BLOG LITERÁRIO DO FILEMON
sábado, 25 de abril de 2026
TROVAS DO FILEMON
MUNDO PEQUENO - MANOEL DE BARROS
ÚLTIMA PÁGINA - ALCEU WAMOSY
sexta-feira, 24 de abril de 2026
ENTRE O SER E AS COISAS - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Carlos Drummond de Andrade
MEDO DAS TREVAS - MÁRIO RIBEIRO MARTINS
PARADOXO - FILEMON MARTINS
ALENTO DO INFINITO - MIGUEL J. MALTY
ALENTO DO INFINITO
Miguel J. Malty
Meu ser é legatário doutras eras,
dum tempo recuado nas lonjuras.
Anterior às lépidas galeras
dos argonautas donos de bravuras.
Antes, bem antes, noutras atmosferas
que cobriam AbKar, noutras alturas,
no oceano das célicas esferas
junto às huris de líricas brancuras.
Eu venho dos portais das nebulosas,
das lindeiras de luz, misteriosas,
onde a vida deflui em suave agito.
Eu sou antes da gênesis que emana
dum gene imemorial na escala humana.
Eu sou um sopro, alento do Infinito!
(LIVRO "ABKAR A CIDADE ENCANTADA", PÁGINA 9)
NOSTALGIA - JOSÉ OUVERNEY
TROVAS DE VIDAL IDONY STOCKLER
(FOTO DE KEISE JINKINGS MARTINS, EM ITANHAÉM)
de união e de esplendores
riqueza é como se diz:
É berço dos trovadores.
Bem feliz vive o poeta,
peregrino e sonhador,
luzeiro que se completa
no sonho do trovador!
E nasce a trova sorrindo
na mente do trovador,
é o botão da flor abrindo
mostrando o rico esplendor.
Trovadores do Brasil,
cultuando nosso chão
com beleza tão sutil
e que toca o coração.
A ESPETARIA FATAL - JOSÉ FELDMAN
A ESPETARIA FATAL
JOSÉ FELDMAN
TROVA DE JOSÉ FELDMAN
Meu amigo... Quem diria?
Terminou todo "enrolado"...
Foi comer na espetaria
e ficou todo espetado!
Era uma tarde ensolarada de sábado, e Aparecido, um sujeito
curioso e um tanto desajeitado, caminhava despreocupado pela rua principal da
cidade. Ele tinha acabado de sair do mercadinho, onde comprara pão, leite e, é
claro, sua fiel coxinha de frango. Porém, algo chamou sua atenção naquela
caminhada rotineira: uma placa vibrante e chamativa, escrita em letras
garrafais e com uma seta piscando, anunciava:
“ESPETARIA DO ZEZÃO – OS MELHORES ESPETINHOS DA REGIÃO!”
Parou imediatamente. Espetinhos? Ele adorava espetinhos! Só
de pensar na carne suculenta, no cheiro de churrasco e nos acompanhamentos, sua
barriga já roncava. Era impossível resistir. "Ora, por que não
experimentar?", pensou ele, enquanto ajeitava o chapéu que insistia em
escorregar da cabeça.
Ao entrar no estabelecimento, uma música animada tocava ao
fundo, e o ambiente tinha um clima acolhedor. Havia mesas de madeira, um balcão
cheio de molhos e um menu escrito com giz numa lousa. Mas o que mais chamou a
atenção foi a decoração... digamos... exótica. Havia espetos “por toda parte”:
espetos na parede, espetos pendurados no teto, espetos atravessando esculturas
de carne falsa. Até o mascote da casa, um porquinho de pelúcia, estava espetado
em um espeto gigante sobre o balcão.
“Bem-vindo, meu amigo!” gritou Zezão, o dono do lugar, um
homem parrudo com um bigode impressionantemente comprido. “O que vai querer?
Hoje temos promoção: espeto de carne, frango, linguiça e até vegetariano!”
Aparecido, sem pensar duas vezes, respondeu:
“Vou querer um de cada! Quero experimentar tudo!”
Zezão deu uma risada calorosa.
“Assim que eu gosto! Sente-se aí que já já saem os espetos
mais gostosos que você já provou!”
