quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

SALA VAZIA - JOSÉ FELDMAN


 




            Sua voz pausada e fria:

         - Feche a porta, por favor,

            Conduz-me à sala vazia... 

            Vazia do seu amor!

               LUZIA BRISOLLA FUIM


SALA VAZIA

José Feldman



 

O relógio de parede na antessala batia as seis badaladas de uma tarde de outono. O som do pêndulo parecia cortar o silêncio como uma guilhotina cega. Lúcia estava ali, parada diante da porta de carvalho, a mão hesitando sobre a maçaneta fria. Do outro lado, estava o homem com quem dividira dez anos de sonhos, mas de quem não recebia uma palavra calorosa há meses.

Quando finalmente entrou, encontrou Artur sentado junto à janela. Ele não se virou. O perfil dele, recortado contra a luz alaranjada do crepúsculo, era de uma beleza estatuária e gélida. O ar condicionado do apartamento parecia ter sido ajustado para uma temperatura ártica, ou talvez fosse apenas a presença dele que resfriasse o ambiente.

Sem desviar os olhos do horizonte de prédios, ele falou. A sonoridade de suas palavras foi o primeiro golpe. Era a materialização exata da trova que ela lera um dia: "Sua voz pausada e fria". Não havia raiva, não havia gritos, nem o tremor da hesitação. Era a voz de quem já havia tomado uma decisão há muito tempo e apenas aguardava o momento de comunicá-la.

“Feche a porta, por favor” — disse ele, as sílabas saindo como pedras de gelo batendo em um copo de cristal.

Lúcia obedeceu. O clique da fechadura soou definitivo, como o fechamento de um ciclo. Ela deu dois passos para dentro, sentindo que o tapete sob seus pés era agora um terreno estrangeiro. Artur finalmente se levantou e, com um gesto contido, apontou para o ambiente onde costumavam receber amigos, brindar vitórias e planejar o futuro.

Ele a "conduz à sala vazia".

À medida que avançavam para o centro do cômodo, Lúcia sentiu um calafrio. Fisicamente, a sala estava decorada com o luxo sóbrio que o sucesso deles permitira: quadros de artistas modernos, móveis de design assinado, prateleiras repletas de livros encadernados. Mas, para ela, o espaço parecia um deserto de ecos. Não havia o calor do cotidiano, não havia o som do riso dele que antes inundava os cantos, não havia o cheiro do perfume que ela costumava associar ao porto seguro.

Eles pararam no centro do tapete persa, a distância de um braço, mas separados por um abismo que nenhuma ponte poderia cruzar. Artur a olhou nos olhos, e ela viu ali o vazio que a trova profetizara.

Não era uma sala vazia de móveis ou de gente; era algo muito mais devastador.

Era uma sala "vazia do seu amor".

— Onde foi que ele se escondeu? — Lúcia perguntou, a voz falhando, tentando buscar um rastro de afeto naquela imensidão de mármore e silêncio.

Artur deu um sorriso triste, um movimento de lábios que não chegava aos olhos.

— O amor não se esconde, Lúcia. Ele se gasta. Como uma lâmpada que fica acesa tempo demais até que o filamento se rompe.

Ela olhou ao redor, e cada objeto parecia uma lápide. A poltrona onde liam juntos agora era apenas madeira e tecido. A mesa de centro, onde serviam o chá, era apenas uma superfície fria. O amor, que antes preenchia os vãos entre os móveis e as pessoas, havia evaporado, deixando para trás apenas a estrutura oca de uma convivência.

Naquela sala, o tempo parecia ter parado. O mundo lá fora corria com sua tecnologia e pressa, mas dentro daquelas quatro paredes, Lúcia compreendeu a tragédia da frieza. A voz dele continuou a explicar os detalhes da separação — o que ficaria com quem, os prazos, as burocracias — de forma pausada e metódica.

Cada palavra era um prego no caixão da esperança. Ela percebeu que a sala não estava vazia porque ele ia embora; ela estava vazia porque o que dava alma ao lugar tinha morrido antes mesmo de as malas serem feitas.

Quando Artur terminou de falar e saiu para o quarto, deixando-a sozinha, Lúcia permaneceu no centro da sala. O silêncio era absoluto. Ela agora entendia que a pior solidão não é estar sozinha em um lugar deserto, mas estar acompanhada em uma sala luxuosa onde o amor, outrora imenso, resolveu se retirar sem deixar endereço.

Ela caminhou até a porta que ele pedira para fechar, abriu-a e saiu. Atrás de si, deixou a sala vazia, a voz fria e a certeza de que alguns rincões do coração, uma vez desertos, jamais voltam a florescer.

           


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