IPUPIARA DA MINHA INFÂNCIA
Pastor Clóvis de Sousa Nogueira *
Nos dias da minha infância, há cinquenta anos,
Ipupiara ainda era uma cidade parcialmente isolada do resto do mundo, não tinha
energia elétrica, telefone, televisão, e pouquíssimas pessoas possuíam um rádio
de pilha. A comunicação à distância era feita por meio de cartas, que
dependendo da localidade demorava até quarenta dias para chegar. As ruas não
eram pavimentadas, não havia muitos carros, caminhões ou motocicletas, e os
habitantes, principalmente da zona rural, se locomoviam em lombos de animais. Jumentos,
cavalos, vacas e galinhas andavam soltos pelas ruas e praças. Na segunda-feira,
o dia da feira livre, os moradores da zona rural que vinham comprar e vender
produtos, amarravam seus animais em cercas e árvores existentes no entorno da
cidade. A compra de mantimentos, como: arroz, feijão, carne, farinha de
mandioca, fubá de milho, óleo de cozinhar, sal, pó de café e rapadura, era
feita na feira livre ou em pequenas mercearias. Na maioria das casas só havia
fogão a lenha, era comum ver mulheres vindo do mato com feixes de lenha na
cabeça. As casas eram modestas, construídas com adobe, piso de ladrilho de
barro, calçadas de pedra, portas e janelas de tabuas fechadas com tramelas ou
trancas. Não havia sanitários como temos hoje, na maioria das casas havia uma
privada de buraco, que geralmente ficava no fundo do quintal. A roupa era
lavada em locais públicos, como Fonte de Cima e Pau Louro; de onde também se
buscava água para os serviços domésticos, carregada na cabeça em latas
adaptadas para essa finalidade. A mobília e os utensílios domésticos da maioria
das casas eram muito simples, uma mesa com algumas cadeiras ou tamboretes com
assentos de couro cru, camas com colchões de palha de bananeira, cabide de
madeira, pote de barro, ferro a brasa, pilão, candeeiros a querosene, tacho
para torrar café, bule, coador de pano, moinho de grãos, triturador de feijão
etc. Não tínhamos o conforto nem a fartura que temos hoje, mas éramos
satisfeitos com o pouco que tínhamos. Minha infância em Ipupiara, como a de
todos os meninos à época, foi marcada por sabores e brincadeiras inesquecíveis!
Comi sonho da Dona Cantú; coloquei sapato debaixo da cama nas noites de natal;
soltei bombinha em festas juninas; fui vacinado com “pistola”; joguei bola na
rua; comi da merenda escolar preparada pela Dona “Jove”; bati caixa no 07 de
setembro; brinquei de “brindjá”; empinei pipa; tomei banho de açude; andei com
pernas de pau; fugi dos caretas; brinquei de chicotinho queimado; fiz carrinho
de lata, de caixote e de rolimã; banhei na chuva; fiz tapagem de areia na
enxurrada; armei fojo e arapuca; joguei pedra com baladeira; fui aluno da
Escola Bíblica Dominical (EBD); participei da Escola Bíblica de Férias (EBF);
toquei violão, fiz e toquei berimbau...
