sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O ESPOSO ATRASADO - JOSÉ FELDMAN

 




O ESPOSO ATRASADO

José Feldman

 

 

TROVA DE BELMIRO BRAGA

(Vargem Grande/MG, 1872 – 1937, Juiz de Fora/MG)

Casa em março Ester Macedo

e em julho é mãe... Ora, o alarde!

O filho não veio cedo,

o esposo é que veio tarde...

 

 

A pequena cidade de Caranaguá nunca foi fã de matemática, exceto quando o assunto era o calendário gestacional das vizinhas. Naquele ano, o assunto das calçadas era um só: o casamento relâmpago de Ester Macedo com o pacato bancário Getúlio.

Diz uma trova, com a sabedoria ácida das fofoqueiras de plantão: "Casa em março Ester Macedo / e em julho é mãe... Ora, o alarde! / O filho não veio cedo / o esposo é que veio tarde..."

O enlace ocorreu num sábado ensolarado de março. 

Ester estava radiante em um vestido de cetim que, segundo a costureira Dona Zuleide, "tinha umas pregas estratégicas para acomodar a felicidade da noiva". Getúlio, coitado, suava tanto no altar, como vaca no cio, com o ar de quem tinha acabado de ganhar na loteria, mas perdido o bilhete logo em seguida.

— Que pressa é essa, Ester? — perguntavam as tias, enquanto devoravam os bem-casados.

— É o amor, titia! O amor não pode esperar o inverno! — respondia ela, com um sorriso enigmático.

Os meses passaram como um trem-bala. Abril trouxe as chuvas; maio, as flores; junho, as festas juninas. E em julho, antes mesmo de as bandeirinhas de São João serem recolhidas, o grito ecoou na maternidade local. Nasceu o pequeno e robusto "Getulinho", com 3,8 kg e pulmões de tenor.

— Março, abril, maio, junho, julho... Cinco meses! — digitou Dona fofoqueira-mor, com a precisão de uma calculadora suíça. — Esse menino não é prematuro nem aqui, nem na China. Olha as bochechas dele! Parece que já nasceu querendo um prato de feijoada!

A cidade entrou em polvorosa. No mercado, na farmácia e até na fila do banco, o julgamento era unânime: Ester tinha "atropelado" as leis da biologia. 

Foi então que o Padre Justino, cansado de ouvir confissões que eram, na verdade, fofocas sobre a barriga alheia, resolveu intervir durante a missa de domingo.

— Meus filhos — começou o padre, olhando fixamente para as beatas da primeira fila — parem de dizer que o bebê veio cedo demais. O bebê veio no tempo de Deus.

Ester, que estava no banco de trás com o filho no colo e Getúlio ao lado, levantou-se com uma dignidade de rainha. Ela não estava nem um pouco abalada. Virou-se para a congregação e, com uma voz que silenciou até o ventilador de teto da paróquia, soltou a pérola final:

— Parem de olhar para o berço e olhem para o altar! O meu filho não se adiantou nem um minuto. Ele é um bebê de nove meses rigorosamente contados. O problema é que o Getúlio é que foi um noivo atrasado! Se ele tivesse criado coragem de pedir minha mão no ano passado, o batizado seria junto com o casamento!

A revelação caiu como uma bomba. O "escândalo" não era uma gravidez precoce, mas sim a lentidão crônica de Getúlio em assumir o compromisso. Ele, o esposo, é que "veio tarde" para o cartório, enquanto a vida, apressada, já tinha resolvido florescer por conta própria.

A partir daquele dia, mudou de tom. Não era mais sobre pecado, era sobre a pontualidade masculina. Getúlio virou o santo padroeiro dos namorados enrolados, e Ester, a padroeira das mulheres que não perdem tempo com calendários burocráticos.

 


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