sexta-feira, 31 de julho de 2026

O VOO DA GANÂNCIA E O TAPETE DE VENTO - JOSÉ FELDMAN

 




 O Voo da Ganância e o Tapete de Vento

José Feldman

  

Acomodem-se, ó ilustres ouvintes, e que o brilho desta fogueira ilumine não apenas vossos rostos, mas também vossos corações. Eu, Mustafá, o Peregrino, caminhei por terras onde o sol nasce em tons de açafrão e se põe em mantos de púrpura. Trago comigo uma história que colhi nas areias de um oásis esquecido, uma crônica de astúcia e de perda.

 

Havia, em uma cidade de torres cor de marfim, um mercador chamado Mansur. Ele era um homem de muita riqueza, mas de pouca satisfação. Mansur possuía o tesouro mais cobiçado de todo o Sharq (Oriente): um tapete tecido com fios de seda colhidos das nuvens e tingidos com o azul do firmamento. Não era um objeto comum; era um tapete voador, capaz de cruzar os sete climas num piscar de olhos.

 

Mansur guardava o tapete em um baú de ébano com sete cadeados. Porém, a notícia de tal maravilha chegou aos ouvidos de um ladrão astuto chamado Salim. Salim não desejava o tapete para ver as maravilhas da criação de Allah (Deus), mas para ostentar um poder que não lhe pertencia.

 

Numa noite sem lua, Salim infiltrou-se na mansão. Usando um óleo especial para silenciar as dobradiças, ele abriu o baú. Ao tocar a seda mágica, sentiu um calor vibrante. Ele estendeu o tapete no balcão e sussurrou as palavras de comando. O tapete subiu aos céus, carregando o ladrão para além das muralhas.

 

Salim ria, sentindo-se um rei acima dos mortais. Ele ordenou que o tapete o levasse para uma ilha de tesouros. Mas o tapete, dotado de uma centelha de espírito, sentia que as mãos que o guiavam estavam sujas de desonestidade. A seda começou a desbotar, e o voo, antes suave como uma brisa, tornou-se errante como uma tempestade.

 

No meio do oceano, o tapete começou a se desfiar. Cada fio roubado voltava ao céu de onde viera. Salim, em seu desespero, tentou segurar as pontas, mas quanto mais apertava, mais o tapete sumia. Ele caiu nas águas profundas, restando-lhe apenas um pedaço de pano comum nas mãos. Ele sobreviveu, mas como um simples náufrago, perdendo tudo o que tinha, inclusive sua dignidade.

 

O mercador Mansur, ao acordar, não chorou. Ele olhou para o céu e disse: 

 

— “O que veio do vento, ao vento voltou”.

 

Mustafá fez uma pausa, ajustando seu manto, e olhou seriamente para o Sheik e seus súditos antes de proferir as palavras finais:

 

Escutai com vossas orelhas e guardai no fundo do coração, ó nobres filhos de Bagdá, pois o vento que carrega o tapete é o mesmo que espalha as cinzas do orgulhoso.

 

A lição desta história, ó Sheik, é que o roubo é uma carga pesada demais para as asas da liberdade. Salim acreditou que, ao possuir o (tapete), possuiria o céu, mas esqueceu-se de que a verdadeira ascensão exige pureza.

 

Aquele que busca subir na vida pisando nos direitos alheios ou roubando o fruto do trabalho de outrem, descobrirá que o topo é um lugar solitário e frágil. A ganância é uma ilusão que nos faz sentir gigantes enquanto caímos no abismo. O tapete não era movido por palavras mágicas, mas pela sintonia entre a obra e a intenção de quem a usa. Quem sobe por meios ilícitos sempre encontrará o chão, pois a justiça de Alá é como a gravidade: ela não permite que o injusto voe por muito tempo sem que a verdade o puxe de volta à terra.




(FONTE: "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN) 

 


NOSSO ELNIÑO - FILEMON MARTINS

 




                            NOSSO EL NIÑO

                                       Filemon Martins



                        O El Niño não perdoa.

                        Provoca a seca,

                        provoca o excesso de chuvas

                        e deixa lágrimas

                        nos olhos dos brasileiros.


                        Mas há outros problemas seculares:

                        analfabetismo, desemprego,

                        sem saúde, sem teto, sem terra,

                        sem segurança, sem esperança

                        e sem patrimônio.


                        Em contrapartida, temos:

                        corrupção, fraudes, escândalos,

                        desvio de verbas, apropriação indébita.

                        É tanto dinheiro que não cabe nos bancos.

                        Carrega-se no bolso do paletó, nas meias, nas cuecas e nos sapatos.


                    As promessas demagógicas

                         da propaganda oficial

                        não saciam a fome

                        não obstante o Fome Zero,

                           o Auxílio Emergencial

                        nem diminuem os problemas

                        de milhões de brasileiros.


