CORAÇÃO DE PALHAÇO
José Feldman
TROVA
Palhaços de profissão?
Ah, como é bom, fazem bem.
O triste é ter coração
e ser palhaço de alguém!
Cláudio de Cápua (São Paulo/SP, 1945 – 2021, Santos/SP)
O picadeiro do Circo era um universo de serragem, luzes ofuscantes
e o cheiro onipresente de pipoca caramelizada. Para o público, Geraldo era
"Gingibre", o palhaço que tropeçava nos próprios pés e arrancava
gargalhadas até dos mais céticos. Mas, sob a maquiagem branca e o nariz de
borracha, Gingibre carregava o peso de uma máscara que nunca podia ser
removida. Como dizia a trova que ele ouvira certa vez de um velho poeta de
estrada: “Palhaços de profissão? Ah, como é bom, fazem bem.” E era verdade.
Geraldo sentia um orgulho genuíno ao ver o brilho nos olhos das crianças. Havia
uma dignidade quase sagrada em ser o receptáculo do riso alheio, em transformar
a própria queda em alívio para os outros. Ser palhaço de profissão era sua
cura; o problema era a vida que pulsava fora do picadeiro. O drama de Geraldo
atendia pelo nome de Lucinda. Lucinda era a trapezista estrela, a mulher que
parecia flutuar acima das misérias do mundo. Geraldo a amava com a devoção
silenciosa dos mártires. No entanto, para ela, ele não era o artista, o colega
ou o homem. Ele era o seu entretenimento particular. — Gingibre, venha aqui! —
chamava ela, sempre que o dono do circo a repreendia ou quando o jovem domador
de leões não lhe dava atenção. — Conte-me aquela história engraçada do padre e
o papagaio. Preciso me distrair. E Geraldo contava. Ele fazia malabarismos com
laranjas, fingia sustos e permitia que ela o diminuísse com piadas ácidas
diante de todo o elenco. Ele aceitava ser o bobo da corte dela, o ombro onde
ela chorava por outros homens, o alvo de seus caprichos mais fúteis. A cada
risada de Lucinda, uma parte de Geraldo morria. Ele percebia que a trova
terminava com uma nota de amargura que ele sentia na carne todos os dias: “O
triste é ter coração e ser palhaço de alguém.” Naquela sexta-feira de inverno,
o circo estava lotado. Geraldo preparava-se para entrar em cena quando viu
Lucinda nos bastidores, discutindo com o domador. Ela chorava, uma lágrima
borrando o rímel azul. Ao ver Geraldo, ela estalou os dedos, num gesto mecânico
de quem chama um cão doméstico. — Geraldo, rápido! Faça aquela careta que eu
gosto. Ele me deixou furiosa, preciso rir ou vou cair daquele trapézio! Geraldo
parou diante do espelho. Ele olhou para a própria imagem: a boca pintada num
sorriso eterno, as sobrancelhas arqueadas em surpresa perpétua. O coração,
porém, batia com uma lentidão dolorosa, como um tambor de funeral. Ele percebeu
que a profissão de palhaço era uma honra, mas a servidão emocional era uma
masmorra. — Hoje não, Lucinda — ele disse, com a voz rouca, sem olhar para
trás. — Como? — ela bufou, incrédula. — Você é o meu palhaço, Geraldo. Sempre
foi. Ele finalmente se virou. O contraste era brutal: a maquiagem festiva de
Gingibre contra o olhar desolado de Geraldo. — No picadeiro, eu sou o palhaço
de todos, e isso me faz bem — ele afirmou, sentindo as mãos tremerem. — Mas
aqui fora, eu tentei ser o palhaço do seu coração. E é aí que mora a tristeza.
Eu tenho um coração, Lucinda. E ele cansou de ser o seu brinquedo. Geraldo
entrou no picadeiro sob um aplauso ensurdecedor. Ele fez o melhor espetáculo de
sua vida. As pessoas choravam de rir enquanto ele caía, girava e saltava.
Ninguém notou que, a cada "tombo" coreografado, ele estava, na
verdade, se levantando. Ao final do show, ele não voltou para o camarim.
Caminhou até o rio que passava nos fundos do terreno do circo e lavou o rosto.
A água fria levou o branco, o vermelho e o preto. Deixou apenas a face de um
homem que, pela primeira vez em anos, não sentia o peso de uma corda invisível
no pescoço. Geraldo era, finalmente, apenas um palhaço de profissão. E, como
dizia a trova, isso era muito bom. O triste — o insuportável — tinha ficado
para trás, na poeira de um coração que se recusava a ser o entretenimento de
quem não sabia amar.

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