O FALSO BARBEIRO
José Feldman
TROVA DE DOROTHI JANSSON MORETTI (1926 - 2017)
- Ai, doutor, não acredito...
Picada por um "barbeiro"?
Veja só, pois o maldito
me disse que era engenheiro!
O salão “Corte & Charme” ficava na rua principal da
cidade, bem entre a padaria que servia pão de queijo quentinho e a loja de
consertos que sempre prometia “se voltar, o conserto é por nossa conta”. Dono
do salão era o Seu Tonico, homem meticuloso que gostava de organizar suas
tesouras por tamanho e contar clientes como se fossem gols: “Hoje entrou um,
saiu outro — empate técnico!”
Numa terça-feira calorenta, Dona Gertrudes entrou
arrastando uma bolsa que parecia ter sobrevivido a três gerações. O rosto
carregava a expressão de quem já vira de tudo nessa vida — menos um corte de
cabelo que valesse a pena. Ela sentou-se na cadeira com a calma de quem já sabe
o roteiro da vida: troca de cumprimentos, revista velha, e a certeza de que
aquilo seria só mais uma tentativa.
Um dos barbeiros do salão, o João “Meia-Volta”, era
conhecido por dois talentos: falar alto e inventar currículos. Dizia ele, sem
cerimônia, que já fora marinheiro, piloto e uma vez até “engenheiro civil por
uma semana, num projeto que deu certo por acidente”. O dito “engenheiro” vestia
um avental manchado de tinta, usava um relógio que não marcava as horas certas
e tinha uma confiança que dava gosto — ou medo.
— Pode deixar comigo, dona Gê — falou João com aquele
sotaque de quem já resolveu problemas estruturais imaginários. — Vou fazer um
corte moderno, funcional e com sustentação estética!
Dona Gertrudes, que tinha ouvido rumores sobre as
engenharias do rapaz, hesitou. Mas o calor pesava, o cabelo caía pelo rosto e a
promessa de “funcional e com sustentação” parecia promissora. Numa fração de
segundo aceitou. Sentou, colocou a capa e tentou sorrir.
Enquanto João afiava a navalha (ou fingia afiá-la), o salão
foi se enchendo de conversas. Seu Tonico falava da fuga do tacho da cozinha; a
vizinha Margarida reclamava do barro no quintal; um menino perguntava se
micro-ondas podia assar bolo (resposta unânime: não recomendamos). Ao fundo, um
rádio tocava samba antigo, criando a trilha sonora perfeita para o que viria a
ser uma obra — de arte ou tragédia, ainda não se sabia.
João começou o procedimento com a segurança de um
profissional que havia resolvido um problema de ponte no fim de semana.
Primeiro veio o “levantamento topográfico” (ele pediu que Dona Gertrudes
inclinasse a cabeça) e depois o “marcador de eixo” (um risco leve com lápis de
olho que por sorte não era do tipo permanente). A cada movimento, João
explicava termos técnicos que ouviu numa série de televisão e misturava com
jargões de pedreiro:
— Aqui vamos reforçar o flanco lateral… cortar em camadas,
para garantir a estabilidade do volume. Depois fazemos o alívio de tensão na
nuca.
As clientes começaram a rir. Até o barbeiro da esquina
parou para ver o espetáculo. Dona Gertrudes, começando a ficar desconfiada, mas
João, sem perder a pose, disse com a autoridade de um homem que tinha visto
muitos desenhos técnicos no fundo de uma caixinha de fósforos:
— Minha senhora, sou engenheiro de corte! Calculamos
ângulo, tensão, resistência capilar…
Nesse instante, uma cigarra muito barulhenta começou a
trilhar o seu solo, como se a própria natureza quisesse enfatizar a cena. O
salão inteiro caiu numa gargalhada — menos Dona Gertrudes, que sentia arrepios
a cada toque de tesoura.
