sábado, 1 de agosto de 2026

TROVAS BRASILEIRAS

 




TROVAS BRASILEIRAS


Fecho os olhos... Sou cativo
da saudade que me escolta
e teima em me dar motivo
para crer na sua volta.

MAURÍCIO CAVALHEIRO – PINDA – SP

Morreu pregado na cruz
um homem bom, de verdade;
Esse homem era Jesus,
que nunca teve maldade
.
ANA MARIA NASCIMENTO – ARAÇOIABA – CE

Direi ao sol, ao se pôr,
quando da minha partida:
nem sombra foste do amor
que iluminou minha vida!

LOTHAR BAZANELLA – SÃO PAULO

Se eu não fosse trovador
minha dor tinha que ser
inspiração do fervor
que trova no meu sofrer.

MARCOS MEDEIROS – LAGOA NOVA - RN

UM DOMINGO DE SOL -- FILEMON MARTINS

 


      (FOTO DE MAISE J. MARTINS, EM ITANHAÉM-SP)



UM DOMINGO DE SOL
Filemon Martins


Domingo. Estou só, não há ninguém,
só caneta, papel e inspiração,
a saudade já chega a Itanhaém*
e agita, sem querer, meu coração.


Quero escrever um verso. Sou refém
deste sonho de amor, desta ilusão
de acreditar que o ser humano tem
poder para mudar esta opressão.


Quisera transformar este planeta
usando o livro e até minha caneta,
e partilhar a sensação do amor.


Talvez, agindo assim nosso futuro
possa ser mais feliz e mais seguro
neste Universo belo, encantador!


* Litoral sul de São Paulo.

SONETO LXIV - CLÁUDIO MANOEL DA COSTA

 


                 (FOTO DE MAISE J. MARTINS, EM ITANHAÉM)



SONETO LXIV


Cláudio Manoel da Costa


Que tarde nasce o Sol, que vagaroso!

Parece que se cansa de que a um triste

Haja de aparecer: quanto resiste

A seu raio este sítio tenebroso!


Não pode ser que o giro luminoso

Tanto tempo detenha: se persiste

Acaso o meu delírio! se me assiste

Ainda aquele humor tão venenoso!


Aquela porta ali se está cerrando;

Dela sai o Pastor: outro assobia,

E o gado para o monte vai chamando.


Ora não há mais louca fantasia!

Mas quem anda, como eu, assim penando,

Não sabe quando é noite, ou quando é dia.



(LIVRO "GRANDES SONETOS DA NOSSA LÍNGUA", PÁGINA 71) 

 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

O VOO DA GANÂNCIA E O TAPETE DE VENTO - JOSÉ FELDMAN

 




 O Voo da Ganância e o Tapete de Vento

José Feldman

  

Acomodem-se, ó ilustres ouvintes, e que o brilho desta fogueira ilumine não apenas vossos rostos, mas também vossos corações. Eu, Mustafá, o Peregrino, caminhei por terras onde o sol nasce em tons de açafrão e se põe em mantos de púrpura. Trago comigo uma história que colhi nas areias de um oásis esquecido, uma crônica de astúcia e de perda.

 

Havia, em uma cidade de torres cor de marfim, um mercador chamado Mansur. Ele era um homem de muita riqueza, mas de pouca satisfação. Mansur possuía o tesouro mais cobiçado de todo o Sharq (Oriente): um tapete tecido com fios de seda colhidos das nuvens e tingidos com o azul do firmamento. Não era um objeto comum; era um tapete voador, capaz de cruzar os sete climas num piscar de olhos.

 

Mansur guardava o tapete em um baú de ébano com sete cadeados. Porém, a notícia de tal maravilha chegou aos ouvidos de um ladrão astuto chamado Salim. Salim não desejava o tapete para ver as maravilhas da criação de Allah (Deus), mas para ostentar um poder que não lhe pertencia.

 

Numa noite sem lua, Salim infiltrou-se na mansão. Usando um óleo especial para silenciar as dobradiças, ele abriu o baú. Ao tocar a seda mágica, sentiu um calor vibrante. Ele estendeu o tapete no balcão e sussurrou as palavras de comando. O tapete subiu aos céus, carregando o ladrão para além das muralhas.

 

Salim ria, sentindo-se um rei acima dos mortais. Ele ordenou que o tapete o levasse para uma ilha de tesouros. Mas o tapete, dotado de uma centelha de espírito, sentia que as mãos que o guiavam estavam sujas de desonestidade. A seda começou a desbotar, e o voo, antes suave como uma brisa, tornou-se errante como uma tempestade.