                   São brasileiros excluídos,

                        massacrados e oprimidos

                        pela política antissocial

                        dos prepotentes e poderosos.

                        São cidadãos brasileiros

                        vivendo na miséria do outro Brasil.


                        ... E muita gente não consegue perceber isto!


CAMINHADA - FILEMON MARTINS

 




CAMINHADA

Filemon Martins

 

A caminhada é longa, nós sabemos

que é difícil vencer este caminho,

mas a fé nos ajuda, assim nós cremos,

melhor lutar do que ceder ao espinho.

 

Contornar o perigo é o que queremos,

porque o mundo se mostra tão mesquinho

que às vezes é preciso que busquemos

um punhado de amor e de carinho.

 

E enquanto a vida nos disser prossiga,

buscaremos obter na fé amiga

os pomos que a vitória nos conduz.

 

Almas gêmeas seremos pela vida,

unidas pelo amor – missão cumprida

para o destino que nos leva à Luz!

quinta-feira, 30 de julho de 2026

TROVAS DE AMOR

 


         (FOTO DE MAISE J. MARTINS, EM ITANHAÉM-SP)



TROVAS DE AMOR


Creio que você não sabe,
(se sabe, você não crê),
não há no mundo o que acabe
meu grande amor por você.
Delmar Barrão

Da vida pelo caminho,
- em dias claros risonhos –
dei tanto afeto e carinho,
deixei amor – trouxe sonhos...
Ilza Tostes

Das tuas juras fingidas
não guardo nenhum rancor.
- São páginas esquecidas
do livro do meu amor...
Alves Júnior

Das glórias do meu passado,
a maior – meu peito o diz –
seria haver conquistado
um amor que não me quis.


(MIL TROVAS DE AMOR E SAUDADE, PÁGINA 24)










TROVAS DE SAUDADE

 


                (FOTO DE MAISE J.MARTINS, EM ITANHAÉM, SP)



TROVAS DE SAUDADE
 

Saudade – espelho encantado
que mostra, aos olhos da gente,
toda a imagem do Passado
revivendo no Presente...
P. de Petrus

À saudade dei o braço,
do sonho me fiz amigo,
pois graças a eles eu passo
dias e noites contigo...
José Nogueira da Costa

A solidão me maltrata
e, a brilhar com intensidade,
a lua é um punhal de prata
que me mata de saudade...
Maria Tereza G. Noronha

A saudade, quando ocorre,
sempre causa tanta dor!
Saudade – mal de que morre
quem já morria de amor!
Walter Waeny


(MIL TROVAS DE AMOR E SAUDADE)

O LIVRO E A AMÉRICA - CASTRO ALVES

 




FRAGMENTO DA POESIA “O LIVRO E A AMÉRICA”
             CASTRO ALVES (1847/1871)


Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão-cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo na alma
É germe – que faz a palma,

É chuva – que faz o mar.

CONSTATAÇÃO - FILEMON MARTINS

 




CONSTATAÇÃO
Filemon Martins


Ontem, por ingenuidade ou credulidade
eu não sabia,
mas hoje eu sei:
tudo o que ele disse
não passou de enganação.
Com frases feitas,
palavras escolhidas iludiu o povo,
que hoje sofre as consequências de sua escolha.
Pior,
muitos ainda não perceberam
o engodo, a embromação
e continuam a aceitar, passivamente,
a multiplicação das falcatruas,
do enriquecimento ilícito,
da propaganda enganosa,
dos desmandos,
das mentiras, da dissimulação
e da manipulação das massas.
Acorda, Brasil!

(LIVRO "ANSEIOS DO CORAÇÃO", PÁGINA 40)

quarta-feira, 29 de julho de 2026

TROVAS BRASILEIRAS

 




TROVAS BRASILEIRAS


Crê que é dono do Destino,
tem poder de vida ou morte.
Mas não passa de um cretino,
escravo da própria sorte...

APARÍCIO FERNANDES


O livro é um amigo mudo,
que nos pode compreender.
Revela em silêncio tudo
que precisamos saber.

MARIA THEREZA CAVALHEIRO

Sempre acolho de mãos postas
e, humilde, tento aceitar
o silêncio das respostas
que a vida não sabe dar!

CAROLINA RAMOS

Pingos de chuva que escorrem
no vidro do coração
deixam marcas que não morrem...
e um mar de desilusão!

JOSÉ FELDMAN

REMINISCÊNCIA - FILEMON MARTINS


 

                             (FOTO DE SANDRO, IPUPIARA, BAHIA)



REMINISCÊNCIA
Filemon Martins



Nos meus dias repletos de poesia,
naqueles tempos cheios de emoção,
batia, no meu peito, o coração
em busca dessa paz tão fugidia.


