domingo, 12 de julho de 2026

ORAÇÃO DO ABANDONO - ROBERT KENNEDY

 




ORAÇÃO DO ABANDONO 

Robert Kennedy 


Em Tuas mãos, ó Deus, eu me abandono. Vira e revira esta argila, como o barro na mão do oleiro. Dá-lhe forma e depois, se quiseres, esmigalha-a, como se esmigalhou a vida de John, meu irmão. Pede, ordena! Que queres que eu faça? Elogiado e humilhado, perseguido e incompreendido, caluniado e consolado, sofredor e inútil para tudo, não me resta senão dizer a exemplo de Tua Mãe: “Faça-se em mim segundo a Tua palavra”. Dá-me o amor por excelência, o amor da cruz; não o da cruz heroica que poderia nutrir o amor-próprio, mas o da cruz vulgar, que carrego com repugnância, daquela que se encontra cada dia na contradição, no esquecimento, no insucesso, nos falsos juízos, na frieza, nas recusas e nos desprezos dos outros, no mal-estar e nos defeitos do corpo, nas trevas da mente, na aridez e no silêncio do coração. Então, somente Tu saberás que te amo, embora eu mesmo nada saiba. Mas isto basta!


(REVISTA AMPLITUDE, Nº 8, JULHO DE 2026, REVISTA CRISTÃ DE LITERATURA E ARTES)

ESCRÚPULO - JOANYR DE OLIVEIRA

 




ESCRÚPULO

 Joanyr de Oliveira 


Deito o poema na aragem, 

longe dos sacrilégios. 

Os vassalos do metal, 

os abismos, os delírios, 

os tímpanos de pedra e cal, 

as destras mãos na rapina 

e as sinistras nos fuzis, 

os decibéis desvairados 

com quatro pedras nas mãos, 

as volúpias dos cifrões, 

os parlatórios e fossas, 

as fomes palacianas, 

os lobos condecorados 

pelos guantes do Sistema 

não fazem jus ao poema.


(REVISTA AMPLITUDE, Nº 8, JULHO DE 2026 - REVISTA CRISTÃ DE LITERATURA E ARTES) 

AS MERCADORIAS INVISÍVEIS - JOSÉ FELDMAN

 




As Mercadorias Invisíveis


José Feldman

  

Aproxime-se ainda mais, ó Sheik, pois agora entro no terreno do mistério. No Mercado de Silêncio, as prateleiras que os olhos mundanos veem como vazias estão, na verdade, repletas de milagres para aqueles que purificaram sua visão.

 

Quando um homem atravessa o tahara (ritual de purificação) e alcança o estado de ikhlas (sinceridade absoluta), ele deixa de ver apenas tapetes e vasos. Ele começa a enxergar as Mercadorias da Alma.

 

Dizem que, em certas bancas de mármore branco, é possível encontrar o Frasco de Lágrimas de Gratidão. Não é um objeto que se pegue com a mão, mas uma essência que o coração aspira. Quem a 'compra' — oferecendo em troca um momento de verdadeira humildade — recebe o dom de nunca mais sentir amargura, pois seus olhos passam a ver a bênção em cada grão de areia do deserto.

 

Há também o Tecido do Tempo Perdido. Os puros de coração veem meadas de fios dourados que flutuam no ar. Ao tocar esses fios em silêncio, o viajante recupera a sabedoria de todas as horas que desperdiçou com palavras vãs ou raiva inútil. É como se o destino divino permitisse que a alma se remendasse, tornando-se inteira novamente.

 

Vi uma vez um velho miskin (humilde) parado diante de uma banca que parecia deserta. Ele estendeu as mãos vazias e, de repente, seus dedos se fecharam sobre algo que brilhava como o reflexo da lua na água. Era o Espelho da Própria Verdade. Nesse espelho invisível, o homem não vê seu rosto, mas o estado de sua alma. Se a alma está limpa, o espelho emite um calor que cura qualquer doença do corpo.

 

Mas a mercadoria mais rara, ó Nobre Senhor, é o Sussurro do Arrependimento. É um pequeno vácuo de ar que, quando 'adquirido', preenche o peito do homem com uma leveza tal que ele sente que poderia caminhar sobre as nuvens. É o perdão de Alá tornado palpável através do silêncio.

