A VISITA DA FELICIDADE
José Feldman
TROVA DE LUCÍLIA A. T. DECARLI
A felicidade é rara
e bem poucos a conhecem...
Os que a viram "cara a cara",
nunca mais dela se esquecem!
A felicidade, dizem, é uma dama rara. Não é dessas que se
encontra todos os dias na praça, nem das que se deixam levar por promessas
vazias ou abraços apressados. Ela tem seus próprios caprichos e, ao que tudo
indica, gosta de aparecer quando menos se espera — mas nunca por acaso.
Certa vez, ouvi dizer que um homem a viu de perto. Era um
sujeito simples, desses que a vida insiste em testar.
Trabalhava duro, sonhava pouco, mas guardava um sorriso no
canto dos lábios, como quem sabe que, mesmo em dias nublados, há um sol por
trás das nuvens. Um dia, enquanto varria o quintal ao som do vento, ali, entre
as folhas secas e a poeira da estrada, ela apareceu.
A felicidade chegou sem avisar, como uma brisa que refresca
sem pedir licença. Não trazia roupas luxuosas, nem se anunciava com fanfarra.
Era apenas uma sensação — um calor que lhe subiu pela espinha ao ouvir o riso
de seu filho brincando no quintal, ao sentir o cheiro do café fresco vindo da
cozinha, ao perceber que, naquele instante, nada lhe faltava.
Ele parou. Olhou ao redor e percebeu: ela estava ali.
Mas a felicidade, como sabemos, não é dessas que ficam para
sempre. Ela tem o hábito de visitar e partir, deixando atrás de si um rastro de
saudade.
O homem sabia disso; não tentou prendê-la, não fez
perguntas, nem exigiu explicações. Apenas a contemplou, “cara a cara”, como
quem sabe que momentos assim nos transformam. Quando ela se foi, deixou consigo
algo precioso: a memória do instante.
E é isso que os que a viram carregam consigo.
A felicidade, quando surge, não precisa durar uma
eternidade para ser inesquecível. Basta um momento, uma fagulha, e ela finca
raízes no coração de quem a viveu. Porque, no fundo, não é ela que é rara —
rara é a nossa capacidade de reconhecê-la.
Então, se por acaso a felicidade lhe fizer uma visita, não
a obrigue a ficar. Apenas a viva.
E quando ela for embora, não a lamente. Afinal, os que a
viram, mesmo que por um breve instante, nunca mais dela se esquecem.

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