FOTO DE LALINHA, IPUPIARA, BAHIA)
FOTO DE LALINHA, IPUPIARA, BAHIA)
MORTE DA ÁRVORE
(Lendo o soneto
ÁRVORE MORTA, do Padre Saturnino de Freitas)
Filemon Martins
Árvore triste, que
ontem foi bonita,
não tens mais ramos,
frutos e nem flores,
dos pássaros não és
mais favorita
e não abrigas mais
tantos amores.
Neste teu tronco já
ninguém habita,
sequer amantes
loucos, sonhadores,
que outrora
segredavam na Mesquita
de suas folhas
vivas, multicores...
Quantas vezes
ouviste namorados
em carinhos e
beijos, descuidados,
como se o tempo não
fosse passar.
Hoje, teus galhos
secos, ressequidos,
são lembranças de
sonhos esquecidos,
que nunca mais, na
vida, vão voltar!
AMORES NA MOCIDADE
José Feldman
TROVA DO PROFESSOR FRANCISCO GARCIA
Amores na mocidade!...
Depois, a contrapartida:
cansaço, dor e saudade
na curva extrema da vida!
Na pequena cidade de Flor do Campo, onde o sol sempre
brilhava e as flores coloridas enfeitavam as ruas, vivia uma jovem chamada
Nara. Em sua juventude, era conhecida por sua beleza radiante e sua risada
contagiante. Ela sonhava com grandes amores, com aventuras que a levariam a
lugares distantes e emocionantes. Ao lado de suas amigas, costumava passar as
tardes discutindo sobre os romances que lia e imaginando o príncipe encantado
que um dia aparecería em sua vida.
Certa manhã, enquanto caminhava pelo parque, encontrou um
jovem chamado Lúcio. Ele era diferente de todos que conhecia: tinha um olhar
profundo e um jeito tranquilo que a encantava. Os dois logo se tornaram
inseparáveis, compartilhando risadas, sonhos e promessas de um futuro juntos.
Os dias se transformaram em meses, e aqueles momentos de amor intenso pareciam
eternos. Eles faziam planos, falavam sobre construir uma vida juntos e
acreditavam que a felicidade seria infinita.
Contudo, com o passar do tempo, a paixão que os unia
começou a se transformar. As diferenças entre eles se tornaram evidentes, e as
pequenas desavenças que antes eram insignificantes começaram a se acumular.
Lúcio, que sempre fora sonhador, agora se via pressionado a assumir
responsabilidades que não desejava. Nara, por sua vez, aspirava por aventuras e
desafios, enquanto ele buscava segurança e tranquilidade. O amor que antes
parecia inabalável começou a fraquejar sob o peso das expectativas e da realidade.
Após alguns meses de tentativas frustradas de resolver suas
diferenças, eles decidiram se separar.
O término foi doloroso, e ambos sentiram a perda de um
futuro que acreditavam ser certo. Nara, em particular, sentiu uma onda de
saudade que a envolveu como um manto pesado. As memórias dos momentos felizes
pareciam agora uma sombra do que poderia ter sido. A cidade que antes vibrava
com as cores de sua juventude agora parecia mais cinzenta e solitária.
Com o passar do tempo, ela buscou consolo em novas
amizades, mas a dor da perda permanecia. Percebeu que, apesar da beleza dos
amores da mocidade, havia uma contrapartida que não se podia ignorar: o cansaço
emocional, a dor da saudade e a sensação de que algo precioso havia sido
deixado para trás. Ela começou a refletir sobre o que realmente significava o
amor e como, muitas vezes, ele podia ser fugaz e decepcionante.
Anos se passaram, e ela se tornou uma mulher mais madura.
Viveu novos relacionamentos, cada um trazendo suas próprias lições e desafios.
Aprendeu a valorizar não apenas os momentos de alegria, mas também as
dificuldades que moldavam seu caráter. As cicatrizes emocionais que carregava
se tornaram parte de sua história, e ela começou a aceitar que o amor, em suas
diferentes formas, é uma jornada repleta de altos e baixos.
Um dia, durante um passeio pelo parque, encontrou Lúcio
novamente. Ambos estavam mais velhos, com marcas de vida que contavam histórias
de amores e perdas. Eles se cumprimentaram com um sorriso tímido, lembrando-se
da intensidade da juventude. A conversa fluiu naturalmente, e logo estavam
rindo das lembranças que compartilhavam.
“Você se lembra daquele verão?”, perguntou Nara, com um
brilho nostálgico nos olhos. “Aquele em que prometemos que seríamos sempre
felizes?” ele sorriu, mas havia uma tristeza em seu olhar. “Sim, eu me lembro.
