O CAÇADOR DO SILÊNCIO
"Salaam’aleikum" (Que a
paz esteja convosco), meus ouvintes de alma atenta. O silêncio que agora nos
envolve é o tapete sobre o qual esta história vai caminhar. Eu, Mustafá, vi
muitos homens tentarem roubar ouro e poder, mas apenas um teve a ousadia de
roubar o que pertence aos desertos profundos.
Em Nishapur, vivia um poeta
chamado Faruq. Seus versos eram belos, mas a cidade era barulhenta — o martelar
dos ferreiros, o grito dos mercadores e as intrigas dos palácios sufocavam sua
inspiração.
— "Ya Allah" (Ó Deus),
clamava ele, "como posso ouvir a música das esferas se o mundo não para de
gritar?".
Consumido por um desejo ardente,
Faruq viajou até o coração do deserto, onde dizem que o silêncio é tão espesso
que se pode cortá-lo com uma adaga.
Lá, ele encontrou um
"dervixe" (monge sufi) que meditava sobre uma duna que nunca se
movia.
— "Ensina-me a capturar o
silêncio", pediu Faruq.
O ancião entregou-lhe um frasco
de cristal vazio e disse:
— "O
silêncio não se captura com as mãos, mas com a ausência do 'ana' (eu/ego). Se
fores capaz de passar sete dias sem pensar em ti mesmo, o silêncio entrará no
frasco."
Faruq lutou. No sétimo dia, ele
esqueceu seu nome, sua fome e sua fama. O frasco brilhou com uma luz opala. Ele
o arrolhou e voltou para a cidade.
"Alhamdulillah"
(Louvado seja Deus), ele conseguira!
Ao abrir o frasco em sua casa, o
silêncio derramou-se como um rio invisível. Subitamente, todo o barulho de
Nishapur cessou ao redor de sua morada.
Mas houve um preço: as pessoas
não conseguiam mais se entender, os pássaros esqueceram o canto e até o vento
parou de soprar. Faruq percebeu que, ao roubar o silêncio para si, ele roubara
a alma do mundo.
Arrependido, ele subiu ao
minarete mais alto e quebrou o frasco. O silêncio espalhou-se, mas desta vez
ele não abafou os sons; ele tornou-se a pausa entre as notas, o espaço entre as
palavras que permite que a fala tenha sentido.
"Shukran", murmurou o
poeta, entendendo que o silêncio não é a ausência de som, mas a presença da
paz.
Desde aquele dia, Faruq escreveu
seus melhores poemas, pois aprendeu que o segredo não é fugir do barulho, mas
carregar o deserto dentro do peito.
“As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês). Que o silêncio de vocês seja sempre um refúgio, e nunca uma prisão.
(FONTE "ECOS DO DESERTO", DE JOSÉ FELDMAN)

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