Os Dois Lobos
Um neto chegou até o avô com o coração
apertado de raiva — um amigo havia lhe feito uma injustiça, e a mágoa ainda
queimava por dentro. O avô o olhou com calma, reconhecendo naquele rosto a
tempestade que ele mesmo já havia enfrentado tantas vezes, e disse:
— Deixa eu te contar uma coisa que
aprendi do jeito mais difícil.
O neto se aproximou.
— Já senti ódio. Ódio de verdade,
daquele que pesa no peito e não deixa dormir — de pessoas que me feriram fundo
e nunca pediram desculpa, como se o que fizeram não tivesse custado nada. Mas
aprendi, com o tempo, que o ódio não fere quem te feriu. Ele só te corrói por
dentro. É como tomar veneno esperando que o outro morra.
O avô fez uma pausa, como quem escolhe
bem as palavras que vêm a seguir.
— É como se houvesse dois lobos vivendo
dentro de mim. O primeiro é sereno. Não fere à toa, não guarda rancor, não se
ofende por descuido alheio. Vive em paz com o mundo ao redor — mas não por
fraqueza. Quando é preciso lutar, ele luta. Com clareza, com propósito, no
momento certo.
— E o outro? — perguntou o neto.
— O outro é feito de fogo. Qualquer
coisa o detona: uma palavra, um olhar, um silêncio. Ele briga com todos, o
tempo todo, sem parar para perguntar se vale a pena. A raiva o cega antes mesmo
que possa pensar. E o pior: toda aquela energia, todo aquele fogo — não muda
nada. Não desfaz o que foi feito, não alivia a dor, não toca quem te magoou.
Apenas te consome.
O avô olhou para o neto com uma
expressão que misturava cansaço e paz — a expressão de quem já perdeu batalhas
internas e aprendeu com elas.
— Conviver com os dois é difícil. Eles
não descansam. E os dois são reais — não adianta fingir que o lobo da raiva não
existe. Ele existe, e às vezes late alto.
O neto fitou os olhos do avô por um
longo momento e perguntou:
— Qual deles vence, vovô?
O avô sorriu — devagar, como quem
carrega uma verdade simples que demorou uma vida inteira para entender — e
respondeu em voz baixa:
— Aquele que eu alimento.
Não
se trata de negar a raiva — ela é humana, e às vezes até necessária. Trata-se
de não deixá-la sentar à mesa todo dia. Cada escolha que fazemos, cada
pensamento em que nos demoramos, cada ressentimento que cultivamos ou deixamos
passar — tudo isso é alimento.
E não tem
jeito: o lobo que cresce é sempre aquele que alimentamos.
A
batalha mais silenciosa e mais decisiva da vida não acontece lá fora. Acontece
dentro.
“Por
isso digo: Vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da
carne. Pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito e o Espírito o que é
contrário à carne. Eles se opõem um ao outro, para que vocês não façam o que
querem.” — Gálatas 5:16-17
“Não
se amoldem ao padrão deste mundo, mas deixem-se transformar pela renovação da
sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável
e perfeita vontade de Deus.” — Romanos
12:2
“Mantenham
o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas.”
— Colossenses 3:2
(E-BOOK - "HISTÓRIAS PARA GUARDAR DO ESQUECIMENTO", ORG. SAMMIS REACHERS)

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