Mas a vida nos ensinou que a felicidade é feita de muito mais do que apenas
promessas.” A conversa se aprofundou, e os dois compartilharam suas
experiências, seus erros e aprendizados ao longo dos anos. Ela percebeu que,
apesar da dor e da saudade, havia algo belo na jornada que vivera. Cada amor,
cada desilusão, havia contribuído para a mulher que se tornara. Ela compreendeu
que, embora a vida pudesse ser desafiadora, cada capítulo era essencial para
seu crescimento.
Ao final do encontro, eles se despediram com um abraço
sincero, cada um levando consigo uma sensação de paz. Ela percebeu que os
amores na mocidade, com suas alegrias e tristezas, não eram em vão. Eles faziam
parte dos retalhos da vida, cada tecido contribuindo para a imagem mais ampla
de quem ela era.
E assim, com o coração mais leve, caminhou de volta para
casa, sabendo que a vida, com suas curvas extremas, era uma jornada que valia a
pena. A moral dessa história ficou clara em sua mente e coração:
Os amores da juventude, com suas alegrias e dores, são
fundamentais para moldar quem nos tornamos, e mesmo na saudade, há beleza e
aprendizado.
A VERDADEIRA FACE
José Feldman
TROVA DE FILEMON MARTINS
Da vida não quero a glória
que tanto engana e seduz.
Prefiro não ter história
a renunciar minha cruz.
Numa pequena vila, onde as montanhas se erguiam majestosas
e os rios cantavam em seu leito, vivia um homem chamado Elias. Ele era um
camponês simples, conhecido por sua generosidade e pela serenidade que exalava.
Enquanto os outros aldeões se deixavam levar pela busca incessante por fama e
riqueza, ele se dedicava a cultivar sua horta e cuidar de sua família. Para
ele, a vida era uma jornada de aprendizado, e não uma corrida em busca de
reconhecimento.
Certa vez, durante uma festa na aldeia, um viajante chegou,
trazendo consigo histórias de grandes conquistas e glórias. Ele falava de
palácios, tesouros e da admiração que recebia por onde passava. Os aldeões,
fascinados, rodearam o homem e deixaram de lado suas atividades cotidianas. O
viajante, percebendo a atenção que atraía, começou a incitar a ambição nas
pessoas, sugerindo que a vida sem glória era uma vida sem valor.
Elias, que observava em silêncio, sentiu um desconforto
crescente. Ele conhecia as armadilhas que a busca pela glória podia trazer. Não
era a fama que deixava marcas na alma, mas a vivência honesta e autêntica de
cada dia. Ao final do evento, ele se aproximou do viajante e, com um olhar
calmo, disse: “Da vida não quero a glória que tanto engana e seduz. Prefiro não
ter história a renunciar minha cruz.”
O viajante riu, achando que o camponês falava de maneira
ingênua. “Como pode não querer ser lembrado? A história é o que nos torna
imortais!”
Elias, porém, não se deixou abalar. Ele sabia que a
verdadeira imortalidade não estava em ser lembrado, mas em deixar uma marca no
coração das pessoas ao seu redor, por meio de ações simples e significativas.
Com o passar dos dias, o viajante decidiu ficar na aldeia,
convencendo alguns moradores a se juntarem a ele em sua busca por riqueza e
fama. Prometeu que, juntos, poderiam conquistar o mundo e ser lembrados por
gerações. Muitos se deixaram seduzir por suas promessas, abandonando suas
terras e suas tradições em busca de um futuro glorioso.
Enquanto isso, Elias continuou sua vida simples, cuidando
de sua horta e ajudando os vizinhos. Ele não se importava com o que os outros
pensavam, pois sabia que a verdadeira felicidade residia nas pequenas coisas: o
canto dos pássaros, o crescimento das plantas, o riso de uma criança. Ele
carregava em seu coração o peso da cruz, mas essa cruz, longe de ser um fardo,
era um símbolo de sua resiliência e de sua conexão com a vida.
O tempo passou e o viajante, junto com seus seguidores,
partiu em busca de aventuras. Prometeu voltar com riquezas e histórias que
deixariam todos deslumbrados. No entanto, meses se passaram sem notícias, e a
vida na aldeia continuou seu curso. Aqueles que deixaram suas raízes começaram
a sentir a falta do lar, da simplicidade e do calor humano que haviam
abandonado.
