A EXECUÇÃO DE CARLOS
LAMARCA EM IPUPIARA
Arides Leite Santos
Agosto de 1971. Aos 6
anos e 7 meses de idade, Euzim havia saído de casa na Rua Rui Barbosa, levando
de comer para a casa de seus avós, na Rua das Fruteiras, perto do cemitério.
Uma calmaria insossa anunciava o que seria mais um daqueles dias monótonos, longos,
de sol escaldante, como sói acontecer no semiárido do sertão; um dia como outro
qualquer. No meio do caminho, nas proximidades do prédio da Escola Batista Ruth
Isabel de Souza, subitamente, deparou com um comboio de caminhões, abarrotados
de homens sentados, sob uma cobertura de lona, cantando sabe-se lá o quê, em
vozes altissonantes, esbanjando sorriso nos rostos, armados com faca pendurada
de lado e fuzil ou metralhadora exibido com as mãos, ostentando uma
demonstração de poder e força capaz de meter medo até em cabra valente. A
súbita visão da carruagem de homens sorridentes, viçosos, lisos, brilhando de
gordos, em contraste com a imagem de rostos murchos e tristonhos, gravada em
sua tenra memória, deixou-o tão assombrado que a válvula do seu infante coração
só não explodiu, ele crê, pela misericórdia de Deus. E-agora-José? Dominado
pelo medo, sem ânimo para sequer pensar sobre um possível motivo do
aparecimento daquilo que seus olhos viam, levou às pernas uma força oriunda do
instinto de sobrevivência, voltou disparado para casa, o coração saindo pela
boca. Tendo conseguido adentrar o asilo inviolável, jogou o de comer pra lá e
foi se enfiar no lugar mais recôndito que havia em casa. A mãe o viu chegar
correndo. Assustada com aquele avexame de menino assombrado em plena luz do
dia, veio perguntando o que houve. Se não lhe tivesse faltado o fôlego, com
certeza ter-lhe-ia dito:
- Mãe, o que é eu não
sei não, mas deve ser o fim do mundo! Ela ainda estava sem saber de nada, até
ali ninguém sabia de nada. E assustada ficou a perguntar:
- O que é?!... O que
é?! Ai, ai, ai!!!... O que foi que “tu viu”, menino?!
Sem fôlego para
balbuciar sequer uma palavra, esbaforido, enfiou-se debaixo de uma cama de
ferro, através de uma frincha pela qual mal passava a cabeça, e ali permaneceu
recluso, contemporizando o monstruoso sentimento que abalara os fundamentos de
sua alma.
Um exército de homens
incursionou em Ipupiara à procura do homem mais procurado do Brasil. Em questão
de dias, conquistaram a simpatia do povo, cortando o cabelo de graça,
instalando postes para iluminar a cidade com gerador e motor a diesel, muitas
outras bondades fizeram no intuito de lograr êxito na árdua tarefa que teriam
doravante: convencer os autóctones da justiça da causa ignóbil que os levava a
armar suas tendas ali.
No Morro do Cruzeiro e
adjacências, homens do Exército Brasileiro gastaram munição de metralhadora,
treinando tiro ao alvo na selva. Sua passagem por lá deixou vestígios que
subsistiram durante décadas.
Euzim e outros “eus”
viviam brincando de colecionar cápsulas de projéteis de metralhadora que os
caçadores de Lamarca haviam disparado nos morros que circundam Ipupiara.
As garrafinhas
metálicas despertavam-lhes o desejo de encontrá-las porque tinham algo de
mágico que lhes dava prazer. Meninos sem rédeas paternas, Euzim e amigos saíam
em bandos, embrenhavam-se nos morros e, uma vez imersos na mata, concentravam
todos os sentidos no labor à cata delas. Seus gozo e divertimento, hauridos da
propriedade delas, provinham do simples ato de possuí-las e fazê-las brilhar. Captado
por olhares infantes, o brilho mágico das garrafinhas era obra produzida com o
esfregar das mãos impregnadas de pó de barita, brilho extraído com esforço
infantil, a coisa parecia ganhar vida, a meninada se encantava. Em seu mundo de
criança sertaneja, viviam inocentes sobre o para quê tinham sido fabricadas. O
utensílio que seus olhos viam não chegava à consciência como símbolo de uma
sociedade que gera morte violenta, não senhor! Aquilo era só uma garrafinha joia
de brincar!
Carlos Lamarca nasceu
em 27/10/1937 no Estácio, norte do Rio de Janeiro, filho de Gertrudes e de
Antônio Lamarca. Abandonou o posto de oficial do Exército Brasileiro e partiu
para a luta armada contra o governo da ditadura militar.
29 de junho de 1971,
Lamarca chega em Buriti Cristalino, lugarejo entranhado nas serras de Brotas de
Macaúbas. Recolhe-se num acampamento secreto, guardado por José Carlos de
Souza, Luís Antônio Santa Bárbara e José Campos Barreto (Zequinha), militantes
do Movimento Revolucionário Oito de Outubro – MR-8.
Zequinha nasceu no
Buriti Cristalino, filho de José Araújo Barreto e Adelaide Campos Barreto.
Do acampamento
secreto, a menos de dois quilômetros do Buriti, Lamarca e Zequinha ouvem ruídos
de tiroteio e se embrenham pelas serras adentro. Andam dias e noites pela
caatinga. No dia 12 de setembro de 1971, alcançam Ibotirama, na beira do Rio
São Francisco. Lamarca precisa de socorro médico, mas não consegue, e o cerco
se fecha. Decidem voltar na direção de Brotas, em precisão de médico.
17 de setembro de 1971.
Extenuados de tanto correr pelas matas do sertão, fugindo dos “lobos” em forma
de homens que saíram no seu encalço, Lamarca e Zequinha folguejavam moribundos
à sombra de uma baraúna, próximo ao povoado de Pintada, município de Ipupiara,
e ali seus algozes os executaram.
“Eu vi tudo isso
quando pensei nas coisas que acontecem neste mundo. Houve um tempo em que
alguns tinham o poder, e outros sofriam, dominados por eles”. Eclesiastes 8.9
(Bíblia NTLH).
Brasília-DF, 12 de novembro de 2017
(FONTE: “ANTOLOGIA DE POESIAS, CONTOS E CRÔNICAS – IMPRESSÕES LITERÁRIAS”,
PÁGINAS 26/28)

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