sexta-feira, 27 de junho de 2025

TROVAS DE ALICE BUENO DE OLIVEIRA

 



TROVAS ALICE BUENO DE OLIVEIRA, consagrada trovadora paulista. 

Os sonhos tecem cirandas
pelo passado perdido;
e o vento pelas varandas
é um trovador esquecido...

Há no outono a nostalgia
de minha ilusão perdida;
a embalar a fantasia,
de tua ausência sentida...

A trova é ternura, é salmo,
é nuvem, castelo, pluma;
festival de vento calmo
após vendaval de bruma...

Meu barco feito de sonhos,
navega pelos remansos;
dos meus momentos tristonhos,
trovando teus versos mansos.

(Anuário-Coletânea de Trovas
 Brasileiras-Recife-PE-pág. 88)

AQUELA QUE EU DESEJO - ENO THEODORO WANKE

 



AQUELA QUE EU DESEJO
         Eno Theodoro Wanke

Desejo uma mulher bem feminina,
que tenha uns lábios doces de cereja,
que seja carinhosa, bela, e seja
pequena, de figura esbelta e fina...

E tenha uma alma pura de menina,
simpática, agradável, benfazeja,
e seja toda minha... (O que deseja
minha alma é uma mulher quase divina!)

- Que saiba conversar sem ser fingida,
que seja inteligente e seja boa,
que torne em doce o amargo desta vida...

Desejo alguém assim... – E fico triste
pois sei – tenho certeza – tal pessoa,
aquela que eu desejo, não existe!

(Do livro “À SOMBRA DOS VERSOS EM FLOR”, página 30, poesia completa/vol. 1-Eno Theodoro Wanke)

Obs.: Focalizado em meu livro "FAGULHAS", páginas 159/165

SENZALA - MIGUEL EDUARDO GONÇALVES

 



SENZALA
   Miguel Eduardo Gonçalves

Se teus olhares seguem em segredo
Aonde alcance o mar o proibido
Espelhos entrevistos que são medo
Afligem tua insânia amor contido.

Cenário que conduz a engano ledo
Nas cores do desejo remoído
Em que o mistério cede à voz mais cedo
Aquela voz mais forte e sem sentido.

O meu querer é outro, é previsto
No foro expresso d’alma se regala
E se distrai enquanto o resto é quisto.

Inúmeras quimeras de uma escala
Acordes dissonantes do imprevisto
Um coração quiçá como em senzala.

TROVAS DE AMARYLLIS SHLOENBACH

 



TROVAS DE AMARYLLIS SCHLOENBACH (São Paulo)

Canta, canta, passarinho,
pois chegou a primavera,
e aquela flor junto ao ninho
já não é mais uma espera.

Atenção: Não corras tanto
em teu meio de transporte.
Não deixes ninguém em pranto,
não busques a própria morte!

Longe, perdidos na bruma,
vão meus sonhos a vagar...
Sem dó, no rastro da espuma,
lancei-os todos ao mar!

Amar é o melhor da vida,
mas, bem difícil é achar
amor que em dois se divida
para, depois, se juntar.

(Do BALI – Letras Itaocarenses-página 14, Mil Trovas de Amor e Saudade-UBT-página 16)

SAUDADE - C. A. BEIRAL

 



SAUDADE
                   c.a.Beiral * (poeta carioca)

Dos sentimentos mais cantados, creio
seja a saudade o tema preferido,
e quanto mais a seu respeito eu leio,
menos me considero esclarecido.

Emoção rediviva, sem que o meio
se justifique pelo pretendido,
eu quero crer, e digo sem receio,
que nem me consolar tem conseguido!

Tem mais de sádica que de indulgente,
porque não deixa adormecer na gente,
o que esquecer seria um grande bem...

Mas como pode ter definição,
quando está tão acima da razão,
se não diz quando vai nem quando vem?

*Custódio de Azevedo Beiral

(Do livro “PENÚLTIMAS CANTIGAS”, página 38)

DITOSO MUNDO - MIGUEL J. MALTY

 



DITOSO MUNDO
                   Miguel J. Malty (Brasília-DF)

Olha essas nuvens plácidas, libertas,
vestidas de brancura e de grandeza,
rasgando o etéreo espaço, asas abertas,
bandeiras da encantada Natureza.

