Oásis
dos Espelhos
Prepare o seu espírito, ó Sheik
de Bagdá, pois agora deixaremos as muralhas de Samarcanda para cruzar o Rub'
al-Khali (o Quarteirão Vazio), o deserto onde a areia canta e o horizonte
engana os olhos dos imprudentes.
Após quarenta dias e quarenta
noites seguindo a Estrela Polar, surge entre as dunas de fogo o Oásis dos
Espelhos. Mas não se engane, Nobre Senhor: lá, a água não é feita de líquido,
mas de um nadir (raridade) que reflete não a face, mas a verdade oculta.
No centro desse oásis, cercado
por palmeiras cujas folhas são prateadas, existe um lago de águas paradas como
o cristal. Quando um musafir (viajante) se inclina para beber, ele não vê seu
turbante ou sua barba. O lago é um espelho da alma.
Vi um guerreiro orgulhoso,
coberto de ouro e glórias, inclinar-se para o lago. Em vez de sua armadura
reluzente, ele viu na água um lobo faminto e solitário, rosnando para o nada. O
susto foi tamanho que ele caiu de joelhos. O oásis estava mostrando que, por
trás da coragem das batalhas, seu coração era movido apenas pela fome de poder,
e não pela justiça.
Logo depois, vi uma velha viúva,
vestida com trapos e carregando apenas uma trouxa de pão seco. Quando ela olhou
para a água, o reflexo não mostrou suas rugas ou sua pobreza. O lago revelou um
jardim de flores desabrochando em plena luz do luar, com rios de leite e mel. O
oásis dizia que sua paciência diante da dor a transformara em uma rainha aos
olhos do Criador.
O mistério do Oásis dos Espelhos
é que ele não perdoa a mentira. Se um homem tenta enganar a si mesmo, a água
torna-se turva e ácida, impossível de beber. Mas, para aquele que aceita sua
própria sombra com arrependimento, a água torna-se o néctar mais doce de toda a
Terra.
Dizem que o Sheik que governava
aquelas paragens desapareceu no lago. Não porque se afogou, mas porque sua alma
era tão pura que o reflexo e a realidade se tornaram um só, e ele passou a
viver na Verdade Absoluta, onde não há mais necessidade de máscaras.
Bebi daquela água, ó Sheik, e o
que vi... bem, isso é um segredo que guardo entre mim e o meu Criador. Mas
desde aquele dia, nunca mais precisei de um espelho de vidro para saber quem
sou.
Mustafá acariciou sua barba
grisalha e olhou profundamente para os súditos, que permaneciam em silêncio.
Escutai com vossa visão interior,
ó nobres ouvintes, pois o reflexo nas águas de Al-Mir'at (O Espelho) não engana
o olhar de quem busca a verdade.
A moral desta história, ó Sheik,
é que o homem pode fugir de mil exércitos e cruzar sete mares, mas jamais
poderá fugir de sua própria alma. O Oásis dos Espelhos não é um lugar
geográfico, mas um estado de purificação onde as máscaras de ouro e os títulos
de governante perdem o valor diante da realidade do coração.
Muitas vezes, vivemos como o guerreiro orgulhoso, acreditando na armadura que mostramos ao mundo, sem perceber que o lobo da ganância ou da raiva nos devora por dentro. A água do oásis só se torna doce para aquele que tem a coragem de olhar para sua própria sombra com arrependimento. A verdadeira beleza não é o que o espelho de vidro reflete, mas a luz de bênção que emana de uma alma que não teme a própria verdade perante o seu Criador.
(FONTE: "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)

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