Um dia, após um ano de ausência, o viajante voltou, mas não
como um herói. Ele apareceu desolado, com roupas rasgadas e o olhar vazio. Os
que estavam com ele o seguiam, mas seus rostos eram marcados pela fadiga e pela
desilusão. O que havia prometido se revelou uma ilusão: a busca pela glória os
levou a um caminho de frustração e solidão.
Elias, ao ver o viajante em tal estado, sentiu compaixão.
Ele se aproximou e ofereceu-lhe água e comida. “A vida é um ciclo, e às vezes
as escolhas que fazemos nos ensinam lições difíceis”, disse.
O viajante, agora sem palavras de bravura, apenas assentiu,
compreendendo a profundidade do que o camponês havia tentado lhe ensinar desde
o início.
Aqueles que retornaram com o viajante, ao observar a
simplicidade da vida de Elias, começaram a perceber o valor que havia em suas
ações cotidianas. Eles se sentaram ao seu redor e ouviram suas histórias sobre
como, mesmo sem fama, ele tocava a vida das pessoas ao seu redor. Ele falava
sobre a importância de estar presente para os outros, de cultivar
relacionamentos e de encontrar beleza nas pequenas coisas.
Com o tempo, a aldeia se transformou. As pessoas começaram
a valorizar o que realmente importava: a comunidade, a solidariedade e a
autenticidade. A busca pela glória deu lugar a um desejo de ser útil e de viver
com propósito. A vida de Elias se tornou um exemplo, não de fama, mas de
integridade.
O viajante, que antes acreditava que a glória era tudo,
começou a entender que a verdadeira riqueza estava nas conexões que se formam
ao longo da vida. Ele se tornou um contador de histórias, mas agora suas
histórias eram sobre humildade, aprendizado e a beleza de uma vida bem vivida.
Elias, por sua vez, continuou a viver de acordo com suas
convicções. Ele nunca se preocupou em deixar uma grande história como legado.
Para ele, o que realmente importava era o amor que compartilhava e o impacto
que tinha nas vidas ao seu redor. Ao final de seus dias, ele partiu em paz,
sabendo que havia vivido plenamente, sem renunciar à sua cruz, mas sim
abraçando-a como parte essencial de sua jornada.
E assim, nesta pequena vila, a verdadeira glória não estava
nas histórias grandiosas, mas nas vidas que foram tocadas pela simplicidade,
pela bondade e pela autenticidade de um homem que preferiu não se deixar
seduzir pelas ilusões da fama.
PREVISÕES E ILUSÕES
José Feldman
TROVA DE ARTHUR THOMAZ
O profeta idealiza
o futuro, em previsões...
E o poeta o finaliza
colorindo-o de ilusões...
O profeta idealiza o futuro, erguendo-se como uma figura
solene em meio ao tumulto do presente. Em uma pequena aldeia, ele caminhava
pelas ruas de paralelepípedos, suas vestes longas esvoaçando ao vento. Os
aldeões paravam para ouvi-lo, atraídos por suas palavras que pareciam trazer
uma luz nas trevas da incerteza. Suas previsões eram como faróis em noites
tempestuosas, guiando-os através das tormentas da vida.
“Um dia”, ele proclamava com a voz firme, “as colheitas
serão fartas, e a paz reinará entre nós. A era da prosperidade está por vir,
bastando que nos unamos em fé e determinação.”
As palavras do profeta, repletas de esperança e otimismo,
ecoavam por toda a aldeia, e, por um momento, acendiam a chama da expectativa
nos corações dos ouvintes. Ele era um visionário, um sonhador que via além do
horizonte, onde a realidade se confundia com a fantasia.
Mas, em meio a essa atmosfera de esperança, existia outro
personagem, um poeta que observava tudo com um olhar perspicaz. Ele estava
sempre à sombra das árvores, com um caderno em mãos, onde registrava não apenas
as previsões do profeta, mas também as nuances da vida que se desenrolavam ao
seu redor. O poeta via a beleza nas pequenas coisas, mas também sentia o peso
das dores e desilusões que permeavam a existência dos aldeões.
Enquanto o profeta falava de um futuro glorioso, o poeta
ouvia e refletia. Ele sabia que as previsões eram apenas isso: previsões. Não
se tratava apenas de um futuro idealizado; era necessário colorir essas
palavras com a realidade das emoções humanas. A esperança, sem questionamentos,
poderia ser uma armadilha, e ele desejava que as pessoas não se deixassem levar
apenas pelas promessas.
Certa manhã, após uma longa noite de reflexão, o poeta
decidiu que era hora de compartilhar sua visão. Ele subiu a uma pequena colina,
onde o profeta costumava pregar, e começou a recitar seus versos.
