quinta-feira, 9 de julho de 2026

COMPONDO VERSOS - FILEMON MARTINS

 






        COMPONDO VERSOS

                   Filemon Martins



Eu quisera compor uns lindos versos
que falassem do amor e da paixão,
destes sonhos  antigos e dispersos
que ocuparam meu pobre coração.

Teus olhos cor de mar, (quase perversos),
pousaram sobre mim, que perdição,
e meus sonhos agora estão imersos
neste mar de beleza e solidão.

Por que partiste assim, sem dizer nada,
deixando apenas tua gargalhada
que em saudade se fez e em mim convive.

Peço para que voltes, doce amada,
porque sem luz não há mais alvorada,
sem teu amor meu coração não vive!

TROVAS DO FILEMON

 




 TROVAS DO FILEMON

       

Não me queixo desta vida,
apesar da minha idade.
Queixo, sim, da despedida
que me trouxe esta saudade.

Quando a amargura me assalta
e a tristeza o peito invade,
eu sinto que a tua falta
vai me matar de saudade.

Nesta manhã reluzente
de sol aquecendo a terra,
vejo a beleza presente
no teu olhar cor de serra.

Entre flores, no meu sonho
estavas nos braços meus.
Mas de repente, tristonho,
acordei ouvindo “adeus”.

TROVAS DIVERSAS

 




TROVAS DIVERSAS

São as mulheres formosas
como os rosais nos caminhos:
de longe, mostram as rosas;
mostram, de perto, os espinhos.
Leonardo Henke

Com pena, por vê-lo morto,
a borboleta, piedosa,
simulou, no galho torto,
duas pétalas de rosa...
Orlando Brito

Mesmo soltas e espalhadas
as pétalas são formosas;
porém somente abraçadas
é que elas se tornam rosas!
A. A. de Assis

Pobre horizonte pequeno
de quem crê, sem ver mais nada,
que uma rosa com sereno,
é só uma rosa molhada!
Arlindo Tadeu Hagen

TROVAS BRASILEIRAS

 




TROVAS BRASILEIRAS


Aquele que não tive

aquela paz que passou,

suporta, quem já não vive,

e a quem o mundo acabou.

WALTER ARGENTO


Teu afago mentiroso

malgrado todo o veneno,

tem o frescor caricioso

de uma rosa no sereno.

DOROTHY JANSSON MORETTI


Ser como o rio (o estudante

sonha, fazendo direito):

fazer um curso brilhante

mas sem sair do seu leito.

ZIVER RITTA


Tenho a vaga garantida

neste emprego, pois sabendo

que exigem folha corrida,

eu trouxe o jornal correndo.

DIVENEI BOSELI


("FANAL" Nº 564)

TROVAS BRASILEIRAS

 




TROVAS BRASILEIRAS


"Não há vaga" - e um pai cansado,

que a procurou todo o dia,

chora ante o fogo apagado

sob a panela vazia.

ADÉLIA VICTÓRIA


Um bom caráter eu meço

por duas simples premissas:

humildade no sucesso

e altivez ante injustiças.

MIGUEL RUSSOWSKY


Aquela rosa que um dia

tu me deste com carinho

ainda traz muita alegria

perfumando o meu caminho.

ANALICE FEITOZA DE LIMA


Se repousares um dia

em meu leito abandonado,

permitirás que a poesia

venha acordar a meu lado.

RENATA PACOLLA


(FONTE: "FANAL" Nº 564)


DE JOELHOS - MÁRIO BARRETO FRANÇA

 




DE JOELHOS

Mário Barreto França


Abre este livro devagar... Escutas?

Alguém soluça dentro dele... Infindo,

ouve-se nele, assim como nas grutas,

um rosário de lágrimas caindo...


E os sufocados ais?... São árduas lutas

dentro do peito o coração ferindo...

Do ódio as bravias ondas, resolutas,

lançam apodos para um céu que é lindo...


Passa de leve as páginas... Cuidado!...

Pois dentro dele vive o meu passado,

um rosto a refletir como os espelhos...


E, como sinos a planger dolentes,

a cabeça entre as mãos, por entre dentes,

a minha alma recita de joelhos...

quarta-feira, 8 de julho de 2026

TROVAS BRASILEIRAS

 





TROVAS BRASILEIRAS



A saudade é altar festivo,
que tenho no coração,
onde a rezar sempre vivo
uma infinita oração... 

Inocêncio Candelária



Dia a dia, mais se expande
e minha alma triste a aceita:
- esta saudade é tão grande,
que o próprio tempo a respeita! 

