VISITA SACANA
José Feldman
TROVA
Chega a causar agonia,
uma visita sacana,
que vem pra passar um dia,
passa mais de uma semana!
ADEMAR MACEDO (1951 - 2013)
Era uma vez a pacata residência de Juvenal e Lurdes, um
casal que valorizava o silêncio e o café coado na hora. A paz reinava até que,
numa terça-feira chuvosa, um Fiat Uno 2002 estacionou na calçada. Dele saltou o
Tio Genivaldo, carregando uma mala de couro descascada e um sorriso que ocupava
todo o rosto.
— Ô de casa! — gritou Genivaldo, entrando sem bater. — Só
vim entregar um queijo pra Lurdes e já vou embora! Juro por Deus que é coisa de
um dia só, tenho que cuidar das minhas galinhas lá em Xerém.
O "um dia" começou com Genivaldo ocupando o sofá.
Na quarta-feira, ele descobriu que o chuveiro da suíte era "uma
maravilha" e que a Wi-Fi do Juvenal era "mais rápida que
pensamento". Na quinta, o queijo que ele trouxe — e que já estava com um
cheiro suspeito — foi devorado pelo próprio Genivaldo no café da manhã, junto
com meio quilo de mortadela que Lurdes guardava para o jantar.
A agonia de Juvenal começou a subir pelas paredes quando,
na sexta-feira, Genivaldo apareceu na sala de cueca samba-canção, assistindo ao
programa de fofoca no canal da TV.
— Genivaldo, meu querido — tentou Juvenal, com a voz
tremendo de educação — as galinhas em Xerém não estão com fome, não?
— Que nada, Juvenal! Pedi pro vizinho jogar um milho. A
hospitalidade de vocês é tão boa que eu até cancelei o ônibus de volta. Vou
ficar pro churrasco de domingo!
O problema é que o domingo passou, a segunda chegou, e
Genivaldo já estava agindo como o síndico do imóvel. Ele começou a dar palpites
na cor da parede e sugeriu que Lurdes trocasse o amaciante das roupas dele,
pois o atual "dava coceira nas dobrinhas".
Na quarta-feira seguinte — completando oito dias de
"um dia só" — a casa estava em estado de sítio. Juvenal e Lurdes
sussurravam na cozinha como conspiradores.
— Ele instalou uma rede na varanda, Juvenal! — choramingou
Lurdes. — Ele disse que a luz da manhã é boa pra tratar a sinusite!
— Calma, mulher. Tenho um plano.
Naquela noite, Juvenal desligou o disjuntor da casa e
começou a tossir perto de Genivaldo, dizendo que a casa estava com uma
infestação de cupins carnívoros e que a vigilância sanitária chegaria ao
amanhecer para dedetizar tudo com um gás tóxico, porém "muito
eficiente".
Bastou uma menção a "gás tóxico" para Genivaldo
pular da rede. Em menos de dez minutos, a mala de couro estava fechada.
— Olha, gente, adoro vocês, mas lembrei que esqueci o ferro
de passar ligado lá em Xerém! — mentiu o Tio, saindo em disparada para o Fiat
Uno sob o luar.
O silêncio finalmente voltou. Juvenal suspirou, sentou no
sofá agora livre e recitou para a esposa:
— Viu, Lurdes? Visita é igual a peixe: depois de três dias,
começa a cheirar mal. Mas essa aí já estava virando bacalhau!







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