Aparecido sentou-se em uma mesa próxima à parede, onde
havia mais espetos decorativos, e começou a observar o movimento. O cheiro de
churrasco invadia o ar, e ele já salivava. Minutos depois, Zezão veio trazendo
uma bandeja cheia de espetinhos. A carne parecia perfeita, dourada, com uma
crosta suculenta. Aparecido não perdeu tempo e começou a devorar os espetos, um
atrás do outro, enquanto Zezão ria satisfeito.
“Tá gostoso, hein, meu amigo?” perguntou o dono, cruzando
os braços.
“Gostoso? Isso aqui é um espetáculo!” respondeu ele, com a
boca cheia.
Porém, ao se empolgar com o último espeto de carne,
Aparecido, desajeitado como era, fez um movimento brusco com a mão. O espeto
escapou dos seus dedos, ricocheteou no prato, bateu na mesa, e antes que ele
pudesse entender o que estava acontecendo, o espeto veio girando pelo ar… “e
acertou sua nádega.”
O restaurante inteiro parou. Aparecido estava ali, com um
espeto fincado em uma das nádegas, pulando de dor e tentando manter a pose.
“AI! ZEZÃO! TÔ ESPETADO!” gritou ele, enquanto os outros
clientes tentavam segurar o riso.
Zezão, que já tinha visto de tudo na vida, ficou
boquiaberto por uns segundos, mas logo correu para ajudar.
“Calma, meu amigo, é só um espeto pequeno! Já já a gente
resolve isso!”
Entre risos e lágrimas de vergonha, Aparecido foi ajudado
por Zezão e outro cliente, que cuidadosamente tiraram o espeto de sua nádega. O
clima, apesar da situação, era de total descontração. Quando tudo se resolveu,
Zezão olhou para Aparecido e disse:
“Olha, meu amigo, aqui na Espetaria do Zezão o lema é que
todo mundo sai satisfeito… mas você se empolgou demais, hein? Isto não vai
virar costume, né?”
Aparecido, ainda vermelho de vergonha, não conseguiu
segurar a risada. E, apesar de tudo, antes de ir embora, ele ainda levou mais
dois espetinhos para viagem.
Moral da história:
Na vida, cuidado ao brincar com espetos… às vezes, eles
brincam de volta!
quinta-feira, 23 de abril de 2026
APELO - ENO TEODORO WANKE
MAIS UM ADEUS - JOSÉ FELDMAN
MAIS UM ADEUS
José Feldman
TROVA DE ELIANA PALMA
Adeus com dores combina,
adeus inspira piedade.
Adeus de amor, triste sina
de quem vive de saudade!
O sol estava se pondo em Maringá, tingindo o céu de laranja
e rosa, como se o próprio dia estivesse se despindo para dar lugar à noite. As
ruas começavam a se esvaziar, e o movimento frenético do centro da cidade
diminuía, dando espaço a um silêncio que parecia carregar a melancolia de
tantos “adeus” que haviam sido ditos ao longo dos anos. Em cada esquina, um
pedaço de história, um resquício de amor ou amizade, ecoava na memória dos que
por ali passavam.
Naquela tarde, Maria, uma jovem de cabelos cacheados e
olhos brilhantes, caminhava pela Avenida XV de Novembro. Seu coração pulsava
descompassado. Ela sabia que estava prestes a se despedir de Humberto, seu
primeiro amor, que decidira se mudar para outra cidade em busca de novas
oportunidades.
O anúncio da partida havia caído sobre ela como uma
tempestade de verão: repentino e avassalador.
"Quando você vai embora mesmo?", ela perguntou,
tentando esconder a tristeza na voz.
Humberto, com um sorriso nostálgico, respondeu que partiria
na manhã seguinte. O que era uma nova chance para ele, tornava-se um abismo
para ela. O amor, que havia sido uma doce melodia, agora era um lamento que
ecoava pelas ruas de Maringá.
Enquanto Maria caminhava, lembranças dançavam em sua mente.
O primeiro encontro no Parque do Ingá, com suas árvores majestosas e o perfume
das flores. As tardes passadas em um banco à sombra, onde eles trocavam
promessas e risadas, como se o mundo ao redor não existisse. E agora, todas
aquelas memórias pareciam pesadas, como se cada risada carregasse um peso
insuportável.