 

No meio do oceano, o tapete começou a se desfiar. Cada fio roubado voltava ao céu de onde viera. Salim, em seu desespero, tentou segurar as pontas, mas quanto mais apertava, mais o tapete sumia. Ele caiu nas águas profundas, restando-lhe apenas um pedaço de pano comum nas mãos. Ele sobreviveu, mas como um simples náufrago, perdendo tudo o que tinha, inclusive sua dignidade.

 

O mercador Mansur, ao acordar, não chorou. Ele olhou para o céu e disse: 

 

— “O que veio do vento, ao vento voltou”.

 

Mustafá fez uma pausa, ajustando seu manto, e olhou seriamente para o Sheik e seus súditos antes de proferir as palavras finais:

 

Escutai com vossas orelhas e guardai no fundo do coração, ó nobres filhos de Bagdá, pois o vento que carrega o tapete é o mesmo que espalha as cinzas do orgulhoso.

 

A lição desta história, ó Sheik, é que o roubo é uma carga pesada demais para as asas da liberdade. Salim acreditou que, ao possuir o (tapete), possuiria o céu, mas esqueceu-se de que a verdadeira ascensão exige pureza.

 

Aquele que busca subir na vida pisando nos direitos alheios ou roubando o fruto do trabalho de outrem, descobrirá que o topo é um lugar solitário e frágil. A ganância é uma ilusão que nos faz sentir gigantes enquanto caímos no abismo. O tapete não era movido por palavras mágicas, mas pela sintonia entre a obra e a intenção de quem a usa. Quem sobe por meios ilícitos sempre encontrará o chão, pois a justiça de Alá é como a gravidade: ela não permite que o injusto voe por muito tempo sem que a verdade o puxe de volta à terra.




(FONTE: "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN) 

 


NOSSO ELNIÑO - FILEMON MARTINS

 




                            NOSSO EL NIÑO

                                       Filemon Martins



                        O El Niño não perdoa.

                        Provoca a seca,

                        provoca o excesso de chuvas

                        e deixa lágrimas

                        nos olhos dos brasileiros.


                        Mas há outros problemas seculares:

                        analfabetismo, desemprego,

                        sem saúde, sem teto, sem terra,

                        sem segurança, sem esperança

                        e sem patrimônio.


                        Em contrapartida, temos:

                        corrupção, fraudes, escândalos,

                        desvio de verbas, apropriação indébita.

                        É tanto dinheiro que não cabe nos bancos.

                        Carrega-se no bolso do paletó, nas meias, nas cuecas e nos sapatos.


                    As promessas demagógicas

                         da propaganda oficial

                        não saciam a fome

                        não obstante o Fome Zero,

                           o Auxílio Emergencial

                        nem diminuem os problemas

                        de milhões de brasileiros.


                   São brasileiros excluídos,

                        massacrados e oprimidos

                        pela política antissocial

                        dos prepotentes e poderosos.

                        São cidadãos brasileiros

                        vivendo na miséria do outro Brasil.


                        ... E muita gente não consegue perceber isto!


CAMINHADA - FILEMON MARTINS

 




CAMINHADA

Filemon Martins

 

A caminhada é longa, nós sabemos

que é difícil vencer este caminho,

mas a fé nos ajuda, assim nós cremos,

melhor lutar do que ceder ao espinho.

 

Contornar o perigo é o que queremos,

porque o mundo se mostra tão mesquinho

que às vezes é preciso que busquemos

um punhado de amor e de carinho.

 

E enquanto a vida nos disser prossiga,

buscaremos obter na fé amiga

os pomos que a vitória nos conduz.

 

Almas gêmeas seremos pela vida,

unidas pelo amor – missão cumprida

para o destino que nos leva à Luz!

quinta-feira, 30 de julho de 2026

TROVAS DE AMOR

 


         (FOTO DE MAISE J. MARTINS, EM ITANHAÉM-SP)



TROVAS DE AMOR


Creio que você não sabe,
(se sabe, você não crê),
não há no mundo o que acabe
meu grande amor por você.
Delmar Barrão

Da vida pelo caminho,
- em dias claros risonhos –
dei tanto afeto e carinho,
deixei amor – trouxe sonhos...
Ilza Tostes

Das tuas juras fingidas
não guardo nenhum rancor.
- São páginas esquecidas
do livro do meu amor...
Alves Júnior

Das glórias do meu passado,
a maior – meu peito o diz –
seria haver conquistado
um amor que não me quis.