“O futuro, caro povo, não é apenas o que se sonha, mas
também o que se vive. As ilusões podem ser lindas, mas são as verdades que nos
moldam.”
Suas palavras dançavam no ar, misturando-se ao vento que
passava.
Os aldeões, inicialmente confusos, começaram a ouvir com
atenção. O poeta falava sobre a fragilidade da esperança e a beleza das
cicatrizes que cada um carrega em sua alma.
“Em cada sorriso escondido, há uma lágrima que não foi
enxugada. Em cada sonho realizado, uma renúncia ficou para trás.”
Ele coloria o futuro não apenas com a paleta da esperança,
mas também com as sombras da realidade.
O profeta, que até então ouvira em silêncio, sentiu-se
incomodado. Ele acreditava que seu papel era inspirar e elevar os espíritos,
enquanto o poeta parecia querer puxar as pessoas de volta para o chão.
“Mas o que é a vida sem sonhos?”, questionou o profeta.
“Como podemos viver sem acreditar em um futuro melhor?”
O poeta olhou nos olhos do profeta e respondeu:
“Os sonhos são essenciais, mas não devem nos cegar. O
futuro é construído sobre as bases do presente. Precisamos reconhecer nossas
dores, nossas falhas, para que possamos realmente transformar o que está por
vir.”
Havia uma tensão no ar, uma batalha de ideias entre o
idealismo do profeta e o pragmatismo do poeta.
Os aldeões, fascinados pela troca,
começaram a refletir sobre suas
próprias vidas. Era verdade que o
profeta trazia esperança, mas
também era verdade que o poeta
oferecia uma visão mais completa.
As ilusões que o poeta coloria não
eram meras escapadas; eram uma
forma de abraçar a complexidade da
vida.
Com o passar dos dias, a aldeia começou a mudar. As pessoas
começaram a falar mais, a compartilhar suas histórias, seus medos e suas
esperanças. O profeta e o poeta, ao invés de se oporem, começaram a trabalhar
juntos.
O profeta falava sobre o futuro e a importância de sonhar,
enquanto o poeta trazia as verdades do presente, colorindo os sonhos com a
realidade das experiências vividas.
Juntos, eles formaram uma aliança poderosa. O profeta
idealizava, mas agora com a consciência das lutas que os aldeões enfrentavam. E
o poeta finalizava, não apenas com ilusões, mas com a rica tapeçaria de emoções
que compunham a vida de cada um. As previsões do profeta agora estavam
entrelaçadas com as verdades do poeta, criando uma narrativa mais profunda e
rica.
A aldeia floresceu, não apenas em termos de prosperidade
material, mas em conexões humanas. As pessoas aprenderam a sonhar, a esperar
pelo futuro, mas também a viver intensamente o presente. O futuro não era
apenas um destino a ser alcançado, mas uma jornada a ser apreciada, cheia de
cores, sombras e nuances.
E assim, sob a luz do sol poente, o profeta e o poeta
caminhavam lado a lado, reconhecendo que, juntos, poderiam iluminar não apenas
o horizonte, mas também os corações da aldeia. O futuro, agora, não era apenas
uma promessa, mas uma tela em branco, onde cada um poderia pintar sua própria
história, entrelaçando sonhos e realidades em uma dança harmoniosa.
A VOZ DO SILÊNCIO
Elvira Drummond
Silêncio, qual palavra emudecida,
traz cores variadas... ramalhete
de mil palavras-flores que o verbete,
à luz do amor, me faz esclarecida.
Silêncio, qual pincel que pinta a vida,
bem pode navalhar - um estilete -
e assim também, no avesso, em acolhida,
tocar no tom de um doce clarinete...
Silêncio, qual magia, tem mil faces
vestidas de rumores e entrelaces
que vibram na mudez dos sonhos meus...
Parece que o silêncio, cristalino,
é dádiva dos céus... é tão divino,
que escuto, no silêncio, a voz de Deus!
(LIVRO "OS ESCOLHIDOS versos diversos", página 45)
MÁSCARAS DA VIDA
José Feldman
TROVA DE RENATO ALVES
Fiz da vida um carnaval,
mas terminei num impasse:
A máscara do irreal
grudou-se na minha face!
