A ESPERANÇA DA RESSURREIÇÃO
À LUZ DA ESCATOLOGIA DE PAULO
Arides Leite Santos
Paulo escreveu aos crentes da igreja de Corinto para
lembrar o autêntico Evangelho que lhes havia pregado, deixando claro que não
fora outro senão este: segundo as Escrituras, Cristo morreu pelos nossos
pecados, foi sepultado e ressuscitou no terceiro dia. Depois de ressuscitado,
apareceu a Pedro e depois aos doze apóstolos. Depois, foi visto por mais de
quinhentos irmãos de uma vez, depois, foi visto por Tiago, e depois, por todos
os apóstolos. Por último, depois de todos, foi visto também por ele (1Co 15.
3-8).
Entre aqueles homens e mulheres que haviam crido no
Evangelho através da pregação de Paulo, alguns parecem ter voltado atrás,
afirmando que não há ressurreição de mortos (1Co 15.12). Ao saber disso, Paulo
intentou restabelecer a fé que lhes havia inculcado, reafirmando “que de fato
Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem”
(1Co 15. 20).
Conforme Kent S. Knutson (2003, p. 65/66), os eventos
ocorridos depois da morte de Jesus foram algo proveniente de Deus de tal
maneira que a nossa história é afetada. Porém, essa compreensão pertence ao
campo da fé, e como tal é inassimilável por aqueles que se orientam na vida a
partir de outra perspectiva.
A pregação de Paulo a respeito da ressurreição, se
corretamente apreendida, interpretada e ministrada, tem potencial para
restabelecer a genuína fé e fortalecer a nossa paciência, enquanto aguardamos
“a redenção do nosso corpo” (Rm 8. 23). Desde quando a ressurreição de Jesus
aconteceu na história uma vez para sempre, inaugurou-se um tempo carregado de
esperança escatológica. As Escrituras enunciam a promessa de que a vida do
crente não será destruída pela morte. A certeza da vitória para os que “morrem
em Cristo” é deduzida do fato acontecido de que o poder da morte já foi vencido
pelo poder que ressuscitou a Jesus.
Segundo Moltmann (2005, p. 354/355), “o centro dos
escritos neotestamentários é o futuro do Cristo ressuscitado que eles anunciam,
prenunciam e prometem”. Para ele, a compreensão existencial, mundana, da
mensagem contida naqueles escritos requer um “olhar na mesma direção em que
eles olham”. As Escrituras “são testemunhos históricos abertos ao futuro, assim
como são abertas ao futuro todas as promessas”.
A revelação de Deus no evento da promessa, uma vez
compreendida pela missão da esperança, é capaz de transformar a realidade
humana [que é fortemente permeada pela injustiça e pela falsidade] em um
processo histórico de luta pela verdade e pela justiça. “O evento fundamental
para o Evangelho” é “a ressurreição do Cristo crucificado e morto para a vida
escatológica”, ou seja, “o acontecimento fundamental” é “a ressurreição dentre
os mortos, que antecipa o escopo da história, a vinda da salvação futura, a vida,
a liberdade e a justiça na ressurreição de Cristo” (MOLTMANN, 2005, p. 375/6).
Conforme as expressivas palavras de Oscar Cullman
(2000, p. 189), Jesus passou pela morte em todo o seu horror, não somente no
corpo, mas também na alma (“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?!”).
Para o cristianismo, que vê nele o redentor, ele deve ser “aquele que triunfa
sobre a morte com a sua própria morte. Ali onde a morte é concebida como o
inimigo de Deus, não pode haver ‘imortalidade’ sem uma obra ôntica de Cristo,
sem uma história da salvação onde a vitória sobre a morte é o centro e o fim”.
1. O poder de ressurreição que venceu o poder da morte
“Onde está,
morte, a tua vitória? Onde está, morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o
pecado, e a força do pecado é a lei. Graças a Deus, que nos dá a vitória por
intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Co 15. 55-57). Paulo dirige-se aos
crentes de Corinto para fazê-los entender que Cristo haverá de destruir todo
principado, toda autoridade e todo poder; e que ele reinará até que haja posto
todos os inimigos sob seus pés. De todos, o último a ser destruído é a morte
(1Co 15. 24-26).
