quarta-feira, 22 de julho de 2026

A ÁRVORE QUE FALA - JOSÉ FELDMAN

 





A Árvore que Fala


José Feldman

  

"Preste atenção, ó Sheik de Bagdá, pois o que floresce no centro do Oásis dos Espelhos desafia a compreensão dos homens de pouca fé. Ali, onde as águas do autoconhecimento se encontram com a areia sagrada, ergue-se a Shajarat al-Hikmah (Árvore da Sabedoria).

 

Ela não tem folhas de clorofila, mas sim de papel fino como pergaminho, translúcido e prateado. O tronco é de um ébano tão escuro quanto a noite sem lua, e suas raízes bebem diretamente do reflexo das almas.

 

Dizem as lendas que esta árvore não fala com uma língua de carne. Quando o vento do deserto sopra entre seus galhos, as folhas não balançam, elas sussurram. Mas o som que emitem não é o de palavras comuns; é o som da verdade que cada homem tenta esconder de si mesmo.

 

Se um homem carregado de pecados se aproxima, a árvore emite um som de trovão retumbante, que ecoa em seu peito como o bater de um tambor de guerra. O som diz: 'Até quando fugirás da tua própria sombra?'. O barulho é tão forte que o pecador muitas vezes cai ao chão, sentindo o peso de suas escolhas.

 

Mas, se um homem virtuoso senta-se sob sua sombra, a árvore canta. É uma melodia de uns (intimidade espiritual) que lembra o riso de uma criança ou o som de uma fonte no paraíso. Para esse homem, as folhas de pergaminho começam a mostrar escritas em caligrafia de luz. São respostas para perguntas que ele ainda nem ousou fazer.

 

Vi um jovem poeta que perdera a esperança aproximar-se da árvore. Ele chorava, pois sua musa havia partido. A árvore, em um gesto de misericórdia, deixou cair uma única folha em seu colo. Nela, não havia poemas de amor terreno, mas uma única rememoração que dizia: 'O que você procura, procura por você'. Naquele momento, o jovem compreendeu que a beleza que ele buscava fora não era nada comparada à que Alá plantara dentro de sua alma.

 

A árvore é a guardiã do oásis. Ela sabe quem mentiu no Mercado de Silêncio e quem foi sincero com o mercador cego. Ela é o eco da consciência humana amplificado pelo silêncio do deserto.

 

Muitos tentaram levar uma folha daquela árvore para Bagdá, ó Sheik. Mas, assim que cruzam a fronteira do oásis, o pergaminho se transforma em cinzas. Pois a sabedoria da árvore não pode ser possuída, apenas vivenciada no momento de presença absoluta."

 

Mustafá fechou os olhos por um instante, como se ainda ouvisse o sussurro das folhas prateadas.

 

Escutai com vossa alma, ó buscadores da luz, pois o balançar das folhas da Shajarat al-Hikmah (Árvore da Sabedoria) traz uma lição que nenhum livro pode conter sozinho.

 

A moral desta história, ó Sheik, é que a verdade não é algo que se busca no mundo exterior com gritos e demandas, mas algo que se escuta no silêncio do próprio peito. A árvore não falava palavras novas; ela apenas devolvia aos homens o eco de suas próprias consciências. Para o injusto, a verdade soa como um trovão aterrador, pois ele teme o que esconde; para o justo, ela é uma música suave, pois ele vive em harmonia com o seu Criador.

 

Muitas vezes, passamos a vida tentando colher os frutos do conhecimento alheio, mas esquecemos que a sabedoria não pode ser roubada ou transportada como mercadoria em uma caravana. Ela deve ser vivenciada na presença do momento. Quem busca a verdade com orgulho encontrará apenas cinzas, mas quem se senta sob a sombra da humildade verá que a vida inteira é uma escrita de luz feita por Alá.