DONA LOVINA
É impossível falar da minha infância e da rua do
correio onde nasci, sem falar da Dona Lovina. Lavínia Maria de Souza,
popularmente conhecida como Dona Lovina, nasceu no povoado de Lagoa do Barro,
no dia 29 de agosto de 1921, filha de Antônio Figueiredo dos Santos e Felizbela
Maria de Souza. Ainda criança mudou-se com seus pais para o povoado de
Caldeirão, próximo a Sodrelândia. Lavínia teve sete irmãos, a saber: Rosalvo
Antônio dos Santos (04.11.1920), Aristides Antônio dos Santos (17.02.1924),
João Antônio dos Santos (17.09.1926), Carolina Maria de Souza (30.11.1930),
Artur Antônio dos Santos (26.09.1931), Salustiano Antônio dos Santos
(01.02.1935), Dejanira Maria de Souza (05.12.1938) e Helenita Maria de Souza
(14.12.1942). Todos já falecidos, exceto Salustiano Antônio dos Santos. Tempos
depois, com a mudança da família para Vila de Jordão, atualmente Ipupiara-BA,
Lavínia conheceu José Martins Sodré (Seu Zequinha), com quem se casou no dia 26
de junho de 1940. Após o casamento foram morar no povoado de Olho D`água,
município de Ipupiara, onde nasceram os quatro primeiros filhos, a saber:
Argileu Martins Sodré (in memoriam), Renilde Nunes Sodré, Gisélia Sodré Martins
e Joston Martins Sodré (in memoriam). Tempos depois, vieram morar na cidade,
para que os filhos pudessem estudar. Em Ipupiara nasceram mais dois filhos, a
saber: Cláudio Martins Sodré (in memoriam) e Maria da Glória Martins Sodré
(Dó). Dona Lovina não frequentou a escola, e por muito tempo não sabia ler nem
escrever, porém, em 1970 foi alfabetizada pelo Movimento Brasileiro de
Alfabetização, MOBRAL. Dona Lovina não tinha parentesco comigo, nossa
identificação limitava-se ao fato de morarmos na mesma rua. Nossa casa ficava
contígua à sua, e isso nos possibilitou uma boa convivência. Sua casa era uma
extensão da casa dos meninos da rua. Todos os dias uma procissão de menino
entrava e saia para comprar os doces que ela fazia. Em seu cardápio havia uma
diversidade de doces, doce de coco, doce de batata, doce de buriti e bolo
brevidade. Mas o pirulito de melado de açúcar com corante artificial (Q-Suco) e
gotas de limão, era o mais procurado. Como era doceira e passava muito tempo à
beira do fogão, só se via ela de avental, a peça fazia parte de sua
indumentária. Não me lembro de ter visto Dona Lovina sem avental, parece que
ela dormia com ele. Além das suas atividades no preparo e venda de doces, ela
criava um lindo papagaio, e a criançada da rua se divertia com ele. Pois bem,
de tanto o papagaio ouvir a criançada chamar por Dona Lovina, ele aprendeu a chamar
também. E fazia isso tão bem que as vezes a deixava confusa sem saber quem
estava chamando. Naqueles dias, a música “Cadê você” do cantor Odair José fazia
um sucesso tão grande que o papagaio aprendeu cantá-la. Ao amanhecer, do alto
de uma goiabeira, ele cantava: “Cadê você, que nunca mais apareceu aqui?”. Eu
não sabia o que era marketing, e creio que a Dona Lovina também não, mas penso
que aquele papagaio era o seu marqueteiro. Em 2023, logo depois da morte do
amigo Cláudio, filho caçula da Dona Lovina, o papagaio morreu aos cinquenta e
dois (52) anos. Na minha infância os alimentos tinham cheiro e sabor. O
cardápio de todos os dias era basicamente o mesmo: feijão, arroz, ovo ou um
pedaço de carne, quando tinha. Como falei anteriormente, nossa casa era vizinha
à casa da Dona Lovina, e quando ela estava cozinhando, aquele cheiro agradável
chegava até nossa casa, e eu desejava comer da comida que ela fazia. Um dia
perguntei à minha mãe por que a comida dela não cheirava como a da Dona Lovina.
