A QUARTA VEZ
José Feldman
TROVA DE DARLY O. BARROS
- Minha filha, tens certeza?
- Tenho, mãe, é gravidez!
- Se vais dizer: "foi fraqueza",
já não cola, é a quarta vez!
Na charmosa e agitada cidade de Tontolândia, onde os boatos
se espalhavam mais rápido que a luz e as fofocas eram um esporte nacional, a
vida da família Souza sempre teve um certo tempero. Dona Fulustreca, a
matriarca, era conhecida por sua língua afiada e seu talento inigualável para
transformar qualquer situação em um drama digno de novela mexicana. Mas nada se
comparava à conversa que estava prestes a acontecer em sua casa.
Certa manhã ensolarada, enquanto o cheiro do café fresco
invadia a cozinha, sua filha, Januária, entrou com uma expressão que misturava
nervosismo e determinação. Era visível que algo a atormentava.
“Mãe, preciso te contar uma coisa”, disse ela, com a voz
trêmula.
O coração de Dona Fulustreca disparou. “Ai, meu Deus! O que
foi agora? Você não pode simplesmente entrar assim, com essa cara de quem viu
um fantasma!”
Januária respirou fundo e, com toda a coragem que conseguiu
reunir, soltou:
“Estou grávida.”
A cozinha, que antes estava cheia de sons alegres,
mergulhou em um silêncio constrangedor. Dona Fulustreca olhou para a filha,
depois para a xícara de café, e, em seguida, voltou a olhar para Fernanda.
“Minha filha, tens certeza?” perguntou, tentando processar
a informação.
“Tenho, mãe, é gravidez!” respondeu, agora com um brilho
nos olhos que misturava esperança e medo.
Mas Dona Fulustreca não estava pronta para aceitar a
notícia sem fazer um verdadeiro interrogatório.
“E você sabe quem é o pai?”, perguntou, levantando uma sobrancelha e
preparando-se para a próxima etapa da sua investigação.
“É o Aparecido, mãe. Aquele que conheci na festa de
aniversário da Tia Lúcia”, respondeu Fernanda, tentando parecer mais confiante
do que realmente estava.
Dona Fulustreca fez uma careta.
“Aparecido? Aquele safado que sempre vem aqui com a
camiseta do Iron Man? Ele não me convence muito, minha filha. Se for pra
escolher, eu preferiria que você tivesse ficado com o Lucas, que sempre trouxe
flores!”
Antes que Januária pudesse retrucar, Dona Fulustreca
continuou, agora com um tom de voz mais firme: “Se vais dizer: ‘foi fraqueza’,
já não cola, é a quarta vez!”
A frase ressoou na cozinha como um eco. Januária, tentando
manter a dignidade, olhou para a mãe com um misto de indignação e nervosismo.
“Quarta vez? Mãe, isso é um exagero! Da última vez, eu só
estive com o Paulo por um mês!”
Dona Nair não estava disposta a abrir mão de sua
narrativa.
“Sim, mas foi um mês intenso! E, se não me engano, você
também teve aquele ‘acidente’ com o Bruno, e não vamos esquecer do ‘deslize’
com o Felipe. O que você tem a dizer sobre esses?!”
Januária, agora nervosa entre lágrimas, respondeu:
“Mãe, eu sei que você se preocupa, mas não foi por
fraqueza! Eu realmente amo o Aparecido!”
Dona Fulustreca, percebendo que sua filha estava realmente
decidida, começou a relaxar.
“Está bem, mas você sabe que eu vou ser avó, certo? E eu
exijo um nome que preste. Nada de ‘Cidinho’ ou ‘Dona Flor’!”
A conversa tomou um rumo inesperado e, enquanto as duas
discutiam nomes, Dona Fulustreca começou a fazer uma lista de possíveis avós
que poderiam ajudar a filha a se preparar para a maternidade.
“Olha, minha filha, eu vou te apresentar a Dona Edite. Ela
fez crochê até a última gravidez e ainda é a avó mais ativa da Tontolândia. E
também a Dona Rita, que tem um blog de dicas para mães! Você precisa de tudo
isso!” Januária riu.
“Mãe, não preciso de uma consultoria para ser mãe. E,
sinceramente, você não vai ter tempo para me ajudar. Você vai estar ocupada
demais cuidando das suas plantas e fazendo fofocas no salão de beleza!”
Dona Fulustreca, percebendo que a conversa estava tomando
um rumo diferente, decidiu que era hora de se colocar no papel de avó.
“Ok, mas eu vou te ensinar tudo que aprendi. E, se você
deixar, eu vou ser a avó que vai fazer bolos de aniversário extravagantes e
levar a criança para dançar no parque. A criança vai ser a mais estilosa da
Tontolândia!”
Naquele momento, as duas se olharam e, mais relaxadas,
perceberam que, apesar da confusão, a vida estava apenas começando a se
desenrolar de uma forma nova e emocionante. A gravidez, que poderia ter sido um
tema de tensão, se transformou em uma ocasião de alegria e união.
“As coisas podem ser complicadas, mas pelo menos teremos
histórias para contar”, disse Januária, sorrindo. “E você vai ser a avó mais
divertida que Tontolândia já viu!”
E assim, entre promessas de uma nova vida, Dona Fulustreca
e Januária descobriram que a
maternidade, com todas as suas reviravoltas e desafios, era, na verdade, uma
grande aventura em família.
E, no final das contas, mesmo com as ‘fraquezas’ do
passado, o que realmente importava era o amor e a conexão que crescia a cada
novo desafio, provando que, na vida, o que conta é o que se constrói juntos,
mesmo que isso signifique enfrentar a quarta vez com um sorriso no rosto!

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