(FONTE "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN) 


PAZ - ANTÔNIO CARLOS CÔRTES

 




PAZ

Antônio Carlos Côrtes * 

Ao Prof. Sergio Bicca


Quero meus pulmões
Inspirando todo ar
Do mundo
Com  força de vulcões
Peito inflado no lar
Preciso toda energia
Da  Floresta Amazonica
Para poder gritar
Alto e bom som e tom:

"Quero paz de criança
Dormindo
Quero flores se  abrindo"

Caminhos coloridos
Ornando trilhas
Veja bem meu rapaz
Minha menina
Quero apenas paz
Veja a estrela que brilha
Sabe meu senhor
Palavra paciência
Tem paz como ciência
Na Páscoa
Coamos a paz
Ao início da 2.a guerra
Jornal estampou
Estourou a paz.


* (DA ACADEMIA RIO-GRANDENSE DE LETRAS) 

terça-feira, 21 de julho de 2026

A COR DA SAUDADE - ELVIRA DRUMMOND

 




A COR DA SAUDADE


Elvira Drummond


Saudade... para alguns tão dolorida...

confesso, aqui, que a sinto diferente.

Não vejo, na saudade, uma ferida

que sangra tão impiedosamente.


Saudade... para mim, é colorida...

visita o meu passado e vai em frente

prossegue perfumando a minha vida,

pescando, da memória, o olhar contente.


Saudade, só se tem de um bom passado...

(razão de o desejar ressuscitado,

qual brasa que, assoprando, acende a chama).


Feliz de quem carrega na memória

retalhos magistrais de sua história.

Saudade é privilégio de quem ama!



(LIVRO "OS ESCOLHIDOS", PÁGINA 14)

ÂNGELUS - MATUSALÉM DIAS DE MOURA

 




ÂNGELUS


Matusalém Dias de Moura


A noite vem caindo, mansamente...

sobre a cidade em brando movimento,

guardando em cada rosto um sofrimento,

enquanto a vida passa lentamente...


Sozinho, conduzido pela mente,

numa prece de choro e de lamento,

vou subindo com fé, com doce alento,

até chegar a Deus onipotente.


Ali, nas mãos do Pai, deixo o pedido

de compaixão por mim, filho perdido,

miserável, pequeno e pecador.


Logo sinto uma paz chegar a mim,

dizendo que meu Deus, ah, me ama, sim,

e que ao próximo devo dar amor...



(LIVRO "SONETOS DO PÔR DO SOL", PÁGINA 76)

segunda-feira, 20 de julho de 2026

AS PEDRAS - THALMA TAVARES

 




AS PEDRAS
THALMA TAVARES  (SÃO SIMÃO-SP)



Dos caminhos ruins, que a vida me apontou,
as pedras afastei, limpei todo o cascalho.
Removi-os com fé e com muito trabalho,
sem que ninguém soubesse o quanto me custou.


Sem andar pela sombra ou buscar um atalho,
amparado na fé que Jesus me inspirou,
meu caminho de pedra, o amor transformou
em vereda de flores, de sol e de orvalho.


Mas não canto vitória, apesar de feliz,
se o que é mais importante eu ainda não fiz,
não levei meu irmão a trilhar nova estrada.


Não lhe dei, por dever, a sublime lição
deste amor que Jesus pôs em meu coração,
que mudou minha vida em eterna alvorada.



(Recebido por e-mail do amigo ORNELLAS-SP) 

MINHA CASA - CARLOS RIBEIRO ROCHA

 




MINHA CASA

CARLOS RIBEIRO ROCHA


É pobre e tosca a minha casa e sem
sofás macios, leitos chumaçados,
sem ornamentos nem jardins, porém
mais bela que os palácios decantados.


Pouco importa que a vejam com desdém
os fúcaros mandões e potentados
que gozam sem o Cristo um falso bem
e são, por fim, eternos condenados.


Só tenho em minha casa o necessário:
a mesa, o meu grabato e um tosco armário
e os livros, meus amigos estimados,


junto aos quais tenho dias fulgurantes,
enquanto os sonhos deles bem distantes
vão se tornando turvos e apagados...

UTOPIA - FILEMON MARTINS

 




                                    UTOPIA

      Filemon Martins




Uma ternura infinda estou sentindo
já no ocaso do meu viver tristonho.
Meu coração se abriu, feliz, sorrindo,
pois a Esperança renasceu num sonho.

Meu desejo é cantar um hino lindo
para falar de paz tudo transponho,
que toda Humanidade siga ouvindo
os acordes do amor que já componho.

