sábado, 27 de junho de 2026

O CAÇADOR DO SILÊNCIO - JOSÉ FELDMAN

 





  O CAÇADOR DO SILÊNCIO 


José Feldman

  

"Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus ouvintes de alma atenta. O silêncio que agora nos envolve é o tapete sobre o qual esta história vai caminhar. Eu, Mustafá, vi muitos homens tentarem roubar ouro e poder, mas apenas um teve a ousadia de roubar o que pertence aos desertos profundos.

 

Em Nishapur, vivia um poeta chamado Faruq. Seus versos eram belos, mas a cidade era barulhenta — o martelar dos ferreiros, o grito dos mercadores e as intrigas dos palácios sufocavam sua inspiração. 

 

— "Ya Allah" (Ó Deus), clamava ele, "como posso ouvir a música das esferas se o mundo não para de gritar?".

 

Consumido por um desejo ardente, Faruq viajou até o coração do deserto, onde dizem que o silêncio é tão espesso que se pode cortá-lo com uma adaga. 

 

Lá, ele encontrou um "dervixe" (monge sufi) que meditava sobre uma duna que nunca se movia.

 

— "Ensina-me a capturar o silêncio", pediu Faruq. 

 

O ancião entregou-lhe um frasco de cristal vazio e disse: 

 

— "O silêncio não se captura com as mãos, mas com a ausência do 'ana' (eu/ego). Se fores capaz de passar sete dias sem pensar em ti mesmo, o silêncio entrará no frasco."

 

Faruq lutou. No sétimo dia, ele esqueceu seu nome, sua fome e sua fama. O frasco brilhou com uma luz opala. Ele o arrolhou e voltou para a cidade. 

 

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), ele conseguira!

 

Ao abrir o frasco em sua casa, o silêncio derramou-se como um rio invisível. Subitamente, todo o barulho de Nishapur cessou ao redor de sua morada. 

 

Mas houve um preço: as pessoas não conseguiam mais se entender, os pássaros esqueceram o canto e até o vento parou de soprar. Faruq percebeu que, ao roubar o silêncio para si, ele roubara a alma do mundo.

 

Arrependido, ele subiu ao minarete mais alto e quebrou o frasco. O silêncio espalhou-se, mas desta vez ele não abafou os sons; ele tornou-se a pausa entre as notas, o espaço entre as palavras que permite que a fala tenha sentido. 

 

"Shukran", murmurou o poeta, entendendo que o silêncio não é a ausência de som, mas a presença da paz.

 

Desde aquele dia, Faruq escreveu seus melhores poemas, pois aprendeu que o segredo não é fugir do barulho, mas carregar o deserto dentro do peito.

 

“As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês). Que o silêncio de vocês seja sempre um refúgio, e nunca uma prisão.



(FONTE "ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN) 

 


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