MEU REINO POR UM BANHEIRO
José Feldman
TROVA
A plateia se espantou:
o ator saiu do roteiro,
desesperado, e gritou:
"Meu reino por um banheiro!"
SELMA PATTI SPINELLI
Era uma vez, um teatro
local conhecido como
"Teatro do Riso". O lugar era
famoso por suas
comédias divertidas, e em uma
noite
aparentemente comum, a peça da
vez era uma
comédia romântica chamada "Amor
e Outras
Coisas".
A peça contava a história de um príncipe e uma donzela, com
muitos mal-entendidos, encontros cômicos e uma pitada de drama. Os atores se
empenhavam ao máximo, mas ninguém poderia prever que a maior reviravolta da
noite viria não do roteiro, mas de um problema inesperado.
O ator principal, Marco, um sujeito carismático e
talentoso, estava no auge de sua performance. Ele interpretava o príncipe
encantado que, por um capricho do destino, estava prestes a se declarar à
donzela, interpretada por sua amiga e colega de palco, a vivaz Luciana. A cena
era cheia de emoção e risadas quando, de repente, Marco parou, com os olhos
esbugalhados e uma expressão de desespero.
"Meu reino por um banheiro!" ele gritou,
interrompendo o encantamento da cena.
A plateia ficou em silêncio. As moças na primeira fila
cobriram a boca com as mãos, tentando conter o riso. Os outros atores no palco
trocaram olhares confusos. Luciana, que estava em estado de graça, não sabia se
deveria rir ou chorar.
"Mas que cena é essa?", sussurrou um velhinho na
plateia. "O príncipe pede um banheiro no meio da declaração?"
Marco, percebendo que o improviso tinha pegado todos de
surpresa, continuou sua encenação. "Não posso declarar meu amor com a
bexiga cheia!", exclamou, gesticulando como se estivesse prestes a
desmaiar. A plateia começou a rir, e a cena se transformou em um espetáculo
hilário.
Enquanto isso, Marco se virou para o lado do palco,
esperando que alguém aparecesse com uma solução. Mas isso não aconteceu. No
impulso daquele momento, ele decidiu que precisava se salvar. Com um olhar
determinado, ele virou-se para o público e começou a sua empreitada.
"Amigos do teatro, ajudem-me! Precisamos de um
plano!", gritou, com a voz dramática. "Vocês, que estão
confortavelmente sentados, me digam: qual é o caminho mais rápido para a minha
salvação?”
O público respondeu com gritos e sugestões, misturando
perguntas sobre o enredo da peça com risadas. O diretor, que estava incorporado
em uma esquina com um nariz de palhaço, decidiu aliviar a tensão e pediu calma
à plateia.
"Tio, a cena ainda não acabou! O príncipe não pode
desistir do amor por um banheiro!" disse ele, em uma tentativa de manter o
enredo.
"Então vamos lá, que eu não posso ficar aqui fazendo
papel de príncipe encalhado! Alguém me empresta um vaso? Ou quem sabe um
arbusto?" Marco continuou. O público estava em delírio. Os risos ecoaram
no teatro como nunca antes.
Enquanto as risadas tomavam conta do lugar, Luciana, que
estava admirando a audácia de seu colega, decidiu se juntar a ele.
"Príncipe, seu amor por mim é maior do que qualquer necessidade física!
Você não pode desistir!", disse ela, tentando manter a seriedade, mas não
conseguindo evitar um sorriso.
E assim, a peça que tinha tudo para se tornar um fiasco se
transformou em uma comédia de improviso. Os outros atores começaram a
participar achando que era brincadeira. O conselheiro do príncipe, interpretado
por um quadradão cômico chamado Renato, gritou do fundo do palco: "Se não
encontrar um banheiro, traga uma plantinha! Natureza é sempre a solução!"
O aplauso da plateia era ensurdecedor e eles estavam
desfrutando não apenas do talento dos atores, mas do improviso que havia
surgido de maneira tão inesperada. A apresentação virou uma verdadeira batalha
de comédia, com todos os personagens tentando ajudar o príncipe em sua busca
por um banheiro.
No fundo do teatro, uma mulher que estava assistindo ao
espetáculo não aguentou e começou a discursar com seu marido, em voz alta:
"Olha, o enredo está mudando! Agora é uma comédia de ação!"
Marco, já um pouco mais relaxado, decidiu que era hora de
dar um desfecho. Ele se virou para a plateia e fez um gesto de súplica.
"Amigos, capazes de me ajudar, sei que posso amar esta donzela, mas antes,
preciso do meu trono no banheiro!"
Luciana, vendo que o momento pedia um toque especial,
decidiu criar uma situação mirabolante. "Então vá! O reino é seu! Não
deixe que a natureza lhe impeça de conquistar o meu coração!" Com isso,
ela fez uma reverência exagerada, quase como se estivesse indicando uma porta
invisível.
Marco então fez uma corrida cômica pelo palco, passando
pela cortina e fazendo um som de corrida que ecoava como um cavalo relinchando.
O público estava em prantos de tanto rir com suas tentativas dramáticas,
enquanto o diretor tentava reanimar a peça.
Por fim, Marco voltou ao palco, exausto, mas com um sorriso
orgulhoso no rosto. "Voltei, e posso amá-la eternamente! Estou pronto para
continuar a nossa história!"
A plateia se levantou e começou a aplaudir de pé enquanto
as risadas ainda ecoavam. No entanto, Marco sabia que havia muito mais em jogo:
um banheiro ainda não encontrado! Depois disso, a fama da peça cresceu. Não
pela história de amor convencional, mas pela improvável busca de um príncipe
por um banheiro.
E assim, o "Teatro do Riso" passou a ter uma nova
peça chamada "Meu Reino por Um Banheiro", que se tornou uma sensação
da cidade. Marco e Luciana se tornaram celebridades locais, sempre lembrados
como o casal que transformou um sufoco em pura comédia.
Nunca mais um ator deixou de considerar a “necessidade” em
cena, e a lição aprendida naquela noite se espalhou como um eco: sempre busque
um banheiro antes de aceitar um papel principal!"

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