quinta-feira, 2 de julho de 2026

SALVE, A BAHIA! - JOAQUIM RODRIGUES DE NOVAIS

 






SALVE, A BAHIA!

Joaquim Rodrigues de Novais

 

Bahia maravilhosa, Terra de Vera Cruz

e das mulheres corajosas que se vestiam
como homens com muito amor para
defender nossa terra,

Bahia de São Salvador.


Bahia do apetitoso acarajé,

aqui colhe quem planta com fé,

hoje eu te saúdo com alegria

minha linda e abençoada Bahia.
  
Obrigado a esse povo valente,

povo gentil e forte que defendeu

com unhas e dentes não só a Bahia,

mas também o nosso imenso Brasil.

 

Ipupiara, 02 de julho de 2026


quarta-feira, 1 de julho de 2026

A EXECUÇÃO DE CARLOS LAMARCA EM IPUPIARA - ARIDES LEITE SANTOS

 





A EXECUÇÃO DE CARLOS LAMARCA EM IPUPIARA

Arides Leite Santos

 

 

        Agosto de 1971. Aos 6 anos e 7 meses de idade, Euzim havia saído de casa na Rua Rui Barbosa, levando de comer para a casa de seus avós, na Rua das Fruteiras, perto do cemitério. Uma calmaria insossa anunciava o que seria mais um daqueles dias monótonos, longos, de sol escaldante, como sói acontecer no semiárido do sertão; um dia como outro qualquer. No meio do caminho, nas proximidades do prédio da Escola Batista Ruth Isabel de Souza, subitamente, deparou com um comboio de caminhões, abarrotados de homens sentados, sob uma cobertura de lona, cantando sabe-se lá o quê, em vozes altissonantes, esbanjando sorriso nos rostos, armados com faca pendurada de lado e fuzil ou metralhadora exibido com as mãos, ostentando uma demonstração de poder e força capaz de meter medo até em cabra valente. A súbita visão da carruagem de homens sorridentes, viçosos, lisos, brilhando de gordos, em contraste com a imagem de rostos murchos e tristonhos, gravada em sua tenra memória, deixou-o tão assombrado que a válvula do seu infante coração só não explodiu, ele crê, pela misericórdia de Deus. E-agora-José? Dominado pelo medo, sem ânimo para sequer pensar sobre um possível motivo do aparecimento daquilo que seus olhos viam, levou às pernas uma força oriunda do instinto de sobrevivência, voltou disparado para casa, o coração saindo pela boca. Tendo conseguido adentrar o asilo inviolável, jogou o de comer pra lá e foi se enfiar no lugar mais recôndito que havia em casa. A mãe o viu chegar correndo. Assustada com aquele avexame de menino assombrado em plena luz do dia, veio perguntando o que houve. Se não lhe tivesse faltado o fôlego, com certeza ter-lhe-ia dito:

        - Mãe, o que é eu não sei não, mas deve ser o fim do mundo! Ela ainda estava sem saber de nada, até ali ninguém sabia de nada. E assustada ficou a perguntar:

        - O que é?!... O que é?! Ai, ai, ai!!!... O que foi que “tu viu”, menino?!

        Sem fôlego para balbuciar sequer uma palavra, esbaforido, enfiou-se debaixo de uma cama de ferro, através de uma frincha pela qual mal passava a cabeça, e ali permaneceu recluso, contemporizando o monstruoso sentimento que abalara os fundamentos de sua alma.

        Um exército de homens incursionou em Ipupiara à procura do homem mais procurado do Brasil. Em questão de dias, conquistaram a simpatia do povo, cortando o cabelo de graça, instalando postes para iluminar a cidade com gerador e motor a diesel, muitas outras bondades fizeram no intuito de lograr êxito na árdua tarefa que teriam doravante: convencer os autóctones da justiça da causa ignóbil que os levava a armar suas tendas ali.

        No Morro do Cruzeiro e adjacências, homens do Exército Brasileiro gastaram munição de metralhadora, treinando tiro ao alvo na selva. Sua passagem por lá deixou vestígios que subsistiram durante décadas.

        Euzim e outros “eus” viviam brincando de colecionar cápsulas de projéteis de metralhadora que os caçadores de Lamarca haviam disparado nos morros que circundam Ipupiara.

