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Eco da Montanha e o Cálice do Silêncio
Aproximem-se, ó buscadores da
luz, pois esta história é como o desabrochar de uma rosa no meio de um deserto
de pedras. Mustafá vos contará sobre uma mulher cujo grito era tão alto que ela
se tornou muda para o mundo.
Nas terras de Sham (Síria), vivia
uma mulher chamada Amina. Ela era uma poetisa famosa, mas sua alma era habitada
por uma tempestade constante. Amina falava sem parar; suas palavras eram como
flechas lançadas ao vento, buscando preencher o vazio de sua solidão. Ela
reclamava do destino, gritava ordens aos servos e debatia com os sábios até que
sua voz, de tanto ser usada como arma, simplesmente se apagou.
Amina tornou-se muda. Nenhum
médico de Bagdá ou alquimista do Egito conseguiu devolver-lhe o som.
Desesperada, ela ouviu falar do País das Pessoas Surdas e da Shajarat al-Hikmah
(Árvore da Sabedoria) que lá crescia. Ela viajou por meses, carregando no peito
uma angústia que pesava mais que suas provisões.
Ao chegar ao reino do silêncio,
Amina tentou gritar sua dor, mas apenas o vento respondeu. Ela viu as mãos dos
habitantes tecendo conversas no ar, como se estivessem bordando a própria vida.
Um dia, exausta de tentar se fazer entender, ela sentou-se à beira de um riacho
que corria sem murmúrio.
Um ancião de olhos profundos
aproximou-se e entregou-lhe um cálice vazio. Ele fez um sinal:
— “Encha-o com o que você ouve”.
Amina olhou em volta, confusa.
Não havia som. Mas, ao fechar os olhos e forçar-se à serenidade, ela começou a
ouvir o que antes era abafado pelo seu próprio falatório.
Ela ouviu o crescimento da grama,
o bater do coração de um pássaro e, finalmente, ouviu a voz de sua própria alma
pedindo perdão por ter sido tão negligenciada. Amina chorou lágrimas de
arrependimento. Naquele instante, ela compreendeu que sua mudez não era um
castigo, mas uma misericórdia de Alá para que ela finalmente parasse de falar e
começasse a escutar.
Quando o cálice de sua paciência
transbordou, ela abriu a boca e uma única palavra saiu, suave como o mel:
'Alhamdulillah' (Louvado seja Deus). Sua voz voltara, mas não era mais a voz
estridente de antes; era um som carregado de luz.
Mustafá acariciou sua túnica e
olhou para o Sheik com um sorriso sábio:
"A moral desta história, ó
Nobre Senhor, é que muitas vezes perdemos nossa força porque a desperdiçamos em
ruídos inúteis. A verdadeira voz de um homem só encontra seu tom mais puro
quando ele aprende a silenciar o barulho do seu próprio ego. Quem não sabe
calar, jamais saberá realmente o que dizer, pois as palavras mais poderosas
nascem no solo fértil do silêncio."
(FONTE "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)

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