A PROCURA
DA FELICIDADE
José
Feldman
"Salaam’Aleikum"
(Que a paz esteja convosco), meus diletos ouvintes. Vejo que a chama da
curiosidade ainda brilha em vossos olhos! Pois bem, ajustem seus turbantes e
prestem atenção, pois esta história é um bálsamo para as almas inquietas. Eu sou
Mustafá, o peregrino, e lhes contarei sobre o Sultão que possuía tudo, menos o
que realmente importa.
"Bismillah" (Em nome de Deus),
entremos no palácio da reflexão.
Havia outrora, na magnífica cidade de Damasco,
um Sultão chamado Harun, cujas riquezas eram tão vastas que seus tesoureiros
perdiam o fôlego apenas tentando contá-las. Seus jardins tinham fontes de água
de rosas e suas mesas transbordavam com as iguarias mais raras de "AlMashriq"
(O Oriente). No entanto, Harun vivia com o semblante fechado. Nada lhe dava
prazer.
— "Ya Allah" (Ó Deus), suspirava
ele, "tenho o mundo aos meus pés e, ainda assim, meu coração é um deserto
seco."
Sentindo-se definhar, o Sultão convocou os
sábios mais renomados. Após muitos debates, um velho "Hakim"
(Médico/Sábio) aproximou-se e disse:
— "Majestade, o vosso mal tem cura.
Deveis encontrar um homem verdadeiramente feliz, pedir-lhe a camisa e vesti-la
por uma noite. A felicidade dele passará para vós através do tecido."
O Sultão, esperançoso, enviou seus mensageiros
por todos os cantos.
"Shukran" (Obrigado), diziam eles ao
interrogar os mercadores ricos, mas estes reclamavam dos impostos. Procuraram
os generais vitoriosos, mas estes temiam as conspirações. Procuraram os poetas
famosos, mas estes sofriam por amores não correspondidos. Ninguém era
plenamente feliz.
Certo dia, um dos mensageiros passava por uma
colina árida quando ouviu uma risada cristalina e uma canção de louvor que
subia aos céus. Era um humilde pastor de cabras, sentado à sombra de uma
tamareira.
— "Sabah al-Khair" (Bom dia), saudou
o mensageiro. "Diga-me, bom homem, você é feliz?"
O pastor sorriu, e sua alegria era como o sol
do meio-dia.
— "Alhamdulillah" (Louvado seja
Deus), respondeu ele. "Tenho o ar para respirar, o leite das minhas cabras
e a paz de quem nada deve a ninguém.
Sou o
homem mais feliz que caminha sobre a areia!"
O mensageiro, exultante, gritou:
— "Rápido! O Sultão precisa da sua
camisa! Daremos a você uma bolsa de ouro em troca!"
O pastor começou a rir ainda mais alto, uma
risada que ecoava pelas rochas. Ele abriu seu manto surrado e, para o espanto
do mensageiro, por baixo dele não havia nada. O homem mais feliz do reino era
tão pobre que sequer possuía uma camisa.
Ao receber a notícia, o Sultão Harun
finalmente compreendeu. A felicidade não era algo que se pudesse vestir ou
comprar; ela não estava nas sedas, mas na ausência de desejos
desnecessários.
Ele distribuiu parte de sua riqueza aos
necessitados e, pela primeira vez em anos, sorriu de verdade.
"Inshallah" (Se Deus quiser), todos
nós entenderemos que a camisa da felicidade é feita de gratidão, não de fios de
ouro. Obrigado por me acompanharem em mais esta jornada. “As-salaam'aleikum”
(Que a paz de Deus esteja com vocês).
(DE JOSÉ FELDMAN, "ECOS DO DESERTO" HISTÓRIAS DO ORIENTE ANTIGO)

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