A
Cidade dos Sonhos
"Salam’aleikum" (que a
paz esteja convosco), meus incansáveis ouvintes. Aproximem-se, pois o que vou
lhes contar agora exige que seus corações estejam abertos como as pétalas de um
jasmim noturno. Eu, Mustafá, caminhei por areias que não guardam pegadas e vi
cidades que os mapas dos homens, por puro medo, decidiram omitir.
"Bismillah" (Em nome de
Deus), entremos nos domínios do invisível.
Diz a lenda que, no coração do
deserto de Rub' al-Khali, existe uma cidade chamada Madinat al-Ahlam (a Cidade
dos Sonhos). Ela não é feita de pedra e cal, mas de luz e memória. Dizem que
suas torres são de marfim e suas cúpulas brilham como se o próprio sol tivesse
decidido descansar nelas.
Muitos viajantes tentaram
encontrá-la. Alguns voltaram loucos, outros nunca mais foram vistos. Mas houve
um jovem, um pastor de camelos chamado Yusuf, que certa noite, sob o brilho de
uma lua de prata, avistou os portões da cidade.
"Ya Allah" (Ó Deus),
exclamou ele ao atravessar as portas.
Dentro da cidade, não havia
comércio, nem moedas, nem gritos. As pessoas caminhavam em paz, e as fontes
jorravam uma água que curava toda a tristeza. Ali, o tempo não era um carrasco,
mas um amigo. Yusuf sentiu-se em casa como nunca antes.
"Ahlan wa Sahlan"
(Bem-vindo), disseram-lhe os habitantes, cujas vozes pareciam o som do vento
nas palmeiras.
Porém, havia uma regra: ninguém
poderia levar nada da cidade, nem mesmo uma pedra do chão. Quando o primeiro
raio de sol tocou o horizonte, "Alhamdulillah" (Louvado seja Deus),
Yusuf sentiu o chão tremer. A cidade começou a desvanecer como a névoa matinal.
Ele tentou agarrar um punhado de areia dourada de um jardim, mas quando abriu a
mão, só havia poeira comum.
A cidade desaparecia ao amanhecer
porque ela não pertencia ao mundo das posses, mas ao mundo das intenções.
"Maktub" (está escrito): ela só se revela para quem não busca o
lucro, mas o propósito.
Yusuf passou o resto de seus dias
contando o que viu, e embora muitos rissem, seus olhos mantinham o brilho de
quem conheceu a eternidade em uma única noite.
A lição, meus caros, é que as
coisas mais belas da vida são aquelas que não podemos guardar no bolso, apenas
na alma.
Obrigado por compartilharem este silêncio
comigo. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de
Deus esteja com vocês).
(FONTE: "ECOS DO DESERTO", ORG. JOSÉ
FELDMAN)

Nenhum comentário:
Postar um comentário