segunda-feira, 9 de março de 2026

IPUPIARA DA MINHA INFÂNCIA - PR. CLÓVIS DE SOUSA NOGUEIRA

 

 

IPUPIARA DA MINHA INFÂNCIA

Pastor Clóvis de Sousa Nogueira *

 

Nos dias da minha infância, há cinquenta anos, Ipupiara ainda era uma cidade parcialmente isolada do resto do mundo, não tinha energia elétrica, telefone, televisão, e pouquíssimas pessoas possuíam um rádio de pilha. A comunicação à distância era feita por meio de cartas, que dependendo da localidade demorava até quarenta dias para chegar. As ruas não eram pavimentadas, não havia muitos carros, caminhões ou motocicletas, e os habitantes, principalmente da zona rural, se locomoviam em lombos de animais. Jumentos, cavalos, vacas e galinhas andavam soltos pelas ruas e praças. Na segunda-feira, o dia da feira livre, os moradores da zona rural que vinham comprar e vender produtos, amarravam seus animais em cercas e árvores existentes no entorno da cidade. A compra de mantimentos, como: arroz, feijão, carne, farinha de mandioca, fubá de milho, óleo de cozinhar, sal, pó de café e rapadura, era feita na feira livre ou em pequenas mercearias. Na maioria das casas só havia fogão a lenha, era comum ver mulheres vindo do mato com feixes de lenha na cabeça. As casas eram modestas, construídas com adobe, piso de ladrilho de barro, calçadas de pedra, portas e janelas de tabuas fechadas com tramelas ou trancas. Não havia sanitários como temos hoje, na maioria das casas havia uma privada de buraco, que geralmente ficava no fundo do quintal. A roupa era lavada em locais públicos, como Fonte de Cima e Pau Louro; de onde também se buscava água para os serviços domésticos, carregada na cabeça em latas adaptadas para essa finalidade. A mobília e os utensílios domésticos da maioria das casas eram muito simples, uma mesa com algumas cadeiras ou tamboretes com assentos de couro cru, camas com colchões de palha de bananeira, cabide de madeira, pote de barro, ferro a brasa, pilão, candeeiros a querosene, tacho para torrar café, bule, coador de pano, moinho de grãos, triturador de feijão etc. Não tínhamos o conforto nem a fartura que temos hoje, mas éramos satisfeitos com o pouco que tínhamos. Minha infância em Ipupiara, como a de todos os meninos à época, foi marcada por sabores e brincadeiras inesquecíveis! Comi sonho da Dona Cantú; coloquei sapato debaixo da cama nas noites de natal; soltei bombinha em festas juninas; fui vacinado com “pistola”; joguei bola na rua; comi da merenda escolar preparada pela Dona “Jove”; bati caixa no 07 de setembro; brinquei de “brindjá”; empinei pipa; tomei banho de açude; andei com pernas de pau; fugi dos caretas; brinquei de chicotinho queimado; fiz carrinho de lata, de caixote e de rolimã; banhei na chuva; fiz tapagem de areia na enxurrada; armei fojo e arapuca; joguei pedra com baladeira; fui aluno da Escola Bíblica Dominical (EBD); participei da Escola Bíblica de Férias (EBF); toquei violão, fiz e toquei berimbau...

 

DONA LOVINA

 

