quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A IMPORTÂNCIA DO PERDÃO - SAMMIS REACHERS

 




A Importância do Perdão


 O pequeno Zeca entrou em casa após a aula batendo forte os pés no assoalho. Seu pai, que se preparava para ir ao quintal cuidar da horta, notou o mau humor do filho e o chamou para conversar. Zeca, oito anos, acompanhou o pai desconfiado. Antes que ele dissesse qualquer coisa, disparou irritado: — Pai, estou com muita raiva. O Enzo não devia ter feito aquilo comigo. Quero tudo de ruim para ele. O pai, um homem simples, mas cheio de sabedoria, escutou o filho em silêncio. O menino continuou: — Ele me humilhou na frente dos meus amigos. Não aceito. Queria que ele ficasse tão doente que não pudesse nem ir à escola! Sem dizer uma palavra, o pai caminhou até um abrigo no fundo do quintal, de onde tirou um saco pesado cheio de carvão. Zeca o seguiu, curioso e calado. Quando o saco foi aberto, antes que o menino pudesse perguntar qualquer coisa, o pai lhe propôs: — Filho, faz de conta que aquela camisa branca que está secando no varal é o seu amigo Enzo, e que cada pedaço de carvão é um pensamento ruim que você está mandando para ele. Quero que você jogue todo o carvão do saco na camisa — até o último pedaço. Depois eu volto para ver como ficou. Zeca achou que seria uma brincadeira divertida e pôs mãos à obra. O varal ficava longe, e poucos pedaços acertavam o alvo. Uma hora depois, exausto, ele terminou a tarefa. O pai, que observava tudo de longe, aproximou-se e perguntou: — Filho, como você está se sentindo agora? — Cansado — respondeu o menino —, mas contente, porque acertei bastante! O pai olhou para ele com calma e carinho, e disse: 8 — Venha comigo até o meu quarto. Quero lhe mostrar uma coisa. Conduziu o filho até diante de um grande espelho. Que susto! O rosto de Zeca estava tão enegrecido que só era possível ver os dentes e os olhinhos brilhando. O pai, então, disse ternamente: — Filho, você viu que a camisa no varal quase não se sujou. Mas olhe para você. É exatamente isso que acontece com o mal que desejamos aos outros: por mais que nossos pensamentos possam tentar prejudicar alguém, a borra, os resíduos, a fuligem — tudo fica em nós mesmos. Depois, pousou a mão no ombro do filho e completou com voz pausada: — Por isso, lembre-se sempre: Cuide dos seus pensamentos — eles se transformam em palavras. Cuide das suas palavras — elas se transformam em ações. Cuide das suas ações — elas se transformam em hábitos. Cuide dos seus hábitos — eles moldam o seu caráter. Cuide do seu caráter — ele controla o seu destino.


 “Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou.” — Colossenses 3:13 

 “Pois se perdoarem as ofensas uns dos outros, o Pai celestial de vocês também lhes perdoará.” — Mateus 6:14 

 “Livrem-se de toda amargura, indignação e ira, gritaria e calúnia, bem como de toda maldade. Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus os perdoou em Cristo.” — Efésios 4:31-32 9



SAMMIS REACHERS nasceu em Niterói, mas desde sempre é morador de São Gonçalo, ambos municípios fluminenses. Sammis é poeta, escritor, antologista, editor. Autor de vários livros de poesia, contos, crônicas e romances. É professor de Geografia, licenciado em História e graduado em Biblioteconomia. 

A CIDADE DAS ESTÁTUAS QUE CHORAM - JOSÉ FELDMAN

 




A Cidade das Estátuas que Choram


  

Após sete meses de calmaria em Bagdá, o espírito de Aldhiyb Al-Abyad tornou-se inquieto como um falcão engaiolado. Ele armou uma nova nau, o Falcão do Índico, e partiu para além das ilhas de Waq-Waq. Contudo, uma correnteza desconhecida, fria como o hálito de um morto, arrastou o navio para uma enseada cercada de penhascos de basalto.

