quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A ILHA DOS ESPELHOS DE PRATA - JOSÉ FELDMAN

 




A Ilha dos Espelhos de Prata


  

Saiba que Aldhiyb Al-Abyad não era um marinheiro comum; ele possuía uma pele clara como a lua e olhos que, diziam os homens de Basra, podiam ver através da névoa mais espessa. Após dissipar a herança de seu pai em banquetes e sedas, Aldhiyb viu-se com apenas um navio, o Vento do Amanhã, e um punhado de tâmaras secas.

 

— "Pelo Compassivo!" exclamou ele. "Não morrerei na pobreza enquanto o oceano for vasto e as estrelas guiarem o caminho."

 

Ele partiu em direção ao Sul, navegando por cinquenta dias até que uma tempestade de areia negra — um fenômeno raro em pleno mar — envolveu a embarcação. Quando a escuridão cedeu, Aldhiyb encontrou-se diante de uma ilha que brilhava com uma intensidade que cegava os incautos. Cada rocha, cada folha de palmeira e cada grão de areia eram feitos de prata polida.

 

Ao desembarcar, ele percebeu que a ilha não tinha habitantes, mas sim reflexos. Ao olhar para uma árvore de prata, ele não via apenas seu rosto, mas a imagem de quem ele seria se fosse ganancioso. O reflexo tentou convencê-lo a arrancar o solo e sobrecarregar o navio.

 

— "Leve tudo!" sussurrou a própria imagem no metal. "Com esta prata, serás mais rico que o Sultão!"

 

Mas, honrando seu nome e sua astúcia, percebeu que o navio afundaria se levasse o peso da cobiça. Em vez de minerar a ilha, ele caminhou até o centro, onde encontrou uma fonte de água azul-turquesa que corria sobre um leito de safiras. Ali, uma serpente de escamas de vidro, um dos muitos monstros marinhos que habitam os contos antigos, guardava o segredo do local.

 

— "Muitos vêm aqui pela prata e terminam como estátuas de metal no fundo do oceano," sibilou a serpente. "Por que você não toca no que brilha?"

 

— "Porque a prata pesa no casco, mas a sabedoria flutua na alma," respondeu.

 

Impressionada, a criatura presenteou-o com uma bússola de osso de baleia que não apontava para o Norte, mas para onde quer que houvesse uma alma em perigo. 

 

Com esse instrumento, Aldhiyb Al-Abyad não apenas se tornou o mercador mais rico de Bagdá, resgatando náufragos e descobrindo rotas esquecidas, como também garantiu que seu nome fosse lembrado como o único marinheiro que visitou a Ilha dos Espelhos e voltou com o coração intacto.

 

Mas as estrelas mudam de posição, e o destino reserva novas tempestades…

 

Saiba, que o tédio é um monstro mais feroz 

que qualquer leão, e por isso Aldhiyb Al-

Abyad, o Lobo Branco, logo sentiu o 

chamado do salitre. Partindo de Basra com o Vento do Amanhã carregado de incenso e 

cravo, ele navegou até onde o horizonte se 

torna uma linha de breu.



(FONTE "ECOS DO DESERTO", JOSÉ 

FELDMAN)

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