sábado, 3 de janeiro de 2026

ATO DE CARIDADE - DJALMA ANDRADE

 




ATO DE CARIDADE

Djalma Andrade (1892-1975)



Que eu faça o bem e de tal modo o faça,

Que ninguém saiba o quanto me custou.

- Mãe, espero em ti mais esta graça:

- Que eu seja bom sem parecer que o sou.



Que o pouco que me dês me satisfaça,

E se, do pouco mesmo, algum sobrou,

Que eu leve esta migalha onde a desgraça

Inesperadamente penetrou.



Que a minha mesa, a mais, tenha um talher,

Que será, minha mãe, Senhora nossa,

Para o pobre faminto que vier.



Que eu transponha tropeços e embaraços:

Que eu não coma, sozinho, o pão que possa

Ser partido, por mim, em dois pedaços.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

SONETO - GUIMARÃES PASSOS

 





SONETO
Guimarães Passos (Maceió/AL -1867 - 1909, Paris/França)


À terra torna o que da terra veio;
A água que sai do vasto mar, um dia
Mais pura do que quando ao céu subia
Torna de novo ao primitivo seio.

Assim, todo o momento de alegria
Que feliz de ilusões eu via cheio;
As horas de ventura e de receio,
Tudo eu te entrego, como te pedia.

De ti, nem quero a pálida lembrança,
Viverei sem uma única esperança,
Sem o mínimo amor de uma mulher.

Mas no teu peito, que viveu mentindo,
Põe uma cruz – ao mundo prevenindo.
Que és o sepulcro do teu próprio ser.



(ALMANAQUE CHUVA DE VERSOS,


473, JOSÉ FELDMAN)

TROVA DE BELMIRO BRAGA

 




TROVA DE BELMIRO BRAGA


As almas de muita gente
são como um rio profundo:
- a face tão transparente
e quanto lodo no fundo...



* TROVA ENVIADA POR JOSÉ OUVERNEY

TROVAS DE ZELITO MAGALHÃES

 



TROVAS DE ZELITO MAGALHÃES
FORTALEZA – CEARÁ

A brisa que embala o galho,
a flor que brota do chão,
as gotas puras de orvalho,
tudo tem de Deus a mão.

Agi errado, não minto
cometi tanta faceta!
Por isso, agora me sinto
um Romeu sem Julieta.

A moral de muita gente
é como um rio profundo:
Por cima tão transparente
com tanto lodo no fundo.

A pátria dos desgraçados
não tem bandeira nem nome,
pra que tantos rebuscados
onde se morre de fome?

Bendita sejas, ó trova!
Floresces os dias meus...
Em ti eu vejo a prova
de que estou perto de Deus.


(ALMANAQUE CHUVA DE VERSOS 476, JOSÉ FELDMAN)

















































SAUDADE - DA COSTA E SILVA


 


SAUDADE

DA COSTA E SILVA (POETA PIAUIENSE, CITADO POR ENÉAS ATHANÁZIO, EM SEU LIVRO: O PERTO E O LONGE – VOL. 3)


Saudade! Olhar de minha mãe rezando,
E o pranto lento deslizando em fio...
Saudade! Amor da minha terra... O rio
Cantigas de águas claras soluçando.

Noites de junho... O caburé com frio,
Ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando...
E, ao vento, as folhas lívidas cantando
A saudade imortal de um sol estio.

Saudade! Asa de dor do Pensamento!
Gemidos vãos de canaviais ao vento...
As mortalhas de névoas sobre a serra...

Saudade! O Parnaíba – Velho Monge
As barbas brancas alongando... E, ao longe,
O mugido dos bois da minha terra...













ÁGUAS - MERCÍLIA RODRIGUES


 


ÁGUAS

Mercília Rodrigues


Águas inquietas se jogam num leito,

véu em cascata a arrastar-se

caudaloso,

pra arrebentar-se soberbo, perfeito,

transparente, límpido e majestoso!


Águas inquietas que sejam infindas,

Seguem por rumos de escolhos

e fendas,

juntam-se à frente às águas bailarinas,

tão bordadas em translúcidas rendas.


Vão inquietas buscam,

cortando caminhos,

braços abraçando em ondas imensas,

levam doçura de quem sabe amar!


Todas desfilam, vestidas de arminhos

e dançam revoltas, soltas, suspensas...

Junção e abraço nas profundezas

do mar!


 

(Fonte AVBAP)

TROVAS - CALENDÁRIO 2026

 




TROVAS - CALENDÁRIO 2026


Nas duras lutas da vida,

quando há pedras pela estrada,

não dê a luta por vencida...

Tenha fé na caminhada!

Sueli Ferreira


Pão de Açúcar, como és belo!

Debruças-te sobre o mar...

Não encontro paralelo;

adoças o meu olhar...

Ângela Guerra


Se a subida fica estranha,

não desista ou faça drama:

Quanto mais alta a montanha

maior o seu panorama.

Romilton Faria


De tanto cambalear,

por beber a noite inteira,

o pinguço foi parar

bem debaixo da cadeira!

