segunda-feira, 30 de março de 2026

O REACENDER DA LUZ - JOSÉ FELDMAN

 



O REACENDER DA LUZ

José Feldman


TROVA DE VANDA FAGUNDES QUEIROZ


Onde a sombra cobre e embaça

o sol que anima e clareia,

eu quisera ser quem passa

e reacende a luz alheia.



Na pequena cidade de Luziana, onde as colinas se erguiam como guardiãs da tranquilidade, a vida seguia seu curso em um ritmo sereno. As manhãs eram banhadas pela luz do sol, e as tardes se estendiam suavemente, proporcionando um cenário perfeito para os encontros e as trocas de sorrisos. No entanto, haviam cantos da cidade onde a sombra parecia persistir, onde as pessoas carregavam fardos invisíveis que embaçavam o brilho de suas almas.

Em um desses lugares, morava Sofia. Desde jovem, ela sempre fora uma observadora atenta ao mundo a seu redor. Com um coração generoso, se preocupava com as pessoas que encontrava em seu caminho. Contudo, havia uma tristeza que a acompanhava: ela via muitos dos seus vizinhos lutando contra a escuridão que se instalava em suas vidas. A dor da solidão, a pressão das dificuldades financeiras e as desilusões amorosas se acumulavam como nuvens escuras sobre suas cabeças.

Sofia trabalhava em uma pequena biblioteca da cidade, um lugar que sempre fora seu refúgio. Entre prateleiras repletas de livros, se sentia em casa, cercada por histórias que a transportavam para outras realidades. Mas, ao mesmo tempo, a biblioteca era um espaço de reflexão sobre o que realmente acontecia fora de suas paredes. Muitas vezes, via pessoas entrarem com os olhos pesados, como se carregassem o peso do mundo.

Certa manhã, enquanto organizava alguns livros, percebeu uma mulher sentada em uma mesa, com o olhar perdido nas páginas de um romance. Era Mara, uma vizinha que sempre fora gentil, mas que ultimamente parecia ter se afastado. Aproximou-se, sentando-se à sua frente. 

“Olá, Mara. Está tudo bem?” 

A mulher ergueu os olhos, e Sofia viu a sombra da tristeza refletida em seu olhar.

“Não sei. Às vezes, sinto que tudo está muito pesado. A vida tem sido difícil e parece que a luz simplesmente se apagou”, respondeu, com a voz embargada. 

Sofia sentiu uma dor no coração, queria fazer algo, reacender a luz que parecia ter se apagado.

Com o passar dos dias, Sofia decidiu que não poderia ficar apenas observando. Queria ser a pessoa que passava e reacendia a luz alheia. Começou a organizar encontros na biblioteca, convidando os moradores a se reunirem e compartilharem histórias, risadas e até mesmo tristezas. Criou um espaço acolhedor, onde todos se sentissem à vontade para se expressar.

No primeiro encontro, muitos compareceram, e o ambiente logo se encheu de vozes e risadas. Sofia percebeu que, ao compartilhar suas experiências, as pessoas começavam a se abrir e a se conectar. Mara estava lá, e ao ver a alegria tomando conta do ambiente, seu sorriso começou a ressurgir lentamente. A luz que antes estava embaçada começou a brilhar novamente.

Com o passar do tempo, os encontros se tornaram uma tradição na biblioteca. As pessoas trouxeram suas histórias, suas lutas e suas vitórias. Entre contos de superação, surgiram amizades inesperadas. Sofia percebeu que, ao acolher os outros, também estava reacendendo sua própria luz. O ambiente que antes era pesado agora estava repleto de esperança e solidariedade.

Certa tarde, enquanto organizava mais um encontro, Sofia decidiu que era hora de dar um passo adiante. Convidou um escritor local para se apresentar, alguém que sempre trouxe uma nova perspectiva sobre a vida. O evento atraiu uma multidão, e as histórias contadas pelo poeta ecoaram nos corações de todos os presentes. Mara foi uma das mais emocionadas, e ao final da apresentação, lágrimas de alegria escorriam por seu rosto.

“Obrigada, Sofia”, disse ela, com a voz cheia de emoção. “Você realmente reacendeu a luz em mim. Sinto-me mais viva agora.” 

As palavras dela foram um bálsamo para o coração de Sofia, que percebeu que seu esforço estava valendo a pena.

A cidade de Luziana começou a se transformar. As sombras que antes cobriam certas áreas foram sendo dissipadas pela luz da empatia e da amizade. As pessoas começaram a se ajudar, a partilhar o que tinham e a construir uma comunidade mais unida. Sofia viu que seu desejo de reacender a luz alheia havia se espalhado como um fogo, iluminando vidas e corações.

Certa noite, ao olhar para o céu estrelado, refletiu sobre sua jornada. Entendeu que, mesmo nas horas mais sombrias, sempre haveria espaço para a luz. Ao abraçar a dor e a beleza da vida, ela havia encontrado um propósito. Ela quisera ser quem passa e reacende a luz alheia, mas, na verdade, havia se tornado um farol de esperança para muitos.

E assim, em Luziana, a vida continuou a brilhar. Cada gesto de bondade, cada palavra de apoio se tornaram parte de uma sinfonia harmoniosa, onde a sombra não tinha mais poder. “Pois onde a sombra cobre e embaça, o sol que anima e clareia sempre poderá ser encontrado na generosidade de quem se importa, lembrando-nos de que todos podemos ser a luz na vida de alguém.”

 

 


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