O ESPELHO DA ALMA
"Salaam’aleikum" (Que a
paz esteja convosco), meus caros amigos. Vejo que a luz das lamparinas reflete
em vossos olhos uma sede de verdade. Eu, Mustafá, o peregrino, já vi muitos
rostos se esconderem atrás de máscaras de seda e sorrisos de mel, mas a
história que lhes conto agora fala de um objeto que não aceita disfarces.
Havia em Isfahan um joalheiro tão
habilidoso que diziam ser capaz de lapidar o brilho das estrelas. Ele criou uma
peça única: o "mir'at al-qalb" (espelho do coração). Não era feito de
prata ou vidro comum, mas de uma liga de metais colhidos de meteoritos que
caíram no deserto.
A fama do objeto chegou aos
ouvidos do Grão-Vizir, um homem poderoso e temido, que suspeitava de todos ao
seu redor.
— "Ya Rabb" (Ó Senhor),
dizia ele, "estou cercado de traidores que me elogiam enquanto afiam suas
adagas".
Ele comprou o espelho e o colocou
no salão principal de seu palácio.
O enigma era simples, mas
terrível: quando um homem olhava para o espelho, ele não via seus traços
físicos — sua barba bem cuidada ou seu turbante luxuoso. O espelho refletia o
estado de sua alma. Se o homem era ganancioso, via um lobo faminto; se era
invejoso, via uma serpente; se era puro, via um jardim em flor.
O Vizir convocou todos os seus
cortesãos. Um a um, eles passaram diante do espelho.
"Alhamdulillah"
(Louvado seja Deus), exclamavam alguns antes de olhar, mas ao verem suas
próprias imagens distorcidas em monstros e sombras, fugiam em pânico, incapazes
de encarar a própria verdade. O palácio, antes cheio de risos falsos, tornou-se
um lugar de silêncio e medo.
Por fim, o próprio Vizir parou
diante do espelho. Ele esperava ver um leão majestoso, mas o que viu foi um
abutre, curvado sobre o poder que não lhe pertencia. Ele percebeu que sua
desconfiança era apenas o reflexo de sua própria desonestidade.
— "Shukran" (obrigado),
sussurrou ele ao artesão, "pois me destes a visão que nenhum conselheiro
ousou me dar".
O Vizir quebrou o espelho em mil
pedaços e distribuiu os cacos. Dizem que, desde aquele dia, cada homem em
Isfahan carrega um pequeno pedaço de metal no bolso para se lembrar de que a
beleza que buscamos no mundo deve primeiro ser cultivada dentro de nós.
"Inshallah" (Se Deus
quiser), todos nós teremos a coragem de olhar para o espelho da alma sem
desviar o olhar. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
(FONTE: "ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN)

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