Alfredina Pancholatti

TROVAS - CALENDÁRIO 2026

 




TROVAS - CALENDÁRIO 2026


Aprendi pelos caminhos

da vida, entre dissabores,

a não deixar que os espinhos

me impeçam de ver as flores!

Regiane Bagri


Infância é um brinquedo usado

que um dia a vida resolve

tomar um pouco emprestado

e nunca mais nos devolve!

Tadeu Hagen


Dai-me Senhor a humildade,

e a essência do que é servir,

fazendo da caridade

minha razão de existir.

Luiz Antônio Cardoso


Todos seriam felizes,

com sentenças mais corretas,

se, em tribunais, os juízes

dessem lugar aos poetas.

Olga Aguilhon

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

ILUSÃO - DOUMERVAL TAVARES FONTES

 



                                    ILUSÃO

Doumerval Tavares Fontes

 

Triste, percorro o parque abandonado;

Revolvendo as quimeras delirantes

Que encheram de alegria meu passado

Todo feito de imagens deslumbrantes...

 

Meu ser, pela saudade dominado,

Chora a graça de paz que havia dantes

Nesse parque, silente e desolado,

Repleto de lembranças palpitantes...

 

Já das aves não se ouve o doce canto,

Nem se ouve o surdinar das serenatas

Da quimera a embalar o eterno encanto...

 

Só se ouve, muito lento e dolorido,

O queixume saudoso das cascatas

Na tristeza do parque adormecido.

 

(O Jornalzinho, Set/out-2011, página 5)

GRITO DE ALERTA - FILEMON MARTINS

 



GRITO DE ALERTA


(Poema publicado no Anuário de 

Poetas do Brasil, 3º volume – 1980, Organização do saudoso Aparício Fernandes – Rio de Janeiro), mas continua atual.

Filemon Martins


Querem abafar nosso grito,
reprimir nosso direito,
porque a verdade sempre dói
quando lançada em rosto.
Trabalhamos pouco, dizem alguns.
- Que são dez, doze horas de trabalho ?
É preciso produzir mais.

Trabalhar dia e noite, noite e dia
para aumentar nossas migalhas.
Por que protestar, se tudo vai bem?
Além do mais, é ilegal dizer a verdade,
principalmente se ela contraria as regras do Poder.

Legal mesmo é ficar de camarote,
- céticos e indiferentes –
enquanto a fúria do chicote opressor
desce sobre o povo indefeso, esquecido,
explorado e oprimido,
dominado pelos prepotentes,
bajuladores e corruptos.

Estamos vivendo uma noite sem estrelas,
noite que prenuncia o alvorecer.
Mas, quando virá esta Manhã ridente
de Paz e Liberdade que todos desejamos?

Continuemos, então, a caminhada,
que há muita coisa para fazer:
Chega de hipocrisia,
promessas sem realizações.
Precisamos viver.
Nunca é tarde para gritar,
nunca é tarde para exigir,
se todos nós lutarmos,
nova Luz há de brilhar
e um novo Dia, enfim, começará!

CONFIDENTE - FILEMON MARTINS

 



CONFIDENTE
Filemon Martins


Velho mar, meu eterno confidente,
quantas vezes chorei ao confessar:
esta mágoa que fere, inconsequente,
e o tempo que não pode mais voltar.

E me dizes assim, naturalmente:
- só o amor é capaz de te curar,
enquanto tuas ondas, mansamente,
os meus pés, com carinho, vêm beijar.

Exerces sobre mim grande fascínio,
porque tens sobre todos o domínio
e és tão frio nas tuas mutações.

Ao contrário de ti, eu sofro tanto,
e fico aqui a derramar meu pranto,
onde sepulto as minhas ilusões!


(LIVRO "DE TUDO UM POUCO contos, crônicas, ensaios, poemas, sonetos e outras coisas mais", página 134)

CONVERSA NO TREM - FILEMON MARTINS


 


 

CONVERSA NO TREM

 Filemon Martins

                                  

 - “Esta vida não faz nenhum sentido,”

  dizia o passageiro do meu trem,

  - “o mundo inteiro, veja, está perdido,

  - esperança não há para ninguém.”

 

Assim falava o homem ressentido

das promessas que, feitas por alguém,

sequer foram cumpridas e incontido

ele se lamentava do desdém.

 

- “Mas a vida é assim mesmo,” outro dizia,

- “a tristeza anda ao lado da alegria

e a calma vem após a tempestade.”

 

Por que, então, meu coração sedento

tem que provar a dor e o sofrimento

para alcançar a tal felicidade?

 

EM FRENTE AO MAR DE ITANHAÉM - FILEMON MARTINS

 




EM FRENTE AO MAR DE ITANHAÉM

Filemon Martins         

 

 

Em frente ao mar eu observo as ondas

num vaivém sem fim,

e vejo que a onda ao chegar à praia

beija a areia com febril paixão,

ecoando sua voz dentro de mim...

 

Quando a praia está assim deserta

falamos a sós de amor entre nós dois,

trocamos intérminas confidências,

- de sonhos e medos -

enquanto ele ouve as minhas mágoas,

eu celebro meus versos em suas águas

e assim ninguém desvenda os meus segredos...