 

No centro da enseada, erguia-se uma metrópole de arquitetura magnífica, com torres de marfim e cúpulas de lápis-lazúli. Mas não se ouvia o grito dos mercadores nem o riso das crianças. O silêncio era interrompido apenas por um som constante, como o cair de uma chuva leve sobre mármore.

 

Ao desembarcar, Aldhiyb e seus homens ficaram petrificados de assombro. Em cada praça, em cada janela e em cada trono, havia pessoas feitas de pedra cinzenta. Eram estátuas tão perfeitas que se podia ver o medo congelado em seus olhos. E desses olhos, ó Rei, brotavam lágrimas reais, que corriam pelos rostos de pedra e inundavam as ruas, formando riachos de tristeza.

 

No grande palácio, Aldhiyb encontrou o Rei daquela cidade, também transformado em pedra, exceto por sua língua.

 

— "Ó viajante das terras vivas," lamentou o Rei de Pedra. "Fomos punidos por nossa soberba. Construímos uma cidade tão bela que acreditamos ser deuses, e o Gênio do Silêncio tocou-nos com sua mão de gelo. Só o som de uma alegria sincera pode quebrar este encanto, mas quem pode rir em um vale de lágrimas?"

 

Os marinheiros de Aldhiyb, tomados pela melancolia do lugar, começaram a chorar. Mas o Lobo Branco sabia que a tristeza é o alimento daquele feitiço. Ele lembrou-se das histórias que contava aos seus filhos e, com sua voz poderosa, começou a entoar os versos mais cômicos e absurdos dos Contos de Juha, o bobo sábio.

 

Aldhiyb dançou de forma ridícula entre as estátuas, imitando os trejeitos dos vizires pomposos de Bagdá e contando anedotas sobre camelos que falavam grego. Um a um, seus marinheiros começaram a rir, primeiro timidamente, depois com gargalhadas que ecoaram como trovões pelas cúpulas de lápis-lazúli.

 

Ao som do riso, o gelo invisível rachou. A pele de pedra das estátuas descascou como argila seca, e a vida retornou à cidade. O Rei, agora de carne e osso, abraçou Aldhiyb e cobriu seu navio com diamantes que tinham o formato das lágrimas que outrora caíam.

 

Aldhiyb Al-Abyad retornou a Basra não apenas mais rico, mas com a lição de que o riso é a única arma capaz de derreter a dureza do mundo.



("ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)

ESCRITOR, POETA, TROVADOR, PESQUISADOR


CONFIDENTE - FILEMON MARTINS

 


       (FOTO DE MAISE J. MARTINS, EM ITANHAÉM-SP)



CONFIDENTE
Filemon Martins


 Velho mar, meu eterno confidente,
quantas vezes chorei ao confessar:
esta mágoa que fere, inconsequente,
e o tempo que não pode mais voltar.

E me dizes assim, naturalmente:
- só o amor é capaz de te curar,
enquanto tuas ondas, mansamente,
os meus pés, com carinho, vêm beijar.

Exerces sobre mim grande fascínio,
porque tens sobre todos o domínio
e és tão frio nas tuas mutações.

Ao contrário de ti, eu sofro tanto,
e fico aqui a derramar meu pranto,
onde sepulto as minhas ilusões!

NUNCA MAIS... - FILEMON MARTINS

 



NUNCA MAIS... 
           
Filemon Martins



Nunca mais vou chorar... Minha memória 
quer esquecer o rumo percorrido. 
Quanto tempo passou, estou perdido, 
nada fiz que mudasse a minha história. 


Sonhos perdidos - minha trajetória 
foi procurar o teu amor sofrido, 
mas nunca fui por ti correspondido, 
busquei em vão no amor a minha glória. 


E segui pela vida, num suplício, 
fiz penitência e muito sacrifício 
para encontrar um pouco de carinho. 


Nunca mais te esqueci... Confesso agora: 
meu coração descrente ainda chora, 
- nunca mais encontrei o meu caminho.

