terça-feira, 20 de janeiro de 2026

E-BOOK - CALEIDOSCÓPIO DA VIDA - JOSÉ FELDMAN

 



 

O migrante em sua andança

parte do amado rincão.

Leva consigo a esperança

mas deixa o seu coração.

     Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho

 

A poeira levantada pelas rodas do ônibus de linha parecia não querer baixar, como se o próprio chão do sertão tentasse segurar, pelos tornozelos, aquele que decidira partir. No calendário pendurado na parede de barro da memória, o ano era 2026, mas o sentimento era secular. Lupércio olhava pela janela embaçada, vendo o contorno das cercas de arame farpado se tornarem borrões cinzentos, e sentia o peso exato de cada verso de uma trova que costumava cantarolar ao pé do fogo.

"O migrante em sua andança / parte do amado rincão."

O rincão de Lupércio não era apenas uma coordenada geográfica; era o cheiro da terra molhada após a primeira chuva de caju, o som das cigarras que anunciavam o meio-dia e o gosto do leite tirado na hora. Partir não era um desejo, era uma sentença. A seca, a falta de oportunidade ou o sonho de uma vida onde o esforço fosse pago com algo mais que apenas o cansaço, empurravam-no para fora. Ele deixava para trás o umbigo enterrado sob a sombra do juazeiro e a segurança de ser conhecido pelo nome, para se tornar apenas mais um vulto na multidão das metrópoles.

Naquela pequena sacola de nylon que apertava contra o peito, não havia muitos pertences. Algumas peças de roupa puídas, um terço de contas gastas e o retrato amarelado da família. Contudo, o volume maior não ocupava espaço físico. "Leva consigo a esperança".

A esperança do migrante é uma substância curiosa: é leve o suficiente para não cansar os ombros, mas forte o bastante para suportar o peso de um mundo novo e hostil. Lupércio levava a esperança de mandar dinheiro para o remédio da mãe, a esperança de reformar o telhado que ameaçava cair e a promessa de que, no próximo Natal, voltaria "estribado", como diziam os antigos. Era essa luz teimosa, essa chama que teima em não apagar sob o vento da incerteza, que o fazia encarar as tantas horas intermináveis de estrada com um brilho resiliente nos olhos.

Entretanto, conforme o ônibus avançava e a paisagem familiar era substituída por viadutos e prédios de vidro, um vazio se instalava no peito. É que a física do destino é cruel: ninguém parte por inteiro. Na trova, em sua sabedoria, já avisava: "mas deixa o seu coração".

O coração de Lupércio não embarcou na rodoviária. Ele ficou lá, sentado no banco de madeira da varanda, esperando o café que nunca seria servido por suas mãos naquela tarde. Ficou preso no olhar marejado da namorada que acenou até o ônibus sumir na curva da estrada. 

O coração do migrante é um órgão que se recusa a viajar; ele prefere a segurança do conhecido, o calor do afeto e a paz do território onde as raízes estão fincadas.

Assim, o migrante vive essa dualidade eterna. Em 2026, com toda a tecnologia das videochamadas, ele via o rosto dos seus através de uma tela de celular em uma pensão barata no centro da cidade grande. A imagem era nítida, o som era claro, mas o toque era inexistente. Ele percebeu, então, que a crônica de sua vida era escrita entre o "lá" e o "cá".

Ele caminha pelas calçadas de concreto, movido pela esperança que trouxe na mala, mas caminha como um sonâmbulo, pois a bússola que orienta seus sentimentos — o seu coração — continua batendo devagar, no ritmo do balanço de uma rede, lá no amado rincão que ele teve de deixar para trás. Ser migrante é isso: é ter os pés no futuro, mas a alma eternamente estacionada no passado, aguardando o dia do reencontro onde, finalmente, o corpo e o coração poderão voltar a habitar o mesmo lugar.

      

José Feldman


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