terça-feira, 30 de junho de 2026

O ESPELHO DA ALMA - JOSÉ FELDMAN

 



O ESPELHO DA ALMA


José Feldman

  

"Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus caros amigos. Vejo que a luz das lamparinas reflete em vossos olhos uma sede de verdade. Eu, Mustafá, o peregrino, já vi muitos rostos se esconderem atrás de máscaras de seda e sorrisos de mel, mas a história que lhes conto agora fala de um objeto que não aceita disfarces.

 

Havia em Isfahan um joalheiro tão habilidoso que diziam ser capaz de lapidar o brilho das estrelas. Ele criou uma peça única: o "mir'at al-qalb" (espelho do coração). Não era feito de prata ou vidro comum, mas de uma liga de metais colhidos de meteoritos que caíram no deserto.

 

A fama do objeto chegou aos ouvidos do Grão-Vizir, um homem poderoso e temido, que suspeitava de todos ao seu redor. 

 

— "Ya Rabb" (Ó Senhor), dizia ele, "estou cercado de traidores que me elogiam enquanto afiam suas adagas". 

 

Ele comprou o espelho e o colocou no salão principal de seu palácio.

 

O enigma era simples, mas terrível: quando um homem olhava para o espelho, ele não via seus traços físicos — sua barba bem cuidada ou seu turbante luxuoso. O espelho refletia o estado de sua alma. Se o homem era ganancioso, via um lobo faminto; se era invejoso, via uma serpente; se era puro, via um jardim em flor.

 

O Vizir convocou todos os seus cortesãos. Um a um, eles passaram diante do espelho. 

 

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), exclamavam alguns antes de olhar, mas ao verem suas próprias imagens distorcidas em monstros e sombras, fugiam em pânico, incapazes de encarar a própria verdade. O palácio, antes cheio de risos falsos, tornou-se um lugar de silêncio e medo.

 

Por fim, o próprio Vizir parou diante do espelho. Ele esperava ver um leão majestoso, mas o que viu foi um abutre, curvado sobre o poder que não lhe pertencia. Ele percebeu que sua desconfiança era apenas o reflexo de sua própria desonestidade. 

 

— "Shukran" (obrigado), sussurrou ele ao artesão, "pois me destes a visão que nenhum conselheiro ousou me dar".

 

O Vizir quebrou o espelho em mil pedaços e distribuiu os cacos. Dizem que, desde aquele dia, cada homem em Isfahan carrega um pequeno pedaço de metal no bolso para se lembrar de que a beleza que buscamos no mundo deve primeiro ser cultivada dentro de nós.

 

"Inshallah" (Se Deus quiser), todos nós teremos a coragem de olhar para o espelho da alma sem desviar o olhar. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).




(FONTE: "ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN)


O SONHADOR - FILEMON MARTINS

 





O SONHADOR

Filemon Martins


 

Tenho sido, na vida, um sonhador

ando pegando o vento com a mão,

enquanto teço um verso sem valor,

só desejo voar na imensidão.

 

Quisera no Universo inspirador

poder cantar meus versos de paixão,

voltar a terra leve como a flor

exalando o perfume da afeição.

 

Procuro a nuvem, fujo da razão

quero viver em paz, na multidão,

como se fosse um ser angelical.

 

E me extasio dentro da verdade,

ao constatar a triste realidade:

um ser humano sou e assim, mortal!


PARA REFLEXÃO - FILEMON MARTINS

 





PARA REFLEXÃO (ADAPTAÇÃO)

Filemon Martins

 

 

Conta-se que um famoso cientista ao visitar a sala de trabalho de ISAAC NEWTON, viu sobre a mesa um maquinário representando o Universo, com os satélites girando meticulosamente em torno do Planeta Terra. Tudo perfeito. O cientista, então perguntou quem era o autor de tão significante trabalho. Isaac Newton deu-lhe uma resposta inusitada: - Não sei quem o fez, simplesmente apareceu sobre a minha mesa. Seu colega, intrigado, retrucou: - Não pode ser, alguém muito inteligente o fez. Isaac Newton, então, completou: você mesmo diz que o Universo apareceu do nada, de uma explosão estelar. Para mim, Deus foi o Grande Arquiteto do Universo, já para você...

