O
Vaso de Barro e a Estrela de Al-Thurayya
"Preparem os lenços de seda,
pois agora Mustafá evocará uma história de amor profundo e provação, que corre
pelas ruelas de Bagdá como um rio de lágrimas e esperança. Esta é a crônica de
um sentimento que ousou desafiar o destino divino.
Nas terras de um Vizir cujo
coração era mais duro que a pedra das montanhas, vivia um escravo chamado Zayd.
Ele não possuía riqueza, apenas a força de seus braços e a pureza de sua alma.
Sua tarefa era cuidar dos jardins do palácio, onde as rosas exalavam um perfume
que parecia vir do paraíso.
Aconteceu que a filha do Vizir, a
Princesa Laila — cujo nome significa 'noite' e cujos olhos brilhavam como a lua
cheia —, costumava caminhar entre as flores. Zayd, ao vê-la, sentiu uma afeição
tão avassaladora que suas mãos tremeram ao podar os espinhos. Ele sabia que era
apenas um vaso de barro diante de uma estrela distante, mas o amor não pede
licença ao governante para entrar no peito.
Laila, percebendo a doçura nos
gestos do escravo, também se apaixonou. Eles trocavam olhares de confiança e
pequenas palavras em segredo. Mas o Vizir e sua esposa, tomados pelo orgulho,
tratavam Zayd com extrema crueldade. Se uma pétala caísse fora do lugar, Zayd
era castigado com o chicote. Eles o chamavam de 'pó da terra' e o obrigavam a
trabalhar sob o sol escaldante sem uma gota de água.
Certo dia, o Vizir descobriu uma
carta que Laila escrevera para Zayd. Tomado por uma fúria cega, ele ordenou que
o escravo fosse lançado no calabouço mais profundo. 'Como ousa um escravo olhar
para o céu?', gritava ele. Laila foi trancada em sua torre, definhando em
tristeza, recusando-se a comer ou sorrir.
Zayd, na escuridão da cela, não
sentia ódio, apenas fazia sua súplica. Ele pediu a Alá que, se não pudesse ter
Laila nesta vida, que sua alma fosse um pássaro para cantar na janela
dela.
Naquela noite, dizem que um
milagre aconteceu: as correntes de Zayd se transformaram em fios de seda. Ele
não fugiu, mas caminhou até o jardim uma última vez.
Lá, ele encontrou a Princesa, que
havia escapado por uma corda feita de seus próprios véus. Eles se abraçaram sob
a luz das estrelas, mas o Vizir e seus guardas logo os cercaram com espadas
desembainhadas. No momento em que o Vizir ia desferir o golpe, o chão tremeu.
Diz a lenda, ó Sheik, que o Oásis
dos Espelhos — do qual lhes falei — manifestou-se ali mesmo. O Vizir olhou para
o chão e viu seu reflexo: um monstro de espinhos. Horrorizado com sua própria
imagem, ele caiu em prantos, pedindo perdão. A pureza do amor de Zayd e Laila
havia quebrado a dureza daquela pedra.
Zayd não foi apenas libertado;
ele foi nomeado guardião do Grande Jardim, e o Vizir aprendeu que a verdadeira
honra não está no sangue, mas na capacidade de amar sem medidas."
Mustafá limpou o canto do olho
com a ponta do turbante.
Vejam bem, ó nobres senhores: A
verdadeira honra de um homem não é tecida com fios de ouro ou títulos de
governante, mas com a pureza de sua intenção. O mundo pode olhar para um
escravo e ver apenas um vaso de barro, mas se esse vaso estiver cheio de amor
verdadeiro e paciência, ele terá mais valor que uma coroa cravejada de
diamantes que guarda um coração de pedra.
Nunca desprezem aquele que parece
pequeno aos vossos olhos, pois o destino divino adora elevar os humildes e
humilhar os soberbos. No fim das contas, diante do Criador, não somos medidos
pelo que possuímos na mão, mas pelo que carregamos na alma. O amor é a única
força capaz de transformar o barro em estrela.'
(FONTE "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)

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