quinta-feira, 15 de outubro de 2026

OS DOIS LOBOS

 




 

Os Dois Lobos

 

Um neto chegou até o avô com o coração apertado de raiva — um amigo havia lhe feito uma injustiça, e a mágoa ainda queimava por dentro. O avô o olhou com calma, reconhecendo naquele rosto a tempestade que ele mesmo já havia enfrentado tantas vezes, e disse:

— Deixa eu te contar uma coisa que aprendi do jeito mais difícil.

O neto se aproximou.

— Já senti ódio. Ódio de verdade, daquele que pesa no peito e não deixa dormir — de pessoas que me feriram fundo e nunca pediram desculpa, como se o que fizeram não tivesse custado nada. Mas aprendi, com o tempo, que o ódio não fere quem te feriu. Ele só te corrói por dentro. É como tomar veneno esperando que o outro morra.

O avô fez uma pausa, como quem escolhe bem as palavras que vêm a seguir.

— É como se houvesse dois lobos vivendo dentro de mim. O primeiro é sereno. Não fere à toa, não guarda rancor, não se ofende por descuido alheio. Vive em paz com o mundo ao redor — mas não por fraqueza. Quando é preciso lutar, ele luta. Com clareza, com propósito, no momento certo.

— E o outro? — perguntou o neto.

— O outro é feito de fogo. Qualquer coisa o detona: uma palavra, um olhar, um silêncio. Ele briga com todos, o tempo todo, sem parar para perguntar se vale a pena. A raiva o cega antes mesmo que possa pensar. E o pior: toda aquela energia, todo aquele fogo — não muda nada. Não desfaz o que foi feito, não alivia a dor, não toca quem te magoou. Apenas te consome.

O avô olhou para o neto com uma expressão que misturava cansaço e paz — a expressão de quem já perdeu batalhas internas e aprendeu com elas.

— Conviver com os dois é difícil. Eles não descansam. E os dois são reais — não adianta fingir que o lobo da raiva não existe. Ele existe, e às vezes late alto.

O neto fitou os olhos do avô por um longo momento e perguntou:

— Qual deles vence, vovô?

O avô sorriu — devagar, como quem carrega uma verdade simples que demorou uma vida inteira para entender — e respondeu em voz baixa:

— Aquele que eu alimento.

 

Não se trata de negar a raiva — ela é humana, e às vezes até necessária. Trata-se de não deixá-la sentar à mesa todo dia. Cada escolha que fazemos, cada pensamento em que nos demoramos, cada ressentimento que cultivamos ou deixamos passar — tudo isso é alimento. 

E não tem jeito: o lobo que cresce é sempre aquele que alimentamos. 

A batalha mais silenciosa e mais decisiva da vida não acontece lá fora. Acontece dentro.

 

 

“Por isso digo: Vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne. Pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito e o Espírito o que é contrário à carne. Eles se opõem um ao outro, para que vocês não façam o que querem.” — Gálatas 5:16-17

 

“Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas deixem-se transformar pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” — Romanos

12:2

 

“Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas.” — Colossenses 3:2




(E-BOOK - "HISTÓRIAS PARA GUARDAR DO ESQUECIMENTO", ORG. SAMMIS REACHERS)

 

 

 

 

 

 


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