Em romarias ermas, vagam certas
dum destino supremo de pureza;
paramentos, oblatas são ofertas
no altar aurifulgente da Beleza.

Esse pálio fulgente que se estende
e se alarga em cetim no campo alvar,
agasalha um sentir doce, profundo...

Mistérios dormem que ninguém entende,
mas que é mister ao homem ponderar
como vestígio dum ditoso Mundo.

(Do ESTRO, n° 124-página 01)

quinta-feira, 26 de junho de 2025

RELIGIÃO E SOCIOLOGIA - MÁRIO RIBEIRO MARTINS

 




RELIGIÃO E SOCIOLOGIA
(GILBERTO FREYRE)


Mario Ribeiro Martins*


“Estou gozando a minha estada aqui nesse belo Seminary Hill. O Seminário está distante da cidade. É uma bonita vista a que se vê em torno dos seus dois grandes edifícios. Há 300 estudantes no Seminário e Training School”.
Finalmente, acentuou Gilberto Freyre: “A vida corre agradável. Visitei hoje e tive boa palestra com o professor de Missões, Mr. Knighe. É jovem, inteligente e preparado. Eu o quisera ver no Brasil, como missionário. Falei ao velho Grambell (1), o papai dos batistas do Texas. Hoje à noite, falarei a um grupo de mexicanos, entre os quais, o Seminário - professores e estudantes que fazem trabalho missionário. Misturarei ao meu Espanhol um pouco de Português” (CARTA DE UM SEMINARISTA, A MENSAGEM. RECIFE, 15.03.1919).
A linguagem de Gilberto Freyre, como se vê, era a de um autêntico seminarista. Somente um candidato ao Ministério Evangélico teria essa preocupação de visitar um Seminário, conversar com professores e alunos sobre a obra missionária.
Seu amigo R. S. Jones (2), a quem chama de belo camarada, era seminarista e tornou-se posteriormente missionário, daí a afinidade entre eles, tendo sido Pastor da Igreja Batista da Capunga, no Recife, onde frequentavam os parentes de Gilberto Freyre (3).
Seu desejo de ser missionário, pastor, evangelista ou coisa que o valha, já havia se revelado no Recife, através de suas pregações e se intensificara nos Estados Unidos ao visitar o SOUTHWESTERN BAPTIST THEOLOGICAL SEMINARY (Seminário Teológico Batista do Sudoeste), no Texas, onde chegou a estimular vários professores da instituição a virem ao Brasil como missionários.
José Lins do Rego, numa biografia que Gilberto Freyre não permitiu que fosse publicada e cujos trechos (alguns deles) foram revelados por Diogo de Melo Menezes, em seu livro (GILBERTO FREYRE, Rio de Janeiro, CEB, 1944), mostra o misticismo do autor de CASA GRANDE & SENZALA e como ele se sentiu vocacionado para a obra missionária.
A descrição que Gilberto Freyre fez do grande pregador evangélico Billy Sunday é simplesmente extraordinária e não fora conseguida por nenhum outro ouvinte, nem mesmo pelos famosos professores de Homilética que lidavam constantemente com os problemas dos gestos nas pregações.
Seu interesse por Billy Sunday, pelo conteúdo da mensagem, pela maneira como a mensagem era apresentada, pelo modo de orar, pela técnica aplicada no apelo e por todo o comportamento de Billy durante a pregação revela o desejo de aprender de Gilberto, para aplicar no Ministério Evangélico e nas suas pregações.
O missionário W. C. Taylor (William Carey Taylor), que fora professor de grego do estudante Gilberto Freyre, no Colégio Americano Gilreath (hoje Colégio Americano Batista), escrevendo o seu livro A BRIEF SURVEY OF THE HISTORY BRAZILIAN BAPTIST DOCTRINE, declarou que o futuro Mestre de Apipucos, tendo solicitado carta de transferência da Primeira Igreja Batista do Recife, tornou-se membro da SEVENTH AND JAMES BAPTIST CHURCH, quando de sua estada nos Estados Unidos, particularmente na Universidade de Baylor.
A seriedade da declaração se expressou nestes termos: “Um foi Gilberto Freyre. Naquele tempo, o mais amado pregador batista em Pernambuco e continuou a vida assim, enquanto foi membro da Seventh and James como Dr. Melton me informou”. (Taylor, BRAZILIAN BAPTIST DOCTRINE, p. 57).
Esta afirmativa, repito, levou o pesquisador a escrever uma carta à mencionada Igreja, em Waco, Texas, solicitando algumas informações a mais sobre a passagem do jovem brasileiro por ali.
O Pastor da Igreja, Rev. David Mathews, consoante carta em poder deste autor, confirmou a passagem de Gilberto Freyre por aquela comunidade de fé. Suas falas, como Gilberto chama a pregação, aos diversos grupos da igreja. Ratificou e confirmou a declaração do Dr. W. W. Melton, ex-pastor da Seventh and James, na época de Gilberto Freyre, tendo dito que o jovem brasileiro era bom pregador, enquanto foi membro da igreja.