ACERTO DE CONTAS - FILEMON MARTINS

 




     ACERTO DE CONTAS

 

 

               Nada mais salutar que uma eleição para propiciar aos eleitores a oportunidade de fazer uma avaliação do efetivo desempenho de deputados (estaduais e federais), governadores, senadores e presidente da República do Brasil. Os eleitores terão a chance de fazer um acerto de contas, após 4 (quatro) anos de mandato dos eleitos.

               É tempo de averiguar o que foi realizado, promessas não cumpridas, desvios de verbas com vantagens pessoais e má administração do dinheiro público. É necessário que os eleitores estejam conscientes de que dispõem de uma única arma: o voto. Esse é o momento de saber usar (e bem) o voto. Votando bem, os maus candidatos à reeleição serão barrados e servirão de exemplo para os novos que pretendam trilhar o caminho da corrupção, fazendo da política, a arte de enganar.

               Não se pode generalizar, evidentemente, mas o Brasil, como um todo, precisa de bons políticos e bons administradores. A má administração do dinheiro do povo, a roubalheira, o descaso, a incompetência, o tanto faz na política, acabam propiciando ao eleitor, um certo desânimo e desencanto no que diz respeito às eleições.    Observa-se que o desalento, a falta de entusiasmo é geral, porque os eleitores têm percebido que as eleições, em que pesem seu valor para a democracia, não mudam quase nada. Só aumentam os escândalos que a imprensa quando quer e pode, divulga diariamente.

               Por outro lado. a fiscalização do dinheiro público em todas as esferas, é deficiente e praticamente nula. Enquanto isso, a impunidade reina soberana beneficiando os infratores. O judiciário tem sérias dificuldades em fazer valer os princípios elementares da Justiça e do Direito, e quando o faz, tem dificuldades em reaver o que foi desviado para “paraísos fiscais”.

               É fundamental que os eleitores sejam fiscalizadores dos candidatos, dos partidos, daqueles que os apoiam, lembrando o velho ditado: “Dize-me com quem andas e eu direi quem tu és”. Muitos candidatos que estão pleiteando um cargo eletivo, são fichas-sujas, é só fazer uma pesquisa rápida. Outros, apresentam filhos/filhas, netos e netas, mas pertencem a mesma árvore da corrupção e do mau caráter, adeptos da “lei do Gerson, levar vantagem em tudo”. Fique esperto. Fuja deles!

               Conclusão: a importância da eleição para o cidadão comum, como nós, é exatamente esta: a possibilidade de dizer NÃO através do voto. NÃO aos políticos corruptos; NÃO aos cínicos e interesseiros; NÃO aos que prometem e não cumprem; NÃO aos caras-de-pau, oportunistas e aventureiros, que, infelizmente, a Justiça Eleitoral não consegue barrar. NÃO aos políticos milionários, que se enriquecem cada vez mais, ilicitamente, às custas da miséria e do sofrimento do povo brasileiro.

 

FILEMON MARTINS

ESCRITOR, CRONISTA E POETA

DA CONFRARIA BRASILEIRA DE LETRAS

ACADEMIA DE LETRAS DE IPAUSSU – SP

CLUBE BAIANO DE TROVA, SALVADOR, BAHIA       


terça-feira, 1 de setembro de 2026

VENDEDORES DE ILUSÕES - FILEMON MARTINS

 




 

VENDEDORES DE ILUSÕES

 

      Não se pode negar que os políticos se tronaram os maiores vendedores de ilusões ao povo brasileiro. O eleitorado que tem votado no Partido dos Trabalhadores e a sociedade, como um todo, sempre sonhou com mudanças efetivas em prol de quem trabalha e produz, com uma política econômica honesta e eficiente em favor do Brasil.

      Mas o que constatamos é que o objetivo de quem governa ou finge governar só beneficia grupos poderosos, larápios disfarçados de empresários e até vestidos de toga, como vem acontecendo sistematicamente no governo petista.

