sexta-feira, 3 de julho de 2026

TROVAS DE MARIA THEREZA CAVALHEIRO

 




TROVAS PARA REFLETIR

MARIA THEREZA CAVALHEIRO


Quem não faz, risco não corre.
Erro... engano...quem não falha?
Só pode errar quem socorre,
age, executa, trabalha!

A cada dia que passa,
a vida é prêmio em disputa.
A roupa é simples couraça
com que se parte pra luta.

Trabalho não intimida
quem enfrenta os seus rigores.
E é bom que sejas na vida
o melhor no que tu fores!

Quem labuta e não receia
viver por seu ideal,
se da sela não apeia,
um dia chega, afinal.


(Do livro TROVAS PARA REFLETIR, PÁGINA 13)

TROVAS DE J. G. DE ARAÚJO JORGE

 




TROVAS DE J. G. DE ARAÚJO JORGE


Por certo a pior solidão
é aquela que a gente sente
sem ninguém no coração...
no meio de muita gente...

Praias longe, em solidão,
fora de todas as rotas,
tal como o meu coração
só com o sonho... das gaivotas...

Enriquece quem mais tira...
Trabalhar? Lenta agonia...
Democracia? Mentira!
Simples Dinheirocracia...

Ó liberdade, o teu crime
é ser burguesa também
e servir a esse regime
em que “só vale quem tem”!

(Livro "TREVOS DE QUATRO VERSOS, - TROVAS", 1964)

TROVAS DO JERRY FILHO

 




TROVAS DO JERRY FILHO


Já dizia um certo nobre
ao filosofar aos seus:
“aquele que empresta ao pobre,
simplesmente dá... Adeus!”

Cada trovinha que escrevo,
muito feliz, qual um bravo
- de quatro folhas – é trevo,
- de amores – é lindo cravo!

Pela sombra do destino
o qual traça a diretriz,
viajo desde menino
na ilusão de ser feliz.

Nesta vida amargurada
onde o mal se opõe ao bem,
a poesia é nossa fada
no Universo ou mesmo além.


(Revista A FIGUEIRA, 1998, página 06)

TROVAS BRASILEIRAS

 




TROVAS BRASILEIRAS
 

Nuvens que vejo ao sol posto
fico a pensar com meu eu:
Parecem rugas no rosto
da tarde que envelheceu.
        
Geraldo Amâncio

Se alguma dor te entristece,
levanta-te, abre as janelas
e ao fervor de tua prece,
deixa Deus entrar por elas...
        
Thalma Tavares

Esconde o pranto depressa
e finge que estás contente,
que aos outros não interessa
saber as mágoas da gente.
        
Maria Thereza Cavalheiro

As sombrias madrugadas
- discretas, sem alaridos -,
são testemunhas caladas
dos amores mais sofridos...

        Lucília Decarli

A CIDADE DOS SONHOS - JOSÉ FELDMAN

 





 A Cidade dos Sonhos


José Feldman

  

"Salam’aleikum" (que a paz esteja convosco), meus incansáveis ouvintes. Aproximem-se, pois o que vou lhes contar agora exige que seus corações estejam abertos como as pétalas de um jasmim noturno. Eu, Mustafá, caminhei por areias que não guardam pegadas e vi cidades que os mapas dos homens, por puro medo, decidiram omitir.

 

"Bismillah" (Em nome de Deus), entremos nos domínios do invisível.

 

Diz a lenda que, no coração do deserto de Rub' al-Khali, existe uma cidade chamada Madinat al-Ahlam (a Cidade dos Sonhos). Ela não é feita de pedra e cal, mas de luz e memória. Dizem que suas torres são de marfim e suas cúpulas brilham como se o próprio sol tivesse decidido descansar nelas.

 

Muitos viajantes tentaram encontrá-la. Alguns voltaram loucos, outros nunca mais foram vistos. Mas houve um jovem, um pastor de camelos chamado Yusuf, que certa noite, sob o brilho de uma lua de prata, avistou os portões da cidade.

 

"Ya Allah" (Ó Deus), exclamou ele ao atravessar as portas. 

 

Dentro da cidade, não havia comércio, nem moedas, nem gritos. As pessoas caminhavam em paz, e as fontes jorravam uma água que curava toda a tristeza. Ali, o tempo não era um carrasco, mas um amigo. Yusuf sentiu-se em casa como nunca antes. 

 

"Ahlan wa Sahlan" (Bem-vindo), disseram-lhe os habitantes, cujas vozes pareciam o som do vento nas palmeiras.