Finalmente, disse o Rev. David Mathews, em carta datada de 05.01.1973: “Nós temos sido incapazes de achar melhores registros concernentes a Gilberto Freyre, mas ele fez parte da Igreja como membro e também da BYPU (Baptist Young People Union) ou seja União Batista de Jovens, onde falou ao grupo em várias ocasiões sobre o Brasil e suas possibilidades para a obra missionária. Isto foi há muito tempo e nossos registros não podem ser tão acurados”. (DAVID MATHEWS, Carta da Seventh and James Church. Waco, Texas, 05.01.1973).
Em Waco, além da Universidade Batista de Baylor, estava a Igreja Batista da Rua Setenta, esquina com a Rua James, daí o nome da igreja no original. A esta igreja frequentavam quase todos os jovens que se matriculavam na Universidade, especialmente, os que vinham de fora do país.
Além de Gilberto Freyre que fora um de seus membros, dela participaram também ilustres brasileiros: Orlando do Rego Falcão, posteriormente Reitor do Seminário Batista do Norte do Brasil, no Recife. Edgar Ribeiro de Brito, filho de um Senador Federal e que se formara em Ciências Físicas. Guedes Pereira e Ivo Araújo, filhos do Senhor de Engenho de Amaragy.
Todos estes foram colegas de Gilberto Freyre na Universidade de Baylor e nas andanças pela Igreja Batista Seventh and James, conforme as declarações do próprio Gilberto Freyre, escrevendo para o DIARIO DE PERNAMBUCO, no dia 31.12.1972, sob o titulo “DEPOIMENTO DE UM EX-MENINO PREGADOR”.
Da série de perguntas feitas pelo pesquisador à Igreja Batista Seventh and James, nem todas foram respondidas, de algum modo, pela distância do tempo e pela falta de informações, já que se tratavam de perguntas minuciosas.
As verdadeiras nascentes culturais e espirituais, de onde jorrou a fabulosa obra do festejado Mestre de Apipucos já foram expostas através deste despretensioso estudo. Conforme crônicas publicadas na revista O CRUZEIRO, Gilberto Freyre reclama de uma maior participação evangélica na vida cultural do país.
“O Menino de Jesus”, Pregador e Estudante de Baylor em 1918, poderia ter dado esta contribuição. Mas não o fez. Muitas vezes, na tentativa de fugir do meio protestante, apresenta um labirinto de nomes e ideias.
E é com muita má vontade, que aceita o fato histórico de que foi membro de uma Igreja Batista, tanto no Brasil - Primeira Igreja Batista do Recife - quanto nos Estados Unidos, Seventh and James Church. Waco, Texas e daí falar de um cristianismo seu, o que é condenado por Paulo, em Gálatas 1: 8, quando diz: “Mas ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie um Evangelho diferente do que nós vos temos anunciado, seja ANÁTEMA”.
Contudo, há uma esperança, porque também ainda existe vida: É o retorno ao cristianismo. Cristianismo sem sobrenomes, que não seja burguês, mas também não seja anárquico, antes constitua uma certeza. “Sem certeza”- disse Lutero- “não há cristianismo. O cristão deve estar certo da sua doutrina e da sua causa, ou não é cristão”.
Há homens que nascem em determinada época e lugar para realizar grandes obras. É o caso de Gilberto Freyre. A confirmação desta grandiosidade seria uma volta à fé cristã da sua adolescência, porque constituiria também um respeito aos apelos feitos pela consciência do MENINO PREGADOR: “QUEM QUER SER DO JESUS DE QUE ACABO DE FALAR”?
Aliás, isto é perfeitamente bíblico: “Quem não se tornar semelhante a uma criança, não entrará no reino dos céus” (Mateus 18:3).
A jovem Esther somente descobriu o sentido da vocação, quando já estava no trono como Rainha. Só então convenceu-se de que havia um serviço que podia e devia prestar ao seu povo.
Não seria este, porventura, um bom caminho para o autor de CASA GRANDE & SENZALA?
Mas seria necessária a luta que precede às grandes decisões. E muito mais. Talvez uma reflexão profunda sobre as palavras de Paulo, quando vendo em ruínas o seu farisaísmo pernicioso, tremendo e atônito bradou: “SENHOR, QUE QUERES QUE EU FAÇA?” E coube a Ananias, na sua humildade e obediência, interpretar o sentido da vocação de Paulo, conforme dada pelo Senhor: “Vai, porque este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome perante os Gentios e os Reis” (Atos 9:6).
Em seu livro recentemente lançado "ALÉM DO APENAS MODERNO", Gilberto Freyre revela um profundo conhecimento teológico, certamente, produto daquele contato com os missionários, com a Igreja, com os livros teológicos, alguns deles traduzidos pelo seu próprio pai e com os grandes pregadores da época, o maior deles, Billy Sunday, que ele tivera a oportunidade de ver e ouvir nos Estados Unidos. 

