sexta-feira, 17 de julho de 2026

OÁSIS DOS ESPELHOS - JOSÉ FELDMAN

 




Oásis dos Espelhos


José Feldman

  

Prepare o seu espírito, ó Sheik de Bagdá, pois agora deixaremos as muralhas de Samarcanda para cruzar o Rub' al-Khali (o Quarteirão Vazio), o deserto onde a areia canta e o horizonte engana os olhos dos imprudentes.

 

Após quarenta dias e quarenta noites seguindo a Estrela Polar, surge entre as dunas de fogo o Oásis dos Espelhos. Mas não se engane, Nobre Senhor: lá, a água não é feita de líquido, mas de um nadir (raridade) que reflete não a face, mas a verdade oculta.

 

No centro desse oásis, cercado por palmeiras cujas folhas são prateadas, existe um lago de águas paradas como o cristal. Quando um musafir (viajante) se inclina para beber, ele não vê seu turbante ou sua barba. O lago é um espelho da alma.

 

Vi um guerreiro orgulhoso, coberto de ouro e glórias, inclinar-se para o lago. Em vez de sua armadura reluzente, ele viu na água um lobo faminto e solitário, rosnando para o nada. O susto foi tamanho que ele caiu de joelhos. O oásis estava mostrando que, por trás da coragem das batalhas, seu coração era movido apenas pela fome de poder, e não pela justiça.

 

Logo depois, vi uma velha viúva, vestida com trapos e carregando apenas uma trouxa de pão seco. Quando ela olhou para a água, o reflexo não mostrou suas rugas ou sua pobreza. O lago revelou um jardim de flores desabrochando em plena luz do luar, com rios de leite e mel. O oásis dizia que sua paciência diante da dor a transformara em uma rainha aos olhos do Criador.

 

O mistério do Oásis dos Espelhos é que ele não perdoa a mentira. Se um homem tenta enganar a si mesmo, a água torna-se turva e ácida, impossível de beber. Mas, para aquele que aceita sua própria sombra com arrependimento, a água torna-se o néctar mais doce de toda a Terra.

 

Dizem que o Sheik que governava aquelas paragens desapareceu no lago. Não porque se afogou, mas porque sua alma era tão pura que o reflexo e a realidade se tornaram um só, e ele passou a viver na Verdade Absoluta, onde não há mais necessidade de máscaras.

 

Bebi daquela água, ó Sheik, e o que vi... bem, isso é um segredo que guardo entre mim e o meu Criador. Mas desde aquele dia, nunca mais precisei de um espelho de vidro para saber quem sou.

 

Mustafá acariciou sua barba grisalha e olhou profundamente para os súditos, que permaneciam em silêncio.

 

Escutai com vossa visão interior, ó nobres ouvintes, pois o reflexo nas águas de Al-Mir'at (O Espelho) não engana o olhar de quem busca a verdade.

 

A moral desta história, ó Sheik, é que o homem pode fugir de mil exércitos e cruzar sete mares, mas jamais poderá fugir de sua própria alma. O Oásis dos Espelhos não é um lugar geográfico, mas um estado de purificação onde as máscaras de ouro e os títulos de governante perdem o valor diante da realidade do coração.

 

Muitas vezes, vivemos como o guerreiro orgulhoso, acreditando na armadura que mostramos ao mundo, sem perceber que o lobo da ganância ou da raiva nos devora por dentro. A água do oásis só se torna doce para aquele que tem a coragem de olhar para sua própria sombra com arrependimento. A verdadeira beleza não é o que o espelho de vidro reflete, mas a luz de bênção que emana de uma alma que não teme a própria verdade perante o seu Criador.



(FONTE: "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN) 


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