Eu quero ver o povo trabalhando,
construindo, vivendo e se educando
para que todos sejam mais felizes.

Que os políticos sejam mais honestos
e possam nas ações e nos seus gestos
construir um País livre das crises!

TROVAS BRASILEIRAS

 



TROVAS BRASILEIRAS


Levanto cedo, não nego,
ando pescando a poesia,
na minha rede carrego
todo o mar de fantasia.
Filemon Martins

Felicidade – surpresa
que a vida um dia nos faz...
Não tem base nem firmeza
e, como é linda, é fugaz.
Colombina

Para que jamais te iludas
com fortunas e esplendores,
lembra que as plantas miúdas
também se cobrem de flores!
Humberto Del Maestro

Saudade – um suspiro, uma ânsia,
uma vontade de ver
a quem nos vê a distância,
com os olhos do bem-querer.
Bastos Tigre

O CANTO DO ROUXINOL - JOSÉ FELDMAN

 




O CANTO DO ROUXINOL

José Feldman



O som do silêncio que se instala após o último acorde é o que mais machuca. Não é a ausência de som, mas o peso do que deveria estar ali e já não está.
Há anos observo aquela gaiola pendurada na varanda do apartamento vizinho, balançando discretamente ao sabor de um vento que traz o cheiro da chuva, mas que nunca traz a liberdade. Dentro dela, habita um rouxinol. Um pequeno fragmento de vida, com penas que perderam o brilho fosco das matas, mas que carrega nos olhos o tamanho exato de um horizonte que ele desaprendeu a tocar.
O soneto que alguém escreveu um dia sobre ele não mentia. Cada nota que escapa daquele bico pequenino, nas primeiras horas da manhã, não é um espetáculo para os nossos ouvidos humanos, é um pranto disfarçado de arte.
O rouxinol canta nas grades da vida, e o eco de sua voz é de uma profundidade que chega a doer no peito de quem se detém para escutar. Nós, os transeuntes apressados de nossas próprias rotinas aprisionadas, costumamos chamar aquilo de "belo cantar". Que terrível cegueira a nossa. Confundir o grito de socorro de uma alma com entretenimento doméstico.
Olho para ele agora, enquanto o sol desponta timidamente entre as folhas verdes das árvores da rua. Aquelas árvores estão tão perto. Apenas alguns metros separam o pássaro do galho mais próximo de uma mangueira frondosa, onde outros de sua espécie pousam, gritam, brigam e voam sem rumo. A liberdade clama ali fora, escancarada, vestida de vento e folhas secas que dançam no asfalto. Mas ele não vai. Ele não pode ir. A fronteira invisível do arame galvanizado define o limite do seu universo.
Em cada melodia que ele ensaia quando o dia clareia, a vida parece se afrontar. É um embate silencioso e cruel entre o instinto de ser céu e a realidade de ser ferro. Há uma tristeza densa, quase palpável, que se instala no ambiente a cada trinado mais longo. É a melancolia pura de quem sabe exatamente o que perdeu, mesmo sem nunca ter vivido plenamente o que perdeu. O peito do pequeno cantor sobe e desce rapidamente, num ritmo frenético que parece subtrair-lhe as forças, um pouquinho a cada dia. Quantas canções faltam para que o coração dele desista de bater?
E, no entanto, o mistério mais profundo daquela criatura não é a sua dor, mas a sua insistência.
Mesmo no calabouço daquela varanda cinzenta de cimento encardido, há algo dentro daquele peito que se recusa a morrer. Uma canção esperançosa insiste em brotar de onde só deveria haver desespero. A alma do rouxinol não se esquece de amar. Ele ama o fiapo de sol que toca a gaiola às nove da manhã. Ele ama a água fresca que trocam de seu pequeno pote. Ele ama, acima de tudo, a própria memória do voo, uma herança genética de asas abertas que o tempo e o cativeiro não conseguiram apagar.
Ele canta na busca de um ramo, de uma vida que ele intui ser gloriosa e vasta. O canto ainda ecoa pela vizinhança, cortando o barulho dos motores e das buzinas, mesmo que a chorar. É um choro afinado, uma lágrima em forma de solfejo que atravessa as frestas da minha janela e me faz parar o café pela metade, com os olhos fixos no vazio.
Quantos de nós também não cantamos nossas dores em nossas próprias gaiolas invisíveis, esperando que alguém entenda o código do nosso lamento?
Fico olhando o pequeno rouxinol e uma onda de melancolia me invade por completo. Penso na fragilidade da vida, no tempo que passa e nas correntes que nós mesmos criamos ou aceitamos carregar. Mas o soneto termina com uma promessa, e é nela que decido ancorar o resto do meu dia, para não sucumbir à tristeza de vê-lo ali.
Um dia, as correntes irão se desfazer. Seja pela mão compassiva de quem finalmente enxergar a crueldade daquele cativeiro, seja pelo ciclo inevitável da própria natureza que a tudo liberta no final. O rouxinol livre poderá renascer. Suas asas, hoje entorpecidas, encontrarão o ponto de apoio exato na densidade do ar. Ele subirá tão alto que o som do seu canto finalmente deixará de ser um lamento para se tornar, em absoluto, a pura tradução do espaço.
Até lá, eu continuo aqui, na janela da minha própria solidão, servindo de testemunha e plateia para a mais triste e bela ópera da terra: o canto de quem sofre, mas não desiste de esperar o céu.