 

Porém, havia uma regra: ninguém poderia levar nada da cidade, nem mesmo uma pedra do chão. Quando o primeiro raio de sol tocou o horizonte, "Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), Yusuf sentiu o chão tremer. A cidade começou a desvanecer como a névoa matinal. Ele tentou agarrar um punhado de areia dourada de um jardim, mas quando abriu a mão, só havia poeira comum.

 

A cidade desaparecia ao amanhecer porque ela não pertencia ao mundo das posses, mas ao mundo das intenções. "Maktub" (está escrito): ela só se revela para quem não busca o lucro, mas o propósito. 

 

Yusuf passou o resto de seus dias contando o que viu, e embora muitos rissem, seus olhos mantinham o brilho de quem conheceu a eternidade em uma única noite.

 

A lição, meus caros, é que as coisas mais belas da vida são aquelas que não podemos guardar no bolso, apenas na alma. 

 

Obrigado por compartilharem este silêncio 

comigo. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de 

Deus esteja com vocês).




(FONTE: "ECOS DO DESERTO", ORG. JOSÉ 

FELDMAN) 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

TROVAS DO FILEMON

 




TROVAS DO FILEMON


 

Quanta gente não percebe

e a vida acaba em transtorno:

O que se faz se recebe,

é a sábia Lei do retorno.

 

¨Não há vaga¨. Está escrito

naquele grande portão.

E o trabalhador, aflito,

não tem arroz nem feijão.


Ao ver as marcas no rosto

pelo espelho me ocorreu:

- São troféus e não desgosto

que esta jornada me deu.

 

Quanto sucesso almejado

para chegar no apogeu.

Hoje triste e desprezado

percebe que não viveu.

 

Nada valeu as manobras

que fez com grande escarcéu.

Sem fé não há boas obras

que o leve perto do céu.

 

CRESTOMATIA DE TROVAS Nº 04, ORG. DE JOSÉ FELDMAN

 





CRESTOMATIA DE TROVAS Nº 04-JULHO 2026, ORG. DE JOSÉ FELDMAN

 

 

Era um guri tão terror,

que a escola inteira o temia.

Cresceu... virou professor...

paga com juro hoje em dia!

A.    A. De Assis Maringá/PR

 

Perco a calma se demoras...

Mas chegas e, ao te abraçar,

quisera reter as horas...

fazer o tempo parar...

Abigail De Araújo Lima Rizzini Nova Friburgo/RJ

 

Num dos rodeios da vida

conquistei o meu espaço...

Não pela prova vencida,

mas por vencer meu fracasso!

Abílio Kac Rio de Janeiro/RJ

 

Quem seu ciúme proclama,

fazendo questão de expô-lo,

insulta aquela a quem ama,

e ainda faz papel de tolo…

Adalberto Dutra Resende Bandeirantes/PR (1913 – 1999)

 

Num mundo congestionado,

em qualquer parte da terra,

o lema está consagrado:

"Se queres paz, vai à guerra".

Adamo Pasquarelli São José dos Campos/SP

 

Nossa história inacabada

acabou sem começar…

é uma página virada

que eu tento em vão resgatar.

Alba Christina Campos Netto São Paulo/SP


SALVE, A BAHIA! - JOAQUIM RODRIGUES DE NOVAIS

 






SALVE, A BAHIA!

Joaquim Rodrigues de Novais

 

Bahia maravilhosa, Terra de Vera Cruz

e das mulheres corajosas que se vestiam
como homens com muito amor para
defender nossa terra,

Bahia de São Salvador.


Bahia do apetitoso acarajé,

aqui colhe quem planta com fé,

hoje eu te saúdo com alegria

minha linda e abençoada Bahia.
  
Obrigado a esse povo valente,

povo gentil e forte que defendeu

com unhas e dentes não só a Bahia,

mas também o nosso imenso Brasil.

 

Ipupiara, 02 de julho de 2026


quarta-feira, 1 de julho de 2026

A EXECUÇÃO DE CARLOS LAMARCA EM IPUPIARA - ARIDES LEITE SANTOS

 





A EXECUÇÃO DE CARLOS LAMARCA EM IPUPIARA

Arides Leite Santos

 

 

