sexta-feira, 6 de março de 2026

MEU REINO POR UM BANHEIRO - JOSÉ FELDMAN

 



MEU REINO POR UM BANHEIRO

José Feldman


TROVA

A plateia se espantou:

o ator saiu do roteiro,

desesperado, e gritou:

"Meu reino por um banheiro!"

SELMA PATTI SPINELLI



Era uma vez, um teatro 

local conhecido como

 "Teatro do Riso". O lugar era 

famoso por suas 

comédias divertidas, e em uma 

noite 

aparentemente comum, a peça da 

vez era uma 

comédia romântica chamada "Amor 

e Outras 

Coisas".

A peça contava a história de um príncipe e uma donzela, com muitos mal-entendidos, encontros cômicos e uma pitada de drama. Os atores se empenhavam ao máximo, mas ninguém poderia prever que a maior reviravolta da noite viria não do roteiro, mas de um problema inesperado.

O ator principal, Marco, um sujeito carismático e talentoso, estava no auge de sua performance. Ele interpretava o príncipe encantado que, por um capricho do destino, estava prestes a se declarar à donzela, interpretada por sua amiga e colega de palco, a vivaz Luciana. A cena era cheia de emoção e risadas quando, de repente, Marco parou, com os olhos esbugalhados e uma expressão de desespero.

"Meu reino por um banheiro!" ele gritou, interrompendo o encantamento da cena. 

A plateia ficou em silêncio. As moças na primeira fila cobriram a boca com as mãos, tentando conter o riso. Os outros atores no palco trocaram olhares confusos. Luciana, que estava em estado de graça, não sabia se deveria rir ou chorar.

"Mas que cena é essa?", sussurrou um velhinho na plateia. "O príncipe pede um banheiro no meio da declaração?"

Marco, percebendo que o improviso tinha pegado todos de surpresa, continuou sua encenação. "Não posso declarar meu amor com a bexiga cheia!", exclamou, gesticulando como se estivesse prestes a desmaiar. A plateia começou a rir, e a cena se transformou em um espetáculo hilário. 

Enquanto isso, Marco se virou para o lado do palco, esperando que alguém aparecesse com uma solução. Mas isso não aconteceu. No impulso daquele momento, ele decidiu que precisava se salvar. Com um olhar determinado, ele virou-se para o público e começou a sua empreitada. 

"Amigos do teatro, ajudem-me! Precisamos de um plano!", gritou, com a voz dramática. "Vocês, que estão confortavelmente sentados, me digam: qual é o caminho mais rápido para a minha salvação?”

O público respondeu com gritos e sugestões, misturando perguntas sobre o enredo da peça com risadas. O diretor, que estava incorporado em uma esquina com um nariz de palhaço, decidiu aliviar a tensão e pediu calma à plateia.

"Tio, a cena ainda não acabou! O príncipe não pode desistir do amor por um banheiro!" disse ele, em uma tentativa de manter o enredo.

"Então vamos lá, que eu não posso ficar aqui fazendo papel de príncipe encalhado! Alguém me empresta um vaso? Ou quem sabe um arbusto?" Marco continuou. O público estava em delírio. Os risos ecoaram no teatro como nunca antes.

Enquanto as risadas tomavam conta do lugar, Luciana, que estava admirando a audácia de seu colega, decidiu se juntar a ele. "Príncipe, seu amor por mim é maior do que qualquer necessidade física! Você não pode desistir!", disse ela, tentando manter a seriedade, mas não conseguindo evitar um sorriso. 

E assim, a peça que tinha tudo para se tornar um fiasco se transformou em uma comédia de improviso. Os outros atores começaram a participar achando que era brincadeira. O conselheiro do príncipe, interpretado por um quadradão cômico chamado Renato, gritou do fundo do palco: "Se não encontrar um banheiro, traga uma plantinha! Natureza é sempre a solução!"

O aplauso da plateia era ensurdecedor e eles estavam desfrutando não apenas do talento dos atores, mas do improviso que havia surgido de maneira tão inesperada. A apresentação virou uma verdadeira batalha de comédia, com todos os personagens tentando ajudar o príncipe em sua busca por um banheiro.

No fundo do teatro, uma mulher que estava assistindo ao espetáculo não aguentou e começou a discursar com seu marido, em voz alta: "Olha, o enredo está mudando! Agora é uma comédia de ação!"

Marco, já um pouco mais relaxado, decidiu que era hora de dar um desfecho. Ele se virou para a plateia e fez um gesto de súplica. "Amigos, capazes de me ajudar, sei que posso amar esta donzela, mas antes, preciso do meu trono no banheiro!" 

Luciana, vendo que o momento pedia um toque especial, decidiu criar uma situação mirabolante. "Então vá! O reino é seu! Não deixe que a natureza lhe impeça de conquistar o meu coração!" Com isso, ela fez uma reverência exagerada, quase como se estivesse indicando uma porta invisível.

Marco então fez uma corrida cômica pelo palco, passando pela cortina e fazendo um som de corrida que ecoava como um cavalo relinchando. O público estava em prantos de tanto rir com suas tentativas dramáticas, enquanto o diretor tentava reanimar a peça. 

Por fim, Marco voltou ao palco, exausto, mas com um sorriso orgulhoso no rosto. "Voltei, e posso amá-la eternamente! Estou pronto para continuar a nossa história!" 

A plateia se levantou e começou a aplaudir de pé enquanto as risadas ainda ecoavam. No entanto, Marco sabia que havia muito mais em jogo: um banheiro ainda não encontrado! Depois disso, a fama da peça cresceu. Não pela história de amor convencional, mas pela improvável busca de um príncipe por um banheiro.  

E assim, o "Teatro do Riso" passou a ter uma nova peça chamada "Meu Reino por Um Banheiro", que se tornou uma sensação da cidade. Marco e Luciana se tornaram celebridades locais, sempre lembrados como o casal que transformou um sufoco em pura comédia. 

Nunca mais um ator deixou de considerar a “necessidade” em cena, e a lição aprendida naquela noite se espalhou como um eco: sempre busque um banheiro antes de aceitar um papel principal!"

           


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