Ela me respondeu que usava os mesmos temperos, e concluiu, dizendo: “o que faz
a comida da Dona Lovina cheirosa é a fome, meu filho”. Ela tinha razão. Como
não tínhamos o que comer entre as refeições básicas, na hora do almoço a fome
era tamanha que “limpávamos” o prato. Dona Lovina nasceu com tino para o
comércio, penso que se tivesse tido oportunidade seria uma empresária de grande
sucesso. Além de fazer e vender doces, ela percebeu que na rua do correio havia
muitos meninos, e que a maioria deles não possuía bicicleta. Isso despertou o
seu lado empresarial, e sem perda de tempo comprou uma bicicleta para alugar. O
aluguel era cobrado por minutos rodados. Uns alugavam por dez minutos, outro
por trinta minutos e até por uma hora. Num daqueles dias, bem cedo, a fila de
meninos já estava enorme, e os primeiros da fila eram Bada de Catarina e
Filinto de Justina, os mais traquinas. Dona Lovina chegou com a bicicleta e a
caderneta de anotações no bolso do avental. Em seguida marcou o tempo no
relógio e liberou a bicicleta para os primeiros da fila. Quando os dois saíram
eram nove horas, deveriam retornar às nove horas e vinte minutos. A fila de
menino já estava para lá da casa da Dona Chiquinha e seu Zuza. Deu nove e
vinte, e nada de Bada e Filintro. Dez horas, e nada. Onze horas, e nada. Dona
Lovina já estava aflita, entrava e saia, e nada dos meninos. Às 17h, na esquina
do bar de Sebastião (Tião), aparece Bada com uma parte da bicicleta nas costas
e Filinto com outra. Chegaram e jogaram o que restou da bicicleta aos pés de Dona
Lovina. Ela botou as mãos na cabeça, e disse: “valei-me, minha nossa senhora! O
que foi isso, meninos?!”. Naquele dia Dona Lovina ficou brava, coisa que era
difícil acontecer, e disse aos traquinas que aquela foi a última vez que eles
andaram em sua bicicleta. No dia seguinte, depois da bicicleta arrumada, lá
estávamos na fila novamente para mais um dia de aventuras, agora, sem Filinto e
Bada. Ainda guardo na lembrança outro episódio engraçado envolvendo o amigo
Agnaldo, filho da Dona Justina. Dona Lovina o contratou para fazer um cimentado
em seu quintal. Mas, o aspirante à profissão de pedreiro, ao misturar os
materiais no preparo da massa, errou na dosagem, colocou muita areia e pouco
cimento. Vinte quatro horas depois do serviço pronto, Dona Lovina, após ter
lavado algumas peças de roupa, jogou a água no cimentado, que desmanchou
completamente. Sem demora, o “pedreiro” foi chamado para explicar o ocorrido.
Ao chegar no local, Dona Lovina perguntou o que havia acontecido. Ele disse que
não sabia, que o serviço foi feito no capricho. E em seguida perguntou se a
água que ela havia jogado no cimentado continha sabão em pó. Ela respondeu que
sim. Então, o “pedreiro” constatou o problema, dizendo: “Foi isso, Dona Lovina,
não pode jogar água com sabão, cimento não combina com água de sabão”. É claro
que Dona Lovina não acreditou. Exigiu que o serviço fosse refeito, e recomendou
ao aspirante de pedreiro que colocasse cimento sem pena.
Quando me questionam qual a cidade do meu coração,
aquela que sinto saudade quando estou longe, não tenho dificuldade em
responder. Não consigo viver longe da minha terra, minhas raízes estão aqui,
meu amor por ela é radical! Isso me faz lembrar de um fato ocorrido com o irmão
Rivanildo Pacheco. Ele me relatou que ao sair de férias, um amigo lhe perguntou
onde ele passaria as férias. Sem titubear, respondeu que não iria sair, ficaria
em Ipupiara. A resposta causou estranheza ao seu amigo. Então, Rivanildo, concluiu,
dizendo: “Se eu estivesse em Paris ou Dubai, ou em qualquer outro lugar do
mundo eu viria para Ipupiara, certo? Portanto, já que eu estou aqui, aqui vou
ficar”. A razão do amor pela cidade onde nascemos, não está em sua arquitetura,
nem no seu clima, ou em qualquer outra coisa, mas nas pessoas que viveram ou
ainda vivem ali. Sem essas pessoas a cidade perde o seu encanto. Finalizo essa
declaração de amor pela minha querida cidade natal, com as palavras de um
poeta, ele disse: “Quando eu penso nas pessoas que eu amo, e que muitas delas
não caminham mais, pelas ruas de nossa cidade, nem habitam mais em nossas
casas, e nem ouvem mais o nosso canto, mas residem, para sempre, em nossa
saudade. Quando penso, tantas mãos que hoje faltam, tantos risos apagados, é em
vão guardar pedaços de recordações. Eu me agarro à esperança de nos vermos,
caminhando pelas ruas de cristal, na cidade eterna, onde não haverá adeus”.
(Paulo Cesar – G. Logos). Alguém disse que: “A saudade é a maior prova de que o
passado valeu a pena”.
· Trecho do livro “O Livro da Minha
Vida”, do Pr. Clóvis de Sousa
Nogueira. Ipupiara, 07 de março de
2026



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