sábado, 18 de abril de 2026

À SOMBRA DO LAGO - JOSÉ FELDMAN

 




À SOMBRA DO LAGO

José Feldman


TROVA DE EDY SOARES


Lembrança doce e singela

enchendo o peito de afago:

eu e meu pai na pinguela

jogando pedras no lago...



 

Na pequena cidade de Fragatópolis, havia um lago que parecia ter saído de um conto de fadas. Suas águas eram calmas e refletiam o céu azul em dias ensolarados, enquanto as árvores em volta dançavam suavemente ao vento. Era um lugar mágico, onde as crianças corriam livres e as memórias se formavam como nuvens no céu. Para mim, o lago era mais do que um simples corpo d’água; era um espaço sagrado, um refúgio de lembranças que guardava momentos preciosos ao lado do meu pai.

Certa tarde de verão, quando eu ainda era uma criança, meu pai decidiu que era hora de me levar até a pinguela, uma pequena ponte de madeira que se estendia sobre o lago. Ele sempre dizia que aquele era o melhor lugar para jogar pedras na água e ver as ondas se espalharem como um abraço de boas vindas. Com um sorriso no rosto, peguei sua mão e seguimos juntos pela trilha que levava ao nosso destino.

A pinguela, com suas tábuas desgastadas pelo tempo, rangia sob nossos pés, mas para mim era um som familiar, como uma canção que só nós dois conhecíamos. Meu pai, com seu chapéu de palha e seu jeito despreocupado, era a personificação da alegria. Ele me ensinou a escolher as pedras mais lisas, aquelas que pulavam na superfície da água. “Olhe bem, meu filho. A pedra precisa ter o formato certo. E você deve arremessá-la com confiança”, ele dizia, enquanto eu o observava com admiração.

Nosso ritual de jogar pedras era mais do que uma simples brincadeira; era um momento de conexão. Cada pedra que lançávamos parecia levar consigo um pedaço de nossas preocupações e medos. Eu me lembrava de como meu pai ria quando uma pedra pulava várias vezes antes de se afundar. “Veja! Essa foi uma campeã!”, ele exclamava, e eu ria junto, sentindo a felicidade vibrar em meu peito.

Naquele dia, enquanto jogávamos pedras, ele começou a contar histórias de sua infância. Falou sobre os verões que passara pescando com seu pai e como ele mesmo tinha aprendido a escolher as melhores pedras. A cada risada, a cada história compartilhada, meu coração se enchia de afeto. A presença do meu pai era um abrigo seguro, e nada parecia mais importante do que aqueles momentos simples à beira do lago.

Com o passar do tempo, fui crescendo, e as responsabilidades da vida começaram a se acumular. A escola, os amigos, e mais tarde, o trabalho, foram ocupando meu tempo e minha mente. As visitas ao lago tornaram-se menos frequentes, e a pinguela, uma doce lembrança da infância, foi se tornando apenas uma imagem distante. Mas, em meu coração, eu sabia que aquelas memórias estavam guardadas como um tesouro inestimável.

Anos depois, ao receber a notícia de que meu pai não estava bem, uma onda de nostalgia me invadiu. Eu me lembrei da pinguela, das pedras e das risadas. Naquele momento, percebi que precisava voltar àquele lugar que tanto significava para nós. Assim que pude, organizei uma viagem para Ribeirão Verde.

Chegando lá, encontrei o lago como eu o lembrava, mas a pinguela parecia ter envelhecido. As tábuas estavam mais desgastadas, e o vento parecia sussurrar histórias do passado. Com o coração apertado, me aproximei da beira da água e, por um instante, fechei os olhos. As memórias vieram à tona como se eu estivesse lá novamente, lançando pedras com meu pai, rindo e aprendendo sobre a vida.

Sentei-me na beira do lago, e as lágrimas escorriam pelo meu rosto. Eu sabia que precisava de um momento de conexão, mesmo que meu pai não estivesse fisicamente presente. Compreendi que as memórias que guardava eram o verdadeiro legado dele. Com um gesto automático, peguei algumas pedras do chão e comecei a jogá-las na água, como fazíamos antes. Cada arremesso trazia de volta um fragmento do passado, um eco das risadas e das lições.

Neste reencontro com o lago, percebi que, embora meu pai não estivesse mais ao meu lado, ele continuava vivo nas lembranças doces e singelas que preenchiam meu peito. Ele havia me ensinado a importância de valorizar os momentos simples, de encontrar alegria nas pequenas coisas, e naquele dia, ao jogar pedras, eu sentia sua presença como se ele estivesse me guiando novamente.

Enquanto o sol se punha no horizonte, tingindo o céu de laranja e rosa, percebi que a vida era feita de ciclos. Embora a dor da ausência fosse aguda, as lembranças eram um bálsamo que aliviava a saudade. Com cada pedra que lançava, eu dizia um silencioso “obrigado” ao meu pai, por todas as lições e pelos momentos que compartilhamos.

Aquela tarde no lago me trouxe paz. Compreendi que a pinguela, as pedras e o lago eram mais do que apenas um cenário; eram símbolos da relação que tivemos e do amor que ainda vive em mim. Ao sair daquele lugar, levei comigo uma nova certeza: mesmo na ausência física, as memórias permanecem vivas, e o amor nunca se apaga.

E assim, ao voltar para casa, meu coração estava mais leve. Eu sabia que, sempre que precisasse, poderia retornar àquela pinguela, onde as lembranças doces e singelas enchiam meu peito de afago, lembrando-me de que, mesmo na solidão, nunca estamos realmente sozinhos.


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