Lobo
em Pele de Carneiro
"Salam Aleikum" (Que a
paz esteja convosco), meus ouvintes de olhos travessos! Ah, vejo que o frio da
noite pede uma história com o tempero da audácia e o perfume da aventura. Eu,
Mustafá, o peregrino, já vi muitos homens usarem a espada para conquistar o que
desejam, mas este jovem de quem lhes falo usou algo muito mais perigoso: a
astúcia.
"Bismillah" (Em nome de
Deus), entremos nos pátios proibidos.
Havia em Samarcanda um jovem
mercador de perfumes chamado Rashid. Ele era belo, de traços finos e voz suave
como o correr de um riacho. Um dia, ao passar pelas grades de um palácio, seus
olhos encontraram os de Zahra, a favorita de um poderoso e ciumento Paxá. Foi
um golpe no coração.
"Ya habibi" (Meu amor),
suspirou ele, sabendo que entrar naquele harém era mais difícil do que fazer
chover no deserto.
Rashid não era homem de desistir.
Com a ajuda de uma velha ama que conhecia os segredos das sedas, ele raspou a
barba, pintou os olhos com "kohl" (delineador escuro) e vestiu-se com
as túnicas mais finas, cobrindo o rosto com um véu de mistério. Apresentou-se
nos portões como 'Layla', uma tecelã vinda de terras distantes com bordados que
fariam as fadas chorar de inveja.
"Ahlan wa Sahlan" (Bem-vinda),
disseram os guardas, enganados pela fragrância de rosas que ele exalava e pelo
balanço de seus quadris. Rashid entrou no harém.
Por sete dias e sete noites, ele
viveu entre as mulheres, ouvindo seus risos e suas mágoas, sempre mantendo o
véu e a modéstia.
— "Alhamdulillah"
(Louvado seja Deus), pensava ele, "o amor me deu o disfarce
perfeito".
Zahra, porém, tinha olhos de
águia. Ao observar a 'tecelã', percebeu que aquelas mãos não tinham calos de
agulha, e que o brilho naqueles olhos não era de uma irmã, mas de um leão
disfarçado de gazela. Numa noite de lua cheia, sob o aroma do sândalo, ela o
confrontou no jardim. Rashid revelou sua face e seu propósito.
— "Maktub" (Está
escrito), disse ela, "meu coração já pertencia à sua coragem antes mesmo
de conhecer seu nome."
O plano de fuga foi traçado com a
precisão de um astrônomo. No festival de "Eid" (Celebração), quando a
guarda estava distraída com música e vinho, Rashid e Zahra, ambos vestidos como
humildes servas, atravessaram os portões carregando cestos de frutas. Quando os
cavalos que Rashid havia escondido relincharam na escuridão, ele soltou um
grito de triunfo: — "Ya Allah" (Ó Deus), a liberdade é nossa!
O Paxá só descobriu o engano ao
amanhecer, quando encontrou apenas um véu de seda e um frasco do melhor perfume
de Rashid deixado no travesseiro. Os amantes já cruzavam as fronteiras, rindo
do destino. "Shukran" (Obrigado), dizia Rashid, pois aprendera que
para ganhar o que é proibido, às vezes é preciso perder a própria identidade.
“As-salaam'aleikum” (Que a paz de
Deus esteja com vocês), meus amigos. Que a vossa astúcia seja sempre usada em
nome do amor.
(FONTE "ECOS DO DESERTO", ORG. DE JOSÉ FELDMAN)

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