domingo, 22 de fevereiro de 2026

O FALSO BARBEIRO - JOSÉ FELDMAN

 



O FALSO BARBEIRO

José Feldman


TROVA DE DOROTHI JANSSON MORETTI  (1926 - 2017)


- Ai, doutor, não acredito...

Picada por um "barbeiro"?

Veja só, pois o maldito

me disse que era engenheiro!



O salão “Corte & Charme” ficava na rua principal da cidade, bem entre a padaria que servia pão de queijo quentinho e a loja de consertos que sempre prometia “se voltar, o conserto é por nossa conta”. Dono do salão era o Seu Tonico, homem meticuloso que gostava de organizar suas tesouras por tamanho e contar clientes como se fossem gols: “Hoje entrou um, saiu outro — empate técnico!”

Numa terça-feira calorenta, Dona Gertrudes entrou arrastando uma bolsa que parecia ter sobrevivido a três gerações. O rosto carregava a expressão de quem já vira de tudo nessa vida — menos um corte de cabelo que valesse a pena. Ela sentou-se na cadeira com a calma de quem já sabe o roteiro da vida: troca de cumprimentos, revista velha, e a certeza de que aquilo seria só mais uma tentativa.

Um dos barbeiros do salão, o João “Meia-Volta”, era conhecido por dois talentos: falar alto e inventar currículos. Dizia ele, sem cerimônia, que já fora marinheiro, piloto e uma vez até “engenheiro civil por uma semana, num projeto que deu certo por acidente”. O dito “engenheiro” vestia um avental manchado de tinta, usava um relógio que não marcava as horas certas e tinha uma confiança que dava gosto — ou medo.

— Pode deixar comigo, dona Gê — falou João com aquele sotaque de quem já resolveu problemas estruturais imaginários. — Vou fazer um corte moderno, funcional e com sustentação estética!

Dona Gertrudes, que tinha ouvido rumores sobre as engenharias do rapaz, hesitou. Mas o calor pesava, o cabelo caía pelo rosto e a promessa de “funcional e com sustentação” parecia promissora. Numa fração de segundo aceitou. Sentou, colocou a capa e tentou sorrir.

Enquanto João afiava a navalha (ou fingia afiá-la), o salão foi se enchendo de conversas. Seu Tonico falava da fuga do tacho da cozinha; a vizinha Margarida reclamava do barro no quintal; um menino perguntava se micro-ondas podia assar bolo (resposta unânime: não recomendamos). Ao fundo, um rádio tocava samba antigo, criando a trilha sonora perfeita para o que viria a ser uma obra — de arte ou tragédia, ainda não se sabia.

João começou o procedimento com a segurança de um profissional que havia resolvido um problema de ponte no fim de semana. Primeiro veio o “levantamento topográfico” (ele pediu que Dona Gertrudes inclinasse a cabeça) e depois o “marcador de eixo” (um risco leve com lápis de olho que por sorte não era do tipo permanente). A cada movimento, João explicava termos técnicos que ouviu numa série de televisão e misturava com jargões de pedreiro:

— Aqui vamos reforçar o flanco lateral… cortar em camadas, para garantir a estabilidade do volume. Depois fazemos o alívio de tensão na nuca.

As clientes começaram a rir. Até o barbeiro da esquina parou para ver o espetáculo. Dona Gertrudes, começando a ficar desconfiada, mas João, sem perder a pose, disse com a autoridade de um homem que tinha visto muitos desenhos técnicos no fundo de uma caixinha de fósforos:

— Minha senhora, sou engenheiro de corte! Calculamos ângulo, tensão, resistência capilar…

Nesse instante, uma cigarra muito barulhenta começou a trilhar o seu solo, como se a própria natureza quisesse enfatizar a cena. O salão inteiro caiu numa gargalhada — menos Dona Gertrudes, que sentia arrepios a cada toque de tesoura.

