O migrante em sua
andança
parte do amado rincão.
Leva consigo a
esperança
mas deixa o seu
coração.
Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho
A poeira levantada
pelas rodas do ônibus de linha parecia não querer baixar, como se o próprio
chão do sertão tentasse segurar, pelos tornozelos, aquele que decidira partir.
No calendário pendurado na parede de barro da memória, o ano era 2026, mas o
sentimento era secular. Lupércio olhava pela janela embaçada, vendo o contorno
das cercas de arame farpado se tornarem borrões cinzentos, e sentia o peso
exato de cada verso de uma trova que costumava cantarolar ao pé do fogo.
"O migrante em
sua andança / parte do amado rincão."
O rincão de Lupércio
não era apenas uma coordenada geográfica; era o cheiro da terra molhada após a
primeira chuva de caju, o som das cigarras que anunciavam o meio-dia e o gosto
do leite tirado na hora. Partir não era um desejo, era uma sentença. A seca, a
falta de oportunidade ou o sonho de uma vida onde o esforço fosse pago com algo
mais que apenas o cansaço, empurravam-no para fora. Ele deixava para trás o
umbigo enterrado sob a sombra do juazeiro e a segurança de ser conhecido pelo
nome, para se tornar apenas mais um vulto na multidão das metrópoles.
Naquela pequena sacola
de nylon que apertava contra o peito, não havia muitos pertences. Algumas peças
de roupa puídas, um terço de contas gastas e o retrato amarelado da família.
Contudo, o volume maior não ocupava espaço físico. "Leva consigo a esperança".
A esperança do
migrante é uma substância curiosa: é leve o suficiente para não cansar os
ombros, mas forte o bastante para suportar o peso de um mundo novo e hostil.
Lupércio levava a esperança de mandar dinheiro para o remédio da mãe, a
esperança de reformar o telhado que ameaçava cair e a promessa de que, no
próximo Natal, voltaria "estribado", como diziam os antigos. Era essa
luz teimosa, essa chama que teima em não apagar sob o vento da incerteza, que o
fazia encarar as tantas horas intermináveis de estrada com um brilho resiliente
nos olhos.
Entretanto, conforme o
ônibus avançava e a paisagem familiar era substituída por viadutos e prédios de
vidro, um vazio se instalava no peito. É que a física do destino é cruel:
ninguém parte por inteiro. Na trova, em sua sabedoria, já avisava: "mas deixa
o seu coração".
O coração de Lupércio
não embarcou na rodoviária. Ele ficou lá, sentado no banco de madeira da
varanda, esperando o café que nunca seria servido por suas mãos naquela tarde.
Ficou preso no olhar marejado da namorada que acenou até o ônibus sumir na
curva da estrada.
O coração do migrante
é um órgão que se recusa a viajar; ele prefere a segurança do conhecido, o
calor do afeto e a paz do território onde as raízes estão fincadas.
Assim, o migrante vive
essa dualidade eterna. Em 2026, com toda a tecnologia das videochamadas, ele
via o rosto dos seus através de uma tela de celular em uma pensão barata no
centro da cidade grande. A imagem era nítida, o som era claro, mas o toque era
inexistente. Ele percebeu, então, que a crônica de sua vida era escrita entre o
"lá" e o "cá".
Ele caminha pelas
calçadas de concreto, movido pela esperança que trouxe na mala, mas caminha
como um sonâmbulo, pois a bússola que orienta seus sentimentos — o seu coração
— continua batendo devagar, no ritmo do balanço de uma rede, lá no amado rincão
que ele teve de deixar para trás. Ser migrante é isso: é ter os pés no futuro,
mas a alma eternamente estacionada no passado, aguardando o dia do reencontro
onde, finalmente, o corpo e o coração poderão voltar a habitar o mesmo lugar.
José Feldman
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