Conforme Schweitzer (2003, p. 88/9), Paulo concebe o
Reino não como uma pacífica bem-aventurança, mas como uma luta com poderes
angélicos. Estes, um após outro, serão vencidos por Cristo e seu povo, até que
finalmente a morte também seja despojada de seu poder (1Co 15.23-28). Em
consonância com a doutrina da redenção, o apóstolo espera que toda a natureza
passe pela transformação da mortalidade para a imortalidade (Rm 8.19-22). A
ressurreição geral e o julgamento imediatamente seguinte sobre todos os homens
e sobre os anjos derrotados não são mencionados na série de eventos enumerados
por Paulo em 1Co 15.23-28. Para Paulo, ambos estão inseridos no conceito geral
sobre “o fim” (1Co 15.24), sendo supostos como bem conhecidos. O apóstolo alude
de passagem aos eventos do fim, no decorrer da sua refutação ao conceito
surgido em Corinto de que não existe ressurreição dos mortos. Na escatologia
paulina, os poderes angélicos que devem ser julgados são vencidos gradualmente
durante o Reino Messiânico, mas o ‘julgamento’, que segundo 1Co 6.3 é
distribuído aos crentes que têm entrado na glória messiânica, “certamente
ocorre naquele Último Julgamento”, no final do Reino.
Oscar Cullmann (2000, p. 191/2) assinala que a fé
cristã na ressureição pressupõe o nexo que o judaísmo estabelece entre a morte
e o pecado. A morte não é simplesmente algo natural querido por Deus, como
concebia o pensamento grego, mas é algo anormal e contrário à natureza, oposto
à intenção divina. A morte é uma maldição que afeta a criação inteira e só será
vencida pela expiação do pecado, já que ela é o “salário do pecado”. Morte e
enfermidade existem como consequência do estado de pecado em que se encontra
toda a humanidade. “Toda cura é uma ressurreição parcial, uma vitória parcial
da vida sobre a morte”.
A concepção judaica e cristã acerca da criação exclui
totalmente o dualismo grego entre corpo e alma. “As coisas visíveis, corporais,
são criações divinas no mesmo grau que as invisíveis. Deus é o criador do meu
corpo. Este não é uma prisão para a alma, mas um templo; segundo as palavras de
Paulo (1 Co 6.19), é templo do Espírito Santo”. O significado dos conceitos de
corpo, alma, carne e espírito, na antropologia neotestamentária é um; na
antropologia grega, é outro. Os autores do Novo Testamento servem-se dos mesmos
termos que os filósofos gregos. Os conceitos que esses termos carregam,
entretanto, recebem uma significação totalmente distinta para os autores
cristãos, e compreendemos equivocadamente o Novo Testamento quando o
interpretamos segundo o sentido grego. Muito dos mal-entendidos provém daqui
(CULLMANN, 2000, p. 192/3).
Cullmann recorre à distinção entre os significados
daqueles conceitos sobretudo para evidenciar o papel da carne (σάρξ) e do espírito (πνεμα) na antropologia cristã, que, “diferente da grega, está fundamentada na história da salvação”. Ele explica que uma das significações mais característica de Paulo é a de “carne” e “espírito”: “são dois poderes transcendentes ativos que,
a partir de fora, podem entrar no homem, porém pertencem tanto um como outro ao homem
em si”. Para Cullmann (2000, p. 194/5), a carne
é o poder do pecado que entrou no homem inteiro (corpo e alma) com o
pecado de Adão. Está ligada substancialmente ao corpo de uma maneira mais
estreita que ao homem interior. E assim é porque, antes da queda, a carne tomou
posse do corpo. O Espírito é o antagonista da carne, não como uma doação
antropológica. É um poder dado ao homem que lhe vem de fora. É o poder criador
de Deus, a grande força vital, o elemento de ressurreição, assim como a carne
é, pelo contrário, o poder da morte. Na antiga aliança, o Espírito só se
manifesta fugazmente nos profetas. Depois de Cristo, e por Sua morte, a própria
morte sofreu um terrível golpe, e por Sua ressurreição este poder de vida atua
em todos os membros da Igreja de Cristo.