 

Essas mercadorias não têm preço em ouro. Elas são trocadas por súplica silenciosa e pela renúncia ao barulho do próprio orgulho. Quem sai de lá com as mãos aparentemente vazias é, na verdade, o homem mais rico de toda a Mesopotâmia, pois leva consigo tesouros que os ladrões não podem roubar e o tempo não pode corroer."

 

Mustafá suspirou, como se ainda sentisse o peso sagrado daquelas riquezas invisíveis.

 

Escutai com o coração profundo, ó nobres buscadores da luz, pois as prateleiras do Souq al-Samt (Mercado do Silêncio) guardam o que nenhum dirham (moeda de prata) pode comprar.

 

A moral desta história, ó Sheik, é que a verdadeira riqueza de um homem não é o que ele exibe em suas caravanas, mas o que ele cultiva em sua alma quando ninguém o está vendo. Vivemos em um mundo de ornamentos mundanos, onde corremos atrás de sedas que apodrecem e ouros que escurecem, esquecendo-nos de que as mercadorias mais valiosas de Alá são invisíveis aos olhos da ganância.

 

Somente aquele que passou pelo tahara (ritual de purificação) do ego e alcançou o estado de ikhlas (sinceridade absoluta) consegue enxergar a bênção nas pequenas coisas e a sabedoria no tempo perdido. As joias da alma — a gratidão, o arrependimento e a paz — são as únicas que atravessam o portal da morte. Quem sai do mercado com as mãos vazias de objetos, mas o peito cheio de luz divina, é o verdadeiro sultão de seu próprio destino.



(FONTE: "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)


sábado, 11 de julho de 2026

ANSEIO - CAROLINA RAMOS

 








ANSEIO

Carolina Ramos



Por mais que em convulsões o mundo trema,
rumo ao caos que implacável nos atinge...
Por mais, seja negado o suave lema,
“Paz e Amor”, que de sangue hoje se tinge...


Por mais que o desencanto fel esprema
nas almas secas de quem já nem finge,
creio sempre num Deus, que é Luz suprema!
Sol que clareia o Bem... e o Mal restringe!


E mesmo envolta em sombras da amargura,
mesmo que os dias sigam mais tristonhos
e a vida cada vez menos segura,


fujo à incerteza que o momento traz,
mantendo vivo, a incrementar meus sonhos,
um doce anseio de encontrar a Paz!


(FONTE AVBAP)

TROVAS DO SINGRANDO HORIZONTES

 




TROVAS DO SINGRANDO HORIZONTES

 

 

Retorno à praça da infância:

é o mesmo antigo jardim!

Só eu mudei, na distância…

Ah! Que saudade de mim!


Alba Helena Corrêa - Niterói/RJ

 

Ninguém sabe, nesta lida,

onde a surpresa é mais forte:

se nos mistérios da vida

ou nos segredos da morte!


Alfredo de Castro - Pouso Alegre/MG, 1922 – 2011.

 

Não irá jamais embora

quem deixou tanta amizade;

a despedida de agora

é presença na saudade.


Almir Pinto de Azevedo - Cambuci/RJ



(SINGRANDO HORIZONTES, ORG. DE

JOSÉ FELDMAN)

NOVA AURORA - FILEMON MARTINS

 




 

NOVA AURORA
 
Filemon Martins


 

Eu me tornei um pobre vagabundo 
quando partiste pela vida afora... 
Talvez sonhaste conquistar o mundo 
deixando aqui um coração que chora. 

De luz, amor e inspiração me inundo 
e vislumbro o romper de nova aurora, 
acredito no amor puro e profundo 
que mitiga a tristeza que apavora. 

Creio no amor intenso, verdadeiro, 
sempre perdoa, espera e crê primeiro 
sem julgamento, ofensa ou coisa assim. 

Quero colher a paz em farta messe, 
sentir a graça singular da prece 
para buscar o amor dentro de mim!

CONVERSA NO TREM - FILEMON MARTINS

 




CONVERSA NO TREM

Filemon Martins

                                   

- “Esta vida não faz nenhum sentido,”

dizia o passageiro do meu trem,

- “o mundo inteiro, veja, está perdido,

- esperança não há para ninguém.”

 

Assim falava o homem ressentido

das promessas que, feitas por alguém,

sequer foram cumpridas e incontido

ele se lamentava do desdém.

 

- “Mas a vida é assim mesmo,” outro dizia,

- “a tristeza anda ao lado da alegria

e a calma vem após a tempestade.”

