A
Ilha dos Espelhos de Prata
Saiba que Aldhiyb Al-Abyad não
era um marinheiro comum; ele possuía uma pele clara como a lua e olhos que,
diziam os homens de Basra, podiam ver através da névoa mais espessa. Após
dissipar a herança de seu pai em banquetes e sedas, Aldhiyb viu-se com apenas
um navio, o Vento do Amanhã, e um punhado de tâmaras secas.
— "Pelo Compassivo!"
exclamou ele. "Não morrerei na pobreza enquanto o oceano for vasto e as
estrelas guiarem o caminho."
Ele partiu em direção ao Sul,
navegando por cinquenta dias até que uma tempestade de areia negra — um
fenômeno raro em pleno mar — envolveu a embarcação. Quando a escuridão cedeu,
Aldhiyb encontrou-se diante de uma ilha que brilhava com uma intensidade que
cegava os incautos. Cada rocha, cada folha de palmeira e cada grão de areia
eram feitos de prata polida.
Ao desembarcar, ele percebeu que
a ilha não tinha habitantes, mas sim reflexos. Ao olhar para uma árvore de
prata, ele não via apenas seu rosto, mas a imagem de quem ele seria se fosse
ganancioso. O reflexo tentou convencê-lo a arrancar o solo e sobrecarregar o
navio.
— "Leve tudo!"
sussurrou a própria imagem no metal. "Com esta prata, serás mais rico que
o Sultão!"
Mas, honrando seu nome e sua
astúcia, percebeu que o navio afundaria se levasse o peso da cobiça. Em vez de
minerar a ilha, ele caminhou até o centro, onde encontrou uma fonte de água
azul-turquesa que corria sobre um leito de safiras. Ali, uma serpente de
escamas de vidro, um dos muitos monstros marinhos que habitam os contos
antigos, guardava o segredo do local.
— "Muitos vêm aqui pela
prata e terminam como estátuas de metal no fundo do oceano," sibilou a
serpente. "Por que você não toca no que brilha?"
— "Porque a prata pesa no
casco, mas a sabedoria flutua na alma," respondeu.
Impressionada, a criatura
presenteou-o com uma bússola de osso de baleia que não apontava para o Norte,
mas para onde quer que houvesse uma alma em perigo.
Com esse instrumento, Aldhiyb Al-Abyad
não apenas se tornou o mercador mais rico de Bagdá, resgatando náufragos e
descobrindo rotas esquecidas, como também garantiu que seu nome fosse lembrado
como o único marinheiro que visitou a Ilha dos Espelhos e voltou com o coração
intacto.
Mas as estrelas mudam de posição,
e o destino reserva novas tempestades…
Saiba, que o tédio é um monstro mais feroz
que qualquer leão, e por isso Aldhiyb Al-
Abyad, o Lobo Branco, logo sentiu o
chamado do salitre. Partindo de Basra com o Vento do Amanhã carregado de incenso e
cravo, ele navegou até onde o horizonte se
torna uma linha de breu.
(FONTE "ECOS DO DESERTO", JOSÉ
FELDMAN)

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