O SOL DENTRO DE MIM
José Feldman
TROVA DE THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
Se vejo o mundo às escuras,
embarco em meu sonho... e assim,
subo a escada e, nas alturas,
acendo um sol para mim!
Em uma manhã nublada, na pequena cidade de Luz do Sol, onde
o céu parecia sempre um pouco mais cinza do que o desejado, um homem chamado
Vicente caminhava pelas ruas, refletindo sobre a vida. Ele sempre fora um
sonhador, alguém que via o mundo através de uma lente cheia de cores, mesmo
quando tudo ao seu redor parecia desbotado. Vicente acreditava que, por trás
das nuvens, havia sempre um sol esperando para brilhar.
Aquela manhã, como muitas outras, começou com uma sensação
de opressão no peito. O dia estava triste, e os habitantes da cidade pareciam
carregar um peso invisível. As crianças brincavam, mas suas risadas não tinham
o mesmo brilho de antes. Os adultos passavam apressados, os rostos fechados e
os olhos perdidos em suas preocupações. Vicente, porém, tinha um talento
especial: ele conseguia transformar a escuridão em luz. E foi assim que, ao
passar por uma escada que levava ao parque da cidade, decidiu que era hora de
acender seu próprio sol.
Ele subiu os degraus com a determinação de quem sabe que há
algo maior à sua espera. A escada, antiga e cheia de histórias, parecia
resistir ao tempo. Cada passo era como uma pequena vitória contra a melancolia
que o cercava.
Chegando ao topo, Vicente olhou ao redor: o parque, mesmo
sob o céu nublado, tinha uma beleza particular. As árvores dançavam suavemente
ao vento e as flores, apesar da falta de sol, exalavam um perfume doce.
Vicente respirou fundo e fechou os olhos. Ele se lembrou da
trova que costumava ouvir: “Se vejo o mundo às escuras, / embarco em meu
sonho... e assim, / subo a escada e, nas alturas, / acendo um sol para mim!”
Essas palavras ressoaram em sua mente, como um mantra que o encorajava a buscar
a luz dentro de si.
Decidido a espalhar essa luz, Vicente começou a cantar. A
princípio, sua voz era suave, quase como um sussurro. Mas, à medida que se
sentia mais à vontade, sua canção se transformou em um hino de alegria.
Ele cantava sobre sonhos, sobre a beleza do mundo e sobre a
esperança que sempre renasce, mesmo nas horas mais sombrias. A melodia flutuava
pelo ar, como uma brisa leve, e aos poucos, começou a atrair a atenção dos
passantes.
As
pessoas pararam e começaram a olhar. Um a um, foram se juntando a Vicente.
Algumas crianças, curiosas, se aproximaram e começaram a dançar. Os adultos,
inicialmente hesitantes, não demoraram a se deixar levar pela música. A
atmosfera pesada que envolvia Luz do Sol começou a dissipar-se. Os rostos,
antes fechados, foram se iluminando, e os olhos ganharam um brilho que há muito
não se via.
Vicente percebeu que havia acendido algo muito maior do que
um simples sol. Ele havia reacendido a chama da comunidade. As pessoas
começaram a compartilhar histórias, risadas e até mesmo suas preocupações. O
parque, que antes parecia um lugar esquecido, transformou-se em um espaço de
união.
Enquanto a tarde avançava, o céu nublado começou a se
abrir. Raios de sol começaram a penetrar as nuvens, como se o próprio universo
estivesse respondendo àquela explosão de alegria. Vicente, com um sorriso no
rosto, olhou para cima e viu que, embora o mundo estivesse às escuras, havia
sempre uma luz a ser encontrada, mesmo que fosse dentro de nós mesmos.
O dia que começou triste se transformou em uma celebração
da vida. Vicente, com sua voz e seu sonho, acendeu um sol que não só iluminou
seu coração, mas também trouxe calor e vida a todos ao seu redor. Naquele
momento, ele percebeu que a verdadeira magia não estava em mudar o mundo, mas
em inspirar outros a encontrar a luz que já existia dentro deles.
Ao final da tarde, enquanto o sol se punha no horizonte,
Vicente desceu a escada com um novo propósito. Ele sabia que as nuvens poderiam
voltar, que os dias sombrios fariam parte da vida. Mas, com a experiência
daquela tarde, ele também aprendeu que, mesmo nas horas mais difíceis, sempre
poderia subir a escada do sonho e acender um sol para si e para os outros.
E assim, entre risos e canções, Luz do Sol voltou a
brilhar, não apenas com a luz do sol físico, mas com a luz da esperança e da
união. Vicente, agora mais do que um sonhador, tornou-se um verdadeiro farol
para sua comunidade, mostrando que, às vezes, tudo o que precisamos é de
coragem para subir as escadas e acender nossos próprios sóis.

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