 

Por que, então, meu coração sedento

tem que provar a dor e o sofrimento

para alcançar a tal felicidade?

 

UM GRITO NO AR - JESSÉ NASCIMENTO

 




UM GRITO NO AR

Jessé Nascimento


Aiiii!

Os gritos de agonia ecoam pelo espaço.

Os golpes se sucedem impiedosamente,

sem misericórdia.

Ninguém parece ouvir seus pedidos de socorro.

E a crueldade do ser humano aumenta a cada dia.

Nada o detém. Nada...

As vítimas vão tombando sucessivamente,

sem ter quem as escute,

sem ter quem impeça crimes tão hediondos.

O ar fica impregnado do cheiro do massacre,

que ameaça os criminosos e os demais viventes.

Inaudíveis ao homem, os gritos e choros

sensibilizam a natureza que se defende como pode

sem conseguir impedir a matança desenfreada.

Não sei...

Não está tão longe o dia

em que a floresta soltará seu último grito,

seu último gemido,

seu último pedido de socorro.

Terá sido tombada a última árvore.

Terá sido dizimada a vida na Terra...





(1º lugar no Concurso de Poesia Livre, do AALA, tema Floresta - 2015)



sexta-feira, 10 de julho de 2026

A MENTIRA - FILEMON MARTINS

 




                                    A MENTIRA

                       Filemon Martins

 

    Nunca no Brasil um vocábulo esteve tão em voga quanto o termo mentira. Mente-se descaradamente em todos os setores, em todos os lugares, em todos os segmentos da sociedade. Aliás, a imprensa, incluindo aí as redes sociais, não diz que são mentiras. São ¨fakes news¨, como se não soubéssemos que são mentiras mesmo ou notícias falsas, o que vem a ser a mesma coisa.

Affonso Romano de Sant’anna, em seu magnifico poema ¨A IMPLOSÃO DA MENTIRA¨, diz: ¨Mentem no passado. E no presente passam a mentira a limpo. E no futuro mentem novamente. Mentem fazendo o sol girar em torno à terra medieval/mente. Por isto, desta vez, não é galileu quem mente, mas o tribunal que o julga herege/mente. Mentem como se Colombo partindo do Ocidente para o Oriente pudesse descobrir de mentira um continente. Mentem desde Cabral, em calmaria, viajando pelo avesso, iludindo a corrente em curso, transformando a história do país num acidente de percurso¨.

A mentira tem o poder de destruir o caráter e a personalidade de qualquer pessoa, seja o cidadão comum ou o político consagrado. É muito frustrante nas eleições brasileiras quando acreditamos que este ou aquele candidato é decente e honesto. Depositamos na urna um voto de confiança. Depois de eleito, já no cargo que o elegemos, vem a decepção porque ele mentiu. Percebe-se que o objetivo do governante não é governar para o bem da coletividade e sim proteger sua família, seus amigos empresários e capitalistas que querem mais lucro, não importa a quem o chicote vai alcançar.

A mentira inferniza e destrói lares, porque um dos parceiros mentiu. Há pessoas que fazem da mentira uma prática diária. Mentem aqui e acolá e vão mentindo pela vida afora, querendo transformar a mentira que apregoam em verdade cristalina e pura. Não é sempre que conseguem. Geralmente são desmascarados pelos fatos.

A sociedade não prospera quando a mentira alimenta a corrupção que medra em todos os terrenos, especialmente onde há dinheiro. O grande jurista e advogado Rui Barbosa, em campanha presidencial contra Epitácio Pessoa, pronunciou um discurso no Rio de Janeiro, em março de 1919, ¨O REINO DA MENTIRA¨ – ¨Mentira toda ela. Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu, onde, segundo o padre Vieira, o próprio sol mentia ao Maranhão, e direis que hoje mente ao Brasil inteiro. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos projetos. Mentira nas reformas. Mentira nas convicções. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações e nos blocos. Mentira nas instituições. Mentira nas eleições. Mentira nas apurações. Mentira nas mensagens, nos relatórios, nos inquéritos, nas candidaturas, nas garantias, nas responsabilidades, nos desmentidos. A mentira é geral. Uma impregnação total das consciências pela mentira, que se acaba por se não discernir a mentira da verdade, que os contaminados acabam por mentir a si mesmos e muitas vezes não sabem se estão, ou não mentindo¨.