        Agosto de 1971. Aos 6 anos e 7 meses de idade, Euzim havia saído de casa na Rua Rui Barbosa, levando de comer para a casa de seus avós, na Rua das Fruteiras, perto do cemitério. Uma calmaria insossa anunciava o que seria mais um daqueles dias monótonos, longos, de sol escaldante, como sói acontecer no semiárido do sertão; um dia como outro qualquer. No meio do caminho, nas proximidades do prédio da Escola Batista Ruth Isabel de Souza, subitamente, deparou com um comboio de caminhões, abarrotados de homens sentados, sob uma cobertura de lona, cantando sabe-se lá o quê, em vozes altissonantes, esbanjando sorriso nos rostos, armados com faca pendurada de lado e fuzil ou metralhadora exibido com as mãos, ostentando uma demonstração de poder e força capaz de meter medo até em cabra valente. A súbita visão da carruagem de homens sorridentes, viçosos, lisos, brilhando de gordos, em contraste com a imagem de rostos murchos e tristonhos, gravada em sua tenra memória, deixou-o tão assombrado que a válvula do seu infante coração só não explodiu, ele crê, pela misericórdia de Deus. E-agora-José? Dominado pelo medo, sem ânimo para sequer pensar sobre um possível motivo do aparecimento daquilo que seus olhos viam, levou às pernas uma força oriunda do instinto de sobrevivência, voltou disparado para casa, o coração saindo pela boca. Tendo conseguido adentrar o asilo inviolável, jogou o de comer pra lá e foi se enfiar no lugar mais recôndito que havia em casa. A mãe o viu chegar correndo. Assustada com aquele avexame de menino assombrado em plena luz do dia, veio perguntando o que houve. Se não lhe tivesse faltado o fôlego, com certeza ter-lhe-ia dito:

        - Mãe, o que é eu não sei não, mas deve ser o fim do mundo! Ela ainda estava sem saber de nada, até ali ninguém sabia de nada. E assustada ficou a perguntar:

        - O que é?!... O que é?! Ai, ai, ai!!!... O que foi que “tu viu”, menino?!

        Sem fôlego para balbuciar sequer uma palavra, esbaforido, enfiou-se debaixo de uma cama de ferro, através de uma frincha pela qual mal passava a cabeça, e ali permaneceu recluso, contemporizando o monstruoso sentimento que abalara os fundamentos de sua alma.

        Um exército de homens incursionou em Ipupiara à procura do homem mais procurado do Brasil. Em questão de dias, conquistaram a simpatia do povo, cortando o cabelo de graça, instalando postes para iluminar a cidade com gerador e motor a diesel, muitas outras bondades fizeram no intuito de lograr êxito na árdua tarefa que teriam doravante: convencer os autóctones da justiça da causa ignóbil que os levava a armar suas tendas ali.

        No Morro do Cruzeiro e adjacências, homens do Exército Brasileiro gastaram munição de metralhadora, treinando tiro ao alvo na selva. Sua passagem por lá deixou vestígios que subsistiram durante décadas.

        Euzim e outros “eus” viviam brincando de colecionar cápsulas de projéteis de metralhadora que os caçadores de Lamarca haviam disparado nos morros que circundam Ipupiara.

        As garrafinhas metálicas despertavam-lhes o desejo de encontrá-las porque tinham algo de mágico que lhes dava prazer. Meninos sem rédeas paternas, Euzim e amigos saíam em bandos, embrenhavam-se nos morros e, uma vez imersos na mata, concentravam todos os sentidos no labor à cata delas. Seus gozo e divertimento, hauridos da propriedade delas, provinham do simples ato de possuí-las e fazê-las brilhar. Captado por olhares infantes, o brilho mágico das garrafinhas era obra produzida com o esfregar das mãos impregnadas de pó de barita, brilho extraído com esforço infantil, a coisa parecia ganhar vida, a meninada se encantava. Em seu mundo de criança sertaneja, viviam inocentes sobre o para quê tinham sido fabricadas. O utensílio que seus olhos viam não chegava à consciência como símbolo de uma sociedade que gera morte violenta, não senhor! Aquilo era só uma garrafinha joia de brincar!

        Carlos Lamarca nasceu em 27/10/1937 no Estácio, norte do Rio de Janeiro, filho de Gertrudes e de Antônio Lamarca. Abandonou o posto de oficial do Exército Brasileiro e partiu para a luta armada contra o governo da ditadura militar.

        29 de junho de 1971, Lamarca chega em Buriti Cristalino, lugarejo entranhado nas serras de Brotas de Macaúbas. Recolhe-se num acampamento secreto, guardado por José Carlos de Souza, Luís Antônio Santa Bárbara e José Campos Barreto (Zequinha), militantes do Movimento Revolucionário Oito de Outubro – MR-8.

        Zequinha nasceu no Buriti Cristalino, filho de José Araújo Barreto e Adelaide Campos Barreto.