(CORREIO DO PLANALTO. Anápolis, 03.09.1980).


(1) James Bruton Gambrell, conhecido como “velho papai dos batistas do Texas” era Editor, Professor do Seminário e Líder batista no Estado. Tornou-se Superintendente das Missões no Texas, desde 1896 até 1910. No ano de 1918, quando Gilberto esteve lá, ele tinha sido eleito Presidente da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, a maior Convenção Batista do Mundo. Foi como Presidente desta Convenção que, por sinal, sustentava o Colégio Americano Gilreath, que ele ouviu as informações do jovem brasileiro.

(2) R. S. Jones foi um dos fundadores da Igreja Batista da Capunga, no Recife, em 19.04.1923, com 13 membros, entre os quais, W. C. Taylor, Reverendo J. L. Dawning, Adalgisa Wanderley, Reverendo R. S. Jones, Seminarista Acácio Vieira Cardoso. Foi Pastor desta Igreja até 1930, quando retornou para os Estados Unidos, ficando em seu lugar, o Pastor José Munguba Sobrinho, que tomou posse no dia 06.07.1930.

(3) É bom relembrar que embora Gilberto Freyre esteja distanciado da Igreja institucionalizada (e daí dizer que não é católico, nem protestante, mas que possui o seu cristianismo), suas raizes familiares ainda estão vinculadas a uma comunidade de fé. Quem tiver o ensejo, por exemplo, de visitar a Igreja Batista da Capunga, no Recife, Rua João Fernandes Vieira, 769, Boa Vista, poderá conhecer não somente Dona Gasparina Freyre Costa, membro da Igreja há mais de meio século, IRMÃ de Gilberto Freyre, única interprete de sua letra e ex-datilógrafa dos artigos e trabalhos mais longos do escritor, mas também Paulo Costa, assíduo aos trabalhos da Escola Bíblica Dominical, membro da Igreja, antigo solista do Coro e cunhado de Gilberto. Eles constituem uma prova cabal das origens evangélicas de Gilberto e do seu misticismo na adolescência.



MÁRIO RIBEIRO MARTINS - ERA PROCURADOR DE JUSTIÇA E ESCRITOR.