Os cortes começaram a tomar formas curiosas: um nobre
“gradiente de arranque” no topo, que lembrava um pequeno farol; um recorte
lateral que mais parecia um mapa de ilhas; e uma franja estruturada em camadas
que poderia, em teoria, abrigar um passaporte. João falava de cargas e
rebarbas, do ponto de colapso do frizz e de como o uso de mousse poderia
reduzir a sobrecarga capilar em 23%.
Quando a navalha entrou em cena, Seu Tonico deu um pulo —
não de medo, mas de interesse pelo drama. A navalha de João tinha nome:
“Euler”. Ele pronunciou o nome como se chamasse um amigo de matemática. Dona
Gertrudes fechou os olhos e rezou para todas as santas. A navalha deslizou com
a elegância de um cortador de fita em inauguração. Um fio de cabelo caiu e
dançou no ar como se quisesse sair correndo para a liberdade.
Ao final, João fez a pose triunfal:
suspendeu o espelho, virou a cliente para o espelho maior e anunciou: — Agora
veja a engenharia aplicada! Projeto finalizado!
Dona Gertrudes abriu os olhos, olhou para o reflexo... e
quase caiu da cadeira. O que ela viu era, ao mesmo tempo, uma obra de arte e um
código de barras. O topo parecia ter sido esculpido por um escultor moderno; a
lateral formava uma rampa que poderia ser utilizada por carrinhos de miniatura;
e a nuca tinha um corte tão geométrico que era possível traçar ângulos retos
com a régua da padaria.
Silêncio. Depois, uma explosão de risos — não de zombaria,
mas de deleite com a situação inusitada. Dona Gertrudes, após uns segundos de
confusão, não resistiu ao riso. Levantou as mãos, acariciou o corte e exclamou:
— Meu filho, você é um gênio! Quem diria que eu sairia
daqui parecendo tão… arquitetônica!
Os demais clientes aplaudiram. João, todo orgulhoso,
constipou-se como se tivesse recebido um diploma invisível. Seu Tonico,
satisfeito com a repercussão, ofereceu um cafezinho para celebrar a “inovação
capilar”.
A notícia do “corte de engenharia” voou pela cidade. A
partir daquele dia, o salão tornou-se ponto turístico. Pessoas vinham não só
por um corte, mas por uma experiência — queriam ouvir as explicações técnicas,
assistir ao “levantamento topográfico” e sair com um penteado que virasse
assunto na praça. João passou a cobrar uma taxa extra: “diagnóstico estrutural”
incluído.
Dona Gertrudes, por sua vez, ganhou um apelido carinhoso —
“A Catedral” — e usou o novo visual para ir à missa e à festa junina, onde
causou sensação. Crianças apontavam, marmanjos cochichavam elogios (ou
risadinhas), e alguns namorados pediam conselhos de estilo com medo de
parecerem antiquados.
Com o tempo, o próprio João começou a aperfeiçoar seus
métodos. Passou a desenhar esboços antes de cortar, pedia um “levantamento
topográfico” mais detalhado (e um cafezinho para a cliente), e até comprou um
capacete de plástico para “medir a resistência dos fios”. Seu currículo de
engenheiro cresceu: engenharia civil, engenharia de corte, engenharia emocional
— tudo com muito orgulho.
No fim das contas, a moral da história chegou numa roda de
conversa, entre um corte e outro:
- Não é bom desconfiar sempre, mas também não custa
perguntar qual é mesmo a sua formação — e se vem com certificado.
E Dona Gertrudes? Voltou algumas semanas depois, com o
cabelo já crescido e um sorriso travesso:
— João, da próxima vez, diz só que é barbeiro. E deixa o
“engenheiro” para os prédios, tá bom?
João sorriu e, com um ar de conselho profissional,
prometeu:
— Prometo, dona Gê. Da próxima vez eu só aplico a
engenharia que cabe no bolso do cliente.
E assim o “Corte & Charme” seguiu sua vida, com cortes mais arrojados, histórias mais altas e a certeza de que, às vezes, a melhor surpresa é descobrir que um barbeiro que se diz engenheiro tem sim o dom de transformar um dia comum numa comédia estrutural.

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