É impossível falar da minha infância e da rua do correio onde nasci, sem falar da Dona Lovina. Lavínia Maria de Souza, popularmente conhecida como Dona Lovina, nasceu no povoado de Lagoa do Barro, no dia 29 de agosto de 1921, filha de Antônio Figueiredo dos Santos e Felizbela Maria de Souza. Ainda criança mudou-se com seus pais para o povoado de Caldeirão, próximo a Sodrelândia. Lavínia teve sete irmãos, a saber: Rosalvo Antônio dos Santos (04.11.1920), Aristides Antônio dos Santos (17.02.1924), João Antônio dos Santos (17.09.1926), Carolina Maria de Souza (30.11.1930), Artur Antônio dos Santos (26.09.1931), Salustiano Antônio dos Santos (01.02.1935), Dejanira Maria de Souza (05.12.1938) e Helenita Maria de Souza (14.12.1942). Todos já falecidos, exceto Salustiano Antônio dos Santos. Tempos depois, com a mudança da família para Vila de Jordão, atualmente Ipupiara-BA, Lavínia conheceu José Martins Sodré (Seu Zequinha), com quem se casou no dia 26 de junho de 1940. Após o casamento foram morar no povoado de Olho D`água, município de Ipupiara, onde nasceram os quatro primeiros filhos, a saber: Argileu Martins Sodré (in memoriam), Renilde Nunes Sodré, Gisélia Sodré Martins e Joston Martins Sodré (in memoriam). Tempos depois, vieram morar na cidade, para que os filhos pudessem estudar. Em Ipupiara nasceram mais dois filhos, a saber: Cláudio Martins Sodré (in memoriam) e Maria da Glória Martins Sodré (Dó). Dona Lovina não frequentou a escola, e por muito tempo não sabia ler nem escrever, porém, em 1970 foi alfabetizada pelo Movimento Brasileiro de Alfabetização, MOBRAL. Dona Lovina não tinha parentesco comigo, nossa identificação limitava-se ao fato de morarmos na mesma rua. Nossa casa ficava contígua à sua, e isso nos possibilitou uma boa convivência. Sua casa era uma extensão da casa dos meninos da rua. Todos os dias uma procissão de menino entrava e saia para comprar os doces que ela fazia. Em seu cardápio havia uma diversidade de doces, doce de coco, doce de batata, doce de buriti e bolo brevidade. Mas o pirulito de melado de açúcar com corante artificial (Q-Suco) e gotas de limão, era o mais procurado. Como era doceira e passava muito tempo à beira do fogão, só se via ela de avental, a peça fazia parte de sua indumentária. Não me lembro de ter visto Dona Lovina sem avental, parece que ela dormia com ele. Além das suas atividades no preparo e venda de doces, ela criava um lindo papagaio, e a criançada da rua se divertia com ele. Pois bem, de tanto o papagaio ouvir a criançada chamar por Dona Lovina, ele aprendeu a chamar também. E fazia isso tão bem que as vezes a deixava confusa sem saber quem estava chamando. Naqueles dias, a música “Cadê você” do cantor Odair José fazia um sucesso tão grande que o papagaio aprendeu cantá-la. Ao amanhecer, do alto de uma goiabeira, ele cantava: “Cadê você, que nunca mais apareceu aqui?”. Eu não sabia o que era marketing, e creio que a Dona Lovina também não, mas penso que aquele papagaio era o seu marqueteiro. Em 2023, logo depois da morte do amigo Cláudio, filho caçula da Dona Lovina, o papagaio morreu aos cinquenta e dois (52) anos. Na minha infância os alimentos tinham cheiro e sabor. O cardápio de todos os dias era basicamente o mesmo: feijão, arroz, ovo ou um pedaço de carne, quando tinha. Como falei anteriormente, nossa casa era vizinha à casa da Dona Lovina, e quando ela estava cozinhando, aquele cheiro agradável chegava até nossa casa, e eu desejava comer da comida que ela fazia. Um dia perguntei à minha mãe por que a comida dela não cheirava como a da Dona Lovina. Ela me respondeu que usava os mesmos temperos, e concluiu, dizendo: “o que faz a comida da Dona Lovina cheirosa é a fome, meu filho”. Ela tinha razão. Como não tínhamos o que comer entre as refeições básicas, na hora do almoço a fome era tamanha que “limpávamos” o prato. Dona Lovina nasceu com tino para o comércio, penso que se tivesse tido oportunidade seria uma empresária de grande sucesso. Além de fazer e vender doces, ela percebeu que na rua do correio havia muitos meninos, e que a maioria deles não possuía bicicleta. Isso despertou o seu lado empresarial, e sem perda de tempo comprou uma bicicleta para alugar. O aluguel era cobrado por minutos rodados. Uns alugavam por dez minutos, outro por trinta minutos e até por uma hora. Num daqueles dias, bem cedo, a fila de meninos já estava enorme, e os primeiros da fila eram Bada de Catarina e Filinto de Justina, os mais traquinas. Dona Lovina chegou com a bicicleta e a caderneta de anotações no bolso do avental. Em seguida marcou o tempo no relógio e liberou a bicicleta para os primeiros da fila. Quando os dois saíram eram nove horas, deveriam retornar às nove horas e vinte minutos. A fila de menino já estava para lá da casa da Dona Chiquinha e seu Zuza. Deu nove e vinte, e nada de Bada e Filintro. Dez horas, e nada. Onze horas, e nada. Dona Lovina já estava aflita, entrava e saia, e nada dos meninos. Às 17h, na esquina do bar de Sebastião (Tião), aparece Bada com uma parte da bicicleta nas costas e Filinto com outra. Chegaram e jogaram o que restou da bicicleta aos pés de Dona Lovina. Ela botou as mãos na cabeça, e disse: “valei-me, minha nossa senhora! O que foi isso, meninos?!”. Naquele dia Dona Lovina ficou brava, coisa que era difícil acontecer, e disse aos traquinas que aquela foi a última vez que eles andaram em sua bicicleta. No dia seguinte, depois da bicicleta arrumada, lá estávamos na fila novamente para mais um dia de aventuras, agora, sem Filinto e Bada. Ainda guardo na lembrança outro episódio engraçado envolvendo o amigo Agnaldo, filho da Dona Justina. Dona Lovina o contratou para fazer um cimentado em seu quintal. Mas, o aspirante à profissão de pedreiro, ao misturar os materiais no preparo da massa, errou na dosagem, colocou muita areia e pouco cimento. Vinte quatro horas depois do serviço pronto, Dona Lovina, após ter lavado algumas peças de roupa, jogou a água no cimentado, que desmanchou completamente. Sem demora, o “pedreiro” foi chamado para explicar o ocorrido. Ao chegar no local, Dona Lovina perguntou o que havia acontecido. Ele disse que não sabia, que o serviço foi feito no capricho. E em seguida perguntou se a água que ela havia jogado no cimentado continha sabão em pó. Ela respondeu que sim. Então, o “pedreiro” constatou o problema, dizendo: “Foi isso, Dona Lovina, não pode jogar água com sabão, cimento não combina com água de sabão”. É claro que Dona Lovina não acreditou. Exigiu que o serviço fosse refeito, e recomendou ao aspirante de pedreiro que colocasse cimento sem pena.