O mundo é maravilhoso, mas o homem está sempre tentando destruir alguma coisa. Esse Ser pensante parece que não pensa mesmo...


segunda-feira, 29 de junho de 2026

PASSEIO EM GRUPO - FILEMON MARTINS

 






 

PASSEIO EM GRUPO

Filemon Martins

 

Saímos por volta das 6h da manhã. O dia estava amanhecendo. Eram 7 pessoas jovens numa picape, fretada para este fim: visitar e conhecer o rio Verde, que corre entre os municípios de Ipupiara e Barra do Mendes.

O percurso até certo ponto é feito de carro, depois vem a serra e para chegar ao rio, é a pé mesmo. Uma boa estirada por um caminho estreito e quase sem nenhum cuidado. Mas o entusiasmo do grupo era notório; a euforia tomava conta de todos os participantes daquela ousada aventura.

Conversas, sorrisos e histórias, cada um tinha a sua para contar. Fazia parte do grupo, moças e rapazes, entre os homens, Rael, Enzo, Caleb e Nathan. Entre as mulheres, Laura, Lorena e Rebeca.

O sol começava a despontar no horizonte, enchendo de luz e beleza o universo em que vivíamos. Pássaros em festa, pulavam de galho em galho numa algazarra infindável.

A serra mostrava marcas dos garimpeiros que por ali trabalhavam em busca do cristal de rocha; as catras se sucediam uma atrás da outra; algumas bem profundas e outras ainda em início de escavação, indicando que algum garimpeiro voltaria ali para continuar sua busca.

Naquela altura do passeio, a expectativa de avistar o rio ficava cada vez maior. Mas o cansaço de alguns forçava o grupo a parar um pouco para descanso. Escolheram um local mais aberto, mais limpo e se sentaram à beira da estrada. Merendaram, tomaram água, alguns preferiram suco e relaxaram à sombra daquela árvore.

Nathan era quem mais conhecia a região e tornou-se o guia naturalmente. - Hora de recomeçar a caminhada, disse Nathan. Enquanto andávamos por aquela estradinha estreita, era possível ver algumas cobras fugindo assustadas. Calangos, lagartixas, mocó, preá, tatu-bola e pássaros terrestres corriam pelo chão em busca de comida, como frutas, aranhas, pequenos insetos e sementes que os pássaros bicavam com extrema rapidez.

Estamos chegando! – gritou Nathan. E todo o grupo se animou com a notícia. Em seguida, já se ouvia o barulho das águas batendo e desviando-se das pedras. Água pura e cristalina cor de citrina, porque passa pelas raízes e pedras existentes no leito do rio. Uma pena que o rio é temporário, comentou alguém do grupo. O rio é estreito e suas margens, tanto a direita, como a esquerda apresentam muitas árvores com predominância em cor verde e muitos paredões de pedra. O grupo não perdeu tempo: todos caíram nas águas do rio Verde. O banho foi geral e valeu a pena o esforço e a caminhada, restando um gostinho de querer mais e voltar lá outras vezes. Que delícia de passeio!      


RUI BARBOSA - DE UM RECORTE DE JORNAL

 




RUI BARBOSA

 

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus - o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".

 

Quando Rui Barbosa proferiu seu famoso discurso no Senado em 17/12/1914, de onde extraímos o trecho em epígrafe, ele certamente estaria imaginando que havíamos chegado ao "fundo do poço". Seu discurso é corajoso, duro, brilhante e mostra claramente sua revolta pelo que via a seu redor.

Pois bem, decorridos quase 112 anos, o que vemos de diferente em nosso país? Passamos pela ditadura, recuperamos a democracia, o povo ganhou o direito de escolher seus governantes, dois presidentes sofreram processo de impeachment, um metalúrgico foi eleito e reeleito para nos comandar. O Brasil cresceu, chegou a ser a oitava potência do mundo, mas a desonestidade, a podridão, a miséria moral cresceram muito mais. Se vivo fosse, hoje Rui Barbosa estaria muito mais perplexo, envergonhadíssimo de ser honesto.