Recordo aqueles versos que escrevia,
brincando nas Chapadas do Sertão,
quando os sonhos na vida muitos são
e a Esperança no Amor é uma alegria.


Mas as portas da vida se fecharam,
e tudo não passou de um breve sonho,
só ilusões na vida me sobraram...


Hoje! Esperanças – folhas destruídas...
Da vida – flores, rosas, pressuponho
só restam amarguras recolhidas!...

TROVAS BRASILEIRAS

 


               (FOTO DE MAISE J. MARTINS, EM ITANHAÉM)


TROVAS BRASILEIRAS


Como ilude a aparência...

Santo homem, bom cristão;

era a virtude, a decência,

por dentro - que podridão!

JESSÉ DO NASCIMENTO


Bendito quem no caminho

plantando amor entre irmãos

tem mãos que se fazem ninho

para aquecer outras mãos!

PEDRO ORNELLAS


Rejeito fraude e sofisma,

que a virtude é o meu condão.

Minha alma transpira o crisma

da inocência e do perdão.

HUMBERTO DEL MAESTRO


Mesmo pisando nos cardos

meus rastros serão pepitas,

pois, as lágrimas dos bardos

tornam-se trovas bonitas.

CARLOS RIBEIRO ROCHA

 


O LOURO - ALMEIDA DA NOBREGA ARLINDO

 





O LOURO

Almeida da Nobrega Arlindo

 

Como num passe de mágica
meu lourinho se evadiu,
a porta estava entreaberta
e no meu ombro ele subiu,
foi tudo assim, de repente,
ele me olhou diferente,
"me disse adeus" e sumiu.

Ah saudade cruciante!

 

(Enviado pelo autor via Messenger)


terça-feira, 28 de julho de 2026

O BEIJA-FLOR - FILEMON MARTINS

 




O BEIJA-FLOR

Filemon Martins


Levanto cedo e veja quem me espera,
um lindo beija-flor beijando a rosa.
Não para de adejar, ai quem me dera
sugar também aquela flor mimosa.


Quantas flores o beija-flor paquera
e baila no ar buscando a flor ditosa
e se exibe num voo que acelera
à procura da flor, a mais viçosa.


De flor em flor consegue seu intento,
mesmo voando em luta contra o vento
para beijar, feliz, mais uma  flor...


Também o bardo – beija-flor certeiro,
de verso em verso vai buscar faceiro
dentro do peito uma canção de amor.

TROVAS BRASILEIRAS

 


                   (FOTO DE MAISE J. MARTINS, EM ITANHAÉM-SP)



TROVAS BRASILEIRAS


Na terra, a justiça é humana,

as falhas são naturais;

no céu, se faz soberana,

pois Deus não falha jamais!

ELVIRA DRUMMOND


Todos seriam felizes,

com sentenças mais corretas,

se, em tribunais, os juízes

dessem lugar aos poetas.

OLGA AGUILHON


Jesus, o Mestre Divino,

que por nós morreu na Cruz,

deixou, no breve destino,

um longo rastro de luz...

MARIA THEREZA CAVALHEIRO


Coração de Mãe - canteiro

em perene floração,

onde um santo jardineiro

planta as rosas do perdão.

MARILITA POZZOLI 

TROVAS BRASILEIRAS


 

                  (FOTO DE MAISE J. MARTINS, EM ITANHAÉM)


TROVAS BRASILEIRAS


Creio no poder sem fim,

que emana de Deus bendito,

eu posso não crer em mim,

mas em Deus eu  acredito.

GERALDO AMÂNCIO


Quando tropeço não ligo,

nessas andanças que eu faço;

Deus olha o rumo que eu sigo

não a elegância do passo!

PEDRO ORNELLAS


A educação, ninguém meça

pela toga, ou faculdade...

Nunca acaba, sim, começa

no lar, e não tem idade.

LUIZ DAMO


Abra um livro e veja quanto

ele tem para mostrar,

sabe o livro tanto, tanto,

que esconde o céu, guarda o mar...

CARLOS RIBEIRO ROCHA 

domingo, 26 de julho de 2026

LEMBRANDO O LAVRADOR - FILEMON MARTINS

 


                            (FOTO DE SAUL RIBEIRO DOS SANTOS)


LEMBRANDO O LAVRADOR

Filemon Martins

 

Eu me levanto cedo e abro a janela

para ver o romper da madrugada,

a Natureza em festa se revela

numa canção de amor bem orquestrada.

 

O Universo, de luz, parece tela

por um pintor supremo, executada,

tornando-se elegante passarela

onde faz coro a alegre passarada.

 

O sol desponta, quero uma caneta,

mas a enxada é que vem para a retreta

e quer dançar comigo no roçado...

 

A enxada tine e estronda pelo eito,

vou capinar a terra do meu jeito

só amanhã, que agora estou cansado!