Segundo Atos 2.16, “nos últimos dias” o Espírito será
derramado em todos os homens. Esta profecia de Joel se realiza no Pentecostes.
Corpo e alma serão libertados do poder mortal da carne pelo poder da vida do
Espírito. A transformação do corpo carnal em corpo de ressurreição acontecerá
no momento em que toda a criação for criada de novo pelo Espírito Santo, e
então a morte já não existirá. “A substância do corpo já não será carne, mas
Espírito”. “[...] a ressurreição do corpo, em um novo ato criador que transforma
o universo, não pode sobrevir no momento da morte individual de cada um, mas no
fim dos tempos”. Há de ser assim porque a ressurreição do corpo “está ligada ao
drama da salvação”, que se desenvolve no tempo, por causa do pecado. “Desde que
o pecado é considerado como a origem do domínio da morte sobre a criação
divina, a morte e o pecado devem ser vencidos” (CULLMANN, 2000, p. 195/197).
Cullmann diz que Jesus se rendeu ao domínio da morte,
expiou o pecado e assim venceu a morte. Acerca da fé na vitória de Jesus sobre
a morte, ele narra:
A fé cristã anuncia que Jesus fez isto e que
ressuscitou em corpo e alma antes de haver estado real e completamente morto.
Anuncia que a partir de então atua o poder da ressurreição, o Espírito Santo. O
caminho está livre! O pecado está vencido, a ressurreição e a vida triunfam
sobre a morte porque a morte não era mais do que a consequência do pecado. Deus
realizou antecipadamente o milagre da nova criação que esperamos para o fim. De
novo, criou a vida, como no princípio. O milagre aconteceu em Jesus Cristo.
Ressurreição não somente no sentido de um novo nascimento do homem interior
cheio do Espírito Santo, mas ressurreição do corpo. Criação da nova matéria, de
uma matéria incorruptível. Em nenhuma parte deste mundo há uma matéria de
ressurreição nem corpo espiritual: somente em Jesus Cristo. (CULLMANN, 2000, p.
197).
Louvando-se em Romanos 6.3 e ss.; João 3.3 e ss.,
Cullmann (2000, p. 206/7) assevera que o cristão privado do corpo pela morte,
antes já havia sido transformado, durante sua vida, pelo Espírito Santo, e
tomado pela ressurreição, se é que tenha sido realmente regenerado por Ele, em
vida. O Espírito Santo é um dom que se preserva ao morrer. O cristão falecido o
mantém, ainda que durma e espere a ressurreição do corpo, único fato que lhe
conferirá vida plena e verdadeira. No estado intermediário, para aqueles que
“morreram em Cristo”, a morte perdeu tudo o que tinha de terrível, pois sem a
presença da carne o Espírito Santo lhes aproxima mais de Cristo, de sorte que
os mortos “que morrem no Senhor a partir de agora” podem ser realmente chamados
bem-aventurados (Ap 14.13). Por isso o apóstolo escreve aos romanos: “vivamos
ou morramos, somos do Senhor” (Rm 14.8) e “quer estejamos acordados, quer
dormindo, vivamos para ele” (1 Ts 5.10). Cristo é “Senhor de mortos e vivos”
(Rm 14.9).
Cullmann (2000, p. 207/8) observa uma certa proximidade
entre o Novo Testamento e a doutrina grega da imortalidade da alma, no sentido
de que o homem interior, transformado, vivificado pelo Espírito Santo
antecipadamente (Rm 6.3 s.), continua vivendo assim transformado, ao lado de
Cristo em estado de sono. “Todavia, a diferença é radical: o estado dos mortos
é imperfeito, de nudez, de sono, na espera da ressurreição de toda a criação,
da ressurreição do corpo. Por outro lado, a morte subsiste como inimigo já
vencido, embora ainda não destruído. Se os mortos, incluindo os que se
encontram neste estado, vivem já perto de Cristo, isso não corresponde de
maneira nenhuma a sua essência, à natureza da alma, mas sim à consequência da
intervenção divina atuando de fora pela morte e ressurreição de Cristo, pelo
Espírito Santo que já havia ressuscitado o homem interior por Seu poder
milagroso durante sua vida terrestre, antes da morte. A ressurreição dos mortos
é sempre objeto de espera, uma espera com a certeza da vitória, pois o Espírito
Santo já habita no homem interior; posto que já habita em nós, transformará
também um dia nosso corpo. Pois o Espírito Santo, força da vida, penetra tudo
de maneira absoluta, não conhece nenhum limite, não se detém.