O PENSAMENTO EPISTEMOLÓGICO DE PIAGET - MÁRIO RIBEIRO MARTINS

 




O PENSAMENTO EPISTEMOLÓGICO
DE PIAGET.


Mário Ribeiro Martins*


(REPRODUÇÃO PERMITIDA, DESDE QUE CITADOS O AUTOR, A FONTE E O TÍTULO).




A epistemologia de Jean Piaget é essencialmente genética e foi elaborada através de duas obras escritas por ele, uma em 1950, intitulada INTRODUCTION À L’ÉPISTEMOLOGIE GENETIQUE e a outra, em 1972, denominada L’ÉPISTEMOLOGIE GENETIQUE, além de outras obras especialmente epistemológicas, produto todas elas dos estudos feitos por Piaget durante cerca de vinte anos, no Centro Internacional de Epistemologia Genética de Genebra.
A epistemologia piagiana é profundamente cientifica e completamente distinta da teoria filosófica. O geneticismo na epistemologia piagiana se estende a todos os campos das ciências humanas e sua metodologia possibilitou a Piaget sérios estudos no campo de desenvolvimento infantil, tais como, o problema do número, da inteligência, da aquisição da linguagem, da formação do juízo moral, de tal modo que seu conceito de epistemologia passa a ser o estudo da constituição dos conhecimentos válidos.
A ciência, conforme o entendimento de Piaget, deve ser o resultado de três elementos reunidos: elaboração de fatos, formalização matemática e controle experimental.
No entender de Hilton Japiassu, o método completo da epistemologia genética é constituído por uma intima colaboração dos métodos histórico-criticos e psicogenéticos. Este é capaz de fornecer o conhecimento das etapas elementares dessa constituição progressiva. Aquele é capaz de fornecer o conhecimento das etapas intermediárias da mesma constituição progressiva.
O fato de Jean Piaget recusar uma epistemologia de fundamento filosófico, não significa uma negação filosófica, mas significa tão somente que a filosofia como especulação, é apreciativa, interpretativa e tem a resposta no momento em que a ciência se cala, formando pontes entre os domínios controlados pelo conhecimento cientifico.
O pensamento epistemológico de Piaget compreende dois tipos de epistemologia genética: a restrita e a generalizada. A primeira se preocupa com uma análise psicogenética ou histórico-crítica das maneiras de crescimento dos conhecimentos. A segunda se preocupa com o estudo do sistema de referência, dentro de um processo apenas genético ou histórico.
Para Piaget há um íntimo relacionamento entre a Psicologia Genética e a Epistemologia Geral e toda a sua obra epistemológica pretende a construção da epistemologia genética que não é outra coisa senão a transição ou o ponto intermediário entre Psicologia e Epistemologia. Para ele, os conhecimentos resultam de uma construção que é a criação constante de novas estruturas e daí a interdisciplinaridade da epistemologia.
Embora Piaget defenda um pensamento epistemológico sem base filosófica, ele não é hostil à filosofia, como se poderia pensar à primeira vista, porquanto reconhece, como já o fizera Garaudy, que a essência filosófica está intrinsecamente presente em todas as coisas e em todas as áreas e facetas do saber humano. Se assim é, a especulação filosófica só pode ter um lugar assegurado dentro do conhecimento cientifico, não para defini-lo, mas para dar aquela diretriz, respondendo a questões que a sabedoria da ciência, não teria condições de fazê-lo.
A epistemologia genética de Jean Piaget constitui hoje uma das melhores contribuições para o estudo da Filosofia da Ciência e de seu desenvolvimento, com uma abertura nova, séria e cientifica, em termos das implicações do relacionamento Filosofia e Ciência que, embora com características diferentes, não apresenta um abismo intransponível entre elas. Ao contrario, filosofia e ciência se completam, bastando notar-se a historia de seus caminhos e os fins a que se destinam.
Daí dizer Karl Jaspers: “A filosofia é perturbadora da paz, porque busca a verdade nas múltiplas significações”. E continua dizendo: “Na medida em que o investigador, inspirado por esse instinto e conduzido por ele, penetra cada vez mais fundo no que é concretamente cognoscível, a FILOSOFIA SE FAZ CIÊNCIA”.
Mesmo tendo dado títulos sem implicações genéticas aos seus livros, denominados L’ÉPISTEMOLOGIE DES SCIENCES DE L’HOMME, LOGIQUE ET CONNAISSANCE SCIENTIFIQUE, PSYCHOLOGIE ET EPISTEMOLOGIE, publicados, respectivamente, em 1970, 1967 e 1970, Jean Piaget trata da Epistemologia Genética através de uma análise profunda dos temas propostos, dando sempre cientificidade ao pensamento epistemológico.
Enquanto o pensamento positivista condena todo tipo de filosofia, empreendendo mesmo uma campanha contra qualquer tipo de especulação, o pensamento piagiano crê que o cientista que não percorre o caminho da filosofia continua portador de uma doença grave.
Por isto Piaget se opõe tanto ao positivismo quanto à especulação. Opõe-se àquele porque só aceita os fatos observáveis. Opõe-se a esta porque não oferece instrumentos de controle e verificação. O fato é que, além dos muitos méritos de Piaget pelos quais coloca o seu nome na história do pensamento humano, o maior deles é o fato de ter edificado uma base experimental própria para a epistemologia.
Deve ser lembrado, no entanto, que a epistemologia genética de Jean Piaget é extraordinariamente kantiana, no sentido de que o objeto conhecido é ao mesmo tempo, um dado e uma construção. O construtivismo genético e estruturalista de Piaget determina as condições em que se constrói o sujeito cognoscente.
Daí a pergunta de sua epistemologia genética ser sobre como a inteligência se constrói. De qualquer modo, no projeto de qualquer ciência, está sempre presente o pressuposto filosófico.(FILOSOFIA DA CIÊNCIA, Goiânia, Oriente, 1979, página 243).



