O
Voo da Ganância e o Tapete de Vento
Acomodem-se, ó ilustres ouvintes,
e que o brilho desta fogueira ilumine não apenas vossos rostos, mas também
vossos corações. Eu, Mustafá, o Peregrino, caminhei por terras onde o sol nasce
em tons de açafrão e se põe em mantos de púrpura. Trago comigo uma história que
colhi nas areias de um oásis esquecido, uma crônica de astúcia e de perda.
Havia, em uma cidade de torres
cor de marfim, um mercador chamado Mansur. Ele era um homem de muita riqueza,
mas de pouca satisfação. Mansur possuía o tesouro mais cobiçado de todo o Sharq
(Oriente): um tapete tecido com fios de seda colhidos das nuvens e tingidos com
o azul do firmamento. Não era um objeto comum; era um tapete voador, capaz de
cruzar os sete climas num piscar de olhos.
Mansur guardava o tapete em um
baú de ébano com sete cadeados. Porém, a notícia de tal maravilha chegou aos
ouvidos de um ladrão astuto chamado Salim. Salim não desejava o tapete para ver
as maravilhas da criação de Allah (Deus), mas para ostentar um poder que não
lhe pertencia.
Numa noite sem lua, Salim
infiltrou-se na mansão. Usando um óleo especial para silenciar as dobradiças,
ele abriu o baú. Ao tocar a seda mágica, sentiu um calor vibrante. Ele estendeu
o tapete no balcão e sussurrou as palavras de comando. O tapete subiu aos céus,
carregando o ladrão para além das muralhas.
Salim ria, sentindo-se um rei
acima dos mortais. Ele ordenou que o tapete o levasse para uma ilha de
tesouros. Mas o tapete, dotado de uma centelha de espírito, sentia que as mãos
que o guiavam estavam sujas de desonestidade. A seda começou a desbotar, e o
voo, antes suave como uma brisa, tornou-se errante como uma tempestade.
No meio do oceano, o tapete
começou a se desfiar. Cada fio roubado voltava ao céu de onde viera. Salim, em
seu desespero, tentou segurar as pontas, mas quanto mais apertava, mais o
tapete sumia. Ele caiu nas águas profundas, restando-lhe apenas um pedaço de
pano comum nas mãos. Ele sobreviveu, mas como um simples náufrago, perdendo
tudo o que tinha, inclusive sua dignidade.
O mercador Mansur, ao acordar,
não chorou. Ele olhou para o céu e disse:
— “O que veio do vento, ao vento
voltou”.
Mustafá fez uma pausa, ajustando
seu manto, e olhou seriamente para o Sheik e seus súditos antes de proferir as
palavras finais:
Escutai com vossas orelhas e
guardai no fundo do coração, ó nobres filhos de Bagdá, pois o vento que carrega
o tapete é o mesmo que espalha as cinzas do orgulhoso.
A lição desta história, ó Sheik,
é que o roubo é uma carga pesada demais para as asas da liberdade. Salim
acreditou que, ao possuir o (tapete), possuiria o céu, mas esqueceu-se de que a
verdadeira ascensão exige pureza.
Aquele que busca subir na vida pisando nos direitos alheios ou roubando o fruto do trabalho de outrem, descobrirá que o topo é um lugar solitário e frágil. A ganância é uma ilusão que nos faz sentir gigantes enquanto caímos no abismo. O tapete não era movido por palavras mágicas, mas pela sintonia entre a obra e a intenção de quem a usa. Quem sobe por meios ilícitos sempre encontrará o chão, pois a justiça de Alá é como a gravidade: ela não permite que o injusto voe por muito tempo sem que a verdade o puxe de volta à terra.
(FONTE: "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)

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