Carolina Ramos



Esta mágoa, sem remédio...
Esta esquisita ansiedade...
Esta doçura que é tédio...
- É o que chamamos Saudade. 

Luiz Otávio



Estranha fidelidade
na minha vida acontece:
eu não esqueço a saudade,
e a saudade não me esquece... 

Izo Goldman

(Do livro MIL TROVAS DE AMOR E SAUDADE, de P. de Petrus/Noel Bergamini-da UNIÃO BRASILEIRA DE TROVADORES)

TROVAS BRASILEIRAS

 





TROVAS BRASILEIRAS



Fui menino, moço, e, agora
por que mudei tanto assim?
Lembrando os tempos de outrora,
tenho saudades de mim... 

Mário Barreto França



“Matar saudades”, querida,
é uma expressão simplesmente,
pois, em verdade, na vida,
saudade é que mata a gente... 

J.G. de Araújo Jorge



Na carta, ao dizer-te quanto
a saudade me consome,
as reticências do pranto
quase apagaram meu nome. 

Carlos Guimarães



No meu livro da Lembrança,
ainda sem conclusão,
saudade é aquela esperança
que compôs a introdução... 

Vanda F. Queiroz


terça-feira, 7 de julho de 2026

O MERCADO DO SILÊNCIO DE SAMARCANDA - JOSÉ FELDMAN

 




O Mercado do Silêncio de Samarcanda


José Feldman

  

A fama de Mustafá, o peregrino ganhou tais proporções, que um sheik de Bagdá o convidou para se hospedar em seu palácio, desde que contasse suas histórias que penetravam e encantavam a alma de todos. 

 

Mustafá sentava-se em almofadões, com o sheik sentado em sua cadeira e os súditos espalhados pelo salão, sentados no chão. Falava pausadamente, gesticulando muito, atraindo a atenção de todos os ouvintes.

 

Saiba, ó Rei dos Tempos e Senhor da Justiça, que as palavras que agora saem de minha boca não são frutos da mera imaginação, mas sementes colhidas nos portos onde o sol se põe e a lua descansa. Sou Mustafá, o Peregrino, e meus pés já beijaram as areias de Mogadíscio e minhas mãos já tocaram as sedas de Samarcanda.

 

Acomode-se, ó Sultão de Bagdá, pois o que vou narrar agora não é para ouvidos apressados. Bebam seus chás com calma, pois a história do Mercado de Silêncio de Samarcanda exige que a alma esteja em repouso.

 

Há muitos anos, quando minhas sandálias ainda eram novas e meu coração buscava o que os olhos não podiam ver, atravessei as montanhas de gelo até chegar às muralhas azuis de Samarcanda. Mas não entrei pelo portão dos mercadores barulhentos. Fui guiado por um velho dervixe até um bairro onde as ruas eram cobertas por tapetes de lã grossa e as paredes eram revestidas de cortiça e veludo.

 

Ali, ó Sheik, ficava o Souq al-Samt (Mercado do Silêncio).

 

Ao cruzar o arco de entrada, o som do mundo morria. Não se ouvia o tinir das moedas, nem o grito dos vendedores de halva (doce de gergelim), nem o relincho dos camelos. O silêncio era tão denso que se podia ouvir o bater das asas de uma borboleta a dez côvados de distância. Era um lugar de paz profunda, uma serenidade que descia sobre os homens como o orvalho da manhã.

 

Nesse mercado, as transações não eram feitas com a língua, mas com o coração. Se um homem desejava um frasco de essência de jasmim, ele não perguntava o preço. Ele sentava-se diante do mercador, ambos em silêncio, e olhavam-se nos olhos. Ali, o vendedor lia a necessidade do comprador, e o comprador sentia a honestidade/confiança do vendedor.

 

Vi um homem oferecer uma única tâmara seca por um colar de safiras. Em qualquer outro lugar, seria loucura ou insulto. Mas ali, naquele silêncio sagrado, o mercador aceitou com um aceno de cabeça. Por quê? Porque aquela tâmara era o último alimento daquele homem, dada com um sacrifício que valia mais que todo o tesouro do Califa. O valor das coisas não era medido pelo ouro, mas pela intenção.

 

Certa tarde, vi um jovem gharib (estrangeiro) entrar correndo, gritando por socorro porque perdera sua caravana. No momento em que sua voz rompeu o ar, as mercadorias nas prateleiras — as sedas, as cerâmicas, as especiarias — perderam a cor, tornando-se cinzas como as cinzas de uma fogueira. O silêncio era a magia que mantinha a beleza viva. O jovem, percebendo o sacrilégio, caiu de joelhos e cobriu a boca. Um ancião apenas tocou seu ombro e lhe entregou um copo de água. Naquele silêncio, o jovem encontrou a direção que nenhum mapa poderia dar.

