sábado, 29 de agosto de 2026

O GIGANTE DAS MARÉS NEGRAS - JOSÉ FELDMAN

 




O Gigante das Marés Negras


  

No trigésimo dia, o mar, outrora azul, tornou-se viscoso e escuro como a tinta de um calígrafo. O vento morreu, e das profundezas borbulhantes surgiu uma figura de proporções montanhosas: o Gigante das Marés Negras. Sua pele era feita de escamas de obsidiana e sua barba era composta por mil serpentes marinhas que se contorciam.

 

O Gigante bloqueou o caminho com uma mão que poderia esmagar o convés e rugiu:

 

— "Nenhum navio atravessa meu domínio sem pagar o tributo de carne! Escolha sete marinheiros para o meu jantar, ou engolirei o teu navio inteiro!"

 

A tripulação, paralisada pelo terror, buscou refúgio nos pés de Aldhiyb. Ele, porém, manteve o olhar firme. Ele lembrou-se da bússola de osso de baleia, que agora vibrava contra seu peito, indicando que a força bruta seria inútil.

 

— "Ó poderoso senhor das águas escuras!" gritou Aldhiyb. "Minha tripulação é composta por homens magros e amargos. Mas em meu porão guardo o Mel das Rosas de Irem, que é mais doce que o hálito das huris. Deixe-me preparar um banquete digno de sua bocarra, e se não for o melhor que já provou, entregarei a mim mesmo como sacrifício."

 

Curioso, o Gigante consentiu. Aldhiyb, contudo, não usou mel. Ele ordenou que os marinheiros despejassem no mar os grandes barris de sal gema e vinagre de tâmaras que levava para as terras do Sul. Quando o Gigante mergulhou o rosto para beber a mistura, a reação química nas águas viscosas criou uma efervescência insuportável, cegando momentaneamente a criatura e fazendo-a espirrar com a força de um furacão.

 

Aproveitando o impulso do gigantesco espirro do monstro, as velas do Vento do Amanhã inflaram-se violentamente.

 

— "Rápido, filhos de bravos!" ordenou Aldhiyb. "O destino favorece quem usa a mente contra a montanha!"

 

O navio deslizou sobre as águas negras como uma flecha de prata, deixando o Gigante para trás, limpando os olhos e rugindo de frustração. Aldhiyb retornou com sedas raras e a fama de ter vencido o terror das marés sem derramar uma gota de sangue de seus companheiros.

 

Mas o destino é um tapete cujos fios 


nunca terminam de ser tecidos…






ECOS DO DESERTO



JOSÉ FELDMAN



ESCRITOR, POETA, 


PESQUISADOR.


DA CONFRARIA BRASILEIRA DE 


LETRAS


DA UNIÃO BRASILEIRA DE 


TROVADORES - UBT. 


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