A
Cidade das Estátuas que Choram
Após sete meses de calmaria em
Bagdá, o espírito de Aldhiyb Al-Abyad tornou-se inquieto como um falcão
engaiolado. Ele armou uma nova nau, o Falcão do Índico, e partiu para além das
ilhas de Waq-Waq. Contudo, uma correnteza desconhecida, fria como o hálito de
um morto, arrastou o navio para uma enseada cercada de penhascos de basalto.
No centro da enseada, erguia-se
uma metrópole de arquitetura magnífica, com torres de marfim e cúpulas de
lápis-lazúli. Mas não se ouvia o grito dos mercadores nem o riso das crianças.
O silêncio era interrompido apenas por um som constante, como o cair de uma
chuva leve sobre mármore.
Ao desembarcar, Aldhiyb e seus
homens ficaram petrificados de assombro. Em cada praça, em cada janela e em
cada trono, havia pessoas feitas de pedra cinzenta. Eram estátuas tão perfeitas
que se podia ver o medo congelado em seus olhos. E desses olhos, ó Rei,
brotavam lágrimas reais, que corriam pelos rostos de pedra e inundavam as ruas,
formando riachos de tristeza.
No grande palácio, Aldhiyb
encontrou o Rei daquela cidade, também transformado em pedra, exceto por sua
língua.
— "Ó viajante das terras
vivas," lamentou o Rei de Pedra. "Fomos punidos por nossa soberba.
Construímos uma cidade tão bela que acreditamos ser deuses, e o Gênio do
Silêncio tocou-nos com sua mão de gelo. Só o som de uma alegria sincera pode
quebrar este encanto, mas quem pode rir em um vale de lágrimas?"
Os marinheiros de Aldhiyb,
tomados pela melancolia do lugar, começaram a chorar. Mas o Lobo Branco sabia
que a tristeza é o alimento daquele feitiço. Ele lembrou-se das histórias que
contava aos seus filhos e, com sua voz poderosa, começou a entoar os versos
mais cômicos e absurdos dos Contos de Juha, o bobo sábio.
Aldhiyb dançou de forma ridícula
entre as estátuas, imitando os trejeitos dos vizires pomposos de Bagdá e
contando anedotas sobre camelos que falavam grego. Um a um, seus marinheiros
começaram a rir, primeiro timidamente, depois com gargalhadas que ecoaram como
trovões pelas cúpulas de lápis-lazúli.
Ao som do riso, o gelo invisível
rachou. A pele de pedra das estátuas descascou como argila seca, e a vida
retornou à cidade. O Rei, agora de carne e osso, abraçou Aldhiyb e cobriu seu
navio com diamantes que tinham o formato das lágrimas que outrora caíam.
Aldhiyb Al-Abyad retornou a Basra
não apenas mais rico, mas com a lição de que o riso é a única arma capaz de
derreter a dureza do mundo.
("ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)
ESCRITOR, POETA, TROVADOR, PESQUISADOR

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