A ANGÚSTIA DA NOITE
José Feldman
TROVA DE WANDA DE PAULA MOURTHÉ
Esta angústia indefinida,
que sempre à noite me invade
são sombras próprias da vida
ou disfarces da saudade?
Sempre que a noite se aproxima, uma sensação estranha
começa a se instalar em meu peito. É uma angústia indefinida, como um sussurro
distante que se transforma em grito à medida que a escuridão se intensifica. As
luzes da cidade, que durante o dia vibram em cores e movimento, agora se tornam
sombras longas e inquietantes. O dia, com suas distrações e compromissos,
parece uma lembrança distante, e o silêncio da noite traz à tona tudo o que
tentei esconder.
Às vezes, me pergunto se essa angústia é apenas uma parte
da vida. São sombras próprias da existência humana, aquelas que vêm à tona
quando nos encontramos sozinhos, com nossos pensamentos e medos? Ou seriam, na
verdade, disfarces da saudade, vestígios de algo ou alguém que deixamos para
trás? Essas questões dançam em minha mente enquanto a noite avança, como
espectros que se recusam a se dissipar.
A saudade é uma palavra que carrega um peso imenso. Não se
trata apenas de sentir falta de alguém; é uma mistura de amor, nostalgia e dor,
um sentimento que se entranha nas fibras da nossa alma. É como um perfume que
se espalha pelo ar, lembrando-nos de momentos passados, de risos compartilhados
e lágrimas derramadas. Às vezes, a saudade aparece na forma de memórias
felizes, outras vezes, como um eco triste de algo que não pode ser recuperado.
Na calada da noite, as sombras parecem se agigantar.
Lembro-me de pessoas que passaram pela minha vida, de amores que se foram e de
sonhos que não se realizaram. A escuridão se torna um espaço fértil para a
reflexão, mas também para a dor. É nesse momento que percebo como a vida é
efêmera, como tudo pode mudar em um instante. Um olhar, uma palavra, uma
decisão, e tudo se transforma. A angústia que sinto não é apenas pela perda,
mas pela inevitabilidade da mudança.
Os poetas muitas vezes falam sobre a noite como um tempo de
introspecção e inspiração. Eles encontram beleza nas sombras, nas incertezas e
nas perguntas sem respostas. Mas, para mim, a noite traz um peso que é difícil
de suportar. A angústia se transforma em um companheiro incômodo, uma presença
que não me deixa em paz. É como se as paredes do meu quarto se tornassem
testemunhas silenciosas das minhas inquietações, absorvendo cada suspiro e cada
lágrima que escorrega pelo rosto.
Certa vez, conversando com um amigo, compartilhei essa
sensação. Ele, com a sabedoria de quem já viveu muitas noites insones, me disse
que a angústia é, muitas vezes, um sinal de que estamos vivos. “É a nossa alma
pedindo para ser ouvida”, ele disse. “Quando a noite chega, somos forçados a
confrontar o que está dentro de nós. A saudade, a dor, a alegria – tudo isso
faz parte da experiência humana.” Suas palavras ressoaram em mim como um refrão
familiar, mas, àquela altura, eu ainda lutava para aceitar essa verdade.
Com o tempo, comecei a ver a angústia sob uma nova luz. Ela
não era apenas um fardo; era também uma oportunidade de reflexão. A cada noite
que passava, eu me permitia sentir, mesmo que isso significasse mergulhar em
memórias dolorosas. Cada sombra se tornava uma chance de entender melhor a mim
mesmo e ao que havia perdido. Descobri que a saudade não era uma inimiga, mas
uma parte intrínseca do amor. Amar significa se abrir para a possibilidade da
perda, e a saudade é um tributo a isso.
As noites se tornaram um espaço de aprendizado. Comecei a
escrever. As palavras fluíam como um rio, levando com elas a dor e a angústia.
As páginas se tornaram um refúgio, um lugar onde eu poderia colocar em palavras
o que sentia. Escrevi sobre as pessoas que amei, sobre os momentos que me
marcaram e sobre as lições que aprendi ao longo do caminho. O ato de escrever
transformou a angústia em criação, e a saudade em arte.
Agora, quando a noite chega e a angústia tenta me invadir,
respiro fundo e lembro-me de que essas sombras fazem parte da vida. Elas me
lembram que sou humano, que sou capaz de amar e de sentir profundamente. Em vez
de lutar contra a angústia, aprendi a acolhê-la. É um convite para explorar meu
interior, para entender que cada emoção, mesmo as mais desafiadoras, são parte
do que significa viver plenamente.
E assim, na quietude da noite, quando as estrelas brilham
como testemunhas silenciosas, eu me permito sentir. As sombras podem ser
intimidadoras, mas também são belas. Elas contam histórias de amor, de perda e
de crescimento. A angústia, com seu peso, é uma amiga difícil, mas leal, que me
lembra que a vida é um mosaico de experiências, cada uma contribuindo para a
tapeçaria complexa que sou.
No final, percebo que as noites não são apenas momentos de
solidão, mas oportunidades para encontrar significado nas sombras e nas
saudades. E, enquanto a angústia me invade, eu a abraço, sabendo que ela é
parte de minha jornada, uma parte que me ajuda a lembrar que, apesar de tudo,
estou vivo.

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