O
Reino das Mãos que Falam e o Vale do Eco Mudo
Aproximem-se, ó buscadores da
verdade, pois Mustafá agora vos levará para além das montanhas de Qaf, a um
lugar onde o som não encontra eco, mas a alma grita em cores. Preparem seus
corações para conhecerem a terra de Al-Samat (O Silêncio Absoluto).
Havia um país escondido entre
desfiladeiros de cristal, onde nenhum pássaro cantava e nenhuma fonte de água
fazia barulho ao cair. Naquela terra, todos os habitantes eram surdos desde o
nascimento. Mas não pensem, ó Sheik, que era um lugar de tristeza. Pelo
contrário, era o reino da visão interior.
Lá, as pessoas não usavam a
língua para negociar ou amar. Elas desenvolveram a Língua de Sinais de uma
forma tão sublime que cada movimento de dedo era como um verso de poesia.
Quando um jovem se apaixonava, ele não recitava odes; ele dançava com as mãos
sob a luz da lua, e o ar parecia vibrar com a música que ninguém ouvia, mas
todos sentiam.
Certo dia, um viajante
estrangeiro, um mercador barulhento vindo de terras distantes, entrou no país.
Ele gritava suas mercadorias com uma voz poderosa, mas ninguém se virava. Ele
tocava trombetas de bronze, mas os guardas apenas sorriam e lhe ofereciam tâmaras.
O estrangeiro, sentindo-se ignorado, começou a sentir uma fúria crescente.
— “Eles são tolos!, gritava ele.
Não ouvem a minha grandeza!”
Um ancião do lugar, percebendo a
angústia do homem, aproximou-se. Ele não disse uma palavra, mas tocou o peito
do mercador e depois apontou para o horizonte. Com gestos lentos e cheios de
dignidade, ele explicou que, naquele país, o barulho era considerado uma fumaça
que escondia a verdade.
O mercador passou meses ali.
Aprendeu que, para 'ouvir' naquela terra, era preciso observar o bater do
coração do próximo. Aprendeu que o silêncio era a montaria celestial que levava
o pensamento mais longe. Ele viu que, sem o ruído das discussões, não havia
discórdia. Os julgamentos eram feitos em absoluto silêncio, onde os juízes liam
a verdade nos olhos dos acusados, pois os olhos não sabem mentir como a boca.
Quando o mercador finalmente
partiu, ele levava consigo o maior tesouro: a capacidade de ouvir o que não é
dito. Ele voltou para sua cidade e, embora ainda pudesse falar, tornou-se o
homem mais sábio de seu povo, pois sabia que as palavras mais importantes de
Allah (Deus) são escritas no silêncio entre um suspiro e outro.
Mustafá fechou os olhos por um
momento, sentindo a brisa da noite de Bagdá, e concluiu:
"A lição deste relato, ó
Nobre Sheik, é que a verdadeira audição não reside nos ouvidos, mas na atenção
que damos à alma alheia. Muitas vezes, o excesso de barulho do nosso próprio
orgulho nos impede de entender a linguagem do universo. Quem muito fala, pouco
ouve; mas quem abraça o silêncio, descobre que as mãos podem dizer o que a voz
jamais alcançaria.”
(FONTE: " ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN)
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