Ainda que já se encontre vencida, privada de sua
onipotência (2 Tm 1.10), a morte não será aniquilada senão no fim dos tempos
como o “último inimigo” (1Co 15.26; Ap 20.13). Então, somente o Espírito Santo
transformará os corpos carnais em corpos espirituais (1Co 15.44). Esta será a
nova criação, onde uma matéria de vida substituirá a matéria da morte. No
presente, o Espírito renova a cada dia somente nosso homem interior (2 Co 4.16;
Ef 3.16). O fato de que o Espírito Santo habite em nós, desde agora, é a garantia
de que, no porvir escatológico, Ele vivificará nossos corpos mortais (Rm 8.11).
(CULLMAN, 2000, p. 106).
2. O morrer e ressuscitar com Cristo
Segundo Cullmann (2020, p. 284/5), o batismo confere o
Espírito como uma “ressurreição com Cristo”, porém, “antes do fim dos tempos
nossa ressurreição é somente parcial: a transformação de nosso corpo carnal em
um corpo espiritual permanece reservada ao futuro”. O Espírito Santo
manifesta-se no presente como um “poder de ressurreição”. O fato de termos como
fundamento a ressurreição de Cristo e de crermos neste ato salvífico nos
habilita a entrar atualmente nos domínios do Espírito Santo e nos faz sabedores
de que nos é permitido esperar pela ressurreição do corpo a ser operada pelo
próprio Espírito que já habita em nós. “Se habita em vós o Espírito daquele que
ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus
dentre os mortos vivificará também o vosso corpo mortal, por meio do Espírito
que em vós habita”, Romanos 8.11.
Oscar Culmman afirma categoricamente que “o batismo tem
por efeito participar a cada um individualmente o Espírito Santo que havia sido
derramado sobre toda a Igreja no dia de Pentecostes”. Ele ousa explicar como se
dá essa participação: “Ao entrar na Igreja, o homem se coloca sob o efeito
imediato do σωʺμα Πνευματιχόν [corpo espiritual]: “Em um só espírito fomos batizados para formar um só corpo” (1Co 12.13). Que corpo é esse? O teólogo alemão responde: “este corpo é o corpo glorificado de Cristo e assim o
batismo faz com que, segundo o livro de Atos, onde os relatos do batismo não
deixam de pôr em relevo essa participação, isso aconteça em certa medida
imediatamente sobre nosso corpo”. A ressurreição de Cristo tem
consequências para o nosso corpo desde agora, na medida em que é tomado pela
ação vivificadora do Espírito Santo, mas a sua transformação em corpo
espiritual não se dará até que chegue o momento de todas as coisas serem
criadas de novo (CULLMAN, 2000, p. 112 e 115).
Culmman (2020, p. 287) se diz convencido, à luz do Novo
Testamento, de que os que “morrem em Cristo” estão junto dele imediatamente
após a morte. Ele sustenta - forte na palavra de Jesus em Lucas 23.43 “hoje tu
estarás comigo no paraíso” e na palavra de Paulo em Filipenses 1.23 “meu desejo
é de partir para estar com Cristo” - que as expressões “estar com Cristo” e
estar “no seio de Abraão” não têm o sentido de “receber o corpo espiritual”.
Diz ele: “Pode-se conceber que estes mortos são mantidos com Cristo antes mesmo
que seus corpos ressuscitem, antes mesmo que eles se revistam de um corpo
espiritual”. No seu entender, esse parece ser o sentido da controvertida
passagem de 2 Co 5.1-10. O estado de “nudez” criado pela morte, a inimiga de
Deus, permanece um estado de imperfeição, mas Paulo sugere o horror que lhe
inspira este estado pela certeza de que “nós já temos recebido as garantias do
Espírito”.