      O desemprego aumentou tanto que, para compensar, o assistencialismo virou regra. Para quem ainda ostenta um emprego, o arrocho salarial é cada vez mais visível. Impostos e taxas abastecem o governo, que gasta pomposamente. Planos de Saúde cada vez mais caros, medicamentos, especialmente para idosos, nem se fala. Compras em supermercados cada dia, é mais escassa.

      É impossível mencionar uma reforma que tenha beneficiado o trabalhador brasileiro. Algumas reformas encampadas pelo governo petista, nestes três ou quatro mandatos, quase todas iniciadas no governo de FHC, prejudicaram o trabalhador/servidor, medidas aprovadas pelo Congresso Nacional, que, com raras exceções, diga-se, está cheio de súditos de Lúcifer.

      O Partido, que no início se dizia ético, defensor da moral e da honestidade, age exatamente ao contrário. Puseram um fantoche à frente dizendo bravatas, enquanto nos bastidores do poder, os corruptos levam o dinheiro dos aposentados, da educação, da saúde, segurança pública e pesquisas.

      Justamente o partido que fez promessas mirabolantes, continua a prometer os mesmos sonhos para uma plateia de incautos, alguns por conveniência, outros porque a massa cinzenta que vai de uma orelha a outra, é curta e escassa.

      Pobre Brasil! O partido nunca teve um projeto de governo, mas sempre teve um projeto para permanecer no poder, custe o que custar. É o vale tudo. Daí o aparelhamento de pontos estratégicos, como algumas instituições que hoje envergonham o Brasil perante a Comunidade Internacional.

      Não será tarefa fácil, mas é extremamente necessário que a sociedade brasileira consiga separar o joio do trigo, expurgando os corruptos, corruptores, fraudadores e aventureiros do meio político, sem a influência nefasta dos propagandistas de plantão, que recebem fortunas para transformar o “diabo” em santo.

   

¨Bendito o homem cuja fama não brilha mais que a sua consciência¨.

ESCRITOR INDIANO: RABINDRANATH TAGORE (1861 - 1941)

 

Filemon Martins

Escritor, cronista e poeta

Da Confraria Brasileira de Letras

Do Clube Baiano de Trova, Salvador, Bahia

   


RECORDAÇÃO - FILEMON MARTINS

 




O saudoso amigo Antônio Monteiro, de São Paulo, certo dia me enviou correspondência com o seguinte bilhete:

“Filé, com a ajuda da excelente memória que Deus me deu, transcrevi para este papel, também escrito a máquina de escrever, estes lindos versos em forma de TROVAS, que você tão humildemente me enviou, por volta dos idos de 1968, ainda em Morpará (Ba), há 52 anos. É para o amigo ver, olhar, apreciar, lembrar e recordar os versos de sua própria autoria.” Abraços, Antônio Monteiro

 

Eis os versos:

 

RECORDAÇÃO

Filemon Martins

 

Recordo aqueles tempos de criança,

aquelas tardes que não voltam mais,

quando corria cheio de esperança

em busca dos meus sonhos e ideais.

 

Recordo aquela quadra venturosa,

os versos que escrevia no Sertão,

quando vivia em busca de uma rosa

que me amasse de todo o coração.

 

Hoje, recordo com saudade imensa

aqueles campos, flores naturais;

mas não tenho consolo ou recompensa,

pois esse tempo não me volta mais.

 

Sonho acordado vendo aquela serra (*)

que às vezes contemplava comovido,

admirando a beleza que se encerra

nos matagais do meu torrão querido.

 

Recordo o meu estudo de criança

e com saudades lembro os ideais,

e aqueles dias cheios de esperança

cheios de flores, sonhos irreais.

 

Por isso vivo a recordar os sonhos

e aqueles tempos de venturas tais,

tempos que para mim foram risonhos,

mas que na vida não desfruto mais.

 

(*) – SERRA DO CARRANCA, em Ipupiara, Bahia

 

Nota do autor: eu tinha 18 anos quando escrevi este poema, que, graças ao amigo Antônio Monteiro, não se perdeu no tempo. Minha gratidão, amigo.. com eternas saudades.