domingo, 1 de fevereiro de 2026

UNIÃO DE MÃOS E VIDAS - JOSÉ FELDMAN

 




 

UNIÃO DE MÃOS E VIDAS

José Feldman

 

TROVA

Os noivos fazem questão

de ter as mãos sempre unidas.

- É fácil unir as mãos...

difícil é unir as vidas!

APARÍCIO FERNANDES

         

Na pequena cidade de Esperança, onde a rotina era tão previsível quanto o som do sino da igreja marcando as horas, havia um casal que gerava sussurros e sorrisos: Luana e Carlito. A história deles tinha todos os ingredientes para um romance de conto de fadas. Se você passasse pela praça central, veria as mãos entrelaçadas dos dois, como uma imagem de moldura em uma boníssima pintura — serena, colorida e quase perfeita.

Era com frequência que o casal se apresentava como amantes eternos, sempre falando da “sagrada união” das mãos. O que todo mundo não percebia, porém, era que por trás daquela imagem idílica, existia uma realidade muito mais complicada. 

Certa vez, durante um encontro na praça, Carlito começou a divagar sobre como seria o futuro deles. 

“Vamos unir nossas vidas de uma maneira absolutamente mágica”, dizia, com uma certeza quase poética. 

Luana, sorrindo, balançava a cabeça, como quem dança ao ritmo da música que só ela escuta. As mãos permaneciam unidas, mas havia um leve tensionamento nos braços, como se, de alguma forma, ele quisesse puxá-la para mais perto, enquanto ela hesitava em dar passos adiante.

O tempo passou, e o dia do casamento se aproximou. A cidade inteira estava ansiosa. As flores foram escolhidas com cuidado, o vestido era um sonho de rendas, e a decoração da igreja, digna de cartões postais. Mas no fundo, havia um eco de perguntas sem respostas. Luana tinha suas dúvidas sobre a vida a dois, e Carlito, mesmo cercado por otimismo, lutava contra inseguranças que não ousava compartilhar.

Na noite que precedeu o grande dia, enquanto todos estavam ocupados com os últimos preparativos, ela decidiu caminhar sozinha até o lago da cidade. O reflexo das estrelas na água a fez pensar. “É fácil unir as mãos...”, sussurrou para si mesma. “Difícil é unir as vidas!” 

Ali, sob a luz da lua, suas preocupações tomaram forma e ecoaram como um mantra, abrindo uma janela sobre o que realmente significava a vida em conjunto.

Quando finalmente voltou para casa, encontrou Carlito sentado na varanda, seu olhar distante. Ele havia tentado manter a compostura, mas suas mãos estavam desfeitas, caídas entre eles, numa evidência silenciosa de que as promessas eram mais fáceis de fazer do que de cumprir. 

No dia do casamento, o altar era um espetáculo. Amigos e familiares rodeavam o casal, e as mãos se entrelaçaram novamente durante o juramento. Mas, no fundo, ela se lembrou de seu momento sob as estrelas. 

Quando ele fez a pergunta: “Você se une a mim?” a resposta dela cobrou mais significado do que esperavam. “Sim, mas precisamos fazer isso juntos.” 

Uma humildade se instalou ali. 

Com os votos feitos, a linha tênue entre união e individualidade começou a ganhar novo sentido. A vida não era um conto de fadas, mas uma dança contínua — um passo à frente, um passo ao lado, e às vezes um giro inesperado. 

À medida que o tempo passava, eles aprenderam que, embora fosse simples unir as mãos, a verdadeira arte estava em equilibrar suas individualidades ao dançar juntos no compasso da vida. Aprenderam a se comunicar, a escutar e a respeitar os anseios um do outro. As mãos estavam unidas, mas agora havia um entendimento mútuo — um sinal de crescimento e de amadurecimento.

E assim, em meio a lições, eles tornaram-se um símbolo na cidade. Não a perfeição de um romance clássico, mas a realidade de dois seres que decidiram unir suas vidas de uma maneira muito mais significativa — não apenas através da estética de mãos dadas, mas pela profundidade do comprometimento de verdadeiros companheiros.

As pessoas começaram a notar que o que realmente importava, além das mãos entrelaçadas, era a genuína capacidade de viver e construir um futuro com o outro — e que, afinal, isso era o que tornava a união não só real, mas bela.

         


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