O REFLEXO DO CRIADOR
José Feldman
TROVA DE NEI GARCEZ
Só quem vive sem vaidade,
difundindo o que é o amor
tem a mesma identidade
de seu próprio criador.
Na pequena cidade de Pedra Branca, havia uma igreja simples
no topo de uma colina. Não era grandiosa como as catedrais que se veem em
cartões-postais, mas tinha algo que encantava: a luz suave do pôr do sol
atravessava seus vitrais antigos, transformando o interior em um espetáculo de
cores. Ali, toda tarde, sentava-se Dona Léia, uma senhora de cabelos brancos e
mãos sempre ocupadas em tricotar algo – fosse uma manta para um recém-nascido,
um cachecol para alguém enfrentar o inverno ou uma toalha para o altar da
igreja. Pouco importava; o que fazia, fazia com amor.
Ela era conhecida por sua generosidade. Quem a procurasse,
fosse para pedir um prato de comida, uma palavra de consolo ou mesmo um
sorriso, nunca saía de mãos vazias. Ela era dessas pessoas que pareciam
carregar o mundo nas costas sem nunca reclamar. Muitos diziam que ela era uma
santa, mas ela apenas ria e balançava a cabeça. "Não sou santa, minha
gente. Só faço o que acho que todo mundo deveria fazer", dizia com
simplicidade.
Mas nem todos a viam com bons olhos. Algumas pessoas da
cidade, especialmente aquelas que ostentavam roupas elegantes e posses, achavam
que Dona Léia era “ingênua demais”. “Essa mulher dá tudo o que tem, vive para
os outros e não para si mesma”, comentavam em rodinhas de fofoca. Para eles, a
vida deveria ser vivida com mais ambição, mais cuidado com a própria imagem,
mais vaidade.
Certa vez, numa manhã de domingo, o padre da igreja decidiu
pregar sobre o amor. Ele começou com uma pergunta que ecoou pelos bancos de
madeira: "Quem aqui tem a coragem de viver sem vaidade e difundir o amor
como Jesus nos ensinou?"
O silêncio foi imediato. Os fiéis olhavam uns para os
outros, desconfortáveis. O padre continuou: "Não é fácil. Vivemos num
mundo que nos ensina a pensar em nós mesmos, a buscar nosso próprio reflexo no
espelho, enquanto esquecemos de olhar para o próximo."
Ao final da missa, Dona Léia foi a última a sair. O padre a
chamou e disse:
"Léia, você é a prova viva de que o amor de Deus se
manifesta nas ações simples. O que você faz pela nossa comunidade é algo que
nenhum sermão pode ensinar."
Ela sorriu, mas desconversou.
"Padre, eu só faço o que meu coração manda. Se isso é
amor, então ele não é meu, é de Deus."
Dias depois, uma tragédia abalou a cidade. Uma enchente
inesperada atingiu a cidade, destruindo casas, plantações e deixando muitas
famílias sem nada. Entre os desabrigados estava a família de Dona Léia — sua
casa, construída com esforço ao longo de décadas, foi parcialmente destruída
pela correnteza.
Quando os moradores souberam, muitos se ofereceram para
ajudá-la, mas, para surpresa de todos, ela não parecia preocupada com sua
própria perda.
Ela arregaçou as mangas e começou a organizar um mutirão
para ajudar os outros. "Minha casa se foi, mas a vida continua. Vamos
reconstruir juntos", dizia com um sorriso sereno. E assim fez. Enquanto
muitos ainda choravam suas perdas, ela entregava roupas, dividia o pouco de
comida que restava e consolava quem precisava.
Um dia, enquanto ajudava a levantar uma nova moradia para
uma família, uma jovem mulher a questionou: "Dona Léia, por que a senhora
faz tudo isso? Não sente falta de cuidar de si mesma, de pensar só na sua
vida?"
A velha senhora parou por um momento, olhou para as
próprias mãos — agora marcadas pelo tempo e pelo trabalho — e respondeu:
"Minha filha, cuidar de mim é cuidar dos outros. Não vejo diferença.
Quando você dá amor, ele não acaba; ele cresce. E eu acredito que, quando a
gente vive assim, sem vaidade, sem esperar nada em troca, nos tornamos mais
parecidos com Deus. Não há riqueza maior do que essa."
A jovem ficou em silêncio, refletindo. E, naquele instante,
pareceu compreender algo que livros e sermões nunca haviam lhe ensinado.
Meses depois, a cidade de Pedra Branca estava reconstruída.
As pessoas, inspiradas por Dona Léia, aprenderam a se ajudar mais, a olhar para
o outro com mais empatia. E, embora a casa dela nunca tivesse sido totalmente
restaurada, ela continuava a viver com a mesma simplicidade de sempre.
Os moradores, agora mais sábios, passaram a enxergar algo
que antes ignoravam: a verdadeira identidade de Dona Léia não estava em suas
roupas ou posses, mas no amor que ela espalhava. Era como um reflexo do
Criador, um lembrete silencioso de que só quem vive sem vaidade, difundindo o
que é o amor, pode se aproximar da essência divina.
E assim, a pequena cidade, antes tão preocupada com
aparências, aprendeu que a grandeza está nos gestos simples. Dona Léia, com sua
vida despretensiosa, tornou-se um exemplo eterno de que o Criador não se
encontra em altares luxuosos ou discursos eloquentes, mas no coração de quem
vive para amar.

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