quinta-feira, 9 de julho de 2026

RITUAL DE PURIFICAÇÃO - JOSÉ FELDMAN

 





Ritual de Purificação


José Feldman

  

Aproxime-se, ó Protetor dos Crentes, pois o tahara (ritual de purificação) para cruzar o limiar do Mercado de Silêncio não exige apenas água, mas uma disposição da alma que poucos conseguem sustentar.

 

Antes que um viajante possa tocar o arco de entrada da porta do mercado, ele deve passar por três etapas de despojamento.

 

A primeira é o Wudu da Voz (lavagem da voz). À entrada, há uma fonte de mármore onde a água não faz barulho ao cair. O peregrino deve beber três goles de água gelada, jurando a si mesmo que sua língua permanecerá colada ao céu da boca. Ele deve lavar os ouvidos para remover o ruído das discussões mundanas e o som das moedas que tilintam nos mercados comuns.

 

A segunda etapa é o Despojamento do Orgulho. O viajante deve retirar seus sapatos e caminhar descalço sobre um tapete feito de areia finíssima e pétalas de rosa secas. Isso serve para que ele sinta a terra e se lembre de que, no silêncio, todos os homens — do Sheik ao mendigo — têm a mesma estatura perante o Criador. Suas vestes são borrifadas com incenso de mirra, cujo aroma denso serve para 'anestesiar' os desejos apressados do corpo.

 

A terceira e mais difícil etapa, ó Nobre Senhor, é o Jejum do Pensamento. Um ancião, o haaris (guardião), coloca a mão sobre a testa do visitante. Nesse momento, o homem deve realizar um pedido de perdão interno, limpando sua mente de planos, esquemas ou ganâncias. Ele deve entrar no mercado como um bebê que acaba de nascer: sem passado para lamentar e sem futuro para temer.

 

Somente quando o guardião sente que o coração do homem bate em um ritmo lento e em glorificação silenciosa, ele entrega uma pequena pedra de ônix negra. Essa pedra deve ser carregada na mão fechada; se o homem sentir o desejo de falar, ele deve apertar a pedra até que a dor o lembre da preciosidade do silêncio.

 

Ao cruzar o portão, a luz do sol parece mudar, tornando-se uma luz divina suave que não fere os olhos, e o homem finalmente compreende que o verdadeiro ritual não foi limpar o corpo, mas silenciar o mundo dentro de si."

 

Mustafá fez uma pausa reverente, observando a reação dos súditos.

 

Escutai com vossa alma e silenciai o vosso orgulho, ó nobres ouvintes, pois o portal do Souq al-Samt (Mercado do Silêncio) não se abre para quem carrega o barulho do mundo nas vestes.

 

A lição desta história, ó Sheik, é que para alcançar a verdadeira sabedoria e as bênçãos do invisível, o homem deve primeiro despojar-se de si mesmo. O tahara (ritual de purificação) não é apenas o ato de lavar a pele com água, mas o sacrifício da língua e a limpeza do coração de toda a vaidade.

 

Muitas vezes, tentamos entrar nos jardins da paz carregando as correntes das nossas preocupações e o ruído das nossas glórias passadas. Mas o haaris (guardião) da verdade só permite a entrada daquele que se torna leve como um bebê. O ritual nos ensina que a maior jornada de um homem não é cruzar desertos com uma caravana, mas cruzar o abismo que existe entre o que ele aparenta ser e o que ele realmente é no silêncio perante o seu Criador. Quem não sabe silenciar o próprio ego, jamais ouvirá a voz da bênção.




(FONTE: "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN) 


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