 


sábado, 18 de julho de 2026

RESGATANDO AURORAS - PEDRO ORNELLAS

 





RESGATANDO AURORAS

Pedro Ornellas



Meu verso é o eco de um fugaz anseio
que brotou cedo e cedo foi desfeito...
Grito sem som no abismo do meu peito,
promessa vã de um bem que nunca veio.

Meu verso, embora de pesar tão cheio,
por outro lado é gratidão, é preito
por esse dom, que sempre arruma um jeito
de suavizar o que é medonho e feio.

Na direção de um norte imaginário
meu verso, inverso à rigidez das horas,
à risca risca o próprio itinerário...

Já não se prende ao jugo das demoras
e, avesso ao senso, e à lucidez contrário,
vai pela noite resgatando auroras!



(DO LIVRO "RESGATANDO AURORAS")

TRANSE - ELZA MEIRELLES CHOLA

 





TRANSE

ELZA MEIRELLES CHOLA



Que tempo de transtorno, estou vivendo...
Tudo acontece sem estar nos planos.
Quando algum dissabor vou esquecendo,
logo aparecem novos desenganos...

Sinto-me amarga... as ilusões perdendo...
vendo ruir os sonhos mais ufanos.
Olho o vazio, e clamo aos céus, querendo,
aplacar os temores mais tiranos!

Ó almas invisíveis, protetoras,
eu venho suplicar a mão amiga,
não neguem uma ajuda redentora.

Anjos, venho pedir-lhe proteção:
- Eu só quero reaver a paz antiga
que desapareceu do coração!

NOVA COBRANÇA - FILEMON MARTINS

 





                     NOVA COBRANÇA 
                          (Filosofando)
                       Filemon Martins


 

Se cobro alguma coisa desta vida, 
ela disfarça e vai me respondendo: 
“qualquer dia, meu caro, pago a dívida” 
e sem pensar, aceito e vou vivendo. 

O tempo vai passando e na corrida 
aqueles sonhos vão-se desfazendo, 
já não sinto esperança na descida 
e o mundo, sem amor, está horrendo. 

A vida dissimula um falso encanto 
que acaba em choro, dor e desencanto 
sem cumprir as promessas que nos fez. 

E tudo não passou de ledo engano, 
porque sem fé, sem luz, o ser humano 
carrega a cruz de sua insensatez.

TROVAS DO PROFESSOR GARCIA

 




TROVAS DO PROFESSOR GARCIA – CAICÓ - RN


Nunca me entrego aos fracassos,
o amor, tanto me seduz…
Que, preso à cruz dos teus braços,
esqueço da minha cruz!

O sol, a brisa e esta rede,
no entardecer, que esplendor!
E o mar, morrendo de sede,
mata-me a sede de amor!

Para a criança sem teto,
que mendiga o pão que come,
qualquer palavra de afeto
é alívio que mata a fome.

Para que brilhe o esplendor
no Natal, entre os irmãos,
que a mão que semeia o amor,
encha de amor, outras mãos!