quinta-feira, 16 de abril de 2026

A ANGÚSTIA DA NOITE - JOSÉ FELDMAN

 




A ANGÚSTIA DA NOITE

José Feldman


TROVA DE WANDA DE PAULA MOURTHÉ


Esta angústia indefinida,

que sempre à noite me invade

são sombras próprias da vida

ou disfarces da saudade?



Sempre que a noite se aproxima, uma sensação estranha começa a se instalar em meu peito. É uma angústia indefinida, como um sussurro distante que se transforma em grito à medida que a escuridão se intensifica. As luzes da cidade, que durante o dia vibram em cores e movimento, agora se tornam sombras longas e inquietantes. O dia, com suas distrações e compromissos, parece uma lembrança distante, e o silêncio da noite traz à tona tudo o que tentei esconder.

Às vezes, me pergunto se essa angústia é apenas uma parte da vida. São sombras próprias da existência humana, aquelas que vêm à tona quando nos encontramos sozinhos, com nossos pensamentos e medos? Ou seriam, na verdade, disfarces da saudade, vestígios de algo ou alguém que deixamos para trás? Essas questões dançam em minha mente enquanto a noite avança, como espectros que se recusam a se dissipar.

A saudade é uma palavra que carrega um peso imenso. Não se trata apenas de sentir falta de alguém; é uma mistura de amor, nostalgia e dor, um sentimento que se entranha nas fibras da nossa alma. É como um perfume que se espalha pelo ar, lembrando-nos de momentos passados, de risos compartilhados e lágrimas derramadas. Às vezes, a saudade aparece na forma de memórias felizes, outras vezes, como um eco triste de algo que não pode ser recuperado.

Na calada da noite, as sombras parecem se agigantar. Lembro-me de pessoas que passaram pela minha vida, de amores que se foram e de sonhos que não se realizaram. A escuridão se torna um espaço fértil para a reflexão, mas também para a dor. É nesse momento que percebo como a vida é efêmera, como tudo pode mudar em um instante. Um olhar, uma palavra, uma decisão, e tudo se transforma. A angústia que sinto não é apenas pela perda, mas pela inevitabilidade da mudança.

Os poetas muitas vezes falam sobre a noite como um tempo de introspecção e inspiração. Eles encontram beleza nas sombras, nas incertezas e nas perguntas sem respostas. Mas, para mim, a noite traz um peso que é difícil de suportar. A angústia se transforma em um companheiro incômodo, uma presença que não me deixa em paz. É como se as paredes do meu quarto se tornassem testemunhas silenciosas das minhas inquietações, absorvendo cada suspiro e cada lágrima que escorrega pelo rosto.

Certa vez, conversando com um amigo, compartilhei essa sensação. Ele, com a sabedoria de quem já viveu muitas noites insones, me disse que a angústia é, muitas vezes, um sinal de que estamos vivos. “É a nossa alma pedindo para ser ouvida”, ele disse. “Quando a noite chega, somos forçados a confrontar o que está dentro de nós. A saudade, a dor, a alegria – tudo isso faz parte da experiência humana.” Suas palavras ressoaram em mim como um refrão familiar, mas, àquela altura, eu ainda lutava para aceitar essa verdade.

Com o tempo, comecei a ver a angústia sob uma nova luz. Ela não era apenas um fardo; era também uma oportunidade de reflexão. A cada noite que passava, eu me permitia sentir, mesmo que isso significasse mergulhar em memórias dolorosas. Cada sombra se tornava uma chance de entender melhor a mim mesmo e ao que havia perdido. Descobri que a saudade não era uma inimiga, mas uma parte intrínseca do amor. Amar significa se abrir para a possibilidade da perda, e a saudade é um tributo a isso.

As noites se tornaram um espaço de aprendizado. Comecei a escrever. As palavras fluíam como um rio, levando com elas a dor e a angústia. As páginas se tornaram um refúgio, um lugar onde eu poderia colocar em palavras o que sentia. Escrevi sobre as pessoas que amei, sobre os momentos que me marcaram e sobre as lições que aprendi ao longo do caminho. O ato de escrever transformou a angústia em criação, e a saudade em arte.

Agora, quando a noite chega e a angústia tenta me invadir, respiro fundo e lembro-me de que essas sombras fazem parte da vida. Elas me lembram que sou humano, que sou capaz de amar e de sentir profundamente. Em vez de lutar contra a angústia, aprendi a acolhê-la. É um convite para explorar meu interior, para entender que cada emoção, mesmo as mais desafiadoras, são parte do que significa viver plenamente.

E assim, na quietude da noite, quando as estrelas brilham como testemunhas silenciosas, eu me permito sentir. As sombras podem ser intimidadoras, mas também são belas. Elas contam histórias de amor, de perda e de crescimento. A angústia, com seu peso, é uma amiga difícil, mas leal, que me lembra que a vida é um mosaico de experiências, cada uma contribuindo para a tapeçaria complexa que sou.

No final, percebo que as noites não são apenas momentos de solidão, mas oportunidades para encontrar significado nas sombras e nas saudades. E, enquanto a angústia me invade, eu a abraço, sabendo que ela é parte de minha jornada, uma parte que me ajuda a lembrar que, apesar de tudo, estou vivo.

 

           

 


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