quarta-feira, 1 de julho de 2026

A EXECUÇÃO DE CARLOS LAMARCA EM IPUPIARA - ARIDES LEITE SANTOS

 





A EXECUÇÃO DE CARLOS LAMARCA EM IPUPIARA

Arides Leite Santos

 

 

        Agosto de 1971. Aos 6 anos e 7 meses de idade, Euzim havia saído de casa na Rua Rui Barbosa, levando de comer para a casa de seus avós, na Rua das Fruteiras, perto do cemitério. Uma calmaria insossa anunciava o que seria mais um daqueles dias monótonos, longos, de sol escaldante, como sói acontecer no semiárido do sertão; um dia como outro qualquer. No meio do caminho, nas proximidades do prédio da Escola Batista Ruth Isabel de Souza, subitamente, deparou com um comboio de caminhões, abarrotados de homens sentados, sob uma cobertura de lona, cantando sabe-se lá o quê, em vozes altissonantes, esbanjando sorriso nos rostos, armados com faca pendurada de lado e fuzil ou metralhadora exibido com as mãos, ostentando uma demonstração de poder e força capaz de meter medo até em cabra valente. A súbita visão da carruagem de homens sorridentes, viçosos, lisos, brilhando de gordos, em contraste com a imagem de rostos murchos e tristonhos, gravada em sua tenra memória, deixou-o tão assombrado que a válvula do seu infante coração só não explodiu, ele crê, pela misericórdia de Deus. E-agora-José? Dominado pelo medo, sem ânimo para sequer pensar sobre um possível motivo do aparecimento daquilo que seus olhos viam, levou às pernas uma força oriunda do instinto de sobrevivência, voltou disparado para casa, o coração saindo pela boca. Tendo conseguido adentrar o asilo inviolável, jogou o de comer pra lá e foi se enfiar no lugar mais recôndito que havia em casa. A mãe o viu chegar correndo. Assustada com aquele avexame de menino assombrado em plena luz do dia, veio perguntando o que houve. Se não lhe tivesse faltado o fôlego, com certeza ter-lhe-ia dito:

        - Mãe, o que é eu não sei não, mas deve ser o fim do mundo! Ela ainda estava sem saber de nada, até ali ninguém sabia de nada. E assustada ficou a perguntar:

        - O que é?!... O que é?! Ai, ai, ai!!!... O que foi que “tu viu”, menino?!

        Sem fôlego para balbuciar sequer uma palavra, esbaforido, enfiou-se debaixo de uma cama de ferro, através de uma frincha pela qual mal passava a cabeça, e ali permaneceu recluso, contemporizando o monstruoso sentimento que abalara os fundamentos de sua alma.

        Um exército de homens incursionou em Ipupiara à procura do homem mais procurado do Brasil. Em questão de dias, conquistaram a simpatia do povo, cortando o cabelo de graça, instalando postes para iluminar a cidade com gerador e motor a diesel, muitas outras bondades fizeram no intuito de lograr êxito na árdua tarefa que teriam doravante: convencer os autóctones da justiça da causa ignóbil que os levava a armar suas tendas ali.

        No Morro do Cruzeiro e adjacências, homens do Exército Brasileiro gastaram munição de metralhadora, treinando tiro ao alvo na selva. Sua passagem por lá deixou vestígios que subsistiram durante décadas.

        Euzim e outros “eus” viviam brincando de colecionar cápsulas de projéteis de metralhadora que os caçadores de Lamarca haviam disparado nos morros que circundam Ipupiara.

        As garrafinhas metálicas despertavam-lhes o desejo de encontrá-las porque tinham algo de mágico que lhes dava prazer. Meninos sem rédeas paternas, Euzim e amigos saíam em bandos, embrenhavam-se nos morros e, uma vez imersos na mata, concentravam todos os sentidos no labor à cata delas. Seus gozo e divertimento, hauridos da propriedade delas, provinham do simples ato de possuí-las e fazê-las brilhar. Captado por olhares infantes, o brilho mágico das garrafinhas era obra produzida com o esfregar das mãos impregnadas de pó de barita, brilho extraído com esforço infantil, a coisa parecia ganhar vida, a meninada se encantava. Em seu mundo de criança sertaneja, viviam inocentes sobre o para quê tinham sido fabricadas. O utensílio que seus olhos viam não chegava à consciência como símbolo de uma sociedade que gera morte violenta, não senhor! Aquilo era só uma garrafinha joia de brincar!

        Carlos Lamarca nasceu em 27/10/1937 no Estácio, norte do Rio de Janeiro, filho de Gertrudes e de Antônio Lamarca. Abandonou o posto de oficial do Exército Brasileiro e partiu para a luta armada contra o governo da ditadura militar.

        29 de junho de 1971, Lamarca chega em Buriti Cristalino, lugarejo entranhado nas serras de Brotas de Macaúbas. Recolhe-se num acampamento secreto, guardado por José Carlos de Souza, Luís Antônio Santa Bárbara e José Campos Barreto (Zequinha), militantes do Movimento Revolucionário Oito de Outubro – MR-8.

        Zequinha nasceu no Buriti Cristalino, filho de José Araújo Barreto e Adelaide Campos Barreto.

        Do acampamento secreto, a menos de dois quilômetros do Buriti, Lamarca e Zequinha ouvem ruídos de tiroteio e se embrenham pelas serras adentro. Andam dias e noites pela caatinga. No dia 12 de setembro de 1971, alcançam Ibotirama, na beira do Rio São Francisco. Lamarca precisa de socorro médico, mas não consegue, e o cerco se fecha. Decidem voltar na direção de Brotas, em precisão de médico.

        17 de setembro de 1971. Extenuados de tanto correr pelas matas do sertão, fugindo dos “lobos” em forma de homens que saíram no seu encalço, Lamarca e Zequinha folguejavam moribundos à sombra de uma baraúna, próximo ao povoado de Pintada, município de Ipupiara, e ali seus algozes os executaram.

        “Eu vi tudo isso quando pensei nas coisas que acontecem neste mundo. Houve um tempo em que alguns tinham o poder, e outros sofriam, dominados por eles”. Eclesiastes 8.9 (Bíblia NTLH).

 

Brasília-DF, 12 de novembro de 2017

 

 

(FONTE: “ANTOLOGIA DE POESIAS, CONTOS E CRÔNICAS – IMPRESSÕES LITERÁRIAS”, PÁGINAS 26/28)  


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