MAIS UM ADEUS
José Feldman
TROVA DE ELIANA PALMA
Adeus com dores combina,
adeus inspira piedade.
Adeus de amor, triste sina
de quem vive de saudade!
O sol estava se pondo em Maringá, tingindo o céu de laranja
e rosa, como se o próprio dia estivesse se despindo para dar lugar à noite. As
ruas começavam a se esvaziar, e o movimento frenético do centro da cidade
diminuía, dando espaço a um silêncio que parecia carregar a melancolia de
tantos “adeus” que haviam sido ditos ao longo dos anos. Em cada esquina, um
pedaço de história, um resquício de amor ou amizade, ecoava na memória dos que
por ali passavam.
Naquela tarde, Maria, uma jovem de cabelos cacheados e
olhos brilhantes, caminhava pela Avenida XV de Novembro. Seu coração pulsava
descompassado. Ela sabia que estava prestes a se despedir de Humberto, seu
primeiro amor, que decidira se mudar para outra cidade em busca de novas
oportunidades.
O anúncio da partida havia caído sobre ela como uma
tempestade de verão: repentino e avassalador.
"Quando você vai embora mesmo?", ela perguntou,
tentando esconder a tristeza na voz.
Humberto, com um sorriso nostálgico, respondeu que partiria
na manhã seguinte. O que era uma nova chance para ele, tornava-se um abismo
para ela. O amor, que havia sido uma doce melodia, agora era um lamento que
ecoava pelas ruas de Maringá.
Enquanto Maria caminhava, lembranças dançavam em sua mente.
O primeiro encontro no Parque do Ingá, com suas árvores majestosas e o perfume
das flores. As tardes passadas em um banco à sombra, onde eles trocavam
promessas e risadas, como se o mundo ao redor não existisse. E agora, todas
aquelas memórias pareciam pesadas, como se cada risada carregasse um peso
insuportável.
O "adeus" que se aproximava era uma verdadeira
sina. Maria sentia o coração apertar ao pensar nas despedidas que já havia
vivido — a partida do pai para o exterior, a saída da melhor amiga que se
mudara para a capital, as idas e vindas da vida. Cada adeus trazia consigo um
rastro de saudade, e ela se perguntava se um dia aprenderia a lidar com isso.
Na esquina da Avenida XV com a Avenida São Paulo, um grupo
de amigos se despedia. Riam e se abraçavam, mas Maria percebia que, por trás
das risadas, havia um fundo de tristeza. O “adeus” sempre vinha acompanhado de
uma sombra. "Adeus com dores combina, adeus inspira piedade", pensou.
As despedidas em Maringá eram como melodias que se repetiam, sempre com a mesma
harmonia triste.
Com o coração pesado, ela decidiu encontrar Humberto uma
última vez. Dirigiu-se ao café onde costumavam ir, um pequeno lugar
aconchegante, com mesas de madeira e um cheiro inconfundível de café fresco. Ao
entrar, avistou Humberto na mesa do canto, olhando pela janela. Ele parecia
distante, perdido em pensamentos, e Maria percebeu que ele também estava
sentindo o peso da partida.
— Oi, você veio! — Ele sorriu, mas a alegria não alcançou
seus olhos.
— Precisamos conversar — disse Maria, sentando-se à sua
frente.
O clima estava carregado, e as palavras pareciam não querer
sair. O garçom trouxe os pedidos, mas o café esfriou enquanto eles trocavam
olhares que falavam mais do que mil palavras.
— Eu não sei como vou lidar com isso — ela finalmente
desabafou. — Vai ser tão difícil te ver partir.
— Eu também não sei, Maria. É como se estivéssemos vivendo
um sonho e agora temos que acordar. — ele hesitou. — Mas isso não significa que
o que tivemos não foi real.
A conversa fluiu entre risos nervosos,
lembranças e promessas de que tudo ficaria
bem. Mas, no fundo, ambos sabiam que a
vida
os levaria por caminhos diferentes. O café
esvaziou-se em suas xícaras enquanto as
horas passavam, e o sol começava a se
esconder, deixando uma sombra sobre a
cidade.
Quando finalmente se levantaram para sair, Maria sentiu que
aquele momento se tornaria mais uma memória, mais um “adeus” a ser guardado na
caixa de saudades. Eles caminharam lado a lado, sem saber se deveriam se
abraçar ou apenas se despedir com um aceno. O medo da dor os impedia de se
aproximar.
Na porta do café, Humberto parou e, em um gesto inesperado,
puxou Maria para perto. O abraço foi apertado, cheio de sentimentos não ditos.
Era um “adeus” que transbordava dor, mas também gratidão. Um “adeus” que, mesmo
triste, celebrava o que haviam vivido juntos.
— Adeus, Maria. Cuide-se! — ele disse, com a voz embargada.
— Adeus. E não se esqueça de mim — respondeu ela, enquanto
as lágrimas escorriam pelo rosto.
O “adeus” ecoou, pesado e doce como um canto de despedida,
deixando no ar a promessa de que, apesar da distância, as memórias
permaneceriam.
Enquanto ele se afastava, Maria ficou ali, observando o
homem que um dia fora seu amor. O céu estava agora escuro, e as luzes da cidade
começavam a brilhar. Em cada ponto luminoso, ela via uma lembrança, uma risada,
um abraço.
E, assim, em Maringá, onde os adeuses são sempre acompanhados
de saudade, Maria aprendeu que a vida segue, mesmo entre dores e despedidas. O
amor se transforma, mas nunca desaparece completamente. E, ao final, cada
“adeus” traz consigo a semente de um novo “olá”, mesmo que, por ora, a saudade
seja a única companhia.

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