MÁRIO RIBEIRO MARTINS - ERA PROCURADOR DE JUSTIÇA E ESCRITOR.

quarta-feira, 25 de junho de 2025

TROVAS DE MÁRIO BARRETO FRANÇA

 



TROVAS DE MÁRIO BARRETO FRANÇA

 

Não olhe tanto o futuro
nem no passado se ausente,
porquanto o melhor seguro
é ser útil no presente!

 

Não é nem será fraqueza,
de um erro se arrepender.
Sempre demonstra nobreza
quem vence o seu próprio ser.

 

O circo é cópia discreta
do mundo, em glória e fracasso:
- Sofre no risco do atleta,
mente no rir do palhaço.

 

Raras são as criaturas
de julgamento sereno,
pois quando estão nas alturas
veem todo mundo pequeno.

 


INGENUIDADE I - FILEMON MARTINS

 



INGENUIDADE I
Filemon Martins

Que ingenuidade a minha!
Falar sempre a verdade,
dizer tudo o que penso,
tudo o que sinto.
Que vale a verdade hoje em dia,
se apenas um olhar disfarça a mentira
e um sorriso, a falsidade?

TROVAS DO FILEMON

 



TROVAS DO FILEMON

Ciúme é cuidado e zelo
que temos do nosso bem,
pois não queremos perdê-lo
para os olhos de alguém.

Falando de amor, Maria,
que saudades sinto agora
daquela doce alegria
que em teus olhos vi outrora.

No livro da NATUREZA
as lições são sem iguais.
Tenho, por isto, certeza
que é onde se aprende mais.

Segue uma estrada florida
quem, na verdade, tiver
a glória de ter, na vida,
um coração de MULHER!












TROVAS DE CAROLINA RAMOS

 



TROVAS DE CAROLINA RAMOS
(SANTOS – SP)

Deus perdoa o pecador
que, réu de amar, perde a paz;
sob o domínio do amor,
quem é que sabe o que faz?!

Tua presença é o passado,
é meu presente e meu fim,
mesmo sem ter-te ao meu lado,
tu fazes parte de mim!...

Há contraste em nossas vidas,
mas perfeito é o desempenho:
- luz e sombra, quando unidas,
dão força e vida ao desenho!

Sem notar que a vida passa,
esta emoção me extasia:
- meus netos correm na praça
onde, em criança, eu corria!