Ritual de Purificação
Aproxime-se, ó Protetor dos
Crentes, pois o tahara (ritual de purificação) para cruzar o limiar do Mercado
de Silêncio não exige apenas água, mas uma disposição da alma que poucos
conseguem sustentar.
Antes que um viajante possa tocar
o arco de entrada da porta do mercado, ele deve passar por três etapas de
despojamento.
A primeira é o Wudu da Voz
(lavagem da voz). À entrada, há uma fonte de mármore onde a água não faz
barulho ao cair. O peregrino deve beber três goles de água gelada, jurando a si
mesmo que sua língua permanecerá colada ao céu da boca. Ele deve lavar os ouvidos
para remover o ruído das discussões mundanas e o som das moedas que tilintam
nos mercados comuns.
A segunda etapa é o Despojamento
do Orgulho. O viajante deve retirar seus sapatos e caminhar descalço sobre um
tapete feito de areia finíssima e pétalas de rosa secas. Isso serve para que
ele sinta a terra e se lembre de que, no silêncio, todos os homens — do Sheik
ao mendigo — têm a mesma estatura perante o Criador. Suas vestes são borrifadas
com incenso de mirra, cujo aroma denso serve para 'anestesiar' os desejos
apressados do corpo.
A terceira e mais difícil etapa,
ó Nobre Senhor, é o Jejum do Pensamento. Um ancião, o haaris (guardião), coloca
a mão sobre a testa do visitante. Nesse momento, o homem deve realizar um
pedido de perdão interno, limpando sua mente de planos, esquemas ou ganâncias.
Ele deve entrar no mercado como um bebê que acaba de nascer: sem passado para
lamentar e sem futuro para temer.
Somente quando o guardião sente
que o coração do homem bate em um ritmo lento e em glorificação silenciosa, ele
entrega uma pequena pedra de ônix negra. Essa pedra deve ser carregada na mão
fechada; se o homem sentir o desejo de falar, ele deve apertar a pedra até que
a dor o lembre da preciosidade do silêncio.
Ao cruzar o portão, a luz do sol
parece mudar, tornando-se uma luz divina suave que não fere os olhos, e o homem
finalmente compreende que o verdadeiro ritual não foi limpar o corpo, mas
silenciar o mundo dentro de si."
Mustafá fez uma pausa reverente,
observando a reação dos súditos.
Escutai com vossa alma e
silenciai o vosso orgulho, ó nobres ouvintes, pois o portal do Souq al-Samt
(Mercado do Silêncio) não se abre para quem carrega o barulho do mundo nas
vestes.
A lição desta história, ó Sheik,
é que para alcançar a verdadeira sabedoria e as bênçãos do invisível, o homem
deve primeiro despojar-se de si mesmo. O tahara (ritual de purificação) não é
apenas o ato de lavar a pele com água, mas o sacrifício da língua e a limpeza
do coração de toda a vaidade.
Muitas vezes, tentamos entrar nos jardins da paz carregando as correntes das nossas preocupações e o ruído das nossas glórias passadas. Mas o haaris (guardião) da verdade só permite a entrada daquele que se torna leve como um bebê. O ritual nos ensina que a maior jornada de um homem não é cruzar desertos com uma caravana, mas cruzar o abismo que existe entre o que ele aparenta ser e o que ele realmente é no silêncio perante o seu Criador. Quem não sabe silenciar o próprio ego, jamais ouvirá a voz da bênção.
(FONTE: "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)

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