        Do acampamento secreto, a menos de dois quilômetros do Buriti, Lamarca e Zequinha ouvem ruídos de tiroteio e se embrenham pelas serras adentro. Andam dias e noites pela caatinga. No dia 12 de setembro de 1971, alcançam Ibotirama, na beira do Rio São Francisco. Lamarca precisa de socorro médico, mas não consegue, e o cerco se fecha. Decidem voltar na direção de Brotas, em precisão de médico.

        17 de setembro de 1971. Extenuados de tanto correr pelas matas do sertão, fugindo dos “lobos” em forma de homens que saíram no seu encalço, Lamarca e Zequinha folguejavam moribundos à sombra de uma baraúna, próximo ao povoado de Pintada, município de Ipupiara, e ali seus algozes os executaram.

        “Eu vi tudo isso quando pensei nas coisas que acontecem neste mundo. Houve um tempo em que alguns tinham o poder, e outros sofriam, dominados por eles”. Eclesiastes 8.9 (Bíblia NTLH).

 

Brasília-DF, 12 de novembro de 2017

 

 

(FONTE: “ANTOLOGIA DE POESIAS, CONTOS E CRÔNICAS – IMPRESSÕES LITERÁRIAS”, PÁGINAS 26/28)  


terça-feira, 30 de junho de 2026

O ESPELHO DA ALMA - JOSÉ FELDMAN

 



O ESPELHO DA ALMA


José Feldman

  

"Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus caros amigos. Vejo que a luz das lamparinas reflete em vossos olhos uma sede de verdade. Eu, Mustafá, o peregrino, já vi muitos rostos se esconderem atrás de máscaras de seda e sorrisos de mel, mas a história que lhes conto agora fala de um objeto que não aceita disfarces.

 

Havia em Isfahan um joalheiro tão habilidoso que diziam ser capaz de lapidar o brilho das estrelas. Ele criou uma peça única: o "mir'at al-qalb" (espelho do coração). Não era feito de prata ou vidro comum, mas de uma liga de metais colhidos de meteoritos que caíram no deserto.

 

A fama do objeto chegou aos ouvidos do Grão-Vizir, um homem poderoso e temido, que suspeitava de todos ao seu redor. 

 

— "Ya Rabb" (Ó Senhor), dizia ele, "estou cercado de traidores que me elogiam enquanto afiam suas adagas". 

 

Ele comprou o espelho e o colocou no salão principal de seu palácio.

 

O enigma era simples, mas terrível: quando um homem olhava para o espelho, ele não via seus traços físicos — sua barba bem cuidada ou seu turbante luxuoso. O espelho refletia o estado de sua alma. Se o homem era ganancioso, via um lobo faminto; se era invejoso, via uma serpente; se era puro, via um jardim em flor.

 

O Vizir convocou todos os seus cortesãos. Um a um, eles passaram diante do espelho. 

 

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), exclamavam alguns antes de olhar, mas ao verem suas próprias imagens distorcidas em monstros e sombras, fugiam em pânico, incapazes de encarar a própria verdade. O palácio, antes cheio de risos falsos, tornou-se um lugar de silêncio e medo.

 

Por fim, o próprio Vizir parou diante do espelho. Ele esperava ver um leão majestoso, mas o que viu foi um abutre, curvado sobre o poder que não lhe pertencia. Ele percebeu que sua desconfiança era apenas o reflexo de sua própria desonestidade. 

 

— "Shukran" (obrigado), sussurrou ele ao artesão, "pois me destes a visão que nenhum conselheiro ousou me dar".

 

O Vizir quebrou o espelho em mil pedaços e distribuiu os cacos. Dizem que, desde aquele dia, cada homem em Isfahan carrega um pequeno pedaço de metal no bolso para se lembrar de que a beleza que buscamos no mundo deve primeiro ser cultivada dentro de nós.

 

"Inshallah" (Se Deus quiser), todos nós teremos a coragem de olhar para o espelho da alma sem desviar o olhar. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).




(FONTE: "ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN)


O SONHADOR - FILEMON MARTINS

 





O SONHADOR

Filemon Martins


 

Tenho sido, na vida, um sonhador

ando pegando o vento com a mão,

enquanto teço um verso sem valor,

só desejo voar na imensidão.

 

Quisera no Universo inspirador

poder cantar meus versos de paixão,

voltar a terra leve como a flor

exalando o perfume da afeição.

 

Procuro a nuvem, fujo da razão

quero viver em paz, na multidão,

como se fosse um ser angelical.

 

E me extasio dentro da verdade,

ao constatar a triste realidade:

um ser humano sou e assim, mortal!