É na referida passagem que o apóstolo, pensando no
estágio intermediário dos cristãos mortos ou que deverão morrer antes do dia do
julgamento, designa novamente o Espírito Santo como as “garantias” do fim do
mundo (2 Co 5. 5). E não se trata aqui senão das garantias da ressurreição dos
corpos no dia do julgamento, como indica a passagem já citada de Rm 8.11. O
Espírito Santo é um dom inalienável e não se pode crer que para os crentes que
estão mortos e para os que morrerão antes do fim dos tempos provisoriamente
nada seja mudado, como se Cristo não tivesse ainda ressuscitado e o Espírito
Santo não tivesse ainda operado entre os homens. A união com Cristo,
estabelecida pelo Espírito Santo e já eficaz mesmo enquanto ainda estamos
revestidos com nosso corpo de carne, essa união tornar-se-á mais íntima ainda –
sem, todavia, tornar-se perfeita – quando nós estivermos despojados deste corpo
de carne (CULMMAN, 2020, p. 287/8).
Em Apocalipse 6.9 e ss., as almas dos “que foram
imolados por causa da Palavra de Deus” já se encontram “sob o altar”, ou seja,
particularmente próximos a Deus. O que o Apocalipse diz acerca dos mártires
vale, segundo o apóstolo Paulo, para todos os que estão “mortos em Cristo”. A
contradição aparente entre as passagens que tratam da ressurreição dos corpos
no fim dos tempos e as que mostram todos os cristãos “com Cristo” imediatamente
após sua morte é resolvida desde que se reconheça que “estar com Cristo” não
significa ainda a ressureição dos corpos, mas uma união com Cristo tornada mais
estreita pelo poder de ressurreição do Espírito Santo. Os mortos vivem
[aleluia!] também em um estado onde a tensão entre o presente e o futuro
subsiste ainda. Estes também gritam: “Até quando?” (Ap 6.10). E sua esperança
[dos mortos que vivem!] é na mesma proporção mais intensa pelo fato de já terem
deixado seus corpos carnais (CULMMAN, 2020, p. 288/9).
Todos eles pertencem, assim como os vivos, no período
presente, àqueles limites demarcados pela Ressurreição e pela Parusia - daí
porque nem os mortos nem os vivos têm alguma vantagem (1 Ts 4.13 e ss.). À fé
que os autores do Novo Testamento depositam na ressurreição, basta uma única
certeza quanto a este estado intermediário dos mortos, qual seja: aquele que
crê em Cristo, que é a ressurreição, “viverá, ainda que esteja morto” (Jo
11.25). A esperança da ressurreição está fundada sobre a fé, que, por sua vez,
está fundada em um fato do passado, o fato central da linha da salvação e
objeto do testemunho dos apóstolos: a ressurreição de Cristo. Também sobre um
fato do presente: o poder de ressurreição do Espírito Santo já operante em
todos os que creem no ressuscitado, poder que permanece inalienável até o fim
dos tempos. Pois “aquele que ressuscitou a Jesus Cristo dentre os mortos dará
também a vida aos nossos corpos mortais pelo seu Espírito”, Romanos 8.11
(CULMMAN, 2020, p. 289/290).
3. O modo de existência do ressuscitado com Cristo
Paulo afirma
na carta aos romanos que, por meio do batismo, o cristão é sepultado junto com
Jesus na morte para começar uma nova vida: “Portanto pelo batismo nós fomos
sepultados com ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os
mortos pela glória do Pai assim também nós vivamos vida nova” (Romanos 6.4).
