domingo, 16 de agosto de 2026

O TEAR DO HORIZONTE E O SOPRO DE IDRIS - JOSÉ FELDMAN

 




O Tear do Horizonte e o Sopro de Idris


José Feldman

  

Aproxime-se, ó Sheik, pois para entender o voo, é preciso conhecer as mãos que deram alma aos fios. O criador daquela maravilha não era um mercador de posses, mas um humilde zahid (eremita) chamado Idris, que vivia em uma caverna nas Montanhas de Qaf, onde as nuvens tocam a terra.

 

Idris não buscava ouro, mas o conhecimento místico. Ele passou quarenta anos em isolamento, observando como as águias cortavam o vento e como a luz do alvorecer se entrelaçava com a névoa dos vales.

 

Ele não usava lã de ovelha comum. Dizem que Idris subia ao pico mais alto durante as noites para colher os fios de prata que a lua deixava cair sobre os despenhadeiros. Para as cores, ele não usava pigmentos de mercado; ele colhia o azul do céu refletido nas águas de um lago sagrado e o dourado do último raio de sol antes do crepúsculo.

 

O tear de Idris era feito de madeira de sidra (árvore celestial), e cada vez que ele passava a lançadeira, ele sussurrava uma evocação divina. Ele não estava apenas tecendo um objeto, estava tecendo uma confiança. Ele dizia que o tapete não voaria por causa de magia negra, mas por causa da leveza da alma de quem o comandasse.

 

'Este tapete', dizia Idris aos poucos que o visitavam, 'é um espelho do coração. Se o coração for pesado como o chumbo da ganância, o tapete será como uma pedra. Se o coração for leve como a provisão dado por Alá aos pássaros, o tapete será como uma asa.'

 

Quando o tapete ficou pronto, ele brilhava com uma luz que cegava os desonestos. Idris o entregou a um viajante pobre, pedindo apenas que ele o usasse para espalhar a misericórdia pelo mundo. Infelizmente, através de gerações de cobiça e trocas indignas, o tapete acabou nas mãos de Mansur, o mercador que vocês conheceram na história anterior.

 

Mustafá limpou o suor da testa e olhou para as mãos calejadas dos súditos, concluindo com sua sabedoria:

 

 

"O ensinamento desta história, ó nobres ouvintes, é que a obra reflete o sani. Tudo o que criamos com pressa e desejo de lucro desaparece com o tempo, mas o que é feito com excelência e devoção carrega uma centelha de eternidade. O tapete de Idris falhou com o ladrão porque o roubo é uma âncora de ferro, e ninguém pode alcançar a elevação enquanto carregar o peso do que tirou de outrem.”



(FONTE: "ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN)



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