O Mercador
Cego
Escute com o coração, ó Protetor
dos Desamparados, pois a história do mercador cego é o brilho mais puro de
Samarcanda. No canto mais profundo do Souq al-Samt (Mercado do Silêncio), onde
a sombra das tamareiras toca o mármore frio, vivia um homem chamado Rashid.
Rashid era cego de nascença. Seus
olhos eram como duas pérolas foscas que nunca viram a luz do sol. Diante dele,
não havia tapetes de seda ou vasos de ouro, mas apenas uma pequena bacia de
madeira de sândalo, aparentemente vazia.
Diziam os mercadores que Rashid
guardava as Joias da Paciência.
Certo dia, um jovem rico e
impaciente, que buscava poder imediato, parou diante dele. O jovem não
compreendia o silêncio e, quebrando o ritual, sussurrou: — 'Velho, onde estão
as joias? Só vejo uma bacia vazia!'.
Rashid não se irritou. Ele apenas
sorriu, um sorriso que parecia vir de um paraíso distante. Ele mergulhou a mão
na bacia e, para quem tinha a alma limpa, era possível ver que seus dedos
seguravam pedras que brilhavam com uma luz violeta e suave. Eram as joias
esculpidas pelo tempo, formadas por cada segundo que um homem espera sem
reclamar, por cada dor suportada com gratidão.
— “As joias da paciência não se
veem com a visão física, meu filho”, disse Rashid com uma voz que parecia o
deslizar da areia. “Elas são pesadas. Cada uma carrega o peso de um desejo que
foi sacrificado em nome da paz. Quem as possui, não precisa de exércitos, pois
sua força é a tranquilidade da alma que ninguém pode abalar.”
O mercador cego explicou que ele
'lapidava' aquelas pedras invisíveis ouvindo o crescimento das flores e o
movimento das estrelas. Para ele, a cegueira não era um infortúnio, mas um véu
que Alá colocara para que ele não se distraísse com as cores falsas do mundo e
pudesse focar na verdadeira luz interna.
O jovem, tocado por uma súbita
humildade, pediu uma daquelas joias. Rashid estendeu a mão e 'entregou' o
vazio. No momento em que o jovem aceitou o presente invisível, sentiu um peso
enorme em sua palma, seguido por uma calma que nunca experimentara. Ele
compreendeu que a paciência não é esperar que algo aconteça, mas a aceitação
serena de que tudo acontece no tempo de Allah (Deus).
Rashid continuou ali, sentado em
seu silêncio, guardando tesouros que os reis cobiçariam se soubessem que a
maior riqueza de um homem é a capacidade de esperar com o coração em paz."
Escutai com as orelhas da alma, ó
nobres ouvintes, pois a luz que guia o cego Rashid brilha mais que o próprio
sol ao meio-dia.
A moral desta história, ó Sheik,
é que a verdadeira visão interior não depende da luz que entra pelos olhos de
carne, mas da luz que emana do coração em estado de paciência. O mundo é um
mercado de ilusões onde os homens correm atrás de ouro e glórias que o vento
apaga, mas quem cultiva a paciência lapida joias que nem o tempo pode corroer.
Muitas vezes, reclamamos da nossa
necessidade ou do nosso infortúnio, sem perceber que é no silêncio da espera e
na aceitação do destino divino que as maiores riquezas são forjadas. O mercador
cego era o homem mais rico de Samarcanda não pelo que possuía na mão, mas pela
tranquilidade da alma que o tornava imune às tempestades da vida. Quem tem
paciência, tem o próprio Alá como guia, e para esse, o invisível torna-se a
única realidade que importa.
Mustafá inclinou-se
profundamente, encerrando sua jornada por Samarcanda.
(FONTE: "ECOS DO DESERTO", ORG. DE JOSÉ FELDMAN)

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