 

Dizem, ó Sheik, que o Mercado de Silêncio foi construído sobre o túmulo de um sábio que acreditava que 'a palavra é prata, mas o silêncio é ouro'. Saí de lá dias depois, mas minha voz nunca mais foi a mesma. Aprendi que, quando calamos a língua, a alma começa a falar.

 

Saí de Samarcanda levando apenas um pequeno saco de seda vazio. Quando as pessoas me perguntavam o que comprei no Mercado de Silêncio, eu apenas sorria. Pois o que comprei lá não cabe em caravanas: comprei a capacidade de ouvir a voz de Alá no sussurro do vento do deserto.

 

Escutai com vossa alma, ó guardiões da paz, pois o Souq al-Samt (Mercado do Silêncio) não é apenas um lugar em Samarcanda, mas um espelho da verdade divina.

 

A moral desta história, ó Sheik, é que o valor de um homem e de suas posses não reside no preço que a língua apregoa, mas na intenção que o coração sustenta. Vivemos em um mundo de ruído, onde acreditamos que quanto mais alto gritamos nossa importância, mais seremos ouvidos. Contudo, o mercado nos ensina que a verdadeira paz profunda e a bênção só florescem onde o ego se cala.

 

Muitas vezes, uma única tâmara dada com sacrifício vale mais que mil dinares (moedas de ouro) dados com orgulho. A beleza do mundo é uma magia frágil que se desfaz diante da arrogância e do barulho desnecessário. Quem aprende a silenciar a sua língua descobre que o universo inteiro começa a falar, e que as trocas mais valiosas da vida são aquelas feitas em espírito de honra e confiança, sem que uma única palavra precise ser gasta.

 

Mustafá inclinou a cabeça, encerrando 

relato.



(FONTE: "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)   

TROVAS DO FILEMON

 





TROVAS DO FILEMON


 

O tempo passou depressa

e com tal celeridade,

que tudo virou promessa...

Já não tenho mais vaidade.


Amei demais. Fui criança,

busquei luz, felicidade.

A vida enchi de esperança

e a minha alma, de saudade.


Abrindo a boca dos ventos,

farfalhando em arvoredos

nascem sonhos, sentimentos

que sufocam nossos medos.


Com tanto brilho e beleza

a vida começa, agora,

prometendo, com certeza,

a luz de uma nova aurora.

TROVAS DO FILEMON

 





TROVAS DO FILEMON


 

Quando te beijo, meu bem,

eu sinto o nascer da aurora.

Meu coração diz amém

e manda a tristeza embora.


No meu sonho apaixonado,

meu eterno beija-flor,

nunca é demais ser amado,

nunca é demais ter amor.


Se estamos tristes, cansados,

quando a dor invade o peito,

os amigos são chamados

e o mundo fica perfeito.


Bem tranquilo chega o outono

trazendo grande saudade,

e a sensação de abandono

à noite o meu peito invade.

ESCADA DE TROVAS - FILEMON MARTINS

 





ESCADA DE TROVAS 

Filemon Martins



SUBINDO:

Deixava a vida passar
se, numa rede deitado,
eu tivesse teu olhar
para os meus olhos, voltado.

No afago do teu calor
viver a vida sorrindo,
mais feliz que um trovador
quando as trovas vão surgindo.

Como canção de ninar
ao embalo do coração,
quero viver, quero amar,
curtindo toda a emoção.

Se eu tivesse teu amor
nunca haveria depois.
Bailando qual beija-flor
num beijo só de nós dois.

NO TOPO:

SE EU TIVESSE TEU AMOR
COMO CANÇÃO DE NINAR,
NO AFAGO DO TEU CALOR
DEIXAVA A VIDA PASSAR.

TROVAS DE EUCLIDES PEREIRA DA CUNHA

 





TROVAS DE EUCLIDES PEREIRA DA 
CUNHA


 

O sol no ocaso desmaia

deixando na terra as brumas;

as ondas batem na praia

tecendo rendas de espumas.


Quem dá valor à riqueza,

fazendo do ouro um troféu,

não dá valor à pureza,

que só tem valor no céu.


Não temo da vida a afronta,

nem os maus ventos dispersos,

eu colho o bem que desponta

da semente de meus versos.


Vejo a chuva na vidraça,

como lágrimas de prata,

chorando a dor que não passa,

na saudade que me mata.


(Do livro “GENTE E COISAS NA FRONTEIRA DAS LEMBRANÇAS”, página 21)