O Tear do
Horizonte e o Sopro de Idris
Aproxime-se, ó Sheik, pois para
entender o voo, é preciso conhecer as mãos que deram alma aos fios. O criador
daquela maravilha não era um mercador de posses, mas um humilde zahid (eremita)
chamado Idris, que vivia em uma caverna nas Montanhas de Qaf, onde as nuvens
tocam a terra.
Idris não buscava ouro, mas o conhecimento
místico. Ele passou quarenta anos em isolamento, observando como as águias
cortavam o vento e como a luz do alvorecer se entrelaçava com a névoa dos
vales.
Ele não usava lã de ovelha comum.
Dizem que Idris subia ao pico mais alto durante as noites para colher os fios
de prata que a lua deixava cair sobre os despenhadeiros. Para as cores, ele não
usava pigmentos de mercado; ele colhia o azul do céu refletido nas águas de um
lago sagrado e o dourado do último raio de sol antes do crepúsculo.
O tear de Idris era feito de
madeira de sidra (árvore celestial), e cada vez que ele passava a lançadeira,
ele sussurrava uma evocação divina. Ele não estava apenas tecendo um objeto,
estava tecendo uma confiança. Ele dizia que o tapete não voaria por causa de
magia negra, mas por causa da leveza da alma de quem o comandasse.
'Este tapete', dizia Idris aos poucos que o visitavam, 'é um espelho do coração. Se o coração for pesado como o chumbo da ganância, o tapete será como uma pedra. Se o coração for leve como a provisão dado por Alá aos pássaros, o tapete será como uma asa.'
Quando o tapete ficou pronto, ele
brilhava com uma luz que cegava os desonestos. Idris o entregou a um viajante
pobre, pedindo apenas que ele o usasse para espalhar a misericórdia pelo mundo.
Infelizmente, através de gerações de cobiça e trocas indignas, o tapete acabou
nas mãos de Mansur, o mercador que vocês conheceram na história anterior.
Mustafá limpou o suor da testa e
olhou para as mãos calejadas dos súditos, concluindo com sua sabedoria:
"O ensinamento desta
história, ó nobres ouvintes, é que a obra reflete o sani. Tudo o que criamos
com pressa e desejo de lucro desaparece com o tempo, mas o que é feito com
excelência e devoção carrega uma centelha de eternidade. O tapete de Idris
falhou com o ladrão porque o roubo é uma âncora de ferro, e ninguém pode
alcançar a elevação enquanto carregar o peso do que tirou de outrem.”
(FONTE: "ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN)

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