Conforme
Schweitzer (2003, p. 119), a concepção de Paulo é que os crentes participam
misteriosamente da morte e da ressurreição de Cristo, sendo arrastados para
longe de seu modo ordinário de existência, e assim formam uma categoria
especial de humanidade. Quando o Reino Messiânico despontar, aqueles que ainda
estiverem vivos não são homens naturais como os outros. Diferentemente, são
homens que de algum modo tem passado pela morte e ressurreição juntamente com
Cristo, tornando-se participantes do modo de existência da ressurreição, ao
passo que os outros homens passam sob o domínio da morte. Além disso, aqueles
que “morreram com Cristo” não estão mortos como os outros estão, mas, por sua
“morte e ressurreição com Cristo”, tornaram-se capazes de ressuscitar antes dos
outros.
Para
Schweitzer (2003, p. 121), a ressurreição de Jesus tornou manifesto que os
poderes da ressurreição ou poderes do mundo sobrenatural já estavam operando
dentro do mundo criado. Assim, aqueles que tinham discernimento não
consideravam que a duração do mundo natural iria terminar com a vinda de Jesus
em glória, mas concebiam o tempo interveniente entre a sua Ressurreição e o
começo do Reino Messiânico como um tempo em que o mundo natural e o
sobrenatural estão misturados. Com a Ressurreição de Jesus, o mundo
sobrenatural já começou, embora ainda não tenha se tornado manifesto. No
entender do nosso ilustre autor, que era médico e filantropo alemão, Paulo está
preocupado em resolver o primeiro e mais imediato problema da fé cristã: a
separação temporal entre a Ressurreição e o Retorno de Jesus Cristo. Pois,
apropriadamente, a Ressurreição de Jesus, sua manifestação como o Messias e o
começo do Reino Messiânico no qual está incluída a ressurreição e transformação
dos eleitos, pertencem temporal e causalmente ao mesmo tempo (SCHWEITZER, 2003,
p. 133).
Interpretando
o conceito paulino de “corpo de Cristo”, Schweitzer (2003, p. 138/9) diz que os
eleitos participam uns com os outros e com Cristo de uma corporeidade especial
suscetível à ação dos poderes da morte e da ressurreição. Em virtude de estarem
revestidos dessa natureza corporal, os eleitos tornam-se capazes de adquirir o
estado de existência da ressurreição antes da ressurreição geral dos mortos. A
inclusão nesta corporeidade favorecida não é realizada no momento do crer, pela
fé como tal, mas pelo batismo, isto é, pelo ato cerimonial que possibilita o
crente a entrar na “Comunidade de Deus” e entrar em comunhão, não apenas com
Cristo, mas também com o restante dos eleitos. “Sem o batismo não há
estar-em-Cristo!”.
Já para Jürgen Moltmann, o batismo concede ao crente
participação na crucificação e morte de Jesus. Da ressurreição ele participa
tão somente através da esperança. Na força do Espírito que ressuscitou a Cristo
dos mortos o cristão pode tomar sobre si, em obediência, os sofrimentos ligados
ao seu seguimento e assim esperar a glória futura. Da participação na
ressurreição não se fala no tempo perfeito, mas no tempo futuro. Cristo
ressuscitou e foi arrancado à morte, mas os seus ainda não estão arrancados da
morte; tão-somente através da esperança eles têm participação na vida da
ressurreição (MOLTMANN, 2005, p. 207).
Desse modo, o crente pode sentir a presença da
ressurreição como esperança e promessa escatológica do futuro e não como uma
presença cultual do eterno. No culto e no Espírito não lhe é dada uma
participação plena no senhorio de Cristo, mas pela esperança é introduzido nas
tensões e oposições da obediência e do sofrimento no mundo. Daí porque em
Romanos 12.1ss. a vida diária é apresentada como a esfera do verdadeiro culto
de Deus. “Ora, na medida em que o chamamento e a promessa indicam ao crente o
caminho para a obediência corporal e terrena, o corpo e o mundo são colocados
dentro do horizonte da expectativa da vinda do domínio de Cristo”. A
Ressurreição de Jesus traz à existência um processo histórico escatológico com
o propósito de realizar o aniquilamento da morte pelo domínio da vida e
orientado para a justiça. Será um tempo em que Deus terá seus direitos
reconhecidos em tudo e a criatura chegará a sua salvação. [...] A expectativa
escatológica do domínio universal de Cristo sobre o mundo corporal e terreno
traz consigo a percepção e a aceitação das contradições da cruz e da
ressurreição. [...] A verdade universal pela qual a criatura chega a uma
correspondência salvífica com Deus; a justiça universal pela qual Deus receberá
seus direitos em tudo e em que tudo se tornará justo; a glória de Deus [...]
tudo isso é colocado por Paulo dentro do horizonte da esperança no futuro, o
qual a fé entrevê na ressurreição do crucificado (MOLTEMANN 2005, p. 207-211).
