As
Mercadorias Invisíveis
Aproxime-se ainda mais, ó Sheik,
pois agora entro no terreno do mistério. No Mercado de Silêncio, as prateleiras
que os olhos mundanos veem como vazias estão, na verdade, repletas de milagres
para aqueles que purificaram sua visão.
Quando um homem atravessa o
tahara (ritual de purificação) e alcança o estado de ikhlas (sinceridade
absoluta), ele deixa de ver apenas tapetes e vasos. Ele começa a enxergar as
Mercadorias da Alma.
Dizem que, em certas bancas de
mármore branco, é possível encontrar o Frasco de Lágrimas de Gratidão. Não é um
objeto que se pegue com a mão, mas uma essência que o coração aspira. Quem a
'compra' — oferecendo em troca um momento de verdadeira humildade — recebe o
dom de nunca mais sentir amargura, pois seus olhos passam a ver a bênção em
cada grão de areia do deserto.
Há também o Tecido do Tempo
Perdido. Os puros de coração veem meadas de fios dourados que flutuam no ar. Ao
tocar esses fios em silêncio, o viajante recupera a sabedoria de todas as horas
que desperdiçou com palavras vãs ou raiva inútil. É como se o destino divino
permitisse que a alma se remendasse, tornando-se inteira novamente.
Vi uma vez um velho miskin
(humilde) parado diante de uma banca que parecia deserta. Ele estendeu as mãos
vazias e, de repente, seus dedos se fecharam sobre algo que brilhava como o
reflexo da lua na água. Era o Espelho da Própria Verdade. Nesse espelho invisível,
o homem não vê seu rosto, mas o estado de sua alma. Se a alma está limpa, o
espelho emite um calor que cura qualquer doença do corpo.
Mas a mercadoria mais rara, ó
Nobre Senhor, é o Sussurro do Arrependimento. É um pequeno vácuo de ar que,
quando 'adquirido', preenche o peito do homem com uma leveza tal que ele sente
que poderia caminhar sobre as nuvens. É o perdão de Alá tornado palpável
através do silêncio.
Essas mercadorias não têm preço
em ouro. Elas são trocadas por súplica silenciosa e pela renúncia ao barulho do
próprio orgulho. Quem sai de lá com as mãos aparentemente vazias é, na verdade,
o homem mais rico de toda a Mesopotâmia, pois leva consigo tesouros que os
ladrões não podem roubar e o tempo não pode corroer."
Mustafá suspirou, como se ainda
sentisse o peso sagrado daquelas riquezas invisíveis.
Escutai com o coração profundo, ó
nobres buscadores da luz, pois as prateleiras do Souq al-Samt (Mercado do
Silêncio) guardam o que nenhum dirham (moeda de prata) pode comprar.
A moral desta história, ó Sheik,
é que a verdadeira riqueza de um homem não é o que ele exibe em suas caravanas,
mas o que ele cultiva em sua alma quando ninguém o está vendo. Vivemos em um
mundo de ornamentos mundanos, onde corremos atrás de sedas que apodrecem e
ouros que escurecem, esquecendo-nos de que as mercadorias mais valiosas de Alá
são invisíveis aos olhos da ganância.
Somente aquele que passou pelo
tahara (ritual de purificação) do ego e alcançou o estado de ikhlas
(sinceridade absoluta) consegue enxergar a bênção nas pequenas coisas e a
sabedoria no tempo perdido. As joias da alma — a gratidão, o arrependimento e a
paz — são as únicas que atravessam o portal da morte. Quem sai do mercado com
as mãos vazias de objetos, mas o peito cheio de luz divina, é o verdadeiro
sultão de seu próprio destino.
(FONTE: "ECOS DO DESERTO", JOSÉ FELDMAN)

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