sábado, 1 de fevereiro de 2025

COMPONDO VERSOS - FILEMON MARTINS

 



COMPONDO VERSOS
Filemon Martins

Eu quisera compor uns lindos versos
que falassem do amor e da paixão,
destes sonhos antigos e dispersos
que ocuparam meu pobre coração.

Teus olhos cor de mar, (quase perversos),
pousaram sobre mim, que perdição,
e meus sonhos agora estão imersos
neste mar de beleza e solidão.

Por que partiste assim, sem dizer nada,
deixando apenas tua gargalhada
que em saudade se fez e em mim convive.

Peço para que voltes, doce amada,
porque sem luz não há mais alvorada,
sem teu amor meu coração não vive!

CONTO DE FADAS - FLORBELA ESPANCA

 


                                                 (FOTO DE SANDRO, CARRANCA, BAHIA)



CONTO DE FADAS
FLORBELA ESPANCA

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o ungüento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras de uma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é d'oiro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!
- Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A Princesa do conto: “Era uma vez...”

MENTIRAS - FLORBELA ESPANCA

 



MENTIRAS
Ai quem me dera uma feliz mentira
que fosse uma verdade para mim!
J. DANTAS
FLORBELA ESPANCA

Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar pousa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito meu?

Ai, se o sei, meu amor! Em bem distingo
O bom sonho da feroz realidade...
Não palpita d´amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais
O gelo do teu peito de granito...

Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!









UM GRANDE AMOR - FILEMON MARTINS

 



UM GRANDE AMOR
Filemon Martins

Acordo cedo e a saudação começa,
um pássaro cantando na ramada,
não para de pular, trinando à beça,
talvez para acordar a sua amada.

Emplumado a trinar, mesmo sem pressa,
ele quer conquistar a namorada.
Um grande amor em seu cantar confessa
sem demonstrar cansaço na empreitada.

Igual a mim, amigo passarinho,
que espero receber algum carinho
de quem o coração nunca esqueceu...

E igual a ti, também acordo cedo,
e professo em meus versos sem segredo,
o grande amor que a vida não me deu!

TROVAS DE ÉRICO DA FONSECA

 



 

 

TROVAS DE ÉRICO DA FONSECA

(In memoriam)

 

Meu tesouro pequenino,

que o tempo transformará,

Deus, ao traçar seu destino,

por certo o protegerá.

 

Finda nossa mocidade,

com a infância já perdida,

junto, ao passar da idade

vai-se a aurora da vida.

 

O "Independência ou Morte"!

foi um brado varonil.

Durante anos, bem forte,

ecoando no Brasil!

 

Brilhando no firmamento,

já surge a "Estrela Guia".

De Jesus, o nascimento,

aos Reis Magos, anuncia...

 

(COLHENDO TROVAS, PÁGINA 12)


TROVAS DE SEBASTIÃO I. DE ARAÚJO

 



 

 

TROVAS DE SEBASTIÃO I. DE ARAÚJO

(In memoriam)

 

Sou como do rio o leito

escorrendo para o mar;

saudade escorre do peito

fazendo a gente chorar.

 

Afinal, tanta saudade,

que fica e tanta que sai,

que o coração na verdade,

não sabe se fica ou vai.

 

Um paraíso encantado,

de requintado esplendor...

por certo fora moldado

pelas mãos do Criador!

 

Cada trova declamada

é mensagem de carinho;

como rosa perfumada

a brotar em seu caminho.

 

(COLHENDO TROVAS, PÁGINA 10)

COTIDIANO - FILEMON MARTINS

 



COTIDIANO
(SOBRE A RUA SÃO BENTO)
Filemon Martins 


Amanheci em estado de graça. O dia estava claro, maravilhoso e convidativo. Queria sair por aí pensando a esmo. Mas tinha que ir trabalhar. Saí num corre-corre, como, aliás, faço todos os dias. Antes de chegar à Repartição, precisava quitar uma prestação num magazine da cidade. Rua São Bento, Centro de São Paulo. Dez horas da manhã. O burburinho era enorme. Gente que vai, gente que vem. Rostos alegres, tristes e estranhos se confundiam na multidão. Ando apressado. No bolso, uma pequena carteira com alguns trocados e fichas de telefone. Mesmo com pressa, observo o semblante das pessoas que passam: alguns preocupados, carrancudos e outros, leves e descontraídos. 
Meus pés me levam à frente. Os camelôs tomam conta do calçadão da rua com suas quinquilharias. As lojas oferecem seus produtos. Vitrinas enfeitadas deslumbram os clientes. Passo pelo magazine e pago a prestação. Estou de volta. Agora rumo ao trabalho. De repente, por trás de mim, sinto um empurrão e alguém enfia a mão no meu bolso. Num relâmpago rasga a minha calça e leva meus trocados. Vi apenas que era um garoto. E o larápio rapidamente desapareceu na multidão. Alguns papéis se espalharam pelo chão. 
Recuperei-me do susto e recolhi minhas anotações. E prossegui pensando naquele garoto. Na vida miserável que leva ali na rua. E continuei pensando nele. E quantos, como ele, estão assim perdidos? Abandonados pelos descaminhos da vida. Pela família. Pela sociedade. Pelo desgoverno do próprio governo. Mas o trabalho me espera. Por que será assim? Deixo minhas reflexões para depois. Esqueço, por alguns instantes, meus pensamentos. E chego ao Tribunal. Para mais um dia de trabalho. Rua São Francisco, onde o Precatório me espera, diga-se, com muito trabalho. 