4. Como a Ressurreição de Jesus pode ser compreensível
a nós hoje?
Segundo Moltmann (2003, p. 236), a “realidade da
ressurreição” vem ao nosso encontro “como palavra de Deus, como querigma frente
ao qual não podemos mais colocar a questão da legitimação histórica, mas o qual
nos pergunta se queremos crer ou não”. Podemos compreendê-la “somente através
do encontro direto e imediato na pregação presente, hoje sob o olhar do Senhor
na obediência de hoje frente ao seu apelo absoluto, em que se abre a salvação
para a atualidade”. Tal pregação “deve subjugar ‘nosso coração e nossa
consciência’. Ela deve falar de sua ressureição de tal modo que esta não
apareça como evento histórico ou mítico, mas como “uma realidade que toca nossa
própria existência”.
A esperança cristã orienta-se para o Cristo já vindo,
mas dele espera algo novo, ainda por acontecer. Espera o cumprimento e a
realização: (i) da justiça de Deus prometida em todas as coisas, (ii) da
ressurreição dos mortos prometida em sua própria ressurreição, (iii) do
senhorio do crucificado sobre tudo, prometido em sua exaltação. Para a
esperança cristã, “a não-redenção visível do mundo, que pode ser testada nos
sofrimentos”, não abala a fé na vinda já verificada do Messias, mas constitui
uma interrogação angustiante sobre o futuro do Salvador que já veio. É assim
porque com Jesus a redenção foi posta em andamento, por isso os crentes gemem
com toda a criação ante a não-redenção do mundo, enquanto esperam ver o
cumprimento universal de sua atividade redentora e justificadora (MOLTMANN,
2003, p. 287/8).
Sobre a forma de comunicar o evento da Ressurreição de
Jesus, partindo da premissa de que a sua compreensão só é possível em conexão
com o seu futuro escatológico universal, Moltmann defende que a única forma
adequada para a comunicação desse evento é o anúncio missionário a todos os
povos, ou seja, através da missão consciente de estar a serviço do futuro
prometido. “Somente a pregação missionária está à altura do caráter histórico e
escatológico desse evento. Ela representa a forma de experiência da história
correspondente à existência histórica e à expectativa histórica” (MOLTMANN,
2003, p. 241).
5. Considerações finais
Nosso propósito foi analisar o conceito de ressurreição
do apóstolo Paulo, com foco em 1Coríntios 15, a fim de compreender o
significado e a relevância dessa “realidade” para o homem e mulher dos nossos
dias. Vimos que o evento acontecido da ressurreição do crucificado é o
fundamento para a fé do cristão na sua própria ressurreição, no porvir; e que a
vida do crente não será destruída pela morte, graças ao fato acontecido de que
o poder da morte já foi vencido pelo poder que ressuscitou a Jesus.
A partir do ponto de vista de Oscar Culmann, pode-se
vislumbrar a morte como o grande inimigo de Deus, e, conforme as suas palavras,
“ela nos separa daquele que é vida e criador de toda vida”. O autor de “Cristo
e o Tempo” percebe a ressurreição como “um chamado à vida por um novo ato
criador de Deus”, e a considera um milagre, porque “o homem inteiro está
realmente morto”, pois a vida que havia sido criada por Deus, a morte veio e
destruiu. Jesus passou pela morte em todo o seu horror, em Seu corpo e em Sua
alma, por isso o cristianismo o vê como o Redentor, aquele que triunfa sobre a
morte com a Sua própria morte. “Ali onde a morte é concebida como o inimigo de
Deus, não pode haver ‘imortalidade’ sem uma obra ôntica de Cristo, sem uma
história da salvação onde a vitória sobre a morte é o centro e o fim”. Dessa
perspectiva, pode-se vislumbrar alguma luz sobre o enigma da nossa ressurreição
corporal. Culmann dá a entender que corpo e alma serão libertados do poder
mortal da carne pelo poder da vida do Espírito. A transformação do corpo carnal
em corpo de ressurreição acontecerá no momento em que toda a criação for criada
de novo pelo Espírito Santo, e então a morte já não existirá. “A substância do
corpo já não será carne, mas Espírito”.
