A
Árvore que Fala
"Preste atenção, ó Sheik de
Bagdá, pois o que floresce no centro do Oásis dos Espelhos desafia a
compreensão dos homens de pouca fé. Ali, onde as águas do autoconhecimento se
encontram com a areia sagrada, ergue-se a Shajarat al-Hikmah (Árvore da Sabedoria).
Ela não tem folhas de clorofila,
mas sim de papel fino como pergaminho, translúcido e prateado. O tronco é de um
ébano tão escuro quanto a noite sem lua, e suas raízes bebem diretamente do
reflexo das almas.
Dizem as lendas que esta árvore
não fala com uma língua de carne. Quando o vento do deserto sopra entre seus
galhos, as folhas não balançam, elas sussurram. Mas o som que emitem não é o de
palavras comuns; é o som da verdade que cada homem tenta esconder de si mesmo.
Se um homem carregado de pecados
se aproxima, a árvore emite um som de trovão retumbante, que ecoa em seu peito
como o bater de um tambor de guerra. O som diz: 'Até quando fugirás da tua
própria sombra?'. O barulho é tão forte que o pecador muitas vezes cai ao chão,
sentindo o peso de suas escolhas.
Mas, se um homem virtuoso
senta-se sob sua sombra, a árvore canta. É uma melodia de uns (intimidade
espiritual) que lembra o riso de uma criança ou o som de uma fonte no paraíso.
Para esse homem, as folhas de pergaminho começam a mostrar escritas em caligrafia
de luz. São respostas para perguntas que ele ainda nem ousou fazer.
Vi um jovem poeta que perdera a
esperança aproximar-se da árvore. Ele chorava, pois sua musa havia partido. A
árvore, em um gesto de misericórdia, deixou cair uma única folha em seu colo.
Nela, não havia poemas de amor terreno, mas uma única rememoração que dizia: 'O
que você procura, procura por você'. Naquele momento, o jovem compreendeu que a
beleza que ele buscava fora não era nada comparada à que Alá plantara dentro de
sua alma.
A árvore é a guardiã do oásis.
Ela sabe quem mentiu no Mercado de Silêncio e quem foi sincero com o mercador
cego. Ela é o eco da consciência humana amplificado pelo silêncio do deserto.
Muitos tentaram levar uma folha
daquela árvore para Bagdá, ó Sheik. Mas, assim que cruzam a fronteira do oásis,
o pergaminho se transforma em cinzas. Pois a sabedoria da árvore não pode ser
possuída, apenas vivenciada no momento de presença absoluta."
Mustafá fechou os olhos por um
instante, como se ainda ouvisse o sussurro das folhas prateadas.
Escutai com vossa alma, ó
buscadores da luz, pois o balançar das folhas da Shajarat al-Hikmah (Árvore da
Sabedoria) traz uma lição que nenhum livro pode conter sozinho.
A moral desta história, ó Sheik,
é que a verdade não é algo que se busca no mundo exterior com gritos e
demandas, mas algo que se escuta no silêncio do próprio peito. A árvore não
falava palavras novas; ela apenas devolvia aos homens o eco de suas próprias
consciências. Para o injusto, a verdade soa como um trovão aterrador, pois ele
teme o que esconde; para o justo, ela é uma música suave, pois ele vive em
harmonia com o seu Criador.
Muitas vezes, passamos a vida tentando colher os frutos do conhecimento alheio, mas esquecemos que a sabedoria não pode ser roubada ou transportada como mercadoria em uma caravana. Ela deve ser vivenciada na presença do momento. Quem busca a verdade com orgulho encontrará apenas cinzas, mas quem se senta sob a sombra da humildade verá que a vida inteira é uma escrita de luz feita por Alá.
(FONTE "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)

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