sábado, 23 de maio de 2026

MINHA INFÂNCIA ERA PANC* E EU NEM SABIA - J. MARCOS B.

 



MINHA INFÂNCIA ERA PANC* E EU NEM SABIA!  

J. Marcos B. (07/01/2022)

 

      Quando criança nunca compramos frutas como manga, caju, jaca, cajá, pitomba, goiaba, carambola, mamão... me considero sortudo, tive sorte em ter nascido em constante contato com a natureza. Não nasci enclausurado em um condomínio de luxo fechado conhecendo a fauna e a flora apenas pelos meios midiáticos disponíveis. Sim, tive sorte... 

    Não raro era acordar às 07h, tomar o café da manhã e logo em seguida se encontrar com os amigos que já tinham planos de ir pegar manga na mata. Isso quando era época de manga. Podíamos escolher qual tipo de manga íamos comer. Isso mesmo, a mais abundante era a manga espada, mas também tínhamos a manga rosa, a manga roxa, manguito, e algumas outras que não lembro o nome agora. Entre uma trilha e outra em busca das mangas dependendo do caminho escolhido, passávamos por alguns cajueiros e se tivesse algum caju maduro ia para o bucho. Muitas vezes nos contentamos com um maturi mesmo. Ao passarmos por alguma goiabeira ou pé de araçá (Psidium guineense Sw.) logo, imediatamente os mesmos eram vasculhados em busca de alguns desses frutos maduros. 

   Mais à frente alguns pés de ingá também vistoriados, mas as vagens de ingá não enchem o bucho igual as mangas e logo não perdíamos muito tempo não com essa fruta, era mais para adoçar o bico ou como o meu pai dizia: para tirar o zinabre da goela. O sol começava a esquentar, a temperatura começava a subir, mesmo ventando gostoso já sentíamos a presença do verão. Logo passamos por alguns pés de araticum fruto bem parecido com a graviola, mas nós o ignoramos, eles não eram o nosso foco, objetivo. Grandes pés de macaíba e alguns de nós não deixavam passar uma macaíba madura, outros não faziam questão. Pitomba logo a frente, mas não era época de pitomba. Jaqueiras com jaca mole e jaca dura, mas ou comíamos jaca ou íamos comer manga porque sabíamos que não era muito sábio comer os dois frutos juntos. Um pé de abacate, mas logo vimos que todos estavam ainda verdes. Trapiá, oiti, azeitona, coração de negro, dendê, fruta pão, jambo roxo, jambo rosa, tangerina, pitanga, cereja (Bunchosia Armeniaca), juá (Ziziphus Joazeiro), jenipapo (Genipa americana) não tinham por essas bandas, tudo isso eram para outras bandas. Em um trecho da trilha próximo de um olho d'água escutamos uma gia pimenta cantando... mas não estávamos atrás dela. Também passamos por alguns pés de taiobas (Xanthosoma sagittifolium) com suas folhas grandes e verde era bom lembrar onde tinha para na semana santa, na quaresma preparar com leite de coco quando não tivéssemos bredo (Amaranthus viridis L).

Um grito alto de dor! Desatento, o amigo que estava indo na frente não viu um pé de urtiga branca a beira do caminho que roçou uma de suas folhas em sua canela o suficiente para o grito de dor. Isso serviu de alerta para os demais que caminhavam logo atrás. Era sempre assim, quando um se lascava todinho isso servia como alerta, como ensinamento para o resto do bando. Algo correu no mato chamando a nossa atenção! Era um teju (Tupinambis merianae) que percebeu nossa presença e logo debandou-se por entre o mato fechado. Os demais não perceberam, mas eu vi um pé de aroeira - muito bom para inflamações - e logo mais adiante um pé de mutamba (Guazuma ulmifolia), sua seiva tem uso cosmético, é usada para alisar o cabelo. Vi um formigueiro, mas não estava saindo tanajura (Atta sexdens rubropilosa) se tivesse, seríamos obrigados a fazer um pit stop para comer algumas in natura como era de costume. Enfim, chegamos depois de quase duas horas de caminhada mata adentro e já tinha muita manga no chão derrubada pelo vento da noite passada. Era só pegar e limpar a areia e ignorar o machucadinho e mandar pra dentro. Alguns já iam preparados com algumas sacolas plásticas no bolso do calção, outros tiravam a camisa e faziam ela de sacola para levar algumas mangas para sua casa. Depois de todos satisfeitos com os buchos cheios de mangas - muitas vezes eram tantas que nem precisava subir nas mangueiras, nem jogar pedras para derrubar as mangas maduras - e muitas outras em nossas sacolas, fazíamos o caminho de volta. Isso já estava batendo quase 11h no relógio e o calor já era de rachar o coco. Voltamos para nossas casas para deixarmos os frutos colhidos, mas já tínhamos combinado de nos encontrarmos quase que de imediato todos na rua para irmos tomar banho de rio antes do sangue esfriar e o suor da testa secar. Então, mais ou menos meio-dia estávamos pulando na água gelada do rio.

Nesse meio tempo ao trilharmos o caminho, que iria dar no rio encontrávamos com mais alguns outros amigos que ficaram sabendo que tínhamos ido pegar manga e ficaram injuriados por não terem ido junto e nos xingavam de traíra (Hoplias malabaricus) por terem perdido a aventura kkk. Depois de uns trinta ou quarenta minutos de banho de rio voltamos para nossas casas para almoçar porque a tarde já tinha outras coisas programadas para fazermos juntos... Sim, tive sorte em não ter nascido e me criado enclausurado em um condomínio fechado longe do contato direto com a natureza. Sim, tenho sorte de ter todas essas lembranças vivas ainda na mente. Sim, tive sorte. 

 

* - PANC - Plantas Alimentícias Não Convencionais

 


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