        As garrafinhas metálicas despertavam-lhes o desejo de encontrá-las porque tinham algo de mágico que lhes dava prazer. Meninos sem rédeas paternas, Euzim e amigos saíam em bandos, embrenhavam-se nos morros e, uma vez imersos na mata, concentravam todos os sentidos no labor à cata delas. Seus gozo e divertimento, hauridos da propriedade delas, provinham do simples ato de possuí-las e fazê-las brilhar. Captado por olhares infantes, o brilho mágico das garrafinhas era obra produzida com o esfregar das mãos impregnadas de pó de barita, brilho extraído com esforço infantil, a coisa parecia ganhar vida, a meninada se encantava. Em seu mundo de criança sertaneja, viviam inocentes sobre o para quê tinham sido fabricadas. O utensílio que seus olhos viam não chegava à consciência como símbolo de uma sociedade que gera morte violenta, não senhor! Aquilo era só uma garrafinha joia de brincar!

        Carlos Lamarca nasceu em 27/10/1937 no Estácio, norte do Rio de Janeiro, filho de Gertrudes e de Antônio Lamarca. Abandonou o posto de oficial do Exército Brasileiro e partiu para a luta armada contra o governo da ditadura militar.

        29 de junho de 1971, Lamarca chega em Buriti Cristalino, lugarejo entranhado nas serras de Brotas de Macaúbas. Recolhe-se num acampamento secreto, guardado por José Carlos de Souza, Luís Antônio Santa Bárbara e José Campos Barreto (Zequinha), militantes do Movimento Revolucionário Oito de Outubro – MR-8.

        Zequinha nasceu no Buriti Cristalino, filho de José Araújo Barreto e Adelaide Campos Barreto.

        Do acampamento secreto, a menos de dois quilômetros do Buriti, Lamarca e Zequinha ouvem ruídos de tiroteio e se embrenham pelas serras adentro. Andam dias e noites pela caatinga. No dia 12 de setembro de 1971, alcançam Ibotirama, na beira do Rio São Francisco. Lamarca precisa de socorro médico, mas não consegue, e o cerco se fecha. Decidem voltar na direção de Brotas, em precisão de médico.

        17 de setembro de 1971. Extenuados de tanto correr pelas matas do sertão, fugindo dos “lobos” em forma de homens que saíram no seu encalço, Lamarca e Zequinha folguejavam moribundos à sombra de uma baraúna, próximo ao povoado de Pintada, município de Ipupiara, e ali seus algozes os executaram.

        “Eu vi tudo isso quando pensei nas coisas que acontecem neste mundo. Houve um tempo em que alguns tinham o poder, e outros sofriam, dominados por eles”. Eclesiastes 8.9 (Bíblia NTLH).

 

Brasília-DF, 12 de novembro de 2017

 

 

(FONTE: “ANTOLOGIA DE POESIAS, CONTOS E CRÔNICAS – IMPRESSÕES LITERÁRIAS”, PÁGINAS 26/28)  


terça-feira, 30 de junho de 2026

O ESPELHO DA ALMA - JOSÉ FELDMAN

 



O ESPELHO DA ALMA


José Feldman

  

"Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus caros amigos. Vejo que a luz das lamparinas reflete em vossos olhos uma sede de verdade. Eu, Mustafá, o peregrino, já vi muitos rostos se esconderem atrás de máscaras de seda e sorrisos de mel, mas a história que lhes conto agora fala de um objeto que não aceita disfarces.

 

Havia em Isfahan um joalheiro tão habilidoso que diziam ser capaz de lapidar o brilho das estrelas. Ele criou uma peça única: o "mir'at al-qalb" (espelho do coração). Não era feito de prata ou vidro comum, mas de uma liga de metais colhidos de meteoritos que caíram no deserto.

 

A fama do objeto chegou aos ouvidos do Grão-Vizir, um homem poderoso e temido, que suspeitava de todos ao seu redor. 

 

— "Ya Rabb" (Ó Senhor), dizia ele, "estou cercado de traidores que me elogiam enquanto afiam suas adagas". 

 

Ele comprou o espelho e o colocou no salão principal de seu palácio.

 

O enigma era simples, mas terrível: quando um homem olhava para o espelho, ele não via seus traços físicos — sua barba bem cuidada ou seu turbante luxuoso. O espelho refletia o estado de sua alma. Se o homem era ganancioso, via um lobo faminto; se era invejoso, via uma serpente; se era puro, via um jardim em flor.