(MIL TROVAS DE AMOR E SAUDADE, PÁGINA 24)










TROVAS DE SAUDADE

 


                (FOTO DE MAISE J.MARTINS, EM ITANHAÉM, SP)



TROVAS DE SAUDADE
 

Saudade – espelho encantado
que mostra, aos olhos da gente,
toda a imagem do Passado
revivendo no Presente...
P. de Petrus

À saudade dei o braço,
do sonho me fiz amigo,
pois graças a eles eu passo
dias e noites contigo...
José Nogueira da Costa

A solidão me maltrata
e, a brilhar com intensidade,
a lua é um punhal de prata
que me mata de saudade...
Maria Tereza G. Noronha

A saudade, quando ocorre,
sempre causa tanta dor!
Saudade – mal de que morre
quem já morria de amor!
Walter Waeny


(MIL TROVAS DE AMOR E SAUDADE)

O LIVRO E A AMÉRICA - CASTRO ALVES

 




FRAGMENTO DA POESIA “O LIVRO E A AMÉRICA”
             CASTRO ALVES (1847/1871)


Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão-cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo na alma
É germe – que faz a palma,

É chuva – que faz o mar.

CONSTATAÇÃO - FILEMON MARTINS

 




CONSTATAÇÃO
Filemon Martins


Ontem, por ingenuidade ou credulidade
eu não sabia,
mas hoje eu sei:
tudo o que ele disse
não passou de enganação.
Com frases feitas,
palavras escolhidas iludiu o povo,
que hoje sofre as consequências de sua escolha.
Pior,
muitos ainda não perceberam
o engodo, a embromação
e continuam a aceitar, passivamente,
a multiplicação das falcatruas,
do enriquecimento ilícito,
da propaganda enganosa,
dos desmandos,
das mentiras, da dissimulação
e da manipulação das massas.
Acorda, Brasil!

(LIVRO "ANSEIOS DO CORAÇÃO", PÁGINA 40)

quarta-feira, 29 de julho de 2026

TROVAS BRASILEIRAS

 




TROVAS BRASILEIRAS


Crê que é dono do Destino,
tem poder de vida ou morte.
Mas não passa de um cretino,
escravo da própria sorte...

APARÍCIO FERNANDES


O livro é um amigo mudo,
que nos pode compreender.
Revela em silêncio tudo
que precisamos saber.

MARIA THEREZA CAVALHEIRO

Sempre acolho de mãos postas
e, humilde, tento aceitar
o silêncio das respostas
que a vida não sabe dar!

CAROLINA RAMOS

Pingos de chuva que escorrem
no vidro do coração
deixam marcas que não morrem...
e um mar de desilusão!

JOSÉ FELDMAN

REMINISCÊNCIA - FILEMON MARTINS


 

                             (FOTO DE SANDRO, IPUPIARA, BAHIA)



REMINISCÊNCIA
Filemon Martins



Nos meus dias repletos de poesia,
naqueles tempos cheios de emoção,
batia, no meu peito, o coração
em busca dessa paz tão fugidia.


Recordo aqueles versos que escrevia,
brincando nas Chapadas do Sertão,
quando os sonhos na vida muitos são
e a Esperança no Amor é uma alegria.


Mas as portas da vida se fecharam,
e tudo não passou de um breve sonho,
só ilusões na vida me sobraram...


Hoje! Esperanças – folhas destruídas...
Da vida – flores, rosas, pressuponho
só restam amarguras recolhidas!...

TROVAS BRASILEIRAS

 


               (FOTO DE MAISE J. MARTINS, EM ITANHAÉM)


TROVAS BRASILEIRAS


Como ilude a aparência...

Santo homem, bom cristão;

era a virtude, a decência,

por dentro - que podridão!

JESSÉ DO NASCIMENTO


Bendito quem no caminho

plantando amor entre irmãos

tem mãos que se fazem ninho

para aquecer outras mãos!

PEDRO ORNELLAS


Rejeito fraude e sofisma,

que a virtude é o meu condão.

Minha alma transpira o crisma

da inocência e do perdão.

HUMBERTO DEL MAESTRO


Mesmo pisando nos cardos

meus rastros serão pepitas,

pois, as lágrimas dos bardos

tornam-se trovas bonitas.

CARLOS RIBEIRO ROCHA