domingo, 5 de abril de 2026

A QUARTA VEZ - JOSÉ FELDMAN

 




A QUARTA VEZ

José Feldman


TROVA DE DARLY O. BARROS

- Minha filha, tens certeza?

- Tenho, mãe, é gravidez!

- Se vais dizer: "foi fraqueza",

já não cola, é a quarta vez!



Na charmosa e agitada cidade de Tontolândia, onde os boatos se espalhavam mais rápido que a luz e as fofocas eram um esporte nacional, a vida da família Souza sempre teve um certo tempero. Dona Fulustreca, a matriarca, era conhecida por sua língua afiada e seu talento inigualável para transformar qualquer situação em um drama digno de novela mexicana. Mas nada se comparava à conversa que estava prestes a acontecer em sua casa.

Certa manhã ensolarada, enquanto o cheiro do café fresco invadia a cozinha, sua filha, Januária, entrou com uma expressão que misturava nervosismo e determinação. Era visível que algo a atormentava. 

“Mãe, preciso te contar uma coisa”, disse ela, com a voz trêmula. 

O coração de Dona Fulustreca disparou. “Ai, meu Deus! O que foi agora? Você não pode simplesmente entrar assim, com essa cara de quem viu um fantasma!”

Januária respirou fundo e, com toda a coragem que conseguiu reunir, soltou: 

“Estou grávida.” 

A cozinha, que antes estava cheia de sons alegres, mergulhou em um silêncio constrangedor. Dona Fulustreca olhou para a filha, depois para a xícara de café, e, em seguida, voltou a olhar para Fernanda. 

“Minha filha, tens certeza?” perguntou, tentando processar a informação.

“Tenho, mãe, é gravidez!” respondeu, agora com um brilho nos olhos que misturava esperança e medo.

Mas Dona Fulustreca não estava pronta para aceitar a notícia sem fazer um verdadeiro interrogatório.  “E você sabe quem é o pai?”, perguntou, levantando uma sobrancelha e preparando-se para a próxima etapa da sua investigação.

“É o Aparecido, mãe. Aquele que conheci na festa de aniversário da Tia Lúcia”, respondeu Fernanda, tentando parecer mais confiante do que realmente estava. 

Dona Fulustreca fez uma careta. 

“Aparecido? Aquele safado que sempre vem aqui com a camiseta do Iron Man? Ele não me convence muito, minha filha. Se for pra escolher, eu preferiria que você tivesse ficado com o Lucas, que sempre trouxe flores!”

Antes que Januária pudesse retrucar, Dona Fulustreca continuou, agora com um tom de voz mais firme: “Se vais dizer: ‘foi fraqueza’, já não cola, é a quarta vez!” 

A frase ressoou na cozinha como um eco. Januária, tentando manter a dignidade, olhou para a mãe com um misto de indignação e nervosismo.

“Quarta vez? Mãe, isso é um exagero! Da última vez, eu só estive com o Paulo por um mês!” 

Dona Nair não estava disposta a abrir mão de sua narrativa. 

“Sim, mas foi um mês intenso! E, se não me engano, você também teve aquele ‘acidente’ com o Bruno, e não vamos esquecer do ‘deslize’ com o Felipe. O que você tem a dizer sobre esses?!”

Januária, agora nervosa entre lágrimas, respondeu: 

“Mãe, eu sei que você se preocupa, mas não foi por fraqueza! Eu realmente amo o Aparecido!” 

Dona Fulustreca, percebendo que sua filha estava realmente decidida, começou a relaxar. 

“Está bem, mas você sabe que eu vou ser avó, certo? E eu exijo um nome que preste. Nada de ‘Cidinho’ ou ‘Dona Flor’!”

A conversa tomou um rumo inesperado e, enquanto as duas discutiam nomes, Dona Fulustreca começou a fazer uma lista de possíveis avós que poderiam ajudar a filha a se preparar para a maternidade. 

“Olha, minha filha, eu vou te apresentar a Dona Edite. Ela fez crochê até a última gravidez e ainda é a avó mais ativa da Tontolândia. E também a Dona Rita, que tem um blog de dicas para mães! Você precisa de tudo isso!” Januária riu. 

“Mãe, não preciso de uma consultoria para ser mãe. E, sinceramente, você não vai ter tempo para me ajudar. Você vai estar ocupada demais cuidando das suas plantas e fazendo fofocas no salão de beleza!”

Dona Fulustreca, percebendo que a conversa estava tomando um rumo diferente, decidiu que era hora de se colocar no papel de avó. 

“Ok, mas eu vou te ensinar tudo que aprendi. E, se você deixar, eu vou ser a avó que vai fazer bolos de aniversário extravagantes e levar a criança para dançar no parque. A criança vai ser a mais estilosa da Tontolândia!”

Naquele momento, as duas se olharam e, mais relaxadas, perceberam que, apesar da confusão, a vida estava apenas começando a se desenrolar de uma forma nova e emocionante. A gravidez, que poderia ter sido um tema de tensão, se transformou em uma ocasião de alegria e união.

“As coisas podem ser complicadas, mas pelo menos teremos histórias para contar”, disse Januária, sorrindo. “E você vai ser a avó mais divertida que Tontolândia já viu!” 

E assim, entre promessas de uma nova vida, Dona Fulustreca e Januária  descobriram que a maternidade, com todas as suas reviravoltas e desafios, era, na verdade, uma grande aventura em família.

E, no final das contas, mesmo com as ‘fraquezas’ do passado, o que realmente importava era o amor e a conexão que crescia a cada novo desafio, provando que, na vida, o que conta é o que se constrói juntos, mesmo que isso signifique enfrentar a quarta vez com um sorriso no rosto!

 

           

 


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