terça-feira, 14 de julho de 2026

O MERCADOR CEGO - JOSÉ FELDMAN

 




O Mercador Cego


José Feldman

  

Escute com o coração, ó Protetor dos Desamparados, pois a história do mercador cego é o brilho mais puro de Samarcanda. No canto mais profundo do Souq al-Samt (Mercado do Silêncio), onde a sombra das tamareiras toca o mármore frio, vivia um homem chamado Rashid.

 

Rashid era cego de nascença. Seus olhos eram como duas pérolas foscas que nunca viram a luz do sol. Diante dele, não havia tapetes de seda ou vasos de ouro, mas apenas uma pequena bacia de madeira de sândalo, aparentemente vazia.

 

Diziam os mercadores que Rashid guardava as Joias da Paciência.

 

Certo dia, um jovem rico e impaciente, que buscava poder imediato, parou diante dele. O jovem não compreendia o silêncio e, quebrando o ritual, sussurrou: — 'Velho, onde estão as joias? Só vejo uma bacia vazia!'.

 

Rashid não se irritou. Ele apenas sorriu, um sorriso que parecia vir de um paraíso distante. Ele mergulhou a mão na bacia e, para quem tinha a alma limpa, era possível ver que seus dedos seguravam pedras que brilhavam com uma luz violeta e suave. Eram as joias esculpidas pelo tempo, formadas por cada segundo que um homem espera sem reclamar, por cada dor suportada com gratidão.

 

— “As joias da paciência não se veem com a visão física, meu filho”, disse Rashid com uma voz que parecia o deslizar da areia. “Elas são pesadas. Cada uma carrega o peso de um desejo que foi sacrificado em nome da paz. Quem as possui, não precisa de exércitos, pois sua força é a tranquilidade da alma que ninguém pode abalar.”

 

O mercador cego explicou que ele 'lapidava' aquelas pedras invisíveis ouvindo o crescimento das flores e o movimento das estrelas. Para ele, a cegueira não era um infortúnio, mas um véu que Alá colocara para que ele não se distraísse com as cores falsas do mundo e pudesse focar na verdadeira luz interna.

 

O jovem, tocado por uma súbita humildade, pediu uma daquelas joias. Rashid estendeu a mão e 'entregou' o vazio. No momento em que o jovem aceitou o presente invisível, sentiu um peso enorme em sua palma, seguido por uma calma que nunca experimentara. Ele compreendeu que a paciência não é esperar que algo aconteça, mas a aceitação serena de que tudo acontece no tempo de Allah (Deus).

 

Rashid continuou ali, sentado em seu silêncio, guardando tesouros que os reis cobiçariam se soubessem que a maior riqueza de um homem é a capacidade de esperar com o coração em paz."

 

Escutai com as orelhas da alma, ó nobres ouvintes, pois a luz que guia o cego Rashid brilha mais que o próprio sol ao meio-dia.

 

A moral desta história, ó Sheik, é que a verdadeira visão interior não depende da luz que entra pelos olhos de carne, mas da luz que emana do coração em estado de paciência. O mundo é um mercado de ilusões onde os homens correm atrás de ouro e glórias que o vento apaga, mas quem cultiva a paciência lapida joias que nem o tempo pode corroer.

 

Muitas vezes, reclamamos da nossa necessidade ou do nosso infortúnio, sem perceber que é no silêncio da espera e na aceitação do destino divino que as maiores riquezas são forjadas. O mercador cego era o homem mais rico de Samarcanda não pelo que possuía na mão, mas pela tranquilidade da alma que o tornava imune às tempestades da vida. Quem tem paciência, tem o próprio Alá como guia, e para esse, o invisível torna-se a única realidade que importa.

 

Mustafá inclinou-se profundamente, encerrando sua jornada por Samarcanda.



(FONTE: "ECOS DO DESERTO", ORG. DE JOSÉ FELDMAN)


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