sexta-feira, 24 de julho de 2026

O VASO DE BARRO E A ESTRELA DE AL-THURAYYA - JOSÉ FELDMAN

 




O Vaso de Barro e a Estrela de Al-Thurayya


José Feldman
 


   

"Preparem os lenços de seda, pois agora Mustafá evocará uma história de amor profundo e provação, que corre pelas ruelas de Bagdá como um rio de lágrimas e esperança. Esta é a crônica de um sentimento que ousou desafiar o destino divino.

 

Nas terras de um Vizir cujo coração era mais duro que a pedra das montanhas, vivia um escravo chamado Zayd. Ele não possuía riqueza, apenas a força de seus braços e a pureza de sua alma. Sua tarefa era cuidar dos jardins do palácio, onde as rosas exalavam um perfume que parecia vir do paraíso.

 

Aconteceu que a filha do Vizir, a Princesa Laila — cujo nome significa 'noite' e cujos olhos brilhavam como a lua cheia —, costumava caminhar entre as flores. Zayd, ao vê-la, sentiu uma afeição tão avassaladora que suas mãos tremeram ao podar os espinhos. Ele sabia que era apenas um vaso de barro diante de uma estrela distante, mas o amor não pede licença ao governante para entrar no peito.

 

Laila, percebendo a doçura nos gestos do escravo, também se apaixonou. Eles trocavam olhares de confiança e pequenas palavras em segredo. Mas o Vizir e sua esposa, tomados pelo orgulho, tratavam Zayd com extrema crueldade. Se uma pétala caísse fora do lugar, Zayd era castigado com o chicote. Eles o chamavam de 'pó da terra' e o obrigavam a trabalhar sob o sol escaldante sem uma gota de água.

 

Certo dia, o Vizir descobriu uma carta que Laila escrevera para Zayd. Tomado por uma fúria cega, ele ordenou que o escravo fosse lançado no calabouço mais profundo. 'Como ousa um escravo olhar para o céu?', gritava ele. Laila foi trancada em sua torre, definhando em tristeza, recusando-se a comer ou sorrir.

 

Zayd, na escuridão da cela, não sentia ódio, apenas fazia sua súplica. Ele pediu a Alá que, se não pudesse ter Laila nesta vida, que sua alma fosse um pássaro para cantar na janela dela. 

 

Naquela noite, dizem que um milagre aconteceu: as correntes de Zayd se transformaram em fios de seda. Ele não fugiu, mas caminhou até o jardim uma última vez.

 

Lá, ele encontrou a Princesa, que havia escapado por uma corda feita de seus próprios véus. Eles se abraçaram sob a luz das estrelas, mas o Vizir e seus guardas logo os cercaram com espadas desembainhadas. No momento em que o Vizir ia desferir o golpe, o chão tremeu.

 

Diz a lenda, ó Sheik, que o Oásis dos Espelhos — do qual lhes falei — manifestou-se ali mesmo. O Vizir olhou para o chão e viu seu reflexo: um monstro de espinhos. Horrorizado com sua própria imagem, ele caiu em prantos, pedindo perdão. A pureza do amor de Zayd e Laila havia quebrado a dureza daquela pedra.

 

Zayd não foi apenas libertado; ele foi nomeado guardião do Grande Jardim, e o Vizir aprendeu que a verdadeira honra não está no sangue, mas na capacidade de amar sem medidas."

 

Mustafá limpou o canto do olho com a ponta do turbante.

 

Vejam bem, ó nobres senhores: A verdadeira honra de um homem não é tecida com fios de ouro ou títulos de governante, mas com a pureza de sua intenção. O mundo pode olhar para um escravo e ver apenas um vaso de barro, mas se esse vaso estiver cheio de amor verdadeiro e paciência, ele terá mais valor que uma coroa cravejada de diamantes que guarda um coração de pedra.

 

Nunca desprezem aquele que parece pequeno aos vossos olhos, pois o destino divino adora elevar os humildes e humilhar os soberbos. No fim das contas, diante do Criador, não somos medidos pelo que possuímos na mão, mas pelo que carregamos na alma. O amor é a única força capaz de transformar o barro em estrela.'



(FONTE "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)


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