 

O Vizir convocou todos os seus cortesãos. Um a um, eles passaram diante do espelho. 

 

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), exclamavam alguns antes de olhar, mas ao verem suas próprias imagens distorcidas em monstros e sombras, fugiam em pânico, incapazes de encarar a própria verdade. O palácio, antes cheio de risos falsos, tornou-se um lugar de silêncio e medo.

 

Por fim, o próprio Vizir parou diante do espelho. Ele esperava ver um leão majestoso, mas o que viu foi um abutre, curvado sobre o poder que não lhe pertencia. Ele percebeu que sua desconfiança era apenas o reflexo de sua própria desonestidade. 

 

— "Shukran" (obrigado), sussurrou ele ao artesão, "pois me destes a visão que nenhum conselheiro ousou me dar".

 

O Vizir quebrou o espelho em mil pedaços e distribuiu os cacos. Dizem que, desde aquele dia, cada homem em Isfahan carrega um pequeno pedaço de metal no bolso para se lembrar de que a beleza que buscamos no mundo deve primeiro ser cultivada dentro de nós.

 

"Inshallah" (Se Deus quiser), todos nós teremos a coragem de olhar para o espelho da alma sem desviar o olhar. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).




(FONTE: "ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN)


O SONHADOR - FILEMON MARTINS

 





O SONHADOR

Filemon Martins


 

Tenho sido, na vida, um sonhador

ando pegando o vento com a mão,

enquanto teço um verso sem valor,

só desejo voar na imensidão.

 

Quisera no Universo inspirador

poder cantar meus versos de paixão,

voltar a terra leve como a flor

exalando o perfume da afeição.

 

Procuro a nuvem, fujo da razão

quero viver em paz, na multidão,

como se fosse um ser angelical.

 

E me extasio dentro da verdade,

ao constatar a triste realidade:

um ser humano sou e assim, mortal!


PARA REFLEXÃO - FILEMON MARTINS

 





PARA REFLEXÃO (ADAPTAÇÃO)

Filemon Martins

 

 

Conta-se que um famoso cientista ao visitar a sala de trabalho de ISAAC NEWTON, viu sobre a mesa um maquinário representando o Universo, com os satélites girando meticulosamente em torno do Planeta Terra. Tudo perfeito. O cientista, então perguntou quem era o autor de tão significante trabalho. Isaac Newton deu-lhe uma resposta inusitada: - Não sei quem o fez, simplesmente apareceu sobre a minha mesa. Seu colega, intrigado, retrucou: - Não pode ser, alguém muito inteligente o fez. Isaac Newton, então, completou: você mesmo diz que o Universo apareceu do nada, de uma explosão estelar. Para mim, Deus foi o Grande Arquiteto do Universo, já para você...

O mundo é maravilhoso, mas o homem está sempre tentando destruir alguma coisa. Esse Ser pensante parece que não pensa mesmo...


segunda-feira, 29 de junho de 2026

PASSEIO EM GRUPO - FILEMON MARTINS

 






 

PASSEIO EM GRUPO

Filemon Martins

 

Saímos por volta das 6h da manhã. O dia estava amanhecendo. Eram 7 pessoas jovens numa picape, fretada para este fim: visitar e conhecer o rio Verde, que corre entre os municípios de Ipupiara e Barra do Mendes.

O percurso até certo ponto é feito de carro, depois vem a serra e para chegar ao rio, é a pé mesmo. Uma boa estirada por um caminho estreito e quase sem nenhum cuidado. Mas o entusiasmo do grupo era notório; a euforia tomava conta de todos os participantes daquela ousada aventura.

Conversas, sorrisos e histórias, cada um tinha a sua para contar. Fazia parte do grupo, moças e rapazes, entre os homens, Rael, Enzo, Caleb e Nathan. Entre as mulheres, Laura, Lorena e Rebeca.

O sol começava a despontar no horizonte, enchendo de luz e beleza o universo em que vivíamos. Pássaros em festa, pulavam de galho em galho numa algazarra infindável.

A serra mostrava marcas dos garimpeiros que por ali trabalhavam em busca do cristal de rocha; as catras se sucediam uma atrás da outra; algumas bem profundas e outras ainda em início de escavação, indicando que algum garimpeiro voltaria ali para continuar sua busca.