 

         (DE UM RECORTE DE JORNAL)


A TRANSFIGURAÇÃO - FILEMON MARTINS

 





A TRANSFIGURAÇÃO

Filemon Martins

 

 

Foi no Monte de Hermom que aconteceu

a transfiguração do Nazareno,

Mateus, Marcos e Lucas escreveu

como tudo, de fato, foi sereno.

 

Por um momento o céu escureceu

depois brilhou e o céu voltou ameno,

surgiram dois varões - grande apogeu

a falar com Jesus com um aceno.

 

Elias e Moisés também apareceram

a dialogar com o Meigo Jesus

que os escutou, tranquilo, com amor.

 

Os enviados do Pai logo entenderam

que o Filho precisava de mais luz

para salvar o povo pecador! 


TROVAS - SELEÇÃO DE JOSÉ FELDMAN

 




 

TROVAS - SELEÇÃO DE JOSÉ 

FELDMAN

 

Encontrei na minha trova

a vontade de escrever.

A paixão por coisa nova

faz a gente renascer.

        Cecim Calixto


A noite na minha rua

tem encantos sensuais...

sussurros chegam à lua...

na rua ficam os ais...

        Cecy Fernandes de Assis


Quando caminha apressado,

distraído e não me vê,

bem perto, quase a seu lado,

alguém sonha com você!

        Cecy Tupinambá Ulhôa


Andei na vida tão cego

por amores, que não sei

quantas saudades carrego,

quantas saudades deixei.

        Célio Bastos



TROVAS DO FILEMON

 


                             (FOTO DE SAUL, IPUPIARA, BAHIA)



TROVAS DO FILEMON



Plante uma boa semente

na terra bem adubada,

que a colheita, certamente

será sempre abençoada.

 

Quando plantar a semente

ponha a terra com amor,

deixe o campo sorridente,

que o botão transforma em flor.

 

Plante a semente e acredite

que a vida pode sorrir.

Deus é bom e nos permite

de outra vida usufruir.

 

Planto a paz neste trabalho

sou apenas aprendiz:

sementes de amor espalho

para o mundo ser feliz.

 

 

 


O PESCADOR E O SEGREDO DO PALÁCIO SUBMERSO - JOSÉ FELDMAN

 



 O Pescador e o Segredo do Palácio Submerso


José Feldman

  

"Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus amigos. Eu sou Mustafá, o peregrino, preparem o coração, pois esta é uma história que os ventos do deserto sussurram às tendas dos beduínos, sobre o destino, a cobiça e a justiça de Allah.

 

Diz-se, que vivia em uma cidade entre as montanhas e o mar um pescador chamado Abdallah. Ele era um homem de coração limpo, mas de mãos vazias, que mal conseguia o sustento para sua esposa e sete filhos.

 

Certa manhã, após lançar suas redes três vezes e colher apenas algas e pedras, Abdallah clamou aos céus. Na quarta tentativa, a rede pesou tanto que ele precisou mergulhar para soltá-la das rochas. Lá embaixo, no silêncio azul, ele não encontrou peixes, mas um anel de ferro preso a uma laje de mármore branco.

 

Ao puxar o anel, a laje se abriu, revelando uma escadaria que levava às entranhas da terra. Movido pela necessidade e pelo destino, Abdallah desceu. Ao fim dos degraus, ele não encontrou água, mas um palácio de luzes mágicas onde as paredes eram feitas de coral e o chão de pérolas brutas.

 

No centro do salão, repousava um gênio de estatura colossal, cuja pele era da cor do cobre e os olhos brilhavam como brasas.

 

— "Não tema, mortal," trovejou o gênio. "Sou o Guardião do Tesouro de Salomão. Por mil anos esperei por alguém cuja alma não conhecesse a mentira. Leve este frasco de cristal. Ele contém a Água da Verdade.