Com Albert Schweitzer viu-se que os crentes participam
misteriosamente da morte e da ressurreição de Cristo, sendo afastados do modo
de existência comum, tornando-se algo como uma categoria especial de ser
humano, participantes do modo de existência da ressurreição, enquanto os outros
vivem sob o domínio da morte. Já aqueles que “morreram com Cristo” não estão
mortos como os outros, mas estão como que habilitados a ressuscitar antes dos
demais.
Moltmann, com base na doutrina paulina da união do
crente com Jesus, sustenta a tese de que o batismo concede participação na Sua
crucificação e morte, enquanto a participação na vida da ressurreição se dá
tão-somente através da esperança. Para o autor de “Teologia da Esperança”, a
não-redenção visível do mundo, incontestável diante dos sofrimentos, não é
argumento contra a fé na vinda, já verificada, do Messias, mas antes uma
interrogação angustiante entremeada nas orações do cristão sobre o futuro do Salvador
que já veio. O fato de Jesus ser o Cristo já está dado como certo, e com ele a
redenção foi posta em andamento. É por isso que o cristão geme junto com toda a
criação ante a não-redenção do mundo e quer ver o cumprimento universal de sua
atividade redentora e justificadora. Somente através do encontro direto e
imediato na pregação presente, hoje sob o olhar do Senhor e na obediência de
cada “hoje” ao seu apelo absoluto, oferta de salvação para a atualidade, é que
se pode compreender a “realidade” da ressurreição. E a única forma adequada de
comunicar o evento da Ressurreição de Jesus, partindo da premissa de que a sua
compreensão só é possível em conexão com o Seu futuro escatológico universal, é
mediante o anúncio missionário a todos os povos - através da missão
comprometida em transmitir a fundada esperança no futuro prometido.
Sinto que agora Paulo quer falar a mim e a você. Com a
palavra, o apóstolo dos gentios:
Penso que os sofrimentos do tempo presente não têm
proporção com a glória que deverá revelar-se em nós. Pois a criação em
expectativa anseia pela revelação dos filhos de Deus. De fato, a criação foi
submetida à vaidade - não por seu querer, mas por vontade daquele que a
submeteu - na esperança de ela também ser libertada da escravidão da corrupção,
para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus. Pois sabemos que a
criação inteira geme e sofre as dores de parto até o presente. E não somente
ela. Mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos interiormente,
suspirando pela redenção do nosso corpo (Romanos 8:18-23. Bíblia de Jerusalém).
Referências
Bíblia Sagrada: Bíblia de Jerusalém. – São Paulo:
Paulus, 2002.
Bíblia Sagrada. Bíblia nova versão internacional.
Várzea Paulista/SP: Casa Publicadora Paulista, 2021.
CULLMANN, Oscar. Cristo e o Tempo [tradução Daniel
Costa]. 2ª ed. São Paulo: Fonte Editorial, 2020.
___________Das origens do evangelho à formação da
teologia cristã [tradução Daniel Costa]. São Paulo: Fonte Editorial, s/d.
KNUTSON, Kent S. Quem é Jesus Cristo [tradução Luís
Marcos Sander], 2ª ed. rev. São Leopoldo/RS: Sinodal, 2003.
MOLTMANN, Jürgen. Teologia da esperança: estudos sobre
os fundamentos e as consequências de uma escatologia cristã [tradução Helmuth
Alfredo Simon], 3ª edição. São Paulo: Editora Teológica, Edições Loyola, 2005.
SCHWEITZER, Albert. O misticismo de Paulo o apóstolo
[tradução Paulo e Judith Arantes]. São Paulo: Fonte Editorial, 2003.

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