Jesus afirmou que o pai da mentira é o diabo. Portanto, aqueles que mentem e não se arrependem se tornam filhos do diabo. No episódio da crucificação de Cristo, Pedro, o grande Pedro mentiu três (3) vezes antes que o galo cantasse. Mas as Escrituras Sagradas também informam que Pedro se arrependeu e chorou amargamente. E a Bíblia é muito clara sobre a mentira: ¨Não darás falso testemunho contra o teu próximo¨. Êxodo 20:16 - ¨A testemunha sincera não engana, mas a falsa transborda em mentiras¨. Provérbios 14:5 - ¨Não furtem. Não mintam. Não enganem uns aos outros¨. Levítico 19:11 - ¨Pelo que deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo¨. Efésios 4:25 - ¨E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará¨. João 8:32 - ¨Quem pratica a fraude não habitará no meu santuário; o mentiroso não permanecerá na minha presença¨. Salmos 101:7 - ¨Que a sua palavra seja sim, sim e não, não¨. Mateus 5:37.

Diante de tudo isto, o quadro é desanimador, porque infelizmente no Brasil a mentira foi banalizada e se transformou em arma para destruir pessoas, relacionamentos, mina a confiança e quase sempre machuca tanto que é impossível o conserto.

 

FONTE:

A BÍBLIA

DISCURSO DE RUI BARBOSA: ¨O reino da mentira¨

Poema de Affonso Romano de Sant’anna ¨A implosão da mentira¨

Visão do autor








CONTRASTE - ARISTEU BULHÕES

 





CONTRASTE

Aristeu Bulhões

 

No chão do meu quintal, que rústico era,

Eu, que de sonhos enfeitava a vida,

Numa linda manhã de primavera,

Plantei ramos de uma árvore caída...

 

E, cheio de ilusão e de quimera,

Abandonei a terra estremecida

Como o viajante que atingir espera

A rósea meta, a que o Ideal convida...

 

Anos depois voltei... Na alma cansada

Nem mais um sonho, uma ilusão trazia

Porque tudo eu perdera na jornada.

 

Mas, cada ramo que plantei a esmo,

Era uma árvore imensa que floria

Para arrimo e conforto de mim mesmo.

GRATIDÃO - STELA CÂMARA DUBOIS

 






GRATIDÃO 

Stela Câmara Dubois (Autora do excelente livro "RAMALHETE DE MIRRA".

 

A gratidão é a flor desabrochada
quando tudo é secura na colina.
É o suave tom da abóboda estrelada,
enquanto a noite às trevas se destina.

 

A gratidão não pode ser comprada.
A riqueza a seus pés é pequenina.
Qual boa mãe no lar, mestra inspirada,
a lição mais perfeita nos ensina.

 

Vede-a com sangue, escrita numa cruz!
A gratidão somente amor produz,
por isso põe os céus no coração!

 

Oh! Que me falte o amparo nos escolhos,
falte-me o pão e a luz dos próprios olhos,
PORÉM, NUNCA ME FALTE A GRATIDÃO!

QUANDO A NOITE... - FILEMON MARTINS

 




QUANDO A NOITE...

Filemon Martins

                       

 

Quando a noite chegar

serena e bela,

a lua há de brilhar em meu semblante,

e andando, solitário, pela rua,

hei de lembrar do meu passado errante.

 

E no meu peito sofrido e apaixonado

uma agridoce saudade em tom de mágoa

há de apertar meu coração amante

e ficarás a sós, no mundo triste,

se de mim continuares tão distante.

 

Mas, se quiseres que eu vá,

já estou partindo.

Melhor partir do que viver fingindo,

que nosso amor, parece, feneceu.

 

E quando a lua brilhar mais uma vez,

não sofrerei de amor,

porque talvez:

- uma paixão não dure a vida inteira.

TROVAS DO FILEMON

 




TROVAS DO FILEMON

 

Não me fascina, na vida,

poder ou fama alcançar,

que a vitória merecida

é pelo Amor triunfar! 

Saudade é o cantar tristonho

do canário, no Sertão.

É sentir que o nosso sonho

não passou de uma ilusão.

 

Assim é que vejo a vida:

uma estrada singular,

às vezes erma e cumprida

que a gente tem que trilhar.


Não julgue pela aparência,

não condene sem saber;

às vezes com paciência

algo bom temos de ver.