Quem a beber verá o mundo como ele é, e não como os homens o pintam." Abdallah, embora cercado de ouro, pegou apenas o frasco e subiu. No mercado, ele não vendeu o cristal, mas o usou para ajudar os injustiçados. 

 

Quando um mercador rico acusou um órfão de roubo, Abdallah deu uma gota da água ao juiz. O juiz, sob o efeito do elixir, não pôde proferir a sentença falsa que havia sido comprada e, em vez disso, confessou seus próprios subornos diante de todo o povo.

 

A fama do "Pescador da Verdade" chegou aos ouvidos do Sultão. O soberano, cercado de vizires que sussurravam lisonjas, quis testar o homem.

 

— "Pescador," disse o Sultão, "se sua água é tão poderosa, diga-me:

quem em minha corte é meu maior inimigo?"

 

Abdallah derramou a última gota na taça de ouro do Sultão. Ao beber, o monarca olhou para o seu Grão-Vizir e não viu um homem, mas uma hiena faminta pronta para morder-lhe o pescoço. O traidor foi preso e os planos de um golpe de estado foram desfeitos.

 

Como recompensa, o Sultão nomeou Abdallah seu conselheiro principal. O pescador nunca mais passou fome, mas dizem as crônicas que, todas as noites, ele voltava à praia para lançar suas redes, lembrando-se de que a verdadeira riqueza não está no que o ouro compra, mas no que a verdade liberta.

 

“As-salaam'aleikum” (Que a 


paz de Deus esteja com vocês).






(FONTE "ECOS DO DESERTO", 


JOSÉ FELDMAN)


SONETO DE CARLOS RIBEIRO ROCHA

 




SONETO DE CARLOS RIBEIRO ROCHA
(de memória e constava do livro HARPA SERTANEJA, inédito)


Já não lamento os sonhos destruídos,
- relembrar não desejo as ilusões
e a ventura fugaz dos tempos idos,
- folhas secas tombando aos turbilhões!

Chorar não devo! Os galhos ressequidos
sem flores, sem orvalho, sem canções,
tornam-se, às vezes, belos e floridos
ornando as serras, várzeas e grotões.

Surgem nos ramos novas esperanças
e a relva revestida vai ficando
de áureas flores, corimbos, verdes franças...

Se as nossas ilusões vão sucumbindo,
em nossas almas nasce, vai surgindo
das novas ilusões o álacre bando!

MINHA CASA - CARLOS RIBEIRO ROCHA

 




MINHA CASA

CARLOS RIBEIRO ROCHA



É pobre e tosca a minha casa e sem
sofás macios, leitos chumaçados,
sem ornamentos nem jardins, porém
mais bela que os palácios decantados.

Pouco importa que a vejam com desdém
os fúcaros mandões e potentados
que gozam sem o Cristo um falso bem
e são, por fim, eternos condenados.

Só tenho em minha casa o necessário:
a mesa, o meu grabato e um tosco armário
e os livros, meus amigos estimados,

junto aos quais tenho dias fulgurantes,
enquanto os sonhos deles bem distantes
vão se tornando turvos e apagados...

TROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA

 




TROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA

(DO ACERVO DE FILEMON MARTINS)




Eis a norma a ser seguida
por quem quer viver em paz:
receba as lições da vida,
dê seu exemplo aos demais.

Nuvens passam pelo céu,
de luz existe escassez,
mas, afastado esse véu,
mostra o céu a limpidez.

Vejam que belo trabalho!
- Nos arbustos, velhos ninhos
são rosas em cada galho
com corolas de pauzinhos...

TROVAS DE EDUARDO V. VISCONTI

 





TROVAS DE EDUARDO V. VISCONTI

Da rua bela e curtinha,
chamada felicidade,
vê-se outra longa e sozinha,
que dei nome de saudade...

Minha vida é longa rua
cheia de abismos medonhos,
nela um gênio mau atua,
matando todos meus sonhos!

Bahia, rincão amado,
de céu sempre tão azul,
só penso em ti, exilado
nos pagos tristes do Sul.