Fiz da vida um Carnaval, onde cada dia era uma nova festa,
uma celebração vibrante de cores e sons. Desde pequeno, sempre encontrei na
música e na dança um refúgio, uma forma de esquecer as dores e as frustrações
do cotidiano. As ruas da cidade se tornavam meu palco, e eu, um artista em
busca de aplausos e sorrisos. As fantasias que usava não eram apenas trajes,
mas armaduras que me protegiam da realidade. Cada máscara que eu colocava me
permitia ser quem quisesse, longe das amarras do eu cotidiano.
Naquele Carnaval, tudo era permitido. Sorrir, dançar, amar
sem medo. As pessoas se entregavam à euforia, e eu, em meio a essa alegria, me
sentia invencível. As cores se misturavam, as risadas ecoavam e a música
envolvia tudo como um abraço caloroso. Mas, à medida que os dias passavam,
percebi que havia algo mais profundo escondido atrás da festa. A realidade,
como um espectro, pairava à espreita, esperando o momento certo para se
revelar.
O que começou como uma celebração transformou-se em um
labirinto de ilusões. A cada desfile de Carnaval, percebia que as risadas se
tornavam mais distantes, os olhares mais vazios. As pessoas, antes tão
vibrantes, pareciam presas em suas próprias fantasias, vivendo uma vida que não
era a sua. Eu também me vi preso nesse ciclo. A alegria que antes me preenchia
começou a se transformar em uma máscara pesada, grudada em meu rosto como um
lembrete constante de que a vida estava se tornando uma encenação.
Certa noite, enquanto as luzes do Carnaval brilhavam
intensamente, eu me afastei da multidão. O som da música se tornava um ruído
ensurdecedor, e a dança, uma repetição mecânica de movimentos. Sentei-me à
beira de um lago, onde a água refletia as estrelas como pequenos diamantes no
céu. Olhei para meu reflexo e percebi a verdade que eu havia ignorado. A
máscara do irreal não era apenas um adorno; tornara-se parte de mim, uma
segunda pele que ocultava quem eu realmente era.
A realidade começou a se infiltrar em meus pensamentos. O
que eu havia construído em torno de mim era uma fantasia que me afastava de uma
vida autêntica. A busca incessante por aprovação e aplausos me deixava em um
impasse, preso entre a necessidade de ser visto e o desejo de ser verdadeiro. O
Carnaval, que deveria ser um momento de libertação, transformou-se em uma
prisão de ilusões.
Naquela noite à beira do lago, decidi que era hora de
desmascarar a verdade. O primeiro passo foi enfrentar a dor que eu havia
ignorado por tanto tempo. As memórias de perdas, de desilusões, de momentos em
que a vida não foi uma festa. Enfrentei cada uma delas, uma a uma, permitindo
que a tristeza e a vulnerabilidade emergissem. Com lágrimas nos olhos, percebi
que era essa autenticidade que me tornava humano, que me conectava aos outros
de forma genuína.
Na manhã seguinte, acordei com o sol filtrando-se pelas
janelas. O Carnaval ainda pulsava lá fora, mas eu estava disposto a participar
dele de uma maneira diferente. Não como um espectador, mas como alguém que
escolhe dançar ao ritmo de sua própria música. Comecei a me despir das máscaras
que havia usado por tanto tempo, uma a uma. Cada peça que caía ao chão era um
peso a menos, uma libertação da expectativa que havia me aprisionado.
Ao longo dos dias que se seguiram, a vida continuou a ser
um Carnaval, mas agora eu participava dele de forma autêntica. Aprendi a rir
sem medo, a dançar sem vergonha e a amar sem reservas. A máscara do irreal, que
antes grudara-se em meu rosto, agora era apenas uma lembrança de um tempo em
que eu não sabia quem era. Eu me permiti ser vulnerável, e essa vulnerabilidade
me trouxe uma força inesperada.
As pessoas ao meu redor começaram a notar a mudança. O
brilho em meus olhos não era mais uma ilusão, mas a chama de alguém que havia
encontrado seu verdadeiro eu. As conexões se tornaram mais profundas, as
risadas mais sinceras. Eu não precisava mais da aprovação alheia; a alegria que
eu buscava estava dentro de mim, e a vida se transformou em uma celebração
genuína.
O Carnaval se tornou uma metáfora da vida. Aprendi que,
mesmo nas festas mais vibrantes, é essencial estar em contato com a realidade,
com a dor e com a alegria que a vida traz. A máscara do irreal, que um dia me
aprisionou, agora estava guardada como um símbolo de uma jornada de
autodescoberta. E assim, enquanto a vida continuava a ser um Carnaval, eu
dançava livre, com o coração leve, pronto para enfrentar o que quer que viesse,
sempre fiel à verdade do meu ser.