O "adeus" que se aproximava era uma verdadeira
sina. Maria sentia o coração apertar ao pensar nas despedidas que já havia
vivido — a partida do pai para o exterior, a saída da melhor amiga que se
mudara para a capital, as idas e vindas da vida. Cada adeus trazia consigo um
rastro de saudade, e ela se perguntava se um dia aprenderia a lidar com isso.
Na esquina da Avenida XV com a Avenida São Paulo, um grupo
de amigos se despedia. Riam e se abraçavam, mas Maria percebia que, por trás
das risadas, havia um fundo de tristeza. O “adeus” sempre vinha acompanhado de
uma sombra. "Adeus com dores combina, adeus inspira piedade", pensou.
As despedidas em Maringá eram como melodias que se repetiam, sempre com a mesma
harmonia triste.
Com o coração pesado, ela decidiu encontrar Humberto uma
última vez. Dirigiu-se ao café onde costumavam ir, um pequeno lugar
aconchegante, com mesas de madeira e um cheiro inconfundível de café fresco. Ao
entrar, avistou Humberto na mesa do canto, olhando pela janela. Ele parecia
distante, perdido em pensamentos, e Maria percebeu que ele também estava
sentindo o peso da partida.
— Oi, você veio! — Ele sorriu, mas a alegria não alcançou
seus olhos.
— Precisamos conversar — disse Maria, sentando-se à sua
frente.
O clima estava carregado, e as palavras pareciam não querer
sair. O garçom trouxe os pedidos, mas o café esfriou enquanto eles trocavam
olhares que falavam mais do que mil palavras.
— Eu não sei como vou lidar com isso — ela finalmente
desabafou. — Vai ser tão difícil te ver partir.
— Eu também não sei, Maria. É como se estivéssemos vivendo
um sonho e agora temos que acordar. — ele hesitou. — Mas isso não significa que
o que tivemos não foi real.
A conversa fluiu entre risos nervosos,
lembranças e promessas de que tudo ficaria
bem. Mas, no fundo, ambos sabiam que a
vida
os levaria por caminhos diferentes. O café
esvaziou-se em suas xícaras enquanto as
horas passavam, e o sol começava a se
esconder, deixando uma sombra sobre a
cidade.
Quando finalmente se levantaram para sair, Maria sentiu que
aquele momento se tornaria mais uma memória, mais um “adeus” a ser guardado na
caixa de saudades. Eles caminharam lado a lado, sem saber se deveriam se
abraçar ou apenas se despedir com um aceno. O medo da dor os impedia de se
aproximar.
Na porta do café, Humberto parou e, em um gesto inesperado,
puxou Maria para perto. O abraço foi apertado, cheio de sentimentos não ditos.
Era um “adeus” que transbordava dor, mas também gratidão. Um “adeus” que, mesmo
triste, celebrava o que haviam vivido juntos.
— Adeus, Maria. Cuide-se! — ele disse, com a voz embargada.
— Adeus. E não se esqueça de mim — respondeu ela, enquanto
as lágrimas escorriam pelo rosto.
O “adeus” ecoou, pesado e doce como um canto de despedida,
deixando no ar a promessa de que, apesar da distância, as memórias
permaneceriam.
Enquanto ele se afastava, Maria ficou ali, observando o
homem que um dia fora seu amor. O céu estava agora escuro, e as luzes da cidade
começavam a brilhar. Em cada ponto luminoso, ela via uma lembrança, uma risada,
um abraço.
E, assim, em Maringá, onde os adeuses são sempre acompanhados
de saudade, Maria aprendeu que a vida segue, mesmo entre dores e despedidas. O
amor se transforma, mas nunca desaparece completamente. E, ao final, cada
“adeus” traz consigo a semente de um novo “olá”, mesmo que, por ora, a saudade
seja a única companhia.
TROVAS ESCOLHIDAS
(FOTO DE KEISE JINKINGS MARTINS, EM ITANHAÉM-SP)
Lucília Decarli












