Sua voz pausada e fria:
- Feche a porta, por favor,
Conduz-me à sala vazia...
Vazia do seu amor!
LUZIA BRISOLLA FUIM
SALA VAZIA
José Feldman
O relógio de parede na antessala batia as seis badaladas de
uma tarde de outono. O som do pêndulo parecia cortar o silêncio como uma
guilhotina cega. Lúcia estava ali, parada diante da porta de carvalho, a mão
hesitando sobre a maçaneta fria. Do outro lado, estava o homem com quem
dividira dez anos de sonhos, mas de quem não recebia uma palavra calorosa há
meses.
Quando finalmente entrou, encontrou Artur sentado junto à
janela. Ele não se virou. O perfil dele, recortado contra a luz alaranjada do
crepúsculo, era de uma beleza estatuária e gélida. O ar condicionado do
apartamento parecia ter sido ajustado para uma temperatura ártica, ou talvez
fosse apenas a presença dele que resfriasse o ambiente.
Sem desviar os olhos do horizonte de prédios, ele falou. A
sonoridade de suas palavras foi o primeiro golpe. Era a materialização exata da
trova que ela lera um dia: "Sua voz
pausada e fria". Não havia raiva, não havia gritos, nem o tremor da
hesitação. Era a voz de quem já havia tomado uma decisão há muito tempo e
apenas aguardava o momento de comunicá-la.
— “Feche a porta, por
favor” — disse ele, as sílabas saindo como pedras de gelo batendo em um
copo de cristal.
Lúcia obedeceu. O clique da fechadura soou definitivo, como
o fechamento de um ciclo. Ela deu dois passos para dentro, sentindo que o
tapete sob seus pés era agora um terreno estrangeiro. Artur finalmente se
levantou e, com um gesto contido, apontou para o ambiente onde costumavam
receber amigos, brindar vitórias e planejar o futuro.
Ele
a "conduz à sala vazia".
À medida que avançavam para o centro do cômodo, Lúcia
sentiu um calafrio. Fisicamente, a sala estava decorada com o luxo sóbrio que o
sucesso deles permitira: quadros de artistas modernos, móveis de design
assinado, prateleiras repletas de livros encadernados. Mas, para ela, o espaço
parecia um deserto de ecos. Não havia o calor do cotidiano, não havia o som do
riso dele que antes inundava os cantos, não havia o cheiro do perfume que ela
costumava associar ao porto seguro.
Eles pararam no centro do tapete persa, a distância de um
braço, mas separados por um abismo que nenhuma ponte poderia cruzar. Artur a
olhou nos olhos, e ela viu ali o vazio que a trova profetizara.
Não era uma sala vazia de móveis ou de gente; era algo
muito mais devastador.
Era
uma sala "vazia do seu amor".
— Onde foi que ele se escondeu? — Lúcia perguntou, a voz
falhando, tentando buscar um rastro de afeto naquela imensidão de mármore e
silêncio.
Artur deu um sorriso triste, um movimento de lábios que não
chegava aos olhos.
— O amor não se esconde, Lúcia. Ele se gasta. Como uma
lâmpada que fica acesa tempo demais até que o filamento se rompe.
Ela olhou ao redor, e cada objeto parecia uma lápide. A
poltrona onde liam juntos agora era apenas madeira e tecido. A mesa de centro,
onde serviam o chá, era apenas uma superfície fria. O amor, que antes preenchia
os vãos entre os móveis e as pessoas, havia evaporado, deixando para trás
apenas a estrutura oca de uma convivência.
Naquela sala, o tempo parecia ter parado. O mundo lá fora
corria com sua tecnologia e pressa, mas dentro daquelas quatro paredes, Lúcia
compreendeu a tragédia da frieza. A voz dele continuou a explicar os detalhes
da separação — o que ficaria com quem, os prazos, as burocracias — de forma
pausada e metódica.
Cada palavra era um prego no caixão da esperança. Ela
percebeu que a sala não estava vazia porque ele ia embora; ela estava vazia
porque o que dava alma ao lugar tinha morrido antes mesmo de as malas serem
feitas.
Quando Artur terminou de falar e saiu para o quarto,
deixando-a sozinha, Lúcia permaneceu no centro da sala. O silêncio era
absoluto. Ela agora entendia que a pior solidão não é estar sozinha em um lugar
deserto, mas estar acompanhada em uma sala luxuosa onde o amor, outrora imenso,
resolveu se retirar sem deixar endereço.
Ela caminhou até a porta que ele pedira para fechar,
abriu-a e saiu. Atrás de si, deixou a sala vazia, a voz fria e a certeza de que
alguns rincões do coração, uma vez desertos, jamais voltam a florescer.
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