 


Quando me questionam qual a cidade do meu coração, aquela que sinto saudade quando estou longe, não tenho dificuldade em responder. Não consigo viver longe da minha terra, minhas raízes estão aqui, meu amor por ela é radical! Isso me faz lembrar de um fato ocorrido com o irmão Rivanildo Pacheco. Ele me relatou que ao sair de férias, um amigo lhe perguntou onde ele passaria as férias. Sem titubear, respondeu que não iria sair, ficaria em Ipupiara. A resposta causou estranheza ao seu amigo. Então, Rivanildo, concluiu, dizendo: “Se eu estivesse em Paris ou Dubai, ou em qualquer outro lugar do mundo eu viria para Ipupiara, certo? Portanto, já que eu estou aqui, aqui vou ficar”. A razão do amor pela cidade onde nascemos, não está em sua arquitetura, nem no seu clima, ou em qualquer outra coisa, mas nas pessoas que viveram ou ainda vivem ali. Sem essas pessoas a cidade perde o seu encanto. Finalizo essa declaração de amor pela minha querida cidade natal, com as palavras de um poeta, ele disse: “Quando eu penso nas pessoas que eu amo, e que muitas delas não caminham mais, pelas ruas de nossa cidade, nem habitam mais em nossas casas, e nem ouvem mais o nosso canto, mas residem, para sempre, em nossa saudade. Quando penso, tantas mãos que hoje faltam, tantos risos apagados, é em vão guardar pedaços de recordações. Eu me agarro à esperança de nos vermos, caminhando pelas ruas de cristal, na cidade eterna, onde não haverá adeus”. (Paulo Cesar – G. Logos). Alguém disse que: “A saudade é a maior prova de que o passado valeu a pena”.

 

·    Trecho do livro “O Livro da Minha 

Vida”, do Pr. Clóvis de Sousa 

Nogueira. Ipupiara, 07 de março de 

2026


Nenhum comentário:

Postar um comentário