O
Gênio da Sombra e o Preço do Desejo
Acomodem-se, ó buscadores da
retidão, pois Mustafá traz agora uma história que sopra como o samum (vento
quente do deserto), aquele que queima a pele e obscurece a visão. Preparem seus
ouvidos para a crônica de uma fortuna que nasceu da sombra e quase terminou em
destruição.
Havia um andarilho chamado Nasir,
que já havia gastado a sola de mil sandálias percorrendo os oásis do Oriente.
Nasir era um homem de coração cansado, que suspirava por uma vida de repouso e
fartura que nunca chegava.
Certa tarde, sob o calor de um
sol impiedoso, ele encontrou um oásis esquecido, onde as águas eram escuras
como o ébano. Ali, deitado sobre as raízes de uma tamareira retorcida, dormia
um jinn (gênio) de aparência pavorosa, com pele cor de cinzas e fumaça saindo
de suas narinas. Ao ser despertado, o gênio não rugiu, mas sorriu com uma
astúcia maligna.
— “Andarilho, disse o gênio, pela
sua ousadia em me acordar, darei a você o que o seu coração desejar. Peça, e o
objeto surgirá diante de seus olhos.”
Nasir, deslumbrado pela promessa,
pediu primeiro um cinto de couro fino com fivelas de prata. Em um piscar de
olhos, o cinto apareceu em sua cintura. Depois, pediu uma adaga de punho de
marfim e uma sela de seda para seu camelo. Tudo surgia instantaneamente. Nasir
partiu dali sentindo-se o homem mais afortunado da Terra, sem saber que aquele
era um gênio de maldade, que não criava nada do nada, mas roubava magicamente
de outrem para satisfazer o pedido.
Semanas depois, enquanto
descansava em uma hospedaria de caravanas, Nasir encontrou um velho amigo
chamado Zayd. Ao ver Nasir cercado de luxos, Zayd empalideceu.
— “Nasir, meu irmão, como
conseguiu este cinto?, perguntou Zayd, tremendo de fúria. Ele tem a marca da
minha família gravada no couro interno! E esta adaga... ela desapareceu do meu
baú na última lua cheia, junto com a sela de seda que herdei de meu pai!”
Nasir tentou explicar o encontro
com o gênio, mas Zayd, sentindo-se traído, gritou: 'Ladrão!'.
O tumulto atraiu os guardas, e
Nasir foi levado acorrentado perante o qadi (juiz) da cidade.
No tribunal, o juiz olhou para as
provas. A marca de Zayd estava em cada objeto. Nasir, em prantos, contou a
verdade sobre o gênio do oásis. O sábio juiz, percebendo que a alma de Nasir
estava confusa mas não perversa, deu seu veredito:
— “Aquele que aceita o que não
plantou, colhe o espinho da culpa. Mesmo que não tenha movido a mão para
roubar, seu desejo foi a mão do gênio.”
Nasir teve que devolver tudo e
trabalhar por um ano nas terras de Zayd para pagar a indenização pelo
transtorno causado. Ele aprendeu, da maneira mais dura, que o gênio não lhe
dera presentes, mas dívidas de honra.
Mustafá limpou a areia de suas
vestes e olhou para o Sheik com gravidade, concluindo:
"A
lição desta história, ó nobres senhores, é que não existe benção em uma riqueza
que nasce da perda de outro. O desejo egoísta é o convite para que o demônio
aja em nossas vidas. A verdadeira fortuna é aquela que vem do nosso próprio
trabalho e da bênção lícita de Alá. Pois o que o gênio tira de um para dar a
outro, a justiça divina sempre encontrará um caminho de devolver ao dono
original, deixando o ganancioso com as mãos vazias e o nome manchado.”
(FONTE: "ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN)

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