O
Gigante das Marés Negras
No trigésimo dia, o mar, outrora
azul, tornou-se viscoso e escuro como a tinta de um calígrafo. O vento morreu,
e das profundezas borbulhantes surgiu uma figura de proporções montanhosas: o
Gigante das Marés Negras. Sua pele era feita de escamas de obsidiana e sua
barba era composta por mil serpentes marinhas que se contorciam.
O Gigante bloqueou o caminho com
uma mão que poderia esmagar o convés e rugiu:
— "Nenhum navio atravessa
meu domínio sem pagar o tributo de carne! Escolha sete marinheiros para o meu
jantar, ou engolirei o teu navio inteiro!"
A tripulação, paralisada pelo
terror, buscou refúgio nos pés de Aldhiyb. Ele, porém, manteve o olhar firme.
Ele lembrou-se da bússola de osso de baleia, que agora vibrava contra seu
peito, indicando que a força bruta seria inútil.
— "Ó poderoso senhor das
águas escuras!" gritou Aldhiyb. "Minha tripulação é composta por
homens magros e amargos. Mas em meu porão guardo o Mel das Rosas de Irem, que é
mais doce que o hálito das huris. Deixe-me preparar um banquete digno de sua
bocarra, e se não for o melhor que já provou, entregarei a mim mesmo como
sacrifício."
Curioso, o Gigante consentiu.
Aldhiyb, contudo, não usou mel. Ele ordenou que os marinheiros despejassem no
mar os grandes barris de sal gema e vinagre de tâmaras que levava para as
terras do Sul. Quando o Gigante mergulhou o rosto para beber a mistura, a
reação química nas águas viscosas criou uma efervescência insuportável, cegando
momentaneamente a criatura e fazendo-a espirrar com a força de um furacão.
Aproveitando o impulso do
gigantesco espirro do monstro, as velas do Vento do Amanhã inflaram-se
violentamente.
— "Rápido, filhos de
bravos!" ordenou Aldhiyb. "O destino favorece quem usa a mente contra
a montanha!"
O navio deslizou sobre as águas
negras como uma flecha de prata, deixando o Gigante para trás, limpando os
olhos e rugindo de frustração. Aldhiyb retornou com sedas raras e a fama de ter
vencido o terror das marés sem derramar uma gota de sangue de seus companheiros.
Mas o destino é um tapete cujos fios
nunca terminam de ser tecidos…
ECOS DO DESERTO
JOSÉ FELDMAN
ESCRITOR, POETA,
PESQUISADOR.
DA CONFRARIA BRASILEIRA DE
LETRAS
DA UNIÃO BRASILEIRA DE
TROVADORES - UBT.

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