UNIÃO DE MÃOS E VIDAS
José Feldman
TROVA
Os noivos fazem questão
de ter as mãos sempre
unidas.
- É fácil unir as
mãos...
difícil é unir as vidas!
APARÍCIO FERNANDES
Na
pequena cidade de Esperança, onde a rotina era tão previsível quanto o som do
sino da igreja marcando as horas, havia um casal que gerava sussurros e
sorrisos: Luana e Carlito. A história deles tinha todos os ingredientes para um
romance de conto de fadas. Se você passasse pela praça central, veria as mãos
entrelaçadas dos dois, como uma imagem de moldura em uma boníssima pintura —
serena, colorida e quase perfeita.
Era com
frequência que o casal se apresentava como amantes eternos, sempre falando da
“sagrada união” das mãos. O que todo mundo não percebia, porém, era que por
trás daquela imagem idílica, existia uma realidade muito mais complicada.
Certa
vez, durante um encontro na praça, Carlito começou a divagar sobre como seria o
futuro deles.
“Vamos
unir nossas vidas de uma maneira absolutamente mágica”, dizia, com uma certeza
quase poética.
Luana,
sorrindo, balançava a cabeça, como quem dança ao ritmo da música que só ela
escuta. As mãos permaneciam unidas, mas havia um leve tensionamento nos braços,
como se, de alguma forma, ele quisesse puxá-la para mais perto, enquanto ela
hesitava em dar passos adiante.
O tempo
passou, e o dia do casamento se aproximou. A cidade inteira estava ansiosa. As
flores foram escolhidas com cuidado, o vestido era um sonho de rendas, e a
decoração da igreja, digna de cartões postais. Mas no fundo, havia um eco de
perguntas sem respostas. Luana tinha suas dúvidas sobre a vida a dois, e
Carlito, mesmo cercado por otimismo, lutava contra inseguranças que não ousava
compartilhar.
Na noite
que precedeu o grande dia, enquanto todos estavam ocupados com os últimos
preparativos, ela decidiu caminhar sozinha até o lago da cidade. O reflexo das
estrelas na água a fez pensar. “É fácil unir as mãos...”, sussurrou para si
mesma. “Difícil é unir as vidas!”
Ali, sob
a luz da lua, suas preocupações tomaram forma e ecoaram como um mantra, abrindo
uma janela sobre o que realmente significava a vida em conjunto.
Quando
finalmente voltou para casa, encontrou Carlito sentado na varanda, seu olhar
distante. Ele havia tentado manter a compostura, mas suas mãos estavam
desfeitas, caídas entre eles, numa evidência silenciosa de que as promessas
eram mais fáceis de fazer do que de cumprir.
No dia do
casamento, o altar era um espetáculo. Amigos e familiares rodeavam o casal, e
as mãos se entrelaçaram novamente durante o juramento. Mas, no fundo, ela se
lembrou de seu momento sob as estrelas.
Quando
ele fez a pergunta: “Você se une a mim?” a resposta dela cobrou mais
significado do que esperavam. “Sim, mas precisamos fazer isso juntos.”
Uma humildade
se instalou ali.
Com os
votos feitos, a linha tênue entre união e individualidade começou a ganhar novo
sentido. A vida não era um conto de fadas, mas uma dança contínua — um passo à
frente, um passo ao lado, e às vezes um giro inesperado.
À medida
que o tempo passava, eles aprenderam que, embora fosse simples unir as mãos, a
verdadeira arte estava em equilibrar suas individualidades ao dançar juntos no
compasso da vida. Aprenderam a se comunicar, a escutar e a respeitar os anseios
um do outro. As mãos estavam unidas, mas agora havia um entendimento mútuo — um
sinal de crescimento e de amadurecimento.
E assim,
em meio a lições, eles tornaram-se um símbolo na cidade. Não a perfeição de um
romance clássico, mas a realidade de dois seres que decidiram unir suas vidas
de uma maneira muito mais significativa — não apenas através da estética de
mãos dadas, mas pela profundidade do comprometimento de verdadeiros
companheiros.
As
pessoas começaram a notar que o que realmente importava, além das mãos
entrelaçadas, era a genuína capacidade de viver e construir um futuro com o
outro — e que, afinal, isso era o que tornava a união não só real, mas bela.
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