Os cortes começaram a tomar formas curiosas: um nobre “gradiente de arranque” no topo, que lembrava um pequeno farol; um recorte lateral que mais parecia um mapa de ilhas; e uma franja estruturada em camadas que poderia, em teoria, abrigar um passaporte. João falava de cargas e rebarbas, do ponto de colapso do frizz e de como o uso de mousse poderia reduzir a sobrecarga capilar em 23%.

Quando a navalha entrou em cena, Seu Tonico deu um pulo — não de medo, mas de interesse pelo drama. A navalha de João tinha nome: “Euler”. Ele pronunciou o nome como se chamasse um amigo de matemática. Dona Gertrudes fechou os olhos e rezou para todas as santas. A navalha deslizou com a elegância de um cortador de fita em inauguração. Um fio de cabelo caiu e dançou no ar como se quisesse sair correndo para a liberdade.

Ao final, João fez a pose triunfal: suspendeu o espelho, virou a cliente para o espelho maior e anunciou: — Agora veja a engenharia aplicada! Projeto finalizado!

Dona Gertrudes abriu os olhos, olhou para o reflexo... e quase caiu da cadeira. O que ela viu era, ao mesmo tempo, uma obra de arte e um código de barras. O topo parecia ter sido esculpido por um escultor moderno; a lateral formava uma rampa que poderia ser utilizada por carrinhos de miniatura; e a nuca tinha um corte tão geométrico que era possível traçar ângulos retos com a régua da padaria.

Silêncio. Depois, uma explosão de risos — não de zombaria, mas de deleite com a situação inusitada. Dona Gertrudes, após uns segundos de confusão, não resistiu ao riso. Levantou as mãos, acariciou o corte e exclamou:

— Meu filho, você é um gênio! Quem diria que eu sairia daqui parecendo tão… arquitetônica!

Os demais clientes aplaudiram. João, todo orgulhoso, constipou-se como se tivesse recebido um diploma invisível. Seu Tonico, satisfeito com a repercussão, ofereceu um cafezinho para celebrar a “inovação capilar”.

A notícia do “corte de engenharia” voou pela cidade. A partir daquele dia, o salão tornou-se ponto turístico. Pessoas vinham não só por um corte, mas por uma experiência — queriam ouvir as explicações técnicas, assistir ao “levantamento topográfico” e sair com um penteado que virasse assunto na praça. João passou a cobrar uma taxa extra: “diagnóstico estrutural” incluído.

Dona Gertrudes, por sua vez, ganhou um apelido carinhoso — “A Catedral” — e usou o novo visual para ir à missa e à festa junina, onde causou sensação. Crianças apontavam, marmanjos cochichavam elogios (ou risadinhas), e alguns namorados pediam conselhos de estilo com medo de parecerem antiquados.

Com o tempo, o próprio João começou a aperfeiçoar seus métodos. Passou a desenhar esboços antes de cortar, pedia um “levantamento topográfico” mais detalhado (e um cafezinho para a cliente), e até comprou um capacete de plástico para “medir a resistência dos fios”. Seu currículo de engenheiro cresceu: engenharia civil, engenharia de corte, engenharia emocional — tudo com muito orgulho.

No fim das contas, a moral da história chegou numa roda de conversa, entre um corte e outro:

- Não é bom desconfiar sempre, mas também não custa perguntar qual é mesmo a sua formação — e se vem com certificado.

E Dona Gertrudes? Voltou algumas semanas depois, com o cabelo já crescido e um sorriso travesso:

— João, da próxima vez, diz só que é barbeiro. E deixa o “engenheiro” para os prédios, tá bom?

João sorriu e, com um ar de conselho profissional, prometeu:

— Prometo, dona Gê. Da próxima vez eu só aplico a engenharia que cabe no bolso do cliente.

E assim o “Corte & Charme” seguiu sua vida, com cortes mais arrojados, histórias mais altas e a certeza de que, às vezes, a melhor surpresa é descobrir que um barbeiro que se diz engenheiro tem sim o dom de transformar um dia comum numa comédia estrutural.  





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