quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A CIDADE DAS ESTÁTUAS QUE CHORAM - JOSÉ FELDMAN

 




A Cidade das Estátuas que Choram


  

Após sete meses de calmaria em Bagdá, o espírito de Aldhiyb Al-Abyad tornou-se inquieto como um falcão engaiolado. Ele armou uma nova nau, o Falcão do Índico, e partiu para além das ilhas de Waq-Waq. Contudo, uma correnteza desconhecida, fria como o hálito de um morto, arrastou o navio para uma enseada cercada de penhascos de basalto.

 

No centro da enseada, erguia-se uma metrópole de arquitetura magnífica, com torres de marfim e cúpulas de lápis-lazúli. Mas não se ouvia o grito dos mercadores nem o riso das crianças. O silêncio era interrompido apenas por um som constante, como o cair de uma chuva leve sobre mármore.

 

Ao desembarcar, Aldhiyb e seus homens ficaram petrificados de assombro. Em cada praça, em cada janela e em cada trono, havia pessoas feitas de pedra cinzenta. Eram estátuas tão perfeitas que se podia ver o medo congelado em seus olhos. E desses olhos, ó Rei, brotavam lágrimas reais, que corriam pelos rostos de pedra e inundavam as ruas, formando riachos de tristeza.

 

No grande palácio, Aldhiyb encontrou o Rei daquela cidade, também transformado em pedra, exceto por sua língua.

 

— "Ó viajante das terras vivas," lamentou o Rei de Pedra. "Fomos punidos por nossa soberba. Construímos uma cidade tão bela que acreditamos ser deuses, e o Gênio do Silêncio tocou-nos com sua mão de gelo. Só o som de uma alegria sincera pode quebrar este encanto, mas quem pode rir em um vale de lágrimas?"

 

Os marinheiros de Aldhiyb, tomados pela melancolia do lugar, começaram a chorar. Mas o Lobo Branco sabia que a tristeza é o alimento daquele feitiço. Ele lembrou-se das histórias que contava aos seus filhos e, com sua voz poderosa, começou a entoar os versos mais cômicos e absurdos dos Contos de Juha, o bobo sábio.

 

Aldhiyb dançou de forma ridícula entre as estátuas, imitando os trejeitos dos vizires pomposos de Bagdá e contando anedotas sobre camelos que falavam grego. Um a um, seus marinheiros começaram a rir, primeiro timidamente, depois com gargalhadas que ecoaram como trovões pelas cúpulas de lápis-lazúli.

 

Ao som do riso, o gelo invisível rachou. A pele de pedra das estátuas descascou como argila seca, e a vida retornou à cidade. O Rei, agora de carne e osso, abraçou Aldhiyb e cobriu seu navio com diamantes que tinham o formato das lágrimas que outrora caíam.

 

Aldhiyb Al-Abyad retornou a Basra não apenas mais rico, mas com a lição de que o riso é a única arma capaz de derreter a dureza do mundo.



("ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)

ESCRITOR, POETA, TROVADOR, PESQUISADOR


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