quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O ECO DA MONTANHA E O CÁLICE DO SILENCIO - JOSÉ FELDMAN

 





O Eco da Montanha e o Cálice do Silêncio


José Feldman

  

Aproximem-se, ó buscadores da luz, pois esta história é como o desabrochar de uma rosa no meio de um deserto de pedras. Mustafá vos contará sobre uma mulher cujo grito era tão alto que ela se tornou muda para o mundo.

 

Nas terras de Sham (Síria), vivia uma mulher chamada Amina. Ela era uma poetisa famosa, mas sua alma era habitada por uma tempestade constante. Amina falava sem parar; suas palavras eram como flechas lançadas ao vento, buscando preencher o vazio de sua solidão. Ela reclamava do destino, gritava ordens aos servos e debatia com os sábios até que sua voz, de tanto ser usada como arma, simplesmente se apagou.

 

Amina tornou-se muda. Nenhum médico de Bagdá ou alquimista do Egito conseguiu devolver-lhe o som. Desesperada, ela ouviu falar do País das Pessoas Surdas e da Shajarat al-Hikmah (Árvore da Sabedoria) que lá crescia. Ela viajou por meses, carregando no peito uma angústia que pesava mais que suas provisões.

 

Ao chegar ao reino do silêncio, Amina tentou gritar sua dor, mas apenas o vento respondeu. Ela viu as mãos dos habitantes tecendo conversas no ar, como se estivessem bordando a própria vida. Um dia, exausta de tentar se fazer entender, ela sentou-se à beira de um riacho que corria sem murmúrio.

 

Um ancião de olhos profundos aproximou-se e entregou-lhe um cálice vazio. Ele fez um sinal: 

 

— “Encha-o com o que você ouve”. 

 

Amina olhou em volta, confusa. Não havia som. Mas, ao fechar os olhos e forçar-se à serenidade, ela começou a ouvir o que antes era abafado pelo seu próprio falatório.

 

Ela ouviu o crescimento da grama, o bater do coração de um pássaro e, finalmente, ouviu a voz de sua própria alma pedindo perdão por ter sido tão negligenciada. Amina chorou lágrimas de arrependimento. Naquele instante, ela compreendeu que sua mudez não era um castigo, mas uma misericórdia de Alá para que ela finalmente parasse de falar e começasse a escutar.

 

Quando o cálice de sua paciência transbordou, ela abriu a boca e uma única palavra saiu, suave como o mel: 'Alhamdulillah' (Louvado seja Deus). Sua voz voltara, mas não era mais a voz estridente de antes; era um som carregado de luz.

 

Mustafá acariciou sua túnica e olhou para o Sheik com um sorriso sábio:

 

"A moral desta história, ó Nobre Senhor, é que muitas vezes perdemos nossa força porque a desperdiçamos em ruídos inúteis. A verdadeira voz de um homem só encontra seu tom mais puro quando ele aprende a silenciar o barulho do seu próprio ego. Quem não sabe calar, jamais saberá realmente o que dizer, pois as palavras mais poderosas nascem no solo fértil do silêncio."



(FONTE "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)


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