Naquela altura do passeio, a expectativa de avistar o rio ficava cada vez maior. Mas o cansaço de alguns forçava o grupo a parar um pouco para descanso. Escolheram um local mais aberto, mais limpo e se sentaram à beira da estrada. Merendaram, tomaram água, alguns preferiram suco e relaxaram à sombra daquela árvore.

Nathan era quem mais conhecia a região e tornou-se o guia naturalmente. - Hora de recomeçar a caminhada, disse Nathan. Enquanto andávamos por aquela estradinha estreita, era possível ver algumas cobras fugindo assustadas. Calangos, lagartixas, mocó, preá, tatu-bola e pássaros terrestres corriam pelo chão em busca de comida, como frutas, aranhas, pequenos insetos e sementes que os pássaros bicavam com extrema rapidez.

Estamos chegando! – gritou Nathan. E todo o grupo se animou com a notícia. Em seguida, já se ouvia o barulho das águas batendo e desviando-se das pedras. Água pura e cristalina cor de citrina, porque passa pelas raízes e pedras existentes no leito do rio. Uma pena que o rio é temporário, comentou alguém do grupo. O rio é estreito e suas margens, tanto a direita, como a esquerda apresentam muitas árvores com predominância em cor verde e muitos paredões de pedra. O grupo não perdeu tempo: todos caíram nas águas do rio Verde. O banho foi geral e valeu a pena o esforço e a caminhada, restando um gostinho de querer mais e voltar lá outras vezes. Que delícia de passeio!      


RUI BARBOSA - DE UM RECORTE DE JORNAL

 




RUI BARBOSA

 

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus - o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".

 

Quando Rui Barbosa proferiu seu famoso discurso no Senado em 17/12/1914, de onde extraímos o trecho em epígrafe, ele certamente estaria imaginando que havíamos chegado ao "fundo do poço". Seu discurso é corajoso, duro, brilhante e mostra claramente sua revolta pelo que via a seu redor.

Pois bem, decorridos quase 112 anos, o que vemos de diferente em nosso país? Passamos pela ditadura, recuperamos a democracia, o povo ganhou o direito de escolher seus governantes, dois presidentes sofreram processo de impeachment, um metalúrgico foi eleito e reeleito para nos comandar. O Brasil cresceu, chegou a ser a oitava potência do mundo, mas a desonestidade, a podridão, a miséria moral cresceram muito mais. Se vivo fosse, hoje Rui Barbosa estaria muito mais perplexo, envergonhadíssimo de ser honesto.

 

         (DE UM RECORTE DE JORNAL)


A TRANSFIGURAÇÃO - FILEMON MARTINS

 





A TRANSFIGURAÇÃO

Filemon Martins

 

 

Foi no Monte de Hermom que aconteceu

a transfiguração do Nazareno,

Mateus, Marcos e Lucas escreveu

como tudo, de fato, foi sereno.

 

Por um momento o céu escureceu

depois brilhou e o céu voltou ameno,

surgiram dois varões - grande apogeu

a falar com Jesus com um aceno.

 

Elias e Moisés também apareceram

a dialogar com o Meigo Jesus

que os escutou, tranquilo, com amor.

 

Os enviados do Pai logo entenderam

que o Filho precisava de mais luz

para salvar o povo pecador! 


TROVAS - SELEÇÃO DE JOSÉ FELDMAN

 




 

TROVAS - SELEÇÃO DE JOSÉ 

FELDMAN

 

Encontrei na minha trova

a vontade de escrever.

A paixão por coisa nova

faz a gente renascer.

        Cecim Calixto


A noite na minha rua

tem encantos sensuais...

sussurros chegam à lua...

na rua ficam os ais...

        Cecy Fernandes de Assis


Quando caminha apressado,

distraído e não me vê,

bem perto, quase a seu lado,

alguém sonha com você!

        Cecy Tupinambá Ulhôa


Andei na vida tão cego

por amores, que não sei

quantas saudades carrego,

quantas saudades deixei.

        Célio Bastos



TROVAS DO FILEMON

 


                             (FOTO DE SAUL, IPUPIARA, BAHIA)



TROVAS DO FILEMON



Plante uma boa semente

na terra bem adubada,

que a colheita, certamente

será sempre abençoada.

 

Quando plantar a semente

ponha a terra com amor,

deixe o campo sorridente,

que o botão transforma em flor.

