O ESPOSO ATRASADO
José Feldman
TROVA DE BELMIRO BRAGA
(Vargem Grande/MG, 1872 – 1937, Juiz de Fora/MG)
Casa em março Ester Macedo
e em julho é mãe... Ora, o alarde!
O filho não veio cedo,
o esposo é que veio tarde...
A pequena cidade de Caranaguá nunca foi fã de matemática, exceto
quando o assunto era o calendário gestacional das vizinhas. Naquele ano, o
assunto das calçadas era um só: o casamento relâmpago de Ester Macedo com o
pacato bancário Getúlio.
Diz uma trova, com a sabedoria ácida das fofoqueiras de plantão:
"Casa em março Ester Macedo / e em julho é mãe... Ora, o alarde! / O filho
não veio cedo / o esposo é que veio tarde..."
O enlace ocorreu num sábado ensolarado de março.
Ester estava radiante em um vestido de cetim que, segundo a
costureira Dona Zuleide, "tinha umas pregas estratégicas para acomodar a
felicidade da noiva". Getúlio, coitado, suava tanto no altar, como vaca no
cio, com o ar de quem tinha acabado de ganhar na loteria, mas perdido o bilhete
logo em seguida.
— Que pressa é essa, Ester? — perguntavam as tias, enquanto
devoravam os bem-casados.
— É o amor, titia! O amor não pode esperar o inverno! —
respondia ela, com um sorriso enigmático.
Os meses passaram como um trem-bala. Abril trouxe as chuvas;
maio, as flores; junho, as festas juninas. E em julho, antes mesmo de as
bandeirinhas de São João serem recolhidas, o grito ecoou na maternidade local.
Nasceu o pequeno e robusto "Getulinho", com 3,8 kg e pulmões de
tenor.
— Março, abril, maio, junho, julho... Cinco meses! — digitou
Dona fofoqueira-mor, com a precisão de uma calculadora suíça. — Esse menino não
é prematuro nem aqui, nem na China. Olha as bochechas dele! Parece que já
nasceu querendo um prato de feijoada!
A cidade entrou em polvorosa. No mercado, na farmácia e até na
fila do banco, o julgamento era unânime: Ester tinha "atropelado" as
leis da biologia.
Foi então que o Padre Justino, cansado de ouvir confissões que
eram, na verdade, fofocas sobre a barriga alheia, resolveu intervir durante a
missa de domingo.
— Meus filhos — começou o padre, olhando fixamente para as
beatas da primeira fila — parem de dizer que o bebê veio cedo demais. O bebê
veio no tempo de Deus.
Ester, que estava no banco de trás com o filho no colo e Getúlio
ao lado, levantou-se com uma dignidade de rainha. Ela não estava nem um pouco
abalada. Virou-se para a congregação e, com uma voz que silenciou até o
ventilador de teto da paróquia, soltou a pérola final:
— Parem de olhar para o berço e olhem para o altar! O meu filho
não se adiantou nem um minuto. Ele é um bebê de nove meses rigorosamente
contados. O problema é que o Getúlio é que foi um noivo atrasado! Se ele
tivesse criado coragem de pedir minha mão no ano passado, o batizado seria
junto com o casamento!
A revelação caiu como uma bomba. O "escândalo" não era
uma gravidez precoce, mas sim a lentidão crônica de Getúlio em assumir o
compromisso. Ele, o esposo, é que "veio tarde" para o cartório,
enquanto a vida, apressada, já tinha resolvido florescer por conta própria.
A partir daquele dia, mudou de tom. Não era mais sobre pecado,
era sobre a pontualidade masculina. Getúlio virou o santo padroeiro dos
namorados enrolados, e Ester, a padroeira das mulheres que não perdem tempo com
calendários burocráticos.

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