A ESTRADA E O CORAÇÃO
José Feldman
TROVA DE LUIZ POETA (LUIZ GILBERTO DE BARROS)
Na saudade intransigente
o coração se revolta;
a estrada diz: - Segue em frente;
o coração pede: - Volta!
Era final de tarde quando Antero estacionou o carro no
acostamento. O horizonte, tingido pelos tons dourados do pôr do sol, parecia
tão distante quanto a paz que ele buscava. Naquela estrada deserta, as
lembranças pesavam mais que a mala no porta-malas. Ele olhava fixamente para o
asfalto que se perdia no infinito, como se esperasse que a resposta para sua
inquietude surgisse na próxima curva.
Antero estava fugindo. Não de algo visível, mas de um vazio
que havia tomado conta dele. Havia decidido, quase por impulso, deixar tudo
para trás: o emprego, os amigos, a cidade. "É melhor recomeçar em outro
lugar", dissera a si mesmo enquanto arrumava a bagagem. Mas agora, sozinho
no meio do nada, a dúvida o corroía. Será que estava fazendo a coisa certa?
Será que era possível deixar para trás o que o coração insistia em guardar?
Lá estava ela, a saudade. Intransigente, como sempre,
invadindo cada pensamento. Fechava os olhos e via Márcia. O sorriso dela, o
jeito como prendia o cabelo, as risadas que ecoavam pela casa. Tudo parecia tão
perto, mas era inalcançável.
Márcia tinha partido. Não por desamor ou desavença, mas
porque a vida, com sua maneira cruel de agir, havia decidido que era hora de
levá-la para sempre. Um acidente, um instante, e tudo o que Antero conhecia
como felicidade havia se despedaçado.
Desde então, a saudade era sua companheira constante. E a
saudade, ele descobrira, não era apenas um sentimento… era uma presença. Ela
tinha cheiro, som e até peso. Era teimosa, não aceitava explicações, ignorava o
tempo e se recusava a partir. Ele sentia que, a cada quilômetro que dirigia, a
saudade ficava mais forte, como se o coração dele estivesse preso a um elástico
invisível, puxando-o de volta.
Ele desceu do carro e se sentou na beira da estrada. O
vento quente tocava seu rosto, mas não trazia consolo. Olhou para o horizonte
mais uma vez, como se a estrada pudesse responder àquela luta interna que o
consumia. A razão lhe dizia: "Segue em frente. É o único caminho."
Mas o coração, rebelde e insistente, sussurrava: "Volta. Volta para onde
tudo começou, para onde está o que te resta dela."
Antero pegou do bolso uma foto amassada de Márcia. Era do
dia em que haviam feito uma viagem juntos, a primeira de muitas. Na imagem, ela
sorria, com o cabelo bagunçado pelo vento e os olhos brilhando.
Ele lembrou-se de como ela adorava dizer que as estradas
eram metáforas da vida: "Elas sempre levam a algum lugar, Antero. Mesmo
que a gente não saiba para onde."
"Mas e quando a estrada não faz sentido?" ele
perguntou em voz alta, como se ela pudesse ouvi-lo. O eco de sua voz foi a
única resposta.
O tempo passou devagar enquanto ele permanecia ali, imóvel,
entre o passado que o puxava e o futuro que o empurrava. Até que, num momento
de quietude, algo mudou. Percebeu que a saudade não era a inimiga. Ela era, na
verdade, uma prova de que Márcia ainda vivia dentro dele, nas memórias, nos
gestos, nos sonhos que haviam compartilhado. A saudade não era para ser
combatida, mas entendida.
De repente, a estrada à sua frente parecia menos
ameaçadora. Talvez ela estivesse certa; as estradas sempre levam a algum lugar.
Talvez o futuro não fosse um abandono do passado, mas uma continuação
dele.
Ele levantou-se, respirou fundo e olhou uma última vez para
a foto. Guardou-a no bolso, entrou no carro e ligou o motor.
Dessa vez, não era nem o coração nem a razão que o guiavam.
Era Márcia, em cada lembrança, em cada saudade. Ele sabia que nunca a deixaria
para trás, porque ela era parte dele — parte do caminho, parte da estrada.
E assim, com um misto de dor e esperança, ele seguiu em
frente.

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