O CANTO DO ROUXINOL
José Feldman
O som do silêncio que se instala após o último acorde é o que mais machuca. Não
é a ausência de som, mas o peso do que deveria estar ali e já não está.
Há anos observo aquela gaiola pendurada na varanda do apartamento vizinho,
balançando discretamente ao sabor de um vento que traz o cheiro da chuva, mas
que nunca traz a liberdade. Dentro dela, habita um rouxinol. Um pequeno
fragmento de vida, com penas que perderam o brilho fosco das matas, mas que
carrega nos olhos o tamanho exato de um horizonte que ele desaprendeu a tocar.
O soneto que alguém escreveu um dia sobre ele não mentia. Cada nota que escapa
daquele bico pequenino, nas primeiras horas da manhã, não é um espetáculo para
os nossos ouvidos humanos, é um pranto disfarçado de arte.
O rouxinol canta nas grades da vida, e o eco de sua voz é de uma profundidade
que chega a doer no peito de quem se detém para escutar. Nós, os transeuntes
apressados de nossas próprias rotinas aprisionadas, costumamos chamar aquilo de
"belo cantar". Que terrível cegueira a nossa. Confundir o grito de
socorro de uma alma com entretenimento doméstico.
Olho para ele agora, enquanto o sol desponta timidamente entre as folhas verdes
das árvores da rua. Aquelas árvores estão tão perto. Apenas alguns metros
separam o pássaro do galho mais próximo de uma mangueira frondosa, onde outros
de sua espécie pousam, gritam, brigam e voam sem rumo. A liberdade clama ali
fora, escancarada, vestida de vento e folhas secas que dançam no asfalto. Mas
ele não vai. Ele não pode ir. A fronteira invisível do arame galvanizado define
o limite do seu universo.
Em cada melodia que ele ensaia quando o dia clareia, a vida parece se afrontar.
É um embate silencioso e cruel entre o instinto de ser céu e a realidade de ser
ferro. Há uma tristeza densa, quase palpável, que se instala no ambiente a cada
trinado mais longo. É a melancolia pura de quem sabe exatamente o que perdeu,
mesmo sem nunca ter vivido plenamente o que perdeu. O peito do pequeno cantor
sobe e desce rapidamente, num ritmo frenético que parece subtrair-lhe as
forças, um pouquinho a cada dia. Quantas canções faltam para que o coração dele
desista de bater?
E, no entanto, o mistério mais profundo daquela criatura não é a sua dor, mas a
sua insistência.
Mesmo no calabouço daquela varanda cinzenta de cimento encardido, há algo
dentro daquele peito que se recusa a morrer. Uma canção esperançosa insiste em
brotar de onde só deveria haver desespero. A alma do rouxinol não se esquece de
amar. Ele ama o fiapo de sol que toca a gaiola às nove da manhã. Ele ama a água
fresca que trocam de seu pequeno pote. Ele ama, acima de tudo, a própria
memória do voo, uma herança genética de asas abertas que o tempo e o cativeiro
não conseguiram apagar.
Ele canta na busca de um ramo, de uma vida que ele intui ser gloriosa e vasta.
O canto ainda ecoa pela vizinhança, cortando o barulho dos motores e das
buzinas, mesmo que a chorar. É um choro afinado, uma lágrima em forma de
solfejo que atravessa as frestas da minha janela e me faz parar o café pela
metade, com os olhos fixos no vazio.
Quantos de nós também não cantamos nossas dores em nossas próprias gaiolas
invisíveis, esperando que alguém entenda o código do nosso lamento?
Fico olhando o pequeno rouxinol e uma onda de melancolia me invade por
completo. Penso na fragilidade da vida, no tempo que passa e nas correntes que
nós mesmos criamos ou aceitamos carregar. Mas o soneto termina com uma
promessa, e é nela que decido ancorar o resto do meu dia, para não sucumbir à
tristeza de vê-lo ali.
Um dia, as correntes irão se desfazer. Seja pela mão compassiva de quem
finalmente enxergar a crueldade daquele cativeiro, seja pelo ciclo inevitável
da própria natureza que a tudo liberta no final. O rouxinol livre poderá
renascer. Suas asas, hoje entorpecidas, encontrarão o ponto de apoio exato na
densidade do ar. Ele subirá tão alto que o som do seu canto finalmente deixará
de ser um lamento para se tornar, em absoluto, a pura tradução do espaço.
Até lá, eu continuo aqui, na janela da minha própria solidão, servindo de
testemunha e plateia para a mais triste e bela ópera da terra: o canto de quem
sofre, mas não desiste de esperar o céu.

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