Obs.: O Tribunal Regional Federal tem outro endereço: Av. Paulista, 1842, e eu sou funcionário aposentado do TRF – 3ª REGIÃO.

CONTRASTE - PADRE ANTONIO TOMAZ

 



CONTRASTE
PADRE ANTONIO TOMAZ
(1868-1941)

Quando partimos, no vigor dos anos,
Da vida pela estrada florescente,
As esperanças vão conosco à frente,
E vão ficando atrás os desenganos.

Rindo e cantando, céleres e ufanos,
Vamos marchando, descuidosamente...
Eis que chega a velhice de repente,
Desfazendo as ilusões, matando enganos.

Então, nos enxergamos claramente
Como a existência é rápida e fugaz,
E vemos que sucede exatamente

O contrário dos tempos de rapaz:
— Os desenganos vão conosco à frente,
E as esperanças vão ficando atrás!

OS CISNES - JÚLIO MÁRIO SALUSSE

 



                                    OS CISNES

Júlio Mário Salusse (1872-1948)


A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas, sem espumas,

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,

Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!

AS POMBAS - RAIMUNDO CORREIA

 



AS POMBAS
Raimundo da Mota Azevedo Correia (1859 a 1911)

Vai-se a primeira pomba despertada
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada…

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam
Fogem… mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais…

ELOGIO AO AMOR - FILEMON MARTINS

 



ELOGIO AO AMOR
                    Filemon Martins


Neste caminho eu sigo contemplando
a Natureza exuberante e bela,
passarinhos nos ramos saltitando
entoando canções em aquarela.

Aonde quer que eu vá, eu vou cantando
a pureza do amor, pintado em tela,
que Deus o produziu, por certo amando,
para mostrar ao mundo, em passarela...

Amor? Triste de quem não teve amor,
nem sentiu nesta vida alguma dor,
nem teve uma saudade a recordar?

Pois o amor é um sublime sentimento
que ferve, vibra e invade o pensamento,
e  nos leva ao delírio para amar!

NA CLÍNICA - FILEMON MARTINS

 



NA CLÍNICA

Filemon Martins

                                             

     Cheguei ao Centro Clínico de Fisioterapia por volta das 9h50min. Como todos os dias, a sala de recepção estava lotada.   – “Bom dia” fui logo dizendo, enquanto alguns respondiam: bom dia.
Pouco tempo depois fui chamado a entrar na sala de fisioterapia, onde muitos pacientes já estavam fazendo seus exercícios. Eu tinha que fazer alguns exercícios, tendo em vista uma cirurgia a que me submeti no pé esquerdo. Enquanto o infravermelho era direcionado para o meu pé, fiquei a ler uma revista antiga.
     Mas, aos poucos, comecei a me interessar pelas histórias contadas pelos pacientes. Uns, estavam ali porque sentiam dores no pé, ou na perna; outros, após um infarto ou mesmo uma cirurgia; alguns sentiam dores nas costas, nos braços, no pescoço e uma senhora, a Dona Berta, porque sentia fortes dores na perna esquerda. Terminada a seção de exercícios, lá vinha o médico fazer uma avaliação, “e aí Dona Berta, como está? melhorou a dor?” – Um pouquinho só, doutor, disse Dona Berta e o médico, então, retrucou: - “É a idade, Dona Berta.” A Dona Berta ficou pensativa e em seguida, disse: “não sei não, doutor, minha perna direita tem a mesma idade, mas não está doendo”...
     E assim se foi mais um dia no Centro Clínico de Fisioterapia, mas amanhã tem mais...

(Do livro FAGULHAS, do autor, página 96)

BANDOLINS - MARIA JOSÉ ZANINI TAUIL

 



BANDOLINS

MARIA JOSE ZANINI TAUIL

Choram os bandolins
no cair da noite
estrelas se entristecem
a lua espia
debruçada na janela,
repleta de melancolia
enquanto os sinos dobram
a ave-maria...

Choram os bandolins
com soluços graves
ferindo a alma
com seus lamentos
melancólicas visões
melodias amargas
dedos nervosos
que percorrem cordas
rasgando a noite
em mil pedaços
de solidão

E até dos olhos
da bailarina
correm lágrimas
silentes lágrimas
que se juntam
solidárias
ao sentido choro 
dos bandolins...