a tudo liberta no final. O rouxinol livre poderá
renascer. Suas asas, hoje entorpecidas, encontrarão o ponto de apoio exato na
densidade do ar. Ele subirá tão alto que o som do seu canto finalmente deixará
de ser um lamento para se tornar, em absoluto, a pura tradução do espaço.
Até lá, eu continuo aqui, na janela da minha própria solidão, servindo de
testemunha e plateia para a mais triste e bela ópera da terra: o canto de quem
sofre, mas não desiste de esperar o céu.