 

Plante a semente e acredite

que a vida pode sorrir.

Deus é bom e nos permite

de outra vida usufruir.

 

Planto a paz neste trabalho

sou apenas aprendiz:

sementes de amor espalho

para o mundo ser feliz.

 

 

 


O PESCADOR E O SEGREDO DO PALÁCIO SUBMERSO - JOSÉ FELDMAN

 



 O Pescador e o Segredo do Palácio Submerso


José Feldman

  

"Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus amigos. Eu sou Mustafá, o peregrino, preparem o coração, pois esta é uma história que os ventos do deserto sussurram às tendas dos beduínos, sobre o destino, a cobiça e a justiça de Allah.

 

Diz-se, que vivia em uma cidade entre as montanhas e o mar um pescador chamado Abdallah. Ele era um homem de coração limpo, mas de mãos vazias, que mal conseguia o sustento para sua esposa e sete filhos.

 

Certa manhã, após lançar suas redes três vezes e colher apenas algas e pedras, Abdallah clamou aos céus. Na quarta tentativa, a rede pesou tanto que ele precisou mergulhar para soltá-la das rochas. Lá embaixo, no silêncio azul, ele não encontrou peixes, mas um anel de ferro preso a uma laje de mármore branco.

 

Ao puxar o anel, a laje se abriu, revelando uma escadaria que levava às entranhas da terra. Movido pela necessidade e pelo destino, Abdallah desceu. Ao fim dos degraus, ele não encontrou água, mas um palácio de luzes mágicas onde as paredes eram feitas de coral e o chão de pérolas brutas.

 

No centro do salão, repousava um gênio de estatura colossal, cuja pele era da cor do cobre e os olhos brilhavam como brasas.

 

— "Não tema, mortal," trovejou o gênio. "Sou o Guardião do Tesouro de Salomão. Por mil anos esperei por alguém cuja alma não conhecesse a mentira. Leve este frasco de cristal. Ele contém a Água da Verdade.

Quem a beber verá o mundo como ele é, e não como os homens o pintam." Abdallah, embora cercado de ouro, pegou apenas o frasco e subiu. No mercado, ele não vendeu o cristal, mas o usou para ajudar os injustiçados. 

 

Quando um mercador rico acusou um órfão de roubo, Abdallah deu uma gota da água ao juiz. O juiz, sob o efeito do elixir, não pôde proferir a sentença falsa que havia sido comprada e, em vez disso, confessou seus próprios subornos diante de todo o povo.

 

A fama do "Pescador da Verdade" chegou aos ouvidos do Sultão. O soberano, cercado de vizires que sussurravam lisonjas, quis testar o homem.

 

— "Pescador," disse o Sultão, "se sua água é tão poderosa, diga-me:

quem em minha corte é meu maior inimigo?"

 

Abdallah derramou a última gota na taça de ouro do Sultão. Ao beber, o monarca olhou para o seu Grão-Vizir e não viu um homem, mas uma hiena faminta pronta para morder-lhe o pescoço. O traidor foi preso e os planos de um golpe de estado foram desfeitos.

 

Como recompensa, o Sultão nomeou Abdallah seu conselheiro principal. O pescador nunca mais passou fome, mas dizem as crônicas que, todas as noites, ele voltava à praia para lançar suas redes, lembrando-se de que a verdadeira riqueza não está no que o ouro compra, mas no que a verdade liberta.

 

“As-salaam'aleikum” (Que a 


paz de Deus esteja com vocês).






(FONTE "ECOS DO DESERTO", 


JOSÉ FELDMAN)


SONETO DE CARLOS RIBEIRO ROCHA

 




SONETO DE CARLOS RIBEIRO ROCHA
(de memória e constava do livro HARPA SERTANEJA, inédito)


Já não lamento os sonhos destruídos,
- relembrar não desejo as ilusões
e a ventura fugaz dos tempos idos,
- folhas secas tombando aos turbilhões!

Chorar não devo! Os galhos ressequidos
sem flores, sem orvalho, sem canções,
tornam-se, às vezes, belos e floridos
ornando as serras, várzeas e grotões.

Surgem nos ramos novas esperanças
e a relva revestida vai ficando
de áureas flores, corimbos, verdes franças...

Se as nossas ilusões vão sucumbindo,